Em 2019, o músico, cantor e compositor carioca Pedro Logän tomou contato com a filosofia do pássaro Sankofa, “que na mitologia africana é um ideograma que está com uma semente na boca e olhando para a própria cauda”, esclarece. “Fala sobre olhar para trás de tempos em tempos e não deixar que coisas importantes sejam esquecidas no caminho”. Veio daí a ideia de renascer artisticamente com um novo nome, Logã, que já era para ter sido seu único nome artístico quando resolveu compor e cantar.

“Eu estava deixando para trás a maior parte do meu primeiro trabalho e querendo lançar coisas novas, diferentes daquilo, decidi que esse novo trabalho não pertencia ao Pedro e sim ao Logã”, conta. De lá para cá, Logã veio buscando uma maneira de trabalhar que classifica de “fazer junto”, com vários feats e colaboradores. A afro-brasileira Filha de Iansã, por exemplo, tinha sido lançada pouco antes da pandemia (com participação do músico Glaucus Linx) e retornou em versão remix, em colaboração com o DJ Marcelo Mistake, que deu uma cara house à canção.

ISOLAMENTO

A ideia de revisitar a canção veio justamente por causa da pandemia. Logã diz que no isolamento, começou a fazer músicas, mas que todas traziam uma certa melancolia. “Mas o tempo foi passando e eu fui encontrando minhas formas de me sentir melhor no isolamento. Achei que era hora de levantar a cabeça e fazer um movimento positivo”, conta.

“Escolhi essa porque é uma das músicas mais alegres que lancei na minha vida toda. E talvez uma das que eu tenho mais orgulho de ter feito, tanto pela atmosfera da música – eu amo o carnaval – quanto por ter sido a primeira canção que eu dedicava para uma companheira, agora ex, e que não me fazia me sentir como uma fraude ou piegas”, brinca ele, pensando em remixar outras músicas. “Mas acho que a música tem que ‘merecer’ ser remixada”, diz ele, que ainda pretende lançar um musical infantil em 2021, Um sol para um tempo bom.

POLÍTICA E AMOR

Para as letras, Logã tem uma preferência especial: para ele, toda arte deve ser política e “falar do povo, da fé, mesmo na hora de falar de amor”, diz. “Faço política porque amo as causas das minhas lutas. Quando canto uma louvação para Orixá em uma canção, eu sei bem o quanto isso toca o coração de quem tem as mesmas ligações espirituais que eu. E, possivelmente, toca por lembrar o quanto nós que somos de candomblé vimos pessoas tendo vergonha da sua religião por conta dos preconceitos. Hoje, também, quando falo de amor ou de perda, me refiro à mulheres por quem fui apaixonado no seu todo, com inteligência, talentos, ativismo”, recorda. “Enquanto boa parte da música pop fala do corpo, eu prefiro falar da poesia e da força que vejo”.

CURA

Em 2014, Logã foi pesquisar o coco de Pernambuco e lembra ter passado a compor de outra forma, “com uma conexão entre coração e garganta que não tinha antes”, conta. A ligação religiosa já estava presente em sua música, mas as coisas mudaram.

“Senti uma ligação muito forte com a terra, quase espiritual. Eu tenho as minhas teorias improváveis para isso: uma delas é que uma das etnias indígenas que sou descendente sejam dessa região, Caetés ou Tupinambás talvez. Mas eu não tenho nenhuma informação para isso, é só achismo. Se não foi dessa ancestralidade com uma ligação de sangue, foi ancestral de algum jeito”, conta. “Não importa mais o que eu esteja cantando, sobre que tema é. Se eu estou cantando é porque é importante para mim, e isso é um processo espiritual e também de cura”.

Ele conta que demorou a levantar bandeiras em relação ao feminino e a negritude por uma questão “de lugar de fala”, como explica. “Cantar cantigas de umbanda e candomblé era uma forma de falar da cultura afro sem ser negro, já que sou adepto e é tão sincero para mim. Quando a luta das mulheres começou a ganhar cada vez mais visibilidade, eu procurei uma forma mais clara de aderir”, conta. “Eu falo através da arte – música, poesia e entrevistas – sobre a quebra de estruturas e hábitos do macho histórico. Quero, dentro do meu humilde alcance e da minha produção ainda pequena, trazer essa reflexão para outros homens”.

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