A fase 1972 de Arthur Lee de volta

O New Musical Express resolveu fazer uma reportagem bem interessante sobre um dos nomes mais cultuados da história do rock – ninguém menos que o líder do grupo psicodélico Love, Arthur Lee (1945-2006). Tudo porque acaba de sair Circles, disco póstumo do rapper Mac Miller, morto de overdose em 2018. E uma das faixas do disco, Everybody, é uma versão bem interessante de uma música solo de Lee, Everybody’s gotta live, gravada por Arthur num disco solo de 1972, Vindicator.

Olha as duas faixas aí.

Possivelmente muitos fãs de rock que estão entre os 35 e 50 anos conheceram Lee por causa do terceiro disco do Love, Forever changes (1967), tido como clássico por uma lista enorme de artistas – há ecos do som desse disco em LPs de Ramones, Flaming Lips, Tame Impala e um monte de outras bandas.

Raro roqueiro negro no meio da psicodelia americana, Arthur Lee era filho de um músico de jazz que abandonou a família logo que se separou da mãe dele. Desde cedo quis unir o estilo musical a blues, rock e folk, e logo descobriu os limites largos da pré-psicodelia. Também adorava Mick Jagger e costumava se dizer “um americano negro imitando um inglês branco imitando um americano negro”.

Lee, tido como gênio por amigos como Jimi Hendrix, nunca foi um sujeito dos mais fáceis. Era autoritário como líder do Love, tinha um humor instável e costumava provocar os próprios colegas de banda no palco. Certa vez, enciumado pelo sucesso que o guitarrista do Love, Bryan Maclean, fazia com as mulheres, mandou o músico parar de tocar em pleno show. Como o Love mal tinha um empresário, era o próprio Lee quem tomava à frente da banda nas negociações com a gravadora Elektra – o que ajudou o grupo a conseguir um adiantamento de cinco mil dólares logo no primeiro disco. Só que o vício em heroína (e o excesso de LSD) por parte de Lee começou a provocar desgastes em todas as relações do grupo.

Em 1969, Lee viu-se sozinho no grupo, e com a responsabilidade de montar um novo Love só para cumprir contrato com a Elektra. Juntou-se com três novos músicos e lançou Four sail, tido como uma má sequência para Forever changes. A carreira do Love (que depois foi para o pequeno selo Blue Thumb) teve ainda discos como False start (1970), que incluía gravações de Hendrix com Lee e era bastante influenciado pelo som do autor de Purple haze. E Reel to real (1974), o último disco e a última tentativa de Lee de ter uma carreira formal como bandleader.

O álbum foi vendido pela gravadora RSO (a mesma de Eric Clapton) em propagandas publicadas em revistas como uma mescla de Byrds, Manfred Mann e Earth, Wind & Fire, mas a coisa não andou como o esperado.

Ensanduichado entre False start e Reel to real, saiu o primeiro disco solo de Lee, Vindicator (1972). O disco surgiu de uma lua de mel entre Lee e a gravadora A&M, por intermédio do produtor Allan McDougall, que assistira o cantor ao vivo em 1973 e se surpreendera de descobrir que ele estava sem gravadora.

Na época, num papo com o New Musical Express, Lee manifestou interesse até em projetos bizarros como reunir a formação inicial do Love para alguns discos e shows, e contou que tentou levar a turma para A&M mas ninguém quis. Em vez deles, juntou-se com um time de ratos de estúdio (entre eles o pianista de rock e jazz Clarence McDonald) e apelidou o grupo de acompanhantes de Band-Aid. Também reclamou que não poderia assinar com o Love em outra gravadora porque a A&M não deixaria (!).

O Love ainda demoraria mais um tempo em turnê e seria um projeto reativado de vez em quando. Arthur gravou mais um disco solo epônimo em 1981 e voltou com o Love em 1992, gravando Arthur Lee & Love. Foi preso em 1995 por um crime envolvendo armas de fogo. Foi solto em 2001, voltou a dar shows e gravar, mas em abril de 2006, foi divulgado que o líder do Love estava com leucemia.

Até sua morte, em 3 de agosto, aconteceriam ações beneficentes para ajudá-lo. Entre elas, um show no Beacon Theater em Nova York, em junho, do qual participaram nomes como Robert Plant, Ian Hunter, Ryan Adams e Yo La Tengo. Tem um trecho no vídeo abaixo.