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Cultura Pop

Scream & Yell: site que virou gravadora

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Scream & Yell: site que virou gravadora

Artistas costumam crescer em público. O selo Scream & Yell, que é uma ideia de Marcelo Costa, jornalista e criador do site Scream & Yell (foco de resistência em cultura pop há invejáveis 19 anos), também vem crescendo na frente de sua plateia.

O selo S&Y começou por acaso, como uma ideia do próprio Marcelo, para dar visibilidade a projetos que ele achava bacanas. Foi ganhando forma quando passou a valorizar cada vez mais o mesmo aspecto jornalístico do site. Passou a lançar tributos a artistas, lado a lado com lançamentos exclusivos, sempre em formato digital.

No catálogo do S&Y encontram-se homenagens a Belchior, Engenheiros do Hawaii e Milton Nascimento, entre outros – todos relidos por vários artistas recentes. Os Paralamas do Sucesso ganharam um audacioso tributo com bandas ibero-americanas relendo seu repertório. É Somos todos latinos, com curadoria do brasileiro Leonardo Vinhas e do colombiano Andrés Corrêa. Além, disso, há o especial Temperança – Um manifesto contra o ódio, com canções de artistas/bandas como Marcelo Perdido, Dario Julio & Os Franciscanos e Laranja Label. E um disco ao vivo e exclusivo da banda gaúcha Walverdes. Mais recentemente, a gravadora apostou na “música eletrônica instrumental ruidosa” do Borealis, projeto do jornalista fluminense Marco Barbosa. O terceiro LP do projeto, Omnia, já está disponível.

Marcelo vai tocando o selo tendo sonhos, muitos projetos e buscando parcerias. Por sinal, da mesma forma que tornou o Scream & Yell uma referência importantíssima em cultura pop no Brasil. Como o POP FANTASMA volta e meia vai lá ver o que é que certos cavaleiros (as) solitários (as) da cultura pop e do “faça você mesmo” estão aprontando, aproveitamos para bater um papo com Marcelo sobre a gravadora Scream & Yell e sobre os próximos projetos. E podem vir lançamentos em formato físico aí.

POP FANTASMA: Você diria que o disco novo do Borealis traz mudanças para o selo? No que ele amplia os limites do que vocês estão fazendo?
MARCELO COSTA: Admiro tanto o trabalho jornalístico do Marco Antonio Barbosa quanto seu projeto musical, o Borealis. Quando ele sinalizou que queria lançar o disco pelo selo, para mim foi uma boa oportunidade exatamente de mostrar que nós não seguimos apenas uma linha de pop rock MPB indie, sabe. O Omnia chuta esse limite para longe porque é nosso primeiro lançamento totalmente instrumental e com referencias de drone, ambient e eletrônica que ainda não tínhamos trabalhado. O campo de alcance do selo ampliou.

Marco Barbosa (E) e Marcelo Costa

Como surgiu a ideia de transformar o S&Y também num selo de gravação? É a ideia que surgiu por acaso e que, aos poucos, estamos formatando. A gente já tinha lançado alguns discos no site, um ao vivo da Walverdes que só existe no Scream & Yell e um EP com o Giancarlo Rufatto. Mas a coisa começa a ficar séria quando o Jorge Wagner (jornalista fluminense) produz o tributo ao Belchior. Ele já tinha a experiência de sucesso com o tributo ao Raça Negra, e na hora que fez a proposta de lançar o do Belchior pelo Scream, topei na hora. E esse tributo abriu portas para que outros produtores se animassem a criar conteúdo semelhante para o Scream & Yell. Quando dei por mim já tinha quase 10 discos lançados, ou seja, a gente tinha um selo de música dentro do site e não tinha se ligado nisso. Denominá-lo como tal foi um passo natural.

https://soundcloud.com/aindasomososmesmos/

Onde começa o trabalho do selo Scream & Yell quando começa a trabalhar determinado lançamento ou artista? Vocês participam de alguma forma do processo de produção? Ou do lançamento digital no Spotify? O trabalho do selo ainda é algo bastante primário. Com artistas, a gente lida muito mais com divulgação e com a estrutura do site, que acaba trazendo certa publicidade a mais. Então o envolvimento do site ainda é pequeno. O que eu posso oferecer é esse suporte de divulgação e de perenidade, afinal o Scream & Yell é um dos raros sites da internet brasileira que tem todo o seu arquivo disponível online, ou seja, os 19 anos do Scream & Yell estão todos no ar. Muitos sites, mesmo portais, mudam de plataforma e acabam perdendo conexão com material antigo – isso no meio independente é praxe. No Scream não. Esse disco do Walverdes que lançamos em 2011 está no ar, com link funcionando e MP3 disponível. Muitos dos tributos independentes legais que saíram nos últimos anos não estão mais disponíveis. Tudo que lançamos pelo Scream está.

Quais são as formalizações para lançar um disco pelo selo? Em termos de direitos como tudo fica dividido? Ou é algo mais informal? Totalmente informal, mas são dois caminhos. Os tributos criados exclusivamente para o site são geridos pelos produtores, e dai cada um faz o acerto que lhe convém tanto com o artista quanto com participantes e os portais de streaming. Neste contexto, os tributos organizados pelo Leonardo Vinhas estão a maioria em streaming, ele agilizou isso. A função do selo é dar o start para esse lançamento existir e divulgá-lo, uma maneira de utilizar o nome do portal para validar e ampliar uma ação de cultura. Já para artistas lançarem discos pelo selo é uma conversa mais delicada, porque precisa existir uma conexão de ideias com o site, e a vontade de que aquele disco ajude a formatar uma ideia de padrão para o selo. Não dá para sair lançando tudo, e curadoria é essencial para saber o que cabe, o que vale a pena. Mas tudo isso começa com um bate papo. Já teve artista que queria lançar o disco pelo selo e orientei: “Seria melhor você lançar por tal selo, conversa com esse cara, porque o som de vocês cabe melhor ali e o resultado da divulgação será muito melhor ali”.

Qual você diria que é a cara do site e do selo nos dias de hoje? O que um artista precisa ter para ser lançado pelo S&Y? Adoro a definição que a Agencia Pública fez do site: “Um site jornalístico sobre cultura pop, com entrevistas, reviews e coberturas de festivais de música, cinema, cerveja. Também produzem e lançam álbuns, fazem podcast e mixtapes e jornalismo musical aprofundado independentemente do apelo do entrevistado: tratando Caetano Veloso, Romulo Fróes e Loomer como iguais, porque todos fazem boa música”. Ou seja, permanecemos com a mesma ideia que fez o site nascer, que é a de não ter amarras e falar do que a gente tem vontade de falar sem precisar ficar limitando. Então, para mim, a cara do site é a de um site pop que pode tanto publicar uma entrevista com uma banda de death metal sueca quanto com Almir Sater. As ideias que eles podem reverberam em entrevistas me interessam mais do que o som que eles fazem.

Marcelo Costa

Há algum investimento financeiro no selo, ou planos para isso? Assim como no site, não há investimento financeiro. Mas já estou trabalhando a ideia de entrar em editais para transformar alguns dos álbuns lançados pelo site em material físico, CDs, quem sabe um livreto contando a história do artista e da produção. Porque tirando os discos que o Leo Vinhas conseguiu disponibilizar em streaming, muita coisa só existe online no Scream & Yell, e eu tenho medo dessa história se perder, de um tributo ao Belchior, por exemplo, deixar de existir daqui 10 anos. Mantendo-o em formato físico, a perenidade aumenta, alguém vai guardar e, quando outra pessoa precisar, ela poderá achar e dar sobrevida. Tenho pensado muito em como tornar esses discos… eternos, sabe. Sei que é papo de velho que tem coleção de discos físicos, mas isso me interessa.

Vocês lançaram também tributos a artistas como Engenheiros do Hawaii, Skank, etc. No que esses tributos ajudaram outras gerações a conhecer melhor tais artistas? Os homenageados deram algum retorno? É uma porta de entrada para um novo público, isso é inegável e é um dos fatores que movimenta esses lançamentos. O pessoal do Skank acompanhou toda a produção do tributo Dois Lados, e o Pedro Ferreira, responsável pela produção, tem um olhar aguçado para a divulgação – acho que o Skank nunca tinha saído em tanto caderno de cultura do país como saiu com esse tributo. Eles estavam meio céticos, e fizemos o lançamento (que era duplo) em duas semanas. Após o lançamento do primeiro volume eles ficaram impressionados com a repercussão, e quiseram até se envolver na promoção do segundo volume, mas a coisa já estava toda adiantada da nossa parte. Foi bacana ver que surpreendemos eles. No caso do Engenheiros, que é nosso recorde com 26 mil downloads, o produtor Anderson Fonseca mostrava as músicas para o Humberto, e ele ficou muito feliz o resultado. Chegou a adotar um dos arranjos para tocar ao vivo! O tributo ao Paralamas também foi acompanhado de perto pelo trio numa relação que começou muito antes, quando lançamos um tributo com artistas brasileiros cantando músicas de artistas latinos, e o Herbert nos mandou um vídeo elogiando a iniciativa e dizendo o quanto era importante nos aproximar dos países vizinhos.

Como foi produzir esses discos, que com certeza envolveram um trabalho executivo mais detalhado? Alguma história a respeito disso que você se recorde? Como editor e criador do Scream & Yell, tento não envolver tanto na produção porque minha palavra acaba tendo um peso muito forte. Se eu digo “pô, seria legal ter esse artista” parece soar uma obrigação para o produtor tê-lo, então tento deixa-los o mais livre possível para fazer o trabalho que eles querem fazer, e não para atender a minha expectativa. Confio neles e sei que a partir do momento que decidimos dar start em algo, alguma coisa muita boa vai nascer dali.

O que vocês aprenderam com as grandes ou pequenas gravadoras, no que diz respeito a fazer um lançamento? Estamos aprendendo ainda. E mais do que aprender com outros selos, aprendemos com nós mesmos. O trabalho de planejamento que o Pedro Ferreira (que produziu para o Scream os tributos ao Milton Nascimento e ao Skank e, ainda, fora do site, o do Los Hermanos) faz é sublime. Ele começa a me mandar os prints de cadernos de cultura do país e eu fico de queixo caído! É um padrão que eu queria para todos os lançamentos, mas que nem sempre consigo. Queria, por exemplo, que o disco que lançamos com exclusividade da banda portuguesa Os Lacraus tivesse mais repercussão do que teve, mas fazemos o que a gente consegue fazer.

Já pensaram em fazer um lançamento em LP ou CD? Aliás, como vê a presença (ou ausência) do CD no mercado? O lance de participar em editais é exatamente atender a essa demanda. Eu quero! E quero fazer tanto CD quanto vinil. Há público, principalmente para tiragens pequenas, que se transformam em itens de colecionador. Eu sou colecionador. Tenho aqui meus quase 1000 vinis, uns 10 mil CDs, um punhado de edições em boxes. E gostaria de adquirir mais do que tenho adquirido, mas a situação financeira do país não está permitindo extravagancias. Mas que existe público, existe.

Qual a receita para o site Scream & Yell durar tanto, em meio a todas essas mudanças na internet? A receita é ao menos tempo boa e má: ele se concentrar em apenas uma pessoa, no caso, eu. Muitos sites independentes bacanas acabaram por serem projetos de amigos, e quando a coisa desanda, ninguém acaba assumindo. Sites como o Scream & Yell, o Trabalho Sujo e o Senhor F resistem porque são centradas em uma pessoa cada um deles, e ao redor dessas pessoas gira um número enorme de colaboradores que fazem o site respirar. Eu não seria nada se não tivesse um grupo sensacional de pessoas compartilhando paixão por cultura comigo. O site existe por causa delas também. E isso é bom. O ruim é que pesa demais pruma pessoa só tocar isso. Ou seja, não há muita saída: é difícil manter um site em sociedade por muito tempo e é difícil tocar um site sozinho por muito tempo. A segunda funcionou para mim, mas já perdi a conta de quantas vezes pensei “vou acabar com o Scream & Yell”. Durar 19 anos (e contando) é inacreditável e quase um milagre. Porém, vez em quando chega um elogio, um email querido, ou olho algo que fizemos e que me dá orgulho, e um sopro de energia surge. E assim seguimos sabe-se lá até quando.

Fotos: Divulgação

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Billy Corgan e Butch Vig juntos no estúdio de novo após 33 anos

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Billy Corgan e Butch Vig juntos no estúdio de novo após 33 anos

RESUMO: Billy Corgan e Butch Vig retomam a parceria de Gish e Siamese dream em Black stars, faixa da trilha de Jogos vorazes. Um reencontro com o produtor que ajudou a criar o som do Smashing Pumpkins. Relembre o histórico.

Texto: Ricardo Schott – Fotos: Reprodução

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Imagine você entrar num estúdio com Billy Corgan, no começo dos anos 1990, e descobrir que ele quer gravar uma música com dezenas de guitarras. E que, se uma delas não soar exatamente como ele imaginou, vai ter que fazer tudo de novo. Agora imagine que o produtor, em vez de mandar o sujeito sossegar, acha a ideia ótima. Pois era mais ou menos assim que funcionava a parceria entre o Smashing Pumpkins e Butch Vig. E, 33 anos depois, os dois resolveram repetir a experiência.

A novidade é Black stars, música lançada nesta sexta-feira (16) e incluída na trilha sonora de Jogos vorazes: Amanhecer na colheita. A trilha completa sai em 13 de novembro, uma semana antes da estreia do filme. É a primeira gravação lançada pelo Smashing Pumpkins com produção de Vig desde o álbum Siamese dream, de 1993. A faixa também entrou no repertório da atual turnê Rats in the cage.

A história dos dois começou em 1990, quando o Smashing Pumpkins gravou Tristessa, compacto lançado pela Sub Pop, sob a produção dele. Isso foi antes de Vig produzir Nevermind, do Nirvana (1991). Corgan gostou do cara logo de primeira. Numa entrevista à Tape Op, contou que o produtor não tinha pose, trabalhava pra caramba e não se assustava com as ideias que ele e o baterista Jimmy Chamberlin levavam para o estúdio. Pelo contrário: parecia gostar da complicação.

Foi assim que chegaram a Gish (1991), álbum de estreia da banda, primeiro no qual trabalharam juntos. Corgan queria um disco com peso, psicodelia, melodias bonitas e guitarras aparecendo de todos os lados – um baita rock de arena, com ambiência, totalmente o oposto daquela onda da época, de simplesmente colocar quatro músicos numa sala e apertar o botão de gravar. Vig comprou a ideia e ajudou a organizar tudo aquilo. Dá para ouvir o resultado em Siva, Rhinoceros e Daydream, três músicas bem diferentes que parecem fazer parte do mesmo universo.

Só que os dois tinham um problema: não sabiam a hora de parar. Corgan contou à Rolling Stone italiana que Vig pegava pesado com afinação, ritmo e vocais. Fazia Billy cantar a mesma parte tantas vezes que ele começava a achar que não sabia cantar. O engraçado é que, olhando para trás, o vocalista reconhece que aquela cobrança fez toda a diferença.

Em Siamese dream (1993), o segundo disco, a situação ficou ainda mais complicada. A banda já tinha uma gravadora grande esperando resultados, Billy passava por uma fase emocional difícil e os integrantes não se entendiam nada bem. Foram gravar em Atlanta, mas os problemas viajaram com a banda nas malas.

Corgan acabou tocando praticamente todas as guitarras e boa parte dos baixos. Algumas músicas ganharam tantas camadas que Vig precisava descobrir como fazer tudo caber na mixagem. Era guitarra em cima de guitarra, com mais uma guitarra aparecendo quando você achava que já tinha acabado. E, se alguma coisa não estivesse perfeita, lá iam eles gravar de novo. O disco demorou, custou caro e deu um trabalhão. Só que saiu dali Siamese dream, com Cherub rock, Today, Disarm e vários clássicos.

Corgan nunca escondeu o quanto Vig foi importante. Nos textos da reedição de Siamese dream, em 2011, escreveu: “Butch me apoiou o tempo todo nessa visão maluca”. E completou: “Butch era a única pessoa que poderia ter feito aquele disco conosco, porque o respeitávamos tanto que queríamos estar à altura dos padrões elevados dele”.

Mas aí chegou a hora de fazer o duplo Mellon Collie And The Infinite Sadness (1995), e Billy resolveu mudar tudo. Chamou Flood e Alan Moulder para produzir, porque queria sair daquela maneira de trabalhar. Numa entrevista ao Grammy.com, explicou que Vig havia ajudado a construir uma versão quase idealizada do Smashing Pumpkins. Flood queria outra coisa: ouvir a banda como ela realmente soaria nos shows.

E não, a troca não aconteceu por causa de alguma briga. Em 2011, perguntaram a Corgan se ele toparia trabalhar novamente com Vig. “Eu amo Butch e temos uma relação muito boa. Adoraria. Ele provavelmente é uma das únicas pessoas com quem eu voltaria a entrar em estúdio”, respondeu. Vig também sempre pareceu adorar Corgan, embora já tenha declarado algumas vezes que o músico foi “um pentelho” no estúdio (quem conhece a história de Billy sabe que isso é um nome até carinhoso).

Pois bem: demorou 15 anos para aquela declaração virar realidade. Black stars coloca novamente os dois no estúdio, agora com décadas de experiência acumulada e sem a obrigação de repetir o que fizeram em 1993.

Ainda não há indicação de que a parceria vá render um álbum inteiro. Por enquanto, é uma música para uma trilha sonora. Mas já dá para imaginar a cena: Billy aparece com uma ideia complicada, Butch escuta, pensa um pouco e resolve que dá para melhorar. E lá vem outra guitarra…

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Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

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Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução

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No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.

O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.

Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.

Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.

A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.

Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?

Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração

O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.

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Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

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Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução

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O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.

Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.

Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.

A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.

No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.

Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.

Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.

Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.

Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.

Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.

No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.

Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.

Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.

Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.

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