Crítica
Ouvimos: MC Cabelinho e Tz da Coronel – “Palácio de lona”

RESENHA: Em Palácio de lona, Cabelinho e Tz da Coronel expõem, em trap direto e brutal, relatos de crime, poder e sobrevivência nas periferias.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Bairro 13 / Cúpula Records
Lançamento: 6 de março de 2026
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Outro dia deparei com um meme dizendo que “todo estilo musical tem uma cruz para carregar: a do punk é o punk pop, a do rap é o trap, a do metal é o próprio metal”. Faz sentido? Talvez – preconceitos à parte.
No caso do punk pop, ninguém duvida de que ele ampliou o público do punk – mas tornou o “três acordes” uma diversão de playboy. Problema é ver também que o trap tornou-se um imenso algoritmo, com climas e letras repetitivas, e uma vibe “underground” típica de quem só chegou ao subterrâneo quando o pop já foi lá e pegou quase tudo que interessava (Xtranho, disco novo de Matuê, sofre desse problema).
No caso de Palácio de lona, de MC Cabelinho e Tz da Coronel, o trap coloca uma questão séria na cara do/da ouvinte: tudo que você ouve em inglês nos discos de rap (e muitas vezes vai ter dificuldade para entender 100% sem ler as letras), vai ouvir aqui em português. Ou seja: se você se incomoda com relatos do dia a dia do crime e versos que destilam machismo e misoginia, nem chegue perto, porque músicas como Foragido, Lobo mau, Pussy, Glocks & bersa e Tá com essa daí tratam exatamente disso.
Se for separar as coisas e acompanhar tudo como uma série de TV (a melhor maneira de sacar tudo sem puxar a carta do cancelamento), vai entender que a realidade de Cabelinho e Tz é diferente pra burro do universo de quase todo mundo que você conhece. Palácio de lona fala de um mundo que exige soluções rápidas, pensamento ativo, análise pé-no-chão, e valores de compadrio que têm de funcionar mesmo (e por causa disso) com as drogas, a grana, o crime e as armas. E em que “sair do crime” envolve situações como as de faixas como Elenco fabuloso e Menor suicida, em que tudo parece ruir, inclusive valores cultivados há anos (“como que eu não vou encontrar uma saída? / como eu não vou ter uma contrapartida? / sabe nada sobre mim nem da minha vida / nós tem um sensor, não julgue a aparência”).
Musicalmente, Palácio de lona traz alguns destaques, como o som brutal de Lobo mau, a vibe r&b-soul-trap de Normal, a onda viajante e sufocante de Elenco fabuloso e Menor suicida, o batidão de Baile no morro. Nomes dos selos criados por Cabelinho e Tz, como Vinicin e Raflow, unem-se a consagrados como Poze do Rodo, Oruam e Filipe Ret. A vontade de fugir da algoritmização do trap (em músicas e frases) saltou na frente e já é muito.
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Crítica
Ouvimos: The Falls – “Would you do it all over again?” (EP)

RESENHA: Em Would you do it all over again?, o The Falls, de Manchester, mistura pós-punk, grunge e britpop, com ecos de Smiths, Buzzcocks e R.E.M.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Revo Pro
Lançamento: 18 de setembro de 2026
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Imagina você ser de Manchester e decidir dar à sua banda o nome The Falls, sendo que existe um quase-xará mais velho e mais conhecido (The Fall, claro)? O The Falls não se importou muito com isso, mesmo fazendo um som bem mais acessível e bem menos experimental – pelo menos no sentido anticomercial do termo. Bandas como Smiths e Buzzcocks batem ponto no som deles, e em todas as faixas do EP Would you do it all over again? surge uma espécie de elegância oitentista, mesmo sob guitarras pesadas e baixos distorcidos.
Segundo EP do quarteto, Would you do it all over again? traz um pós-punk que não dispensa referências ao grunge e ao britpop. Open fire abre o disco com guitarras sujas, vocal tranquilo e uma letra sobre ansiedade e culpa. The other side põe o baixo na frente e soa como um encontro improvável entre R.E.M. e Pearl Jam.
Loaded gun tem algo de punk sessentista, Buzzcocks e britpop, com baixo distorcido e uma letra sobre relações tóxicas. A inspiração veio de uma cena do filme Os infiltrados, de Martin Scorsese, em que o chefão vivido por Jack Nicholson: certas escolhas já carregam suas consequências. City lights começa com violão, ganha guitarras psicodélicas e aproxima Smiths, The Church e The Who, falando de identidade e mudanças. Já Blink encerra tudo com punk de acabamento oitentista e um vocal herdado de Michael Stipe. Um disco de ótimas referências combinadas, e que parece ter sido deixado gravado há anos.
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Crítica
Ouvimos: Niis – “Play Niis” (EP)

RESENHA: Em Play Niis, a banda punk de Los Angeles Niis mistura grunge, power pop e shoegaze, com ecos de Nirvana, Garbage e Placebo e letras sobre desilusões.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Rise
Lançamento: 23 de outubro de 2026
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Banda punk majoritariamente feminina de Los Angeles, o Niis pode ser definido como bubblegrunge (aquela mistura saudável de sons grudentos e de rock dos anos 1990, o que na real significa que Nevermind, disco do Nirvana de 1991, está sendo devidamente usado como modelo). O disco de estreia Niis world (2025, resenhado aqui) trazia uma banda herdeira tanto dos anos 1960 quanto de Dead Kennedys, com melodias bacanas e vocais berrados.
Play Niis, o EP novo, foca um pouco mais no “bubble” que no “grunge” – mas só em parte, porque bandas como Garbage e Placebo parecem terem servido de referência para as faixas do disco. Mimi Doe, a vocalista, grita menos que em Niis world, mas a promessa de um disco que trabalhe “no universo dos celulares flip, das lojas Hot Topic e de Buffy, a Caça-Vampiros” nem parece ter sido levada a ferro e fogo. Há um perfume shoegaze em faixas ruidosas e noventistas como Bad aim e a suingada e grungíssima Big fish baby. Earthquakes é movida por um riff de guitarra que atravessa praticamente toda a faixa, acompanhado por uma linha de baixo igualmente inquieta – tem cara de new wave porradeira.
O trio de encerramento poderia ter sido produzido por Butch Vig: a combinação de power pop e atitude de Take your mess, o barulho doce e sombrio de No flowers (lembrando um Babes in Toyland glam punk) o riff buzinado de Westside. Entre desilusões amorosas e pessoais, Mimi Doe passa boa parte do EP falando sobre estar meio perdida, mas ainda querer sentir alguma coisa. Nem que seja raiva.
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Crítica
Ouvimos: DJ Urutau – “Ornitofagia”

RESENHA: Em Ornitofagia, DJ Urutau mistura funk bruxaria, eletrônica e cantos de pássaros numa história de vingança das aves contra a destruição ambiental.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 28 de agosto de 2026
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Quem conhece o Antropoceno, projeto de metal-afoxé criado pela musicista Lua Viana, já sabe que ela gosta de misturar coisas que aparentemente não combinam – recentemente falamos do disco No ritmo da Terra. Sob o nome de DJ Urutau, ela troca as guitarras pesadas por batidões de funk, samples de pássaros e eletrônica distorcida. Ornitofagia, estreia do projeto, é um disco de funk bruxaria (estilo criado por ela) que dá vontade de dançar, mas que também conta uma história bastante peculiar.
O urutau, também chamado de mãe-da-lua, é uma ave noturna conhecida pelo canto fantasmagórico. Na história criada por Lua, as mudanças climáticas fazem o bicho perder a cabeça, devorar um bem-te-vi e absorver seus poderes. A partir daí, ele sai comendo outras aves, aprende tudo sobre elas e resolve se vingar dos humanos pela destruição ambiental. Tudo isso embalado por um funk que parece ter saído de um terreiro futurista.
MC Uirapuru abre o disco com o canto da ave transformado em vocal de funk, sobre uma batida que vai ficando mais pesada e distorcida. Conversión, cantada em espanhol, dá sequência à pancadaria eletrônica, enquanto Baile das calopsitas acelera tudo, usando os sons das aves como parte da percussão. Em Pólen, os pios se misturam a uma eletrônica mais psicodélica.
O disco segue nessa onda em Planeta aves e Olhos mágicos, esta última fazendo referência aos enormes olhos amarelos do urutau. Sabiá-feiticeira tem um funk quase ritualístico, com algo de música indígena, enquanto Garganta (Oferenda pra Tetê) usa um sample de Tetê Espíndola – escolha que faz bastante sentido num disco tão ligado aos sons dos pássaros.
Elixir encantador de urutau começa como uma explosão de ruídos eletrônicos, até encontrar uma batida mais definida. Já os quase sete minutos de Engoli um bem-te-vi (Na onda do El Niño) encerram tudo com declarações sobre o meio ambiente, distorções e guitarras que aproximam a DJ Urutau do Antropoceno.
Ornitofagia é um disco experimental com narrativa própria, peso e preocupação ambiental – e em vários momentos, ele mostra que a pista também protesta.
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