Lançamentos
Urgente!: “Hunky dory”, album clássico de David Bowie, volta em vinil no Brasil

O NRC+ Essentials, selo do Noize Record Club dedicado ao lançamento de álbuns clássicos do pop e do rock mundial, volta trazendo um dos discos preferidos do Pop Fantasma: Hunky dory, de David Bowie (1971), disco que ajudou a mudar a história do cantor inglês e pavimentou a verdadeira metamorfose em sua carreira, que foi o álbum The rise and fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars (1972).
Se você quiser saber mais sobre Hunky dory, tem um textinho nosso aqui bem detalhado sobre ele – e tem ainda esse daqui e esse outro. É o disco que tem Changes e Life on mars?, por sinal – e traz Bowie tocando ao lado de uma banda formada pelo guitarrista Mick Ronson, pelo baixista Trevor Bolder, pelo baterista Woody Woodmansey e pelo tecladista Rick Wakeman. O próprio Bowie considerava este um de seus melhores trabalhos.
“Ele me deu um engrandecimento fabuloso. Acho que me deu, pela primeira vez na vida, um verdadeiro público, pessoas realmente vindo até mim e dizendo: ‘bom álbum, boas músicas’”, declarou em entrevista à revista Uncut, em 1999. Segundo o Noize Record Club, o LP preto será prensado no Chile e chegará às casas de todo o país com capa gatefold, cinta e encarte com as letras das músicas.
Este é o segundo lançamento da NRC+ Essentials, linha focada em LPs clássicos com um preço acessível. A estreia do catálogo foi com Led Zeppelin II, segundo álbum do grupo britânico (1969). Assim como na loja NRC+, o Essentials funciona com um sistema de compras independentes, sem a necessidade de recorrência. Os assinantes do clube possuem desconto no valor do disco.
Agenda
Urgente!: Loucura à vista – álbum de estreia dos Fcukers chega em março

Entre 2024 e 2025, você deve lembrar, começou uma boa onda de gente seguindo os passos da loucura de Charli XCX no disco Brat. A dupla (e ex-trio) de dance-rock Fcukers, vinda de Nova York, foi um desses nomes. Shanny Wise e Jackson Walker Lewis, ainda acompanhados do baterista Ben Scharf, lançaram em 2024 o EP Baggy$$, que foi resenhado até aqui no Pop Fantasma. Na época, o que se comentava é que essa turma era inicialmente apenas ser um projetinho que lançava músicas para os amigos ouvirem, mas que virou hype e estourou.
Você decide se quer acreditar nisso ou não, mas num papo do ano passado com a Rolling Stone, Shanny e Jackson revelaram que essa despretensão estava por trás até da escolha do nome. “Ele encapsulava perfeitamente a vibe que nós dois queríamos, no sentido de que pensávamos: ‘Não estamos nem aí. Não vamos ter uma carreira musical. Quem se importa? Vamos fazer exatamente o que quisermos’”, disse Lewis. O grupo só foi se conscientizar de que aquilo não era só uma zoeira de amigos quando deu o primeiro show.
O sucesso veio inesperadamente, já que a apresentação ganhou até resenhas. As encrencas também foram surgindo: o single Homie don’t shake sampleava uma parte de Devill’s haircut, de Beck. O papo com o cantor foi de boa: Lewis diz ter pedido a ele “não me processe!” e Beck soltou um “tudo bem” – e não processou. Já Van Morrison (o próprio) abiscoitou 50% da música do Fcukers – isso porque a banda não sabia que Beck tinha sampleado uma guitarra do Them, ex-banda de Van, em Devil’s haircut.
O clipe da faixa, por sua vez, alterou as definições comuns de “relação custo-beneficio”, já que basicamente Shanny embarcou num ônibus, ligou a câmera do celular e ficou dublando Homie enquanto viajava no coletivo pela Primeira Avenida, em Nova York. Custo: uma passagem de ônibus.
Enfim, o fato é que, agora sem Scharf (que, diz o grupo, deixou a banda para voltar a estudar e não estava contente de ser um músico de palco, sem participação conceitual), o Fcukers vem ao Brasil abrir os shows de Harry Styles no no Estádio MorumBIS, em São Paulo, nos dias 17, 18, 21 e 24 de julho. E antes disso, no dia 27 de março, lançam Ö, o álbum de estreia, que sai pelo selo Ninja Tune. O disco traz os recém lançados singles Play me e I like it like that.
O disco foi produzido por Kenneth Blume (FKA Kenny Beats) e gravado no ano passado em uma intensa sessão de estúdio de duas semanas, após um primeiro encontro entre o trio. A mixagem foi feita por Tom Norris (Lady Gaga, Charli XCX, The Weeknd e muitos outros), com produção adicional de Dylan Brady, do 100 Gecs, em três faixas. Provavelmente vem por aí um disco tão louco quanto a história e os shows da dupla. Você confere a capa e a lista de faixas abaixo.

Beatback
L.U.C.K.Y
Butterflies
if you wanna party, come over to my house
Play me
Shake it up
I like it like that
TTYGF
Lonely
Getaway
Feel the real
Texto: Ricardo Schott – Foto: Jeton Bakalli / Divulgação
Crítica
Ouvimos: Megadeth – “Megadeth” (2026)

RESENHA: Último – ao que consta – disco do Megadeth soa melancólico e repetitivo, com bons momentos isolados, clima amargo e um adeus mais preso ao passado que ao impacto.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 5,5
Gravadora: Frontiers
Lançamento: 23 de janeiro de 2026
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Nunca foi molezinha lidar com Dave Mustaine, vocalista e líder do Megadeth. Um conhecido que trabalhava numa revista cobriu uma coletiva do grupo no Brasil, e levou uns exemplares com a banda na capa para dar de presente a eles. Um dos integrantes (não me lembro mais qual, mas essa história é relativamente conhecida) pegou uma das revistas para ler, e permaneceu lendo quando a coletiva começou. Silêncio total logo que a primeira pergunta foi feita: Mustaine estava encarando firmemente o tal integrante, igualzinho à sua professora da quinta série quando ela queria que você percebesse sozinho que sua conversa ou bagunça atrapalhava a aula.
A tal história também acabou como uma bronca silenciosa e humilhante de quinta série: sem falar nada, Dave esticou o braço, o integrante lhe estendeu as revistas e ele confiscou todas, para garantir a ordem e a atenção no recinto. Fim. Em outra ocasião, ninguém menos que Kiko Loureiro, brasileiro que tocou guitarra alguns anos com o Megadeth, foi bastante sincero comigo quando lhe perguntei (numa entrevista que saiu no jornal O Dia em 2017, e que, não sei o motivo, está na internet assinada por outra jornalista) sobre como eram os papos internos sobre política na banda.
“Ano passado, teve o impeachment (da presidenta Dilma Rousseff) e eu contei um pouco para eles. Na época, estava tendo a eleição do Trump e os caras são totalmente american way of life, aquela coisa de ‘a América é o melhor lugar do mundo’. O (Dave) Ellefson (ex-baixista) é o cara que gosta de ouvir as opiniões mais abertas”, disse, afirmando também que “o Dave costuma dizer que o que sai da boca dele, ele nem sabe. É uma coisa de cara que foi criado na rua, de falar na hora. Às vezes, ele até pergunta se falou besteira, se estava tudo bem”.
Em resumo: você provavelmente não iria gostar de encarar Dave Mustaine numa briga – como músico da banda dele, prepare-se para andar na linha ou seja atropelado. Como fã, dependendo do seu posicionamento político, você se arrisca a escutar um chorrilho de besteiras de vez em quando, todas apontando para o conservadorismo ou para o mais deslavado negacionismo. Quando a música vale, todo mundo sai ganhando.
Agora corta para 2026 e para este Megadeth, alegadamente o último disco do grupo. Mustaine adiantou a despedida, ao que consta, por motivos de saúde: já venceu um câncer na garganta, mas enfrenta agora a artrite e a contratura de Dupuytren, enfermidade que faz com que os dedos se dobrem em direção à palma da mão. O problema é que nem sempre a música vence: o último disco do grupo norte-americano é uma despedida bem melancólica.
Talvez os fãs roxos do grupo deixem isso pra lá, ou discordem, mas Megadeth dá a impressão de ouvir a mesma faixa do começo ao fim, com poucas variações. Faixas como Tipping point, I don’t care e Let there be shred, repletas de palhetadas e vocais sujos, reforçam essa impressão e fazem todo mundo esquecer que, há vários anos, o Megadeth era o complemento “quase punk” do Metallica, banda da qual ele fez parte – hoje parece mais uma espécie de primo quieto de si próprio.
O que tem de bom em Megadeth surge em faixas como Hey god?!, Puppet parade, a melódica e bonita I am war, e a motörheadiana Made to kill – ainda assim, não é o melhor do grupo. Tem um aceno ao passado em The last note, que é a verdadeira despedida de Mustaine, e que faz lembrar momentos gloriosos da banda, com uma letra que (compreensivelmente) insere um pouco de drama na história: “agora são apenas memórias em minha mente / apenas luzes e nomes se apagando / se eu algum dia tocar novamente / que esta última nota jamais morra”.
E tem um momento de birra na versão de Ride the lightning, música do Metallica, ex-banda de Mustaine, e uma das canções do grupo para a qual ele contribuiu. Não é uma releitura memorável – na verdade soa mais como um pé na bunda jamais superado, e que ainda dói muito. Já nas letras, Mustaine mistura temas existenciais, versos de protesto e notas mentais de puro “anarquismo conservador”, como no foda-se geral de I don’t care e no irredentismo individualista de Puppet parade e Obey the call. No geral, uma despedida sem sal. E bem amarga.
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Crítica
Ouvimos: The Damned – “Not like everybody else”

RESENHA: Com uma de suas formações mais clássicas, o Damned lança Not like everybody else: tributo ao guitarrista Brian James, com covers 60s/70s e espírito punk-gótico intacto.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: earMUSIC / Edel
Lançamento: 23 de janeiro de 2026
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Desde 2024, a veterana banda punk The Damned está novamente com a formação que gravou os discos The black album (1980) e Strawberries (1982): Dave Vanian (voz), Captain Sensible (guitarra), Paul Gray (baixo) e Rat Scabies (bateria), acrescida de Monty Oxymoron, um cara que além de tocar teclados, trabalhou um bom tempo como enfermeiro psiquiátrico (tudo a ver com uma banda cujo repertório inclui clássicos da loucura punk como There’s no sanity clause e Stab your back).
Essa re-formação ainda não havia gravado discos novos, até que chegou a notícia da morte de Brian James, guitarrista que gravou os dois primeiros álbuns do Damned, e autor de nada menos que o primeiro hit do grupo, New rose. Brian, fã de pré-punk, de psicodelia e de sons dos anos 1960 em geral, morreu aos 74 em 6 de março de 2025. Not like everybody else talvez nem seja o retorno que os fãs aguardavam, já que não é um disco de inéditas. Mas é um manifesto afetivo feito pelo quinteto, já que, no disco, o Damned fez versões de dez das músicas preferidas do músico.
O Damned tem entre seus hits duas versões de hits da era de ouro da psicodelia: Alone against or, do Love, e White rabbit, do Jefferson Airplane, ambos transformados em canções próximas do gótico. O formato é conhecido da banda e de seu público, daí Not like everybody else, antes de tudo, é um disco seguro, do tipo “não tem como errar”. Não tem erro mesmo: o grupo volta lembrando a época de Machine gun etiquette (o terceiro disco, de 1979) nas versões de Summer in the city (Lovin’ Spoonful), Gimme danger (Iggy Pop & Stooges), See Emily play (Pink Floyd) e Making time (The Creation), e faz lembrar um Hoodoo Gurus do mal em There’s a ghost in my house (R. Dean Taylor).
O repertório destaca ainda o clima quase pré-britpop de I’m not like everybody else (Kinks) e o peso de When I was young (The Animals), aberta com algo parecido com a intro de Iron man (Black Sabbath) e encerrada com guitarras lembrando The Who. Além disso, fãs da banda vão curtir a aparição de Brian James nas guitarras de The last time (Rolling Stones), em versão gravada num show de reunião em 2022. Enquanto muita gente insiste até hoje no discurso de que o punk foi uma “ruptura”, bandas como o Damned provam que não era bem assim.
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