Lançamentos
Radar: Dani Vallejo, Jambu, A Olívia, Dimas e mais novos sons nacionais

Na nossa lista de músicas nacionais da semana, destaque para a brasilidade de Dani Vallejo e Jambu, e também para a musicalidade de todos os nomes escolihos – uma musicalidade que une sons pop daqui e de lá de fora, como a dance music sombria de Dimas, o power pop do A Olívia e o peso antipop do Pranada. Ouça tudo em altíssimo volume!
(Foto Dani Vallejo: Divulgação)
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DANI VALLEJO, “GANA OBSESSIVA”. Se você nunca passou por uma situação de amor que beira a obsessão, dê graças a deus – e a julgar pelo universo pop, o que mais existem são canções sobre gente que não consegue parar de pensar em alguém. O single novo da cantora de grupos como Blastfemme e Esquadrão Sonzera Total vai além disso, e fala de uma paixão em que uma das parte vai fundo demais e a outra resolve sair fora rapidinho – sem deixar de aproveitar bastante antes. O som é pop com beat criativo, conduzido por um riff de violão.
JAMBU, “DEIXA FLUIR”. Conhecidos como uma banda de rock brasileiríssima, os integrantes do Jambu se reconhecem cada vez mais como uma banda de MPB que usa a linguagem do rock. Pelo menos é o que surge nos singles mais recentes do grupo – como Deixa fluir, música de letra positiva, com batida de reggae e intervenções de cuíca. Ela anuncia Manauero, próximo álbum, que sai em abril. Um disco de afirmação, por sinal: o quarteto diz se sentir cada vez mais capaz de representar Manaus (AM), lugar de origem deles.
A OLÍVIA, “ENTRETENIMENTO”. “É uma música metalinguística, ou seja, uma música cujo assunto é o próprio ato de fazer uma música pop. É sobre questionar o entretenimento e os hábitos de consumo”, diz Louis Vidall, vocalista da banda A Olívia, sobre Entretenimento, indie-rock solar que a banda acaba de lançar como single. A ideia do grupo foi fazer algo como Anna Julia (Los Hermanos) ou Vou deixar (Skank), com clima bem sessentista e “feliz” (“mas não na pretensão de ser um mega-hit”, continua). O segundo álbum, Obrigado por perguntar, está a caminho.
BOOGARINS, “CHUVA DOS OLHOS” (AO VIVO). Novidade desta terça (18) para fãs dos Boogarins: saiu a session ao vivo do grupo para a plataforma de descobertas musicais Audiotree. O audiovisual foi gravado em Chicago no ano passado, pouco antes do disco Bacuri, um dos melhores álbuns nacionais de 2024, chegar às plataformas. Destaque para a ótima Chuva dos olhos, indie rock lisérgico com guitarras arrasadoras, que tem um certo quê de samba-rock (Bebeto, principalmente) nas linhas vocais. Mas veja e ouça tudo aí embaixo.
DIMAS, “DIVINO PROFANO”. Lançado pertinho do Carnaval, o single do cantor paulista traz uma sonoridade extremamente influenciada pela faceta mais dark do Depeche Mode (Dimas também conta que entre suas referências estão também Rita Lee, Liam Gallagher e Lana Del Rey). A letra, entre outros assuntos, fala sobre a dificuldade de se manter longe dos padrões na indústria musical (“eu não me vendo, eu não vou ser vendido/e talvez esse seja o preço a pagar”). Em breve sai o segundo álbum de Dimas, Inferno de verão.
PRANADA, “DANÇANDO NA TUMBA”. Lançado por enquanto apenas no Bandcamp, Espanta hype, EP do duo belorizontino Pranada, separa bem as coisas: é rock (e pesado), e não música pop, e que surge “quase como uma afronta ao que está no topo das listas de streamings”, como afirma Z, baterista e vocalista (completa o duo Porquinho, guitarra, voz e synths). A segunda faixa do disco, Dançando na tumba é noise pop dos melhores, pós-punk extremamente ruidoso e sombrio, com guitarras dobradas e pesadas.
TRANSMISSÃO BETA, “STOP (VOCÊ TEM QUE PARAR)”. Quinteto punk gaúcho, com músicas cheias de ruídos e provocações, o Transmissão Beta está preparando um lançamento bem ousado: o EP visual Anarkia no Mercosul, que sai nesta sexta (21). No disco novo, duas faixas inéditas, e a regravação do pré-punk Stop, a faixa mais popular da banda, cuja letra descreve uma visita ao médico que termina com várias ordens: “você tem que parar de fumar, beber, cheirar, transar sem camisinha, jogar no bicho…” e vai por aí.
ANNA GERBER, “LUGAR MAIS ESCURO”. Flutuando entre rock, jazz e blues, mas sempre com uma base pop, o novo single da gaúcha Anna Gerber enfrentou alguns contratempos no lançamento — levou um tempo para chegar ao Spotify, mas já está disponível. E valeu a espera: com uma melodia densa e uma letra carregada de sombras, Lugar mais escuro destaca a voz forte de Anna, que também brilha como vocalista do Azul Delírio, uma das gratas surpresas musicais de 2024.
TAGUA TAGUA feat WHITE DENIM, “LADO A LADO”. Em maio, chega Raio, terceiro álbum do Tagua Tagua. O primeiro single, Lado a lado, nasceu de uma parceria entre Felipe Puperi, mente por trás do projeto, e James Petralli, líder da banda norte-americana White Denim. A colaboração começou com um papo no Instagram e se materializou à distância, resultando em uma faixa que equilibra leveza e profundidade. Com um pop contemplativo e dinâmico, a faixa traz James não só nos vocais, mas também na guitarra, flauta e percussões. O clipe traduz essa atmosfera em imagens: a atriz Bianca Comparato surge em uma praia deserta e, depois, à deriva no mar, com direito a mergulhos (literais e metafóricos, vamos dizer).
BUFO BOREALIS, “PAPA LOU”. O Bufo Borealis é um projeto paralelo de Juninho Sangiorgio, baixista do Ratos de Porão. Mas não espere nada parecido com sua banda original, nem de longe, porque o lance aqui é misturar jazz e viagens musicais – tudo inspirado pelo lado mais desafiador do gênero. O EP Natureza já saiu e vai ganhar resenha em breve aqui no Pop Fantasma – mas por enquanto fique com os metais sonhadores, a vibe lisérgica e o clima de amanhecer total de Papa Lou.
Crítica
Ouvimos: Jenny On Holiday – “Quicksand heart”

RESENHA: Entre luto e descobertas, Jenny On Holiday estreia com synthpop e dream pop oitentista em Quicksand heart, disco íntimo sobre vulnerabilidade e prazer.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Transgressive Records
Lançamento: 9 de janeiro de 2026
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“Coração de areia movediça” é uma boa metáfora para falar de profundidades sentimentais, ou de fragilidades, ou de perdas – e esses três temas surgem o tempo todo em Quicksand heart, estreia solo de Jenny Hollingworth, que faz parte da dupla de synthpop mutante Let’s Eat Grandma.
Jenny, usando hoje o alegre nome de Jenny On Holiday, passou por um acontecimento nada feliz em 2019: seu namorado morreu em 2019 de câncer ósseo. O luto chegou a fazer parte da lista de temas de Two ribbons, último álbum do Let’s Eat Grandma (2022), mas como ela própria disse num papo com o jornal The Independent, era preciso esperar até o momento em que o principal fosse se divertir fazendo música. Quicksand heart tem até um pouco de luto nas letras, mas boa parte do material fala de descobertas pessoais, tanto na vida quanto no sexo, no amor, no trabalho e em tudo que possa mexer com a vulnerabilidade.
- Ouvimos: Nastyjoe – The house
Musicalmente, Jenny abraçou tanto a mescla de synthpop e dream pop, com teclados cintilantes e vibe oitentista evidente, que é quase impossível não pensar em Kate Bush, Fleetwood Mac e The Cure ao ouvir o disco. Essa onda surge na abertura com Good intentions, dá as caras nos riffs de guitarra e baixo da faixa-título e na vibe saturada e sonhadora de Appetite – música que fala bem diretamente sobre apetite sexual feminino, culpa e autoestima.
Every ounce of me, Pacemaker e These streets I know usam teclados gelados para falar de um mundo gelado, em que o estresse acaba virando combustível e a melancolia pode inspirar atitudes e canções. O New Order mais baladeiro e tranquilo dos discos mais recentes dá as caras em faixas como a tristonha Dolphins, além das razoáveis Push e Groundskeeping.
Nem tudo funciona 100% em Quicksand heart e dá para dizer que a segunda metade do disco traz menos canções que conquistam de cara, mas Jenny compensa na ambiência das músicas e na verdade inserida nos vocais e nas letras. O “casamento consigo própria” da capa – e vale dizer que o Let’s Eat Grandma não acabou – vem funcionando.
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Crítica
Ouvimos: Julieta Social – “Julieta”

RESENHA: Entre caos e conforto, o Julieta Social estreia com um pop alternativo aberto a referências, letras afiadas e climas que vão do indie ao soul psicodélico.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Seloki Records
Lançamento: 30 de janeiro de 2026
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Tem muito caos, mas também tem muito conforto no som do Julieta Social – uma banda/mini-coletivo de quatro integrantes, que sempre chama convidados para participar das gravações e tenta fazer com que sua sonoridade seja a mais aberta possível. Tanto que Julieta, o primeiro álbum, pode ser definido tranquilamente apenas como música pop, ou até como pop alternativo, que aponta para várias referências e busca não facilitar tanto as coisas para quem ouve.
- Ouvimos: Vá – Pra domingo (EP)
Julieta é o disco do single Casos de Colômbia, que assume referências de Radiohead e Chico Buarque, mas também mistura emanações de Arctic Monkeys e guitarras em clima de blues pós-punk. A faixa tem participação de Mariana Estol nos vocais, e uma letra que mete o dedo na ferida das expectativas que, muitas vezes, não representam nada (“nunca que você vai encontrar dentro do armário / algo lendário, é tudo vestuário / sabe aquela luz que a gente vê de madrugada / é quase nada, mas satisfaz a alma”).
Abrindo o disco, Casos de Colômbia serve de balizador para faixas poéticas como o soul psicodélico de Nuvem nua, o easy listening esparso de Dorme pra ver se me esquece, o pop rock radicalmente brasileiro de Quem nunca quis demais e Um tempo pra pensar – estas duas lembrando um pouco o som praiano de Lulu Santos e Charlie Brown Jr. Também cede espaço para a vibe sixties de Ce la vie e para o clima alt-disco de Como te dizer, que traz lembranças de Arctic Monkeys, Khruangbin e Mamalarky.
Do meio pro fim do disco, o Julieta Social aposta numa vibe indie-pop que tem muito de Tim Maia (Rubbish shuffle), em climas sonhadores e existenciais (Astronauta, Fome) e num bloco dançante com guitarra base e baixo à frente (Poodle marciano), que serve como demonstração de possibilidades instrumentais do grupo. Em meio a tantas ideias, o Julieta Social faz de seu primeiro álbum uma celebração das incertezas – e da beleza que nasce delas.
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Crítica
Ouvimos: Just Mustard – “We were just here”

RESENHA: Shoegaze fantasmagórico e gótico: o irlandês Just Mustard mistura ruído, poesia e psicodelia em We were just here, disco que foge de rótulos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Partisan Records
Lançamento: 24 de outubro de 2025
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Shoegaze e rock gótico são primos bem próximos, mas em vários momentos, é comum que bandas curtam misturar nuvens de guitarras e climas ensolarados – como se o sol fosse sair a qualquer momento. O grupo irlandês Just Mustard, que tem na voz de Katie Ball uma de suas maiores armas e atrativos, opera numa onda de shoegaze fantasmagórico, como se as microfonias e saturações servissem mais para confundir do que para explicar.
A opção da banda vem dando tão certo que eles já foram escolhidos pelo The Cure para abrir shows, e em We were just here, seu terceiro disco, escapam completamente de qualquer rótulo musical unindo vários elementos. Pollyanna, na abertura, poderia até ser uma canção do The Cure ou até do Jesus and Mary Chain: tem início ruidoso, bateria maquínica, teclados, ruído de vento – como se algo cobrisse tudo – e vocal doce, quase bossanovístico. A letra dessa música, assim como de boa parte do disco, é um primor de poesia e contemplação: “quando você vai brincar / onde os pássaros mais doces choram? / estou vendo, não sonhando / estou vendo, não sonhando agora”.
- Ouvimos: Equipe de Foot – Small talk
Não é escapismo, já que parece um doce encontro com a realidade. E que surge também na viagem sonora fantasmagórica de Endless deathless, no quase trip hop + shoegaze de Silver (cuja letra absolutamente psicodélica diz: “luzes prateadas dançando ao redor do seu rosto / não consigo acompanhar o ritmo”) e no dream pop tranquilo de Dreamer. Já a faixa-título é quase hi-NRG, dançante, com início eletronificado e synthpopizado, só que tudo bastante sonhador e psicodélico – encerrando com uma rajada de microfonia daquelas.
Uma ouvida com atenção no Just Mustard revela que o som deles tem bastante a ver com uma certa onda que tomou conta do rock inglês e norte-americano nos anos 1980. Foi quando de uma hora para outra começaram a falar em neo-psicodelia e várias bandas apareciam unindo climas pós-punk a vibrações bem sixties – bandas como Primal Scream, The Pastels e até mesmo o Jesus and Mary Chain tinham a ver com isso.
Essa onda surge no clima enevoado, quase como se você tivesse dificuldade para enxergar na neblina, de Somewhere. Também está no drone, que chega a lembrar uma orquestra se aquecendo, que toma conta de The steps. Por outro lado, We were just here é inteirinho baseado numa espécie de som de ferro rangendo, que aparece em várias faixas, e ganha mais espaço em Out of heaven, a última faixa. Um lado pós-punk também vai surgindo em canções como Dandelion e That I might not see. Essas faces, juntas e equilibradas, formam o clima sonoro de uma das bandas mais legais da atualidade.
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