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Cultura Pop

Scream & Yell: site que virou gravadora

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Scream & Yell: site que virou gravadora

Artistas costumam crescer em público. O selo Scream & Yell, que é uma ideia de Marcelo Costa, jornalista e criador do site Scream & Yell (foco de resistência em cultura pop há invejáveis 19 anos), também vem crescendo na frente de sua plateia.

O selo S&Y começou por acaso, como uma ideia do próprio Marcelo, para dar visibilidade a projetos que ele achava bacanas. Foi ganhando forma quando passou a valorizar cada vez mais o mesmo aspecto jornalístico do site. Passou a lançar tributos a artistas, lado a lado com lançamentos exclusivos, sempre em formato digital.

No catálogo do S&Y encontram-se homenagens a Belchior, Engenheiros do Hawaii e Milton Nascimento, entre outros – todos relidos por vários artistas recentes. Os Paralamas do Sucesso ganharam um audacioso tributo com bandas ibero-americanas relendo seu repertório. É Somos todos latinos, com curadoria do brasileiro Leonardo Vinhas e do colombiano Andrés Corrêa. Além, disso, há o especial Temperança – Um manifesto contra o ódio, com canções de artistas/bandas como Marcelo Perdido, Dario Julio & Os Franciscanos e Laranja Label. E um disco ao vivo e exclusivo da banda gaúcha Walverdes. Mais recentemente, a gravadora apostou na “música eletrônica instrumental ruidosa” do Borealis, projeto do jornalista fluminense Marco Barbosa. O terceiro LP do projeto, Omnia, já está disponível.

Marcelo vai tocando o selo tendo sonhos, muitos projetos e buscando parcerias. Por sinal, da mesma forma que tornou o Scream & Yell uma referência importantíssima em cultura pop no Brasil. Como o POP FANTASMA volta e meia vai lá ver o que é que certos cavaleiros (as) solitários (as) da cultura pop e do “faça você mesmo” estão aprontando, aproveitamos para bater um papo com Marcelo sobre a gravadora Scream & Yell e sobre os próximos projetos. E podem vir lançamentos em formato físico aí.

POP FANTASMA: Você diria que o disco novo do Borealis traz mudanças para o selo? No que ele amplia os limites do que vocês estão fazendo?
MARCELO COSTA: Admiro tanto o trabalho jornalístico do Marco Antonio Barbosa quanto seu projeto musical, o Borealis. Quando ele sinalizou que queria lançar o disco pelo selo, para mim foi uma boa oportunidade exatamente de mostrar que nós não seguimos apenas uma linha de pop rock MPB indie, sabe. O Omnia chuta esse limite para longe porque é nosso primeiro lançamento totalmente instrumental e com referencias de drone, ambient e eletrônica que ainda não tínhamos trabalhado. O campo de alcance do selo ampliou.

Marco Barbosa (E) e Marcelo Costa

Como surgiu a ideia de transformar o S&Y também num selo de gravação? É a ideia que surgiu por acaso e que, aos poucos, estamos formatando. A gente já tinha lançado alguns discos no site, um ao vivo da Walverdes que só existe no Scream & Yell e um EP com o Giancarlo Rufatto. Mas a coisa começa a ficar séria quando o Jorge Wagner (jornalista fluminense) produz o tributo ao Belchior. Ele já tinha a experiência de sucesso com o tributo ao Raça Negra, e na hora que fez a proposta de lançar o do Belchior pelo Scream, topei na hora. E esse tributo abriu portas para que outros produtores se animassem a criar conteúdo semelhante para o Scream & Yell. Quando dei por mim já tinha quase 10 discos lançados, ou seja, a gente tinha um selo de música dentro do site e não tinha se ligado nisso. Denominá-lo como tal foi um passo natural.

https://soundcloud.com/aindasomososmesmos/

Onde começa o trabalho do selo Scream & Yell quando começa a trabalhar determinado lançamento ou artista? Vocês participam de alguma forma do processo de produção? Ou do lançamento digital no Spotify? O trabalho do selo ainda é algo bastante primário. Com artistas, a gente lida muito mais com divulgação e com a estrutura do site, que acaba trazendo certa publicidade a mais. Então o envolvimento do site ainda é pequeno. O que eu posso oferecer é esse suporte de divulgação e de perenidade, afinal o Scream & Yell é um dos raros sites da internet brasileira que tem todo o seu arquivo disponível online, ou seja, os 19 anos do Scream & Yell estão todos no ar. Muitos sites, mesmo portais, mudam de plataforma e acabam perdendo conexão com material antigo – isso no meio independente é praxe. No Scream não. Esse disco do Walverdes que lançamos em 2011 está no ar, com link funcionando e MP3 disponível. Muitos dos tributos independentes legais que saíram nos últimos anos não estão mais disponíveis. Tudo que lançamos pelo Scream está.

Quais são as formalizações para lançar um disco pelo selo? Em termos de direitos como tudo fica dividido? Ou é algo mais informal? Totalmente informal, mas são dois caminhos. Os tributos criados exclusivamente para o site são geridos pelos produtores, e dai cada um faz o acerto que lhe convém tanto com o artista quanto com participantes e os portais de streaming. Neste contexto, os tributos organizados pelo Leonardo Vinhas estão a maioria em streaming, ele agilizou isso. A função do selo é dar o start para esse lançamento existir e divulgá-lo, uma maneira de utilizar o nome do portal para validar e ampliar uma ação de cultura. Já para artistas lançarem discos pelo selo é uma conversa mais delicada, porque precisa existir uma conexão de ideias com o site, e a vontade de que aquele disco ajude a formatar uma ideia de padrão para o selo. Não dá para sair lançando tudo, e curadoria é essencial para saber o que cabe, o que vale a pena. Mas tudo isso começa com um bate papo. Já teve artista que queria lançar o disco pelo selo e orientei: “Seria melhor você lançar por tal selo, conversa com esse cara, porque o som de vocês cabe melhor ali e o resultado da divulgação será muito melhor ali”.

Qual você diria que é a cara do site e do selo nos dias de hoje? O que um artista precisa ter para ser lançado pelo S&Y? Adoro a definição que a Agencia Pública fez do site: “Um site jornalístico sobre cultura pop, com entrevistas, reviews e coberturas de festivais de música, cinema, cerveja. Também produzem e lançam álbuns, fazem podcast e mixtapes e jornalismo musical aprofundado independentemente do apelo do entrevistado: tratando Caetano Veloso, Romulo Fróes e Loomer como iguais, porque todos fazem boa música”. Ou seja, permanecemos com a mesma ideia que fez o site nascer, que é a de não ter amarras e falar do que a gente tem vontade de falar sem precisar ficar limitando. Então, para mim, a cara do site é a de um site pop que pode tanto publicar uma entrevista com uma banda de death metal sueca quanto com Almir Sater. As ideias que eles podem reverberam em entrevistas me interessam mais do que o som que eles fazem.

Marcelo Costa

Há algum investimento financeiro no selo, ou planos para isso? Assim como no site, não há investimento financeiro. Mas já estou trabalhando a ideia de entrar em editais para transformar alguns dos álbuns lançados pelo site em material físico, CDs, quem sabe um livreto contando a história do artista e da produção. Porque tirando os discos que o Leo Vinhas conseguiu disponibilizar em streaming, muita coisa só existe online no Scream & Yell, e eu tenho medo dessa história se perder, de um tributo ao Belchior, por exemplo, deixar de existir daqui 10 anos. Mantendo-o em formato físico, a perenidade aumenta, alguém vai guardar e, quando outra pessoa precisar, ela poderá achar e dar sobrevida. Tenho pensado muito em como tornar esses discos… eternos, sabe. Sei que é papo de velho que tem coleção de discos físicos, mas isso me interessa.

Vocês lançaram também tributos a artistas como Engenheiros do Hawaii, Skank, etc. No que esses tributos ajudaram outras gerações a conhecer melhor tais artistas? Os homenageados deram algum retorno? É uma porta de entrada para um novo público, isso é inegável e é um dos fatores que movimenta esses lançamentos. O pessoal do Skank acompanhou toda a produção do tributo Dois Lados, e o Pedro Ferreira, responsável pela produção, tem um olhar aguçado para a divulgação – acho que o Skank nunca tinha saído em tanto caderno de cultura do país como saiu com esse tributo. Eles estavam meio céticos, e fizemos o lançamento (que era duplo) em duas semanas. Após o lançamento do primeiro volume eles ficaram impressionados com a repercussão, e quiseram até se envolver na promoção do segundo volume, mas a coisa já estava toda adiantada da nossa parte. Foi bacana ver que surpreendemos eles. No caso do Engenheiros, que é nosso recorde com 26 mil downloads, o produtor Anderson Fonseca mostrava as músicas para o Humberto, e ele ficou muito feliz o resultado. Chegou a adotar um dos arranjos para tocar ao vivo! O tributo ao Paralamas também foi acompanhado de perto pelo trio numa relação que começou muito antes, quando lançamos um tributo com artistas brasileiros cantando músicas de artistas latinos, e o Herbert nos mandou um vídeo elogiando a iniciativa e dizendo o quanto era importante nos aproximar dos países vizinhos.

Como foi produzir esses discos, que com certeza envolveram um trabalho executivo mais detalhado? Alguma história a respeito disso que você se recorde? Como editor e criador do Scream & Yell, tento não envolver tanto na produção porque minha palavra acaba tendo um peso muito forte. Se eu digo “pô, seria legal ter esse artista” parece soar uma obrigação para o produtor tê-lo, então tento deixa-los o mais livre possível para fazer o trabalho que eles querem fazer, e não para atender a minha expectativa. Confio neles e sei que a partir do momento que decidimos dar start em algo, alguma coisa muita boa vai nascer dali.

O que vocês aprenderam com as grandes ou pequenas gravadoras, no que diz respeito a fazer um lançamento? Estamos aprendendo ainda. E mais do que aprender com outros selos, aprendemos com nós mesmos. O trabalho de planejamento que o Pedro Ferreira (que produziu para o Scream os tributos ao Milton Nascimento e ao Skank e, ainda, fora do site, o do Los Hermanos) faz é sublime. Ele começa a me mandar os prints de cadernos de cultura do país e eu fico de queixo caído! É um padrão que eu queria para todos os lançamentos, mas que nem sempre consigo. Queria, por exemplo, que o disco que lançamos com exclusividade da banda portuguesa Os Lacraus tivesse mais repercussão do que teve, mas fazemos o que a gente consegue fazer.

Já pensaram em fazer um lançamento em LP ou CD? Aliás, como vê a presença (ou ausência) do CD no mercado? O lance de participar em editais é exatamente atender a essa demanda. Eu quero! E quero fazer tanto CD quanto vinil. Há público, principalmente para tiragens pequenas, que se transformam em itens de colecionador. Eu sou colecionador. Tenho aqui meus quase 1000 vinis, uns 10 mil CDs, um punhado de edições em boxes. E gostaria de adquirir mais do que tenho adquirido, mas a situação financeira do país não está permitindo extravagancias. Mas que existe público, existe.

Qual a receita para o site Scream & Yell durar tanto, em meio a todas essas mudanças na internet? A receita é ao menos tempo boa e má: ele se concentrar em apenas uma pessoa, no caso, eu. Muitos sites independentes bacanas acabaram por serem projetos de amigos, e quando a coisa desanda, ninguém acaba assumindo. Sites como o Scream & Yell, o Trabalho Sujo e o Senhor F resistem porque são centradas em uma pessoa cada um deles, e ao redor dessas pessoas gira um número enorme de colaboradores que fazem o site respirar. Eu não seria nada se não tivesse um grupo sensacional de pessoas compartilhando paixão por cultura comigo. O site existe por causa delas também. E isso é bom. O ruim é que pesa demais pruma pessoa só tocar isso. Ou seja, não há muita saída: é difícil manter um site em sociedade por muito tempo e é difícil tocar um site sozinho por muito tempo. A segunda funcionou para mim, mas já perdi a conta de quantas vezes pensei “vou acabar com o Scream & Yell”. Durar 19 anos (e contando) é inacreditável e quase um milagre. Porém, vez em quando chega um elogio, um email querido, ou olho algo que fizemos e que me dá orgulho, e um sopro de energia surge. E assim seguimos sabe-se lá até quando.

Fotos: Divulgação

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Qual é a dos dois discos novos de Lana Del Rey?

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Lana Del Rey (Foto: reprodução YouTube)

Lana Del Rey passou tanto tempo adiando e reformulando o próximo álbum que já dava para imaginar que ele nunca chegaria. Primeiro era Lasso. Depois virou The right person will stay. Em seguida apareceu como Stove. Agora a cantora resolveu complicar um pouco mais o roteiro: além de Stove, ela diz que também está preparando um segundo álbum inédito.

A novidade surgiu em uma publicação no Instagram, onde Lana contou que o disco extra nasceu durante o mesmo processo criativo do sucessor de Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd. Segundo ela, o novo trabalho funciona como uma espécie de “companion album”, desenvolvido quase ao mesmo tempo que Stove.

  • Os bastidores do raro Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, que ganha lançamento oficial

A cantora também afirmou que esse segundo disco surgiu das transformações pessoais e criativas que viveu nos últimos quatro anos, funcionando como uma espécie de contraponto ao álbum principal. Se tudo correr como planejado — e essa ressalva é indispensável quando o assunto é cronograma de Lana Del Rey — os dois discos devem ficar prontos em cerca de um mês para seguir para a prensagem em vinil.

Ela também afirmou que ambos já têm capas prontas e descreveu os projetos como algumas das obras de que mais se orgulha. O álbum principal, Stove, continua reunindo os singles Henry, come on, Bluebird e White feather hawk tail deer hunter, além de outras músicas que ela vem mostrando ao vivo nos últimos meses. Tudo indica que First light, single lançado como single da trilha sonora do jogo 007 First Light, escrito em parceria com David Arnold, é só um projeto à parte e não estará no disco.

Embora Lana ainda não tenha confirmado um título para o álbum companheiro, fãs passaram a chamá-lo de Spyda após identificarem esse nome em uma das artes divulgadas pela cantora nas redes sociais (aliás, no Reddit, tem fãs reclamando que a imprensa tá caindo rapidamente numa suposição deles mesmos, os fãs)

Ainda não há datas de lançamento para nenhum dos dois discos. Mas, considerando o histórico recente da cantora, talvez seja prudente evitar tatuar qualquer título no braço até que eles realmente apareçam nas plataformas de streaming. Afinal, se um álbum já mudou de nome três vezes antes de nascer, nada impede que um quarto nome apareça antes do play.

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Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

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Peter Hook: "Roubamos muito o Kraftwerk"

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.

Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.

Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.

O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.

Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.

Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.

Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.

Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.

A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.

Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.

E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.

Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.

Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.

Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.

Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.

Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.

Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.

Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.

O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.

O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!

Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.

Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).

Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.

A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.

Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados ​​de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.

Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.

Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.

Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.

Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.

Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.

O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.

Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.

Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.

Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.

Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.

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