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Cinema

Rindo À Toa: o humor no pós-abertura em documentário

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O humor da era da abertura, no começo dos anos 1980, tinha varias caras e turmas. Tinha a galera do jornalismo (O Pasquim), das revistas e jornais humorísticos (Casseta Popular e Planeta Diário), os grupos de rock e MPB (Ultraje A Rigor, Blitz, Premeditando O Breque) a turma do teatro besteirol – e essa profusão de galeras e projetos que provocavam e testavam limites estendeu-se até bem recentemente, com a turma do Hermes & Renato, na MTV. Foi com a intenção de reportar esse período em que a censura estava chegando ao fim e parecia não haver limites para a gozação, que o “seu casseta” Claudio Manoel, ao lado de Álvaro Campos e Alê Braga dirigiram o documentário Rindo à toa.

O filme chegou aos cinemas trazendo entrevistas com boa parte da geração que fez o Brasil rir a partir dos anos 1980: Casseta & Planeta, Angeli, Laerte, Regina Casé, Evandro Mesquita, Roger Moreira (Ultraje), Marcelo Tas, Marisa Orth, Pedro Cardoso. Além de muitas imagens de Bussunda (1962-2006). E a produção mexe num tema que faz muitos humoristas, novos e antigos, rirem de nervoso: e aquelas piadas politicamente incorretas que o Casseta & Planeta fazia nos anos 1980? Como seria, hoje, mexer naquele tipo de vespeiro? Mais: como ver aquilo com os olhos de hoje em dia?

Bati um papo com Claudio Manoel para o jornal O Dia – onde trabalho – a respeito do filme. Segue aí o papo na base do pingue-pongue, com todas as motivações por trás da história, e toda a contextualização que o humor daquele período, feito numa época em que o número de bundas a chutar parecia interminável, merece.

POP FANTASMA: Afinal, como começou esse filme?
CLAUDIO MANOEL: Bom, comecei a discutir esse projeto com o Álvaro Campos a partir de um convite da Globo Filmes. Depois chamamos o Alê Braga e o projeto deve gerar uma trilogia sobre o humor. O primeiro filme foi sobre a época do regime militar, o outro vai ser sobre o humor de hoje, e ainda não entrou em produção. O conceito básico do Rindo à toa é que a gente tinha saído da ditadura militar e não havia nenhuma ferramente de controle – que sairia e ficaria na mão da sociedade, o que é um troço até muito vago. Só que grande parte da sociedade, naquela época, queria mais era tirar a tampa, botar para fora o que estava sufocado ou guardado durante tanto tempo. Começamos de cara com a intenção de mostrar que no Brasil nunca houve uma época tão livre, todo mundo queria testar os limites do humor.

Rindo À Toa: o humor no pós-abertura em documentário

Cartaz do filme

E o filme não se limita a mostrar o humor puro e simples, ele vai para a música da época… Sim. Juntamos com o rock da Blitz, do Ultraje A Rigor. Dentro da cena paulista tinha o Premeditando o Breque, a turma do Lira Paulistana, o teatro besteirol que era o pós-Asdrubal. Essa turma já vinha chutando seus baldezinhos, radicalizando o negócio do humor do cotidiano, comportamental. Você tem também uma cena de cartum, de quadrinhos, fortíssima. E tem a coisa da TV, mesmo que seja no mainstream – a Globo é até hoje o maior produtor de audiovisual, mas na época ela queria ser vanguarda. Não que hoje não queira. Mas é diferente o querer estar na moda hoje e o querer estar na moda naquela época. Você naquela época queria chutar o balde da moda, queria incomodar. Havia uma ideia de que incomodar era legal. Parecia meio pretensioso, mas era aquela coisa de respirar um pouco. Quando o certificado de censura sai de cena – e a gente sabia até o nome do censor, Solange Hernandez, Coriolano Fagundes, parecia coisa de cinema – fica um vácuo de controle, rola de tudo e depois chegam os controles de novo. Primeiro dentro da mídia, com os feedbacks diretos: “Ah, não sou eu que estou proibindo, o povo que não gosta”. Todo mundo fala em nome de uma audiência, de uma massa, que começa a dar like e deslike e dependendo do peso que tiver, ela derruba.

Isso tá cada vez mais claro com o Twitter… Tem trollagem dos dois lados. Tem o camarada anônimo que fica trollando até conseguir irritar a celebridade, o alvo. E tem a ideia de programa em que você fica sendo atacado. Tem o que aconteceu com o Woody Allen, uma coisa em que você tem que dar o benefício da dúvida e o julgamento não tem fim. Antes você tinha o julgamento por calúnia, duração da pena. E tem esse julgamento da internet. Você tem um coisa de hiperliberdade pro criador e tem a hiperliberdade pro consumidor. Todo mundo é mídia, até mesmo o cara que te assiste e tem 50 mil seguidores. Isso tudo mudou pro bem e pro mal. O bom é que um jovem comediante do Piauí pode ficar famoso, vitorioso e rico. Ele pode fazer um vídeo no quarto e usar todas as ferramentas. Já pro mal, tem o controle: “Não pode, não deixo”. Você querer interditar o outro. Pô, você discordar de fulano já é discurso de ódio.

No filme tem uma fala do Hélio de La Peña em que ele diz que as pessoas estranham o que a turma do Casseta fazia naquela época, queriam que fosse diferente, que as piadas não fossem tão politicamente incorretas, mas o contexto era diferente. Falando nisso, como você vê o humor feito hoje. Ainda há limites a testar, como naquele período? Por partes: sempre teve, de uma geração sobre outra, esse olhar de superioridade. É da idade, você olha os caras mais velhos como ultrapassados. Até um chimpanzé bem treinado pode fazer um julgamento. O complicado é você julgar antes, ou querer olhar com a régua de hoje a criação daquela época. Havia pautas que simplesmente não existiam, a conversa não era essa. O discurso que existe hoje é importante. Tem muita pauta evolutiva e muita pauta involutiva, muito discurso que fica interditado. Tem muito mais “não pode” do que na nossa época e talvez até mais do que na própria época da ditadura militar.

Rindo À Toa: o humor no pós-abertura em documentário

Reinaldo e Hubert no filme

Vem de todos os lados. E ainda tem uma mitologia, uma autopropaganda de que o pior “não pode” vem de cima, dos poderosos. Você acaba se sentindo mais heroico. Mas porra nenhuma. Sempre houve isso, desde o teatro grego. O cara ia lá e te avaliava na sua cara. Só que hoje o cara que nem te assistiu fica puto contigo. Desafios e limites têm sim, mas no humor você tá sempre no fio da navalha, porque tem o quanto você tá esgarçando os limites da caretice e o quanto você tá sendo escroto. O melhor parâmetro pra isso sempre foi a risada. O problema é que às vezes você é escroto, o cara fica envergonhado da risada que deu e fica puto contigo (risos). Mas um humor que não pode incomodar ninguém, que tem que ser macio, sem arestas… Isso é muito infantil e infantilidade tem limite de idade. Você tem que ser adulto. Todo mundo quer muita proteção. Fica todo mundo doido: “Ahá, peguei uma ofensa!” Pô, tem um negócio chamado microagressão. Brother, microagressão na história da humanidade chama-se frescura! Tem muitas coisas nisso de falar de identidades, de nichos. É algo que cria muitas regras e muito antagonismo em relação a outro nicho. Fica muito fracionado. É difícil agradar a todos. A gente ficou 20 anos no ar e desses anos, uns 17, 18, a gente era não o programa de maior audiência de humor. A gente era o programa de maior audiência da Globo. Muita gente fala que comentava a piada no dia seguinte na escola…

Isso não existe mais. Não existe mesmo, é mais fracionado. Os americanos vivem isso há mais tempo por causa da TV a cabo. Não existe mais o “tá passando na telinha”. A telinha hoje é o celular.

Falando nisso, vocês lançaram um canal no YouTube. Como ele tá indo? Olha, nem posso falar muito porque sou um dos mais bissextos. Só não perco pro Reinaldo porque ele se aposentou. Para mim é mais uma forma de encontrar os amigos, jogar uma pelada, falar besteira. Você está numa seara de concorrência enorme, com gente que é 40 anos mais nova que você. Na Globo, a gente tinha muita força de produção, né? Escrevia um texto na sexta-feira e na segunda já tinha 40 cangaceiros e 50 cavalos esperando a gente. Isso distorce o ser humano. O canal tem ainda uma base de inscritos pequena, a plataforma tem uma faixa etária diferente. Mas é um lugar pra encontrar os fãs. A gente fez a série do Multishow (Procurando Casseta & Planeta) que teve duas temporadas e foi muito legal, fez um livro sobre história do Brasil – cada um na sua casa. Eu fui fazer documentários e eles ficaram mais unidos. O Marcelo Madureira é que é o apaixonado pela área da internet, tem uma empresa de internet, faz o canal do Pastor Arnaldo…

E essa turnê de 30 anos que vocês vão fazer? Na verdade esses trinta anos… Tem vários “começos” aí: quando juntou Casseta & Planeta, quando começou a fazer show, a gente parou de fazer show há uns 20 anos, quando o programa passou de mensal para semanal. E nós somos o único grupo de humor em que redação e elenco eram a mesma coisa, o que fez com que a gente imediatamente parasse de fazer show. Não tinha mais tempo.

Verdade que o Reinaldo não vai participar dessa turnê? Você falou lá atrás que ele se aposentou… Sim, sim. O Reinaldo é um veterano, foi editor do Pasquim, e ele sempre tinha deixado claro o desejo de que, quando parasse tudo, fosse ficar apenas como músico, tocando jazz, que era o que ele realmente queria fazer. Ele topou participar da série do Multishow como ator, recebia o texto e um abraço. Quando fizemos um projeto de TV (para a Rede TV!, cuja viabilidade comercial ainda não foi aprovada pelo canal), ele deixou bem claro que o lance dele agora era música. Ele toca na noite e se diverte, mas turnê nem pensar. Convencemos ele a fazer uma participação em vídeo no nosso show, mas viajar pra fazer show de humor… o véio não está mais nessa.

https://www.youtube.com/watch?v=UVb4NAH00rw

Aliás, são trinta anos da gravação do LP Preto com um buraco no meio. Quais são as lembranças que você tem dessa época? Foi tudo ótimo. A gente pegou o último ano da isenção do ICMS para indústria fonográfica. Isso significava em outras palavras que não tinha orçamento, tinha um monte de isenções fiscais. Conseguimos fazer um puta time, cada faixa gravada pelo creme da música: Djavan, Carlinhos Brown no primeiro disco do qual ele participou quando veio pro Rio. Minha ex-mulher era produtora do disco, eu chegava cedo no (estúdio) Nas Nuvens para gravar e encontrava lá Arthur Maia, William Magalhães, Celso Blues Boy… Nenhum de nós era cantor, a gente fez até uma aulinha, mas era bacana. Na época do Preto, já culmina ali um show que vinha fazendo sucesso pra caralho que era o Eu vou tirar você desse lugar. Começamos no Jazzmania, fomos para o Canecão e isso gerou o convite da Warner para gravar, e do Boni pra fazer o camarote da Globo no Carnaval 1990.

https://www.youtube.com/watch?v=RKs_NCX3HFk

Foi a primeira vez em que aparecemos na frente das câmeras. Até então a gente era autor e fazia show, tinha aberto para o Barão Vermelho no Circo Voador. O show começou a ficar cult. Cazuza foi nos bastidores, ele foi ver a gente bem doentinho com a Maria Zilda, o Caetano. E o André Midani chamou a gente para fazer o disco. Ele estourou com duas músicas. Uma delas foi Mãe é mãe, a paródia do Tim Maia que a gente fazia, e que tinha um refrão que hoje seria completamente proibido. Mas nem era uma coisa anti-mulher, era uma discussão de casal. Fizemos até uma versão chamada Pai é pai, com “homem é tudo viado”. Tocava só no show, não tocava palavrão no rádio… Mas teve Tô tristão, um “samba exaltação” sobre um cara que se fodeu. Essa tocou pra caralho em rádio, foi a primeira vez que rolou “eu me fodi” e “caralho” em rádio.

Tô tristão teve uma versão censurada, com “tô sofrendo pra cacete”, não teve? Teve. A gente começou a ser chamado pra tocar em TV e a única que dava pra tocar no Xou da Xuxa – ela adorava o disco – era o Tributo a Bob Marley. Quando a gente começou a ter demanda de programa, a Warner pediu para a gente fazer uma versão palatável de Tô tristão. Era algo como “tô sofrendo pra canário” (risos). E a gente tocou isso no programa da Angélica (o Misto Quente, na Manchete). Uma coisa de bastidores dessa gravação é que o produtor levou a fita junto, só que levou uma fita que tinha a música original, com os palavrões. E ficaram todas aquelas crianças ali, a gente achando que ia entrar a versão “família” (risos)… O título do disco foi porque a gente estava gravando, os repórteres iam lá perguntar como estava o disco, e a gente falava que era “preto com um buraco no meio”. Levantaram que o nome do disco era uma questão racial, alusão ao negro baleado…

O Tim Maia ficou puto com o título do disco, não? Disse que ia fazer uma música chamada Branco com um buraco na testa. Ele ficou puto mesmo por causa da imitação que o Bussunda fazia dele. Uma vez o Tim deu bolo no Domingão do Faustão e ele chamou a gente pra tocar, e ficou o programa inteiro falando: “O Tim Maia vem, hein? O Tim Maia vem!”. Na hora em que anunciaram o Tim, entrou o Bussunda. Quando acabamos o número, a produção estava de olho arregalando dizendo que o Tim ia lá dar um tiro na gente e matar o Bussunda. O Bussunda falou: “Mas ele garantiu que vem? Então ele vai faltar!” (risos)

Como você se descobriu documentarista? Eu estava com comichão de trabalhar com coisas fora do humor e da TV. Comecei a fazer o documentário do Wilson Simonal (Ninguém sabe o duro que dei, com Micael Langer e Calvito Leal) e começou como uma coisa que me interessava, uma puta história que nunca tinha sido contada. Se eu partisse para a ficção ia ser mais demorado: você tem que ter um roteiro de ficção bom, diálogos bons, treinar o elenco… Nem eu nem quase ninguém no Brasil sabe fazer isso. Documentário já seria mais fácil. Foi uma loja que eu abri, mostrei que podia fazer uma coisa diferente do humor. Só foi penoso por causa da legislação brazuca, direito de imagem. Uma coisa é você filmar gente na rua e pegar a autorização. Outra é fazer sobre a vida de um cara. Direito de imagem no Brasil é hereditário, você passa pro neto, pro tataraneto do cara. A imagem é tida como algo diferente do privado, às vezes a imagem foi feita à força… E meu maior medo era a legalização do uso da imagem da Sarah Vaughan, que tem no filme.

Como foi? Eu fui pro escritório que a representava em Nova York, um representante ficou jogando pro outro, até que um cara me respondeu que eu tinha que comprar a imagem do producer. Eu falei: “Mas eu já fiz isso!”. E o cara: “Então por que você tá me procurando? A imagem é do produtor!” Eu tinha comprado a imagem do espólio da Rede Tupi e morreu aí. Aqui você tem que comprar a imagem e ver todo mundo que aparece na imagem para autorizar. Dá uma falta de saco de fazer. Na hora pensei: “É o primeiro e último!”

Complicado… Mas com a Lei Carmen Lucia, o “cala a boca já morreu”, me animei de novo. Achei que o tema da cena de humor seria um facilitador, porque não tô correndo atrás de podre da vida de ninguém, não é uma biografia. É um documentário-comentário sobre o assunto, e me deu motivação de começar a fazer. Logo depois pintou a oportunidade de fazer um documentário sobre o Chacrinha, que fiz com o Micael Langer. Mas tenho uma produtora e tenho projetos tanto de streaming com outras produtoras, desde programas científicos até série documental.

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In-Edit Brasil 2024: 15 filmes que você não deve perder

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In-Edit Brasil 2024: 15 filmes que você não deve perder

Pena que o festival In-Edit Brasil, dedicado a documentários musicais, só rola em São Paulo. A 16ª edição do evento começa nesta quarta (12), vai até o dia 23, e acontece em diversas salas (com sessões gratuitas e até R$ 10), com mais de 60 filmes na programação, de diversos países. Além da variedade musical que sempre acontece todos os anos, muitos filmes só serão exibidos no Brasil graças ao festival, que já entrou para a lista de eventos favoritos de todo mundo que é viciado em música (e em detalhes sobre história da música, que são o combustível do evento).

Você fica sabendo de tudo que rola na edição 2024 do In-Edit aqui. Dá vontade, claro, de assistir aos 60 filmes, mas segue aí uma listinha bem pessoal de 15 produções que ninguém deve perder. Importante: plataformas parceiras do festival irão exibir alguns filmes – confira toda a programação delas aqui. E nem só de cinema vive o In-Edit: o festival tem uma prograação paralela que inclui encontros, master classes, debates, apresentações musicais exclusivas, sessões comentadas, a tradicional Feira de Vinil e, pela primeira vez, uma Feira de Livros, com centenas de títulos sobre música e cinema a preços especiais.

Devo
Chris Smith | Estados Unidos | 2024 | 95’
Poucas bandas conseguiram unir a crítica social e os hits radiofônicos como o Devo. Surgida em Ohio, a banda começou a se infiltrar na cultura pop americana com o hit Whip it. Sua história é contada através de um turbilhão de imagens de arquivo lo-fi, sequências de imagens rápidas e um ritmo vertiginoso. Filme de abertura do In-Edit Brasil 2024.

Black Future, Eu Sou O Rio
Paulo Severo | Brasil | 2023 | 77’
Eu sou o Rio, álbum de estreia do Black Future, esteve em todas as listas de melhores lançamentos de 1988. Sucesso de crítica, foi ignorado pelo público e nunca foi relançado. Com entrevistas feitas aos vinte anos de lançamento do disco, seus ex-integrantes e pessoas próximas esmiúçam a história da banda.

Black Rio! Black Power!
Emílio Domingos | Brasil | 2023 | 75′
Emílio Domingos se debruça sobre a cena dos bailes black surgida no Rio de Janeiro nos anos 1970. Com depoimentos de Dom Filó, figura fundamental no surgimento da cena, e de outros personagens, conhecemos uma história de afirmação que levava milhares de jovens pretos para dançar e cantar: “I’m black and I’m proud!”

Luiz Melodia – No Coração Do Brasil
Alessandra Dorgan | Brasil | 2024 | 85′
Injustamente taxado como “maldito”, Luiz Melodia foi um dos maiores artistas surgidos no Brasil. Através de diversas imagens de arquivo, ele conta sua trajetória, desde a infância nos morros do Rio de Janeiro, o início da música, passando pelo sucesso radiofônico, os conflitos com gravadoras e com o showbiz.

O Homem Crocodilo
Rodrigo Grota | Brasil | 2024 | 84’
Um dos expoentes da Vanguarda Paulistana, Arrigo Barnabé é o foco desse filme-experimento que aborda seus anos em Londrina, antes de se mudar para São Paulo. Com uma mistura de interferência sonoras e visuais, o diretor Rodrigo Grota apresenta o inconsciente estético na obra do criador de Clara Crocodilo.

Germano Mathias – O Catedrático Do Samba
Caue Angeli e Hernani de Oliveira Ramos | Brasil | 2023 | 70’
O paulista Germano Mathias se tornou ícone de um estilo musical que misturava muita malandragem e poesia. No filme, acompanhamos Germano contando sua vida, trajetória e nos trazendo lembranças de uma cidade que, se não existe mais, ainda está oculta de nossos olhares distraídos.

Moog
Hans Fjellestad| Estados Unidos| 2003| 70’
Robert Moog dedicou sua vida a pesquisar e difundir instrumentos eletrônicos, especialmente os sintetizadores modulares. Neste documentário, essa figura lendária compartilha suas ideias sobre criatividade, design, interatividade e espiritualidade. Filme vencedor do In-Edit Barcelona 2004.

Na Terra De Marlboro
Cavi Borges | Brasil | 2024 | 50’
DJ Marlboro é, para muitos, o criador do funk carioca e até hoje é um dos principais divulgadores do gênero. Habitué do In-Edit Brasil, o diretor Cavi Borges conta sua trajetória com depoimentos dados pelo próprio Marlboro e muitas imagens de arquivo.

Carlos
Rudy Valdez | Estados Unidos | 2023 | 87 min
O filme narra a vida do virtuoso guitarrista Carlos Santana, desde a infância até o estrelato internacional, entrelaçando entrevistas com o protagonista e sua família com imagens de arquivo recém-descobertas, além de sua lendária apresentação em Woodstock.

In Restless Dreams: The Music Of Paul Simon
Alex Gibney | Estados Unidos | 2023 | 210’
O diretor Alex Gibney nos convida a uma profunda viagem através do universo de Paul Simon. Enquanto acompanha a gravação do novo álbum do artista, Seven psalms, o filme traz uma longa narrativa sobre sua carreira, iniciada ao lado do cantor Art Garfunkel, e sua vida pessoal.

Joan Baez: I Am A Noise
Karen O’Connor, Miri Navasky, Maeve O’Boyle | Estados Unidos | 2023 | 113’
Joan Baez esteve na primeira linha do folk norte-americano em seu momento mais vibrante. Figura presente nas manifestações pelos direitos humanos, esteve ao lado de Bob Dylan, em uma relação pouco entendida. Aos 80 anos, ela conta suas memórias, faz algumas confissões e fala de sua vida atual.

Karen Carpenter: Starving For Perfection
Randy Martin | Estados Unidos |2023 | 99’
Karen Carpenter ajudou a fazer a banda The Carpenters um dos grupos pop de maior sucesso dos anos 1970. Sofrendo de anorexia nervosa e bulimia, faleceu aos 32 anos. Este filme nos mostra sua busca pela perfeição e a dinâmica familiar que a levou ao seu trágico destino.

Let the Canary Sing
Alison Ellwood | Estados Unidos, Reino Unido | 2023 | 96’
Documentário vigoroso e alegre sobre a estrela pop dos anos 1980, Cyndi Lauper. Desde as suas origens humildes até à criação da sua própria personalidade de palco – excêntrica, desbocada e deliberadamente ingénua – que a catapultou para a fama.

Simple Minds: Everything Is Possible
Joss Crowley | Reino Unido | 2023 | 88’
Simple Minds é um dos ícones do rock dos anos 1980, mas poucos conhecem a história de amizade por trás de tudo. Da infância pobre em Glasgow, aos palcos mais famosos do mundo, Jim Kerr e Charlie Burchill sempre estiveram juntos. Além deles, diversos astros da música contam o impacto do grupo em suas vidas.

The Stones & Brian Jones
Nick Broomfield | Reino Unido | 2023 | 93′
Brian Jones tinha muitas facetas e ninguém ficava indiferente a ele. Neste documentário, o aclamado diretor Nick Broomfield desvenda a história do ícone dos Rolling Stones que terminou misteriosamente seus dias no fundo de uma piscina, com apenas 27 anos de idade.

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Cinema

Biopics de música que deram (muito) problema: descubra agora!

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Biopics de música que deram (muito) problema: descubra agora!

É melhor assistir à cinebiografia de um artista morto do que assistir a um show com holograma do falecido – ou uma apresentação-tributo ao pranteado. Ok, é apenas uma constatação óbvia, mas serve para justificar a atenção que o mercado de cultura dá às biopics. Especialmente quando o personagem principal é alguém que já não está mais aqui e não tem como engordar seu orçamento e o de seus familiares fazendo mais shows.

Para justificar mais e melhor ainda, só vendo o dinheiro que as cinebios movimentam. Bob Marley: One love, que conta a história do rei do reggae, já está no cinemas desde 14 de fevereiro, e já arrecadou 123 milhões de dólares – quase o dobro dos 70 milhões investidos. Aliás, foram coletados 80 milhões de dólares pouco após a primeira semana, o que faz do filme a segunda estreia de cinebiografia musical mais bem sucedida da história do cinema, abaixo apenas de Bohemian Rhapsody, sobre o Queen (fonte: O Farol).

Enquanto você espera pelas próximas cinebios (uma lista que inclui filmes sobre os quatro beatles, sobre Amy Winehouse e até um filme ainda sem data e elenco sobre Rita Lee), confira aí o outro lado dos biopics em sete exemplos: filmes que geraram críticas negativas, que arrumaram problemas com parentes e amigos dos artistas enfocados, e coisas do tipo.

STARDUST (dirigida por Gabriel Range, 2020). Praticamente ninguém gostou de verdade dessa confusa biopic de David Bowie (epa, numa das raras resenhas de filmes que publicamos, vimos um monte de qualidades nela). O filme acompanha a ida de Bowie aos Estados Unidos em 1971, avisado pela filial norte-americana do selo Mercury de que havia interesse lá por seu disco The man who sold the world. E também narra o nascimento do personagem Ziggy Stardust.

Stardust dá uma dramatizada básica na situação. Ao contrário do que aparece lá, a ida de Bowie aos EUA até que teve lá seus frutos e ele não estava tão desenturmado assim quando resolveu viajar – e olha que. em alguns momentos, o filme rola quase na linha do “um cantor inglês atrapalhado vai pros EUA tentar a sorte e arruma altas confusões”. Mas não custa dizer que a atuação de Johnny Flynn, que interpreta Bowie, foi bastante criticada, e que o filme não traz nenhuma música do cantor (já que o espólio de Bowie não deu autorização), o que foi mais criticado ainda.

THE DOORS: O FILME (dirigido por Oliver Stone, 1991). A biopic de Jim Morrison, com participação de seu grupo, deixou marcas no mercado da música: a discografia da banda voltou a vender como nunca, muitas pessoas que nem sequer eram nascidas quando Jim morreu descobriram seu trabalho. No Brasil a biografia de Jim, Ninguém sai vivo daqui, de Daniel Sugerman e Jerry Hopkins, virou figurinha fácil em livrarias – ainda que tivesse que ser importada de Portugal, na edição da Assírio & Alvim.

Em termos de arrecadação (34,4 milhões de dólares), The Doors: o filme não foi nenhuma maravilha, ultrapassando não lá muito os gastos (32 milhões). Val Kilmer, interpretando Morrison, foi elogiado. Mas a recepção em geral foi bem mediana. Fãs e pesquisadores reclamaram das imprecisões históricas (detalhes pequenos e importantes, como a roupa que Jim vestia ao apresentar Light my fire no Ed Sullivan Show). Ray Manzarek, tecladista dos Doors, disse que “o cara sensível que eu conheci não estava no filme”, chamou o Jim de Oliver Stone de “psicopata à solta”, e reclamou que o filme apresentava os outros Doors como camaradas que o cantor relegava à aba de seu chapéu. E mesmo integrantes do grupo que toparam dar consultoria afirmavam que Oliver Stone tirou tudo de sua própria cabeça e ignorou as colaborações deles. Discussões sobre a qualidade de The Doors: o filme costumam varar a noite até hoje, enfim.

THE RUNAWAYS (dirigido por Floria Sigismondi, 2010). A visão original de Floria sobre a cinebiografia das Runaways é que não deveria ser uma biopic comum, mas um filme no estilo coming of age, mostrando a idade adulta chegando, as pessoas tomando atitudes, lidando com o crescimento da maneira que podem. Foi elogiado pela crítica, mas teve lá sua dose de problemas. Mesmo tendo sido baseado no livro de memórias da vocalista Cherie Currie, a cantora disse que que o filme “é a versão deles da história”. E ainda que tivesse atuado como produtora executiva do filme, a guitarrista Joan Jett não gostou de ver que The Runaways acabou mais centrado na vocalista. “É uma narrativa paralela das Runaways”, disse à Interview Magazine.

PISTOL (dirigida por Danny Boyle, 2022). Você duvidava de que um produto biográfico feito sobre os Sex Pistols provocaria o ódio do vocalista Johnny Rotten? Pistol, série de seis episódios produzida para o canal FX, foi chamada pelo ex-cantor da banda (mais conhecido hoje como John Lydon) de “a merda mais desrespeitosa que tive que suportar”. Por acaso, o texto da série foi baseado em Lonely boy, biografia do guitarrista Steve Jones, o que aumentou a irritação.

“Eles chegaram ao ponto de contratar um ator (Anson Boon) para me interpretar, mas no que esse ator está trabalhando? Certamente não é meu personagem. Não pode ir para outro lugar a não ser o tribunal”, contou na época. Danny Boyle disse que tentou contactar Lydon mas o roqueiro não quis falar com ele. O site Complete Music Update teceu bons argumentos em defesa do filme dizendo que “Boon pode obter material ou insights dos mais de 40 anos de carreira pública de Lydon, com vários documentários e três autobiografias. Não é como se Lydon tivesse mantido segredo”. E toda a banda, incluindo o ex-baixista Glen Matlock, brigou para que a música dos Pistols aparecesse no filme – e conseguiu.

CAZUZA – O TEMPO NÃO PARA (dirigida por Sandra Werneck e Walter Carvalho, 2004). A cinebiografia de Cazuza foi lançada com destaque e fez sucesso. Mas teve lá sua (boa) dose de controvérsia. Ney Matogrosso, que teve um relacionamento com o cantor, não gostou nem um pouco de não ter aparecido no filme (segundo Ney, “depois me disseram que eu era um personagem tão grande que não cabia no filme”). Lobão afirmou que a abertura deveria ter sido a cena que ele narrou em algumas entrevistas, com Cazuza e ele cheirando uma carreira de cocaína sobre o caixão de Julio Barroso (Gang 90).

Já Roberto Frejat reclamou, durante uma entrevista ao jornal O Dia em 2010, que jamais disse a Cazuza que o Barão Vermelho não tocava samba, como aparece numa cena. “Colocaram isso na minha boca, justo eu que sempre dividi o gosto pelo samba com o Cazuza”, contou, deixando claro que era “a única coisa que me incomodava no filme”.

NINA (dirigida por Cynthia Mort, 2016). O ataque a essa biopic da cantora e ativista Nina Simone foi tão imenso e tão traumático que a própria atriz que interpretou Nina, Zoe Saldana (a Gamora do Guardiões da Galáxia) chegou a afirmar que “nunca deveria tê-la interpretado” e que “ela merecia coisa melhor”. O espólio de Nina levou em consideração que a atriz, de ascendência afro-latina, tem pele mais clara e traços bem diferentes dos da cantora. A família não gostou do roteiro e classificou várias passagens como mentirosas – houve consternação especial com a exibição de um relacionamento amoroso entre ela e seu agente, Clifton Henderson (“isso nunca aconteceu”, disse afilha de Nina, Lisa Simone Kelly).

Para tornar tudo mais tenso, chegou a ser publicado um tweet na conta oficial de Nina pedindo à atriz que tirasse “o nome de Nina da boca pelo resto da vida”. Lisa defendeu Zoe (“está claro que ela deu o seu melhor para este projeto”), mas apontou o dedo para a diretora, Cynthia Mort, que seria responsável pelas “mentiras” do filme. Já Cynthia entrou na justiça alegando que sua ideia original foi sequestrada pelos produtores e que ela mesma não decidiu nada.

JOHNNY & JUNE (James Mangold, 2005). Dificilmente filhos de biografados curtem ver como ficaram as histórias de seus pais na tela. Fácil de entender: situações altamente traumáticas (como violências físicas, ausências, porrancas, prisões, traições e demais dissabores familiares) são geralmente colocadas numa fórmula de roteiro hollywoodiano. Muitas vezes, uma “fábula do herói” que quase nunca permite emoções mistas e visões particulares.

O filme que retrata o relacionamento dos cantores country Johnny Cash e June Carter foi elogiado e rendeu uma baita grana. Mas causou tristeza nas filhas de Johnny com sua primeira esposa, Vivian Distin. Walk the line (nome original do filme) mostra June Carter como a grande salvadora da vida do errático Johnny, e exibe Vivian, interpretada por Ginnifer Goodwin, como uma dona de casa histérica que só tirava Cash do sério.

Em 2020, as quatro filhas do casal Johnny e Vivian colaboraram com o documentário My darling Vivian, que escarafunchava o baú da família e mostrava, com farta documentação, que a primeira esposa não apenas era grande incentivadora da carreira do ex-marido, como também havia comido o pão que o diabo amassou com ele. Descendente de italianos, irlandeses e africanos, Vivian foi perseguida por supremacistas brancos quando estava casada com Cash. No dia a dia, desempenhava o papel da esposa que, enquanto o marido dava shows, cuidava dos filhos e da casa (uma propriedade isolada no topo de uma colina, onde volta e meia apareciam cascavéis, das quais ela mesma precisava se livrar). Um caso de filme polêmico que acabou gerando outro filme, enfim.

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Gaiola da Morte: o primeiro (e único) filme de kickboxers made in Brazil

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Gaiola da Morte: o primeiro (e único) filme de kickboxers made in Brazil

Se você era adolescente no final dos anos 1980, quando as videolocadoras se alastraram pelo Brasil afora e se tornaram uma verdadeira febre, você há de lembrar de pelo menos um filme com a palavra “kickboxer” no título: Graças ao sucesso no Brasil de Kickboxer – O desafio do dragão, um dos trabalhos mais famosos do Jean Claude Van Damme por aqui, as distribuidoras enxergaram ali uma galinha dos ovos de ouro e saíram colocando “kickboxer” em tudo quanto fosse possível, espremendo a laranja até o bagaço (com o perdão da metáfora hortifrutigranjeira)

E mesmo películas que não tinham nada a ver com o assunto ganharam títulos escalafobéticos como por exemplo American Ninja 4 (série que fazia razoável sucesso por aqui), que foi lançado nos cinemas e em VHS como O grande kickboxer americano – A aniquilação dos ninjas (!!!) ou a divertida série Operação Condor estrelada pelo Jackie Chan, que era uma espécie de versão bem humorada do Indiana Jones e que aqui se tornou Um kickboxer muito louco. Mas o que pouquíssima gente lembra é que até o Brasil tentou entrar nessa onda, com o obscuro A gaiola da morte (1992).

Quem teve a ideia foi Fauzi Mansur, produtor e diretor de diversas pornochanchadas sem noção na mítica Boca do Lixo, mas que, com a decadência de lá, se viu obrigado a atirar pra todos os lados na tentativa de ganhar uma sobrevida. Primeiro partiu pros filmes de sexo explícito, o que não deu muito certo porque, com o advento do VHS, o pessoal passou a preferir ver sacanagem na privacidade do seu lar. Percebendo que havia errado no timing, dirigiu um filme de terror em inglês para o mercado exterior chamado Ritual of death que também não deu em nada. Já bastante preocupado tanto com a saúde financeira quanto com a falta de perspectivas para o cinema nacional (Collor assumiu e extinguiu a Embrafilme), tentou sua última cartada aproveitando o filão do momento, produzindo um filme de pancadaria.

Para o papel principal, foi chamado Paulo Zorello, que na época era tricampeão mundial de kickboxing pela WAKO (World Association of Kickboxing Organization). OK, ele não tinha nem metade da fama e do reconhecimento que um Anderson Silva ou Vitor Belfort têm hoje em dia, mas era respeitado no meio e volta e meia era capa e/ou dava entrevistas em publicações voltadas às artes marciais. Esse foi seu único trabalho como ator e, assistindo A gaiola da morte é fácil entender o porquê, já que ele era tão expressivo quanto um poste, mas isso não vem ao caso; afinal, era um filme de artes marciais e nisso ele se garantia muito bem.

No elenco temos ainda várias pessoas que quase ninguém se lembra e. como maior “estrela”, Ênio Andrade, que se notabilizou por participar de obras como O olho mágico do amor e Onda nova (filme esse que viralizou no Youtube graças a uma cena onde uma mulher chega para o ex-jogador Casagrande e solta a pérola “eu sou virgem e queria que você me descabaçasse”). Na direção, foi escalado Waldir Kopesky, e isso pra mim beira o incompreensível, haja vista que tudo que ele dirigiu antes foram filmes pornôs de títulos como A noite do troca-troca e Minha égua favorita. Algo assim tinha tudo para não dar certo… e foi o que aconteceu.

O roteiro praticamente inexiste: um certo professor Yago sequestra lutadores de artes marciais dos quatro cantos do Brasil para gravar lutas numa gaiola (daí o nome, dããã!) repletas de armadilhas onde, como diria o Master Blaster em Mad Max 3, “dois homens entram e um homem sai”. Depois ele lucrava vendendo cópias das fitas no mercado negro. Desesperada com o sumiço de seu irmão, que foi raptado pelo tal Yago, uma mulher (interpretada pela atriz Claudia Abujamra) vai na academia do Paulo Zorello e pede ajuda a ele (não, você não leu errado; Paulo interpreta a si mesmo!) para descobrir o que houve.

Aposto que você que está lendo essas mal redigidas linhas e consumia filmes de artes marciais nos anos 1990 deve ter achado essa sinopse familiar, não é mesmo? Acredite, há uma razão para isso: Ela é um plágio descarado de O rei dos kickboxers, filme de 1990 que fez um enorme sucesso nos cinemas brasileiros. A única diferença é que na versão americana era um policial quem ajudava a irmã da vítima; já aqui, tudo parece ser um veículo para tentar transformar Paulo Zorello numa espécie de Van Damme tupiniquim.

Nesse momento você amigo(a) leitor(a) deve estar se indagando “tá, mas e a pancadaria? Funciona?” e eu, com muito boa vontade, vou dizer que sim, embora A gaiola da morte tenha defeitos tão gritantes que às vezes tenhamos que fechar um olho pra conseguir relevar. Os cenários são paupérrimos (parecem saídos do Chapolim ou do Chaves) e os efeitos sonoros, exageradíssimos (Os socos soam como tiros e os chutes parecem chicotadas) Porém, quando o assunto é a porrada propriamente dita, a coisa não deixa nada a dever para seus co-irmãos da época. Zorello, embora seja um desastre atuando, sabia muito bem o que estava fazendo na hora de distribuir sopapos e, quando o bicho pega, ele não faz feio.

A coreografia das sequencias parece um pouco desengonçada, mas se pararmos para pensar que ninguém envolvido na produção tinha experiência anterior com filmes do gênero, até que não está tão mal. E os últimos 30 minutos são simplesmente inacreditáveis, um verdadeiro festival de sopapo para tudo quanto é lado com direito até a um capoeirista que consegue desviar de tiros (!!!!) É insano demais, e, por isso mesmo, hilário!! É ver para crer!!

A lamentar, somente o fato de essa obra ter sido esquecida da maneira que foi. Além de ter passado em poucos cinemas, ainda foi lançado em VHS por uma empresa bastante obscura chamada Key Art e, se mesmo nos anos 1990, era difícil pra caramba encontrá-lo nas videolocadoras, imagina só achar um exemplar dando sopa por aí hoje em dia…para piorar, também nunca saiu em DVD, entretanto uma alma caridosa resolveu colocá-lo na íntegra no Youtube. A cópia não está das melhores, mas quem se importa? Vale mesmo assim como registro de uma época em que o cinema nacional não tinha lá muitos recursos e mesmo assim não tinha medo de ousar!

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