Crítica
Ouvimos: “Formal growth in the desert”, do Protomartyr

- O Protomartyr é uma banda de Detroit (EUA), formada em 2010, e que já lançou seis álbuns.
- O grupo é formado por Joe Casey (vocais), Greg Ahee (guitarra), Alex Leonard (bateria) e Scott Davidson (baixo).
- A banda ficou um pouco conhecida no Brasil por causa de Processed by the boys, música do disco Ultimate sucess today (2020), cujo clipe recriava uma cena do programa de auditório Canal Livre (a briga entre o personagem Gil da Esfirra e um fantoche, Galerito). O Canal Livre foi o mesmo programa que inspirou a série Bandidos na TV, da Netflix.
- O grupo gravou por alguns anos pela Hardly Art, gravadora criada como sub selo da Sub Pop (aquele mesmo selo, pilar do grunge). Estão na Domino desde 2017 e por lá, lançaram o novo álbum.
Tem muito de bandas como PiL, Pixies e Breeders no som do Protomartyr, uma das bandas recentes que carregam com mais (digamos assim) felicidade o rótulo de pós-punk, mais até como uma senha de compreensão do som deles do que como uma definição fechada. Há também muito shoegaze e pós-hardcore ali, nos arranjos de guitarra base e nos ritmos quebrados de baixo e bateria. Complementando, o grupo de Detroit tem em seu vocalista e letrista Joe Casey um excelente contador de histórias. Aliás, vale ouvir as músicas de discos como o novo Formal growth in the desert (Domino) com atenção especial às letras, bastante ácidas.
O Protomartyr, você deve ser lembrar, é aquela banda que se inspirou há alguns anos num bizarro programa de auditório brasileiro para fazer o clipe de Processed by the boys – um clipe irônico para uma canção que tocava num tema sério (a política de imigração do governo Trump e a militarização-policialização do dia a dia). Da mesma forma, o disco novo fala de “desertos emocionais” (na definição de Casey), com melodias densas e pesadas. Talvez para atenuar, a banda chegou a lançar um vídeo, The Marty Singer Telethon, em que mais uma vez fazia uma brincadeira com programas de auditório (no caso, os históricos teletons, copiados aqui pelo SBT).
Mas Casey mais uma vez toca em temas existencialmente pesados, como a morte da sua mãe (em Graft vs Host, do verso “ela gostaria que eu tentasse encontrar a felicidade em um céu sem nuvens”), esforços para parar de fumar (Polacrilex kid), problemas na adolescência (Fun in hi skool), conformidade diante de injustiças (We know the rats, com base sonora shoegaze e vocais quase declamados ao estilo de Joe Strummer). Um disco punk que soa introvertido e pensativo, mesmo quando surgem guitarras pesadas e canções para ouvir no volume máximo.
Nota: 8,0.
Crítica
Ouvimos: Dwarves – “Free cocaine (1986-1988)” (coletânea)

RESENHA: Relançada nas plataformas, Free cocaine (1986-1988) reúne 37 faixas que documentam a transição dos Dwarves do noise rock para o punk e hardcore de músicas curtíssimas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Greedy Media
Lançamento: 21 de agosto de 2026
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Coletânea lançada originalmente em 1999 e agora de volta às plataformas, Free cocaine (1986-1988) não é o disco mais recomendável para quem quiser se aventurar no mundo punk-podre dos Dwarves. Tudo bem: na verdade, os Dwarves estão bem longe de serem uma banda “recomendável”.
Desde o começo, os Dwarves funcionam como um grupo especializado em chocar, em ofender, em mexer com o que não deve ser mexido – dá pra dizer que, muitas vezes, eles só não foram exatamente “cancelados” porque certas letras da banda são tão escrotas que não dá para olhar aquilo da mesma forma que qualquer pessoa olharia arte “normal”.
Vai daí que Free cocaine (e veja lá que título…) vai ainda mais fundo por lembrar a época em que eles eram apenas uma banda de noise rock “em sua forma mais indomável”. As trinta e sete faixas do disco (em pouco mais de cinquenta minutos!) oferecem ruídos, títulos porcos, experimentalismo podre, “produção sem nenhum investimento, palavrões ao máximo” (palavras deles).
Após 1990, os Dwarves se tornariam pouca coisa mais populares assinando com a Sub Pop – o que na prática, garantia que as polêmicas deles chegariam a mais gente. Não é assunto pra Free cocaine, que abre com uma torrente de microfonias na faixa-título, em Dead brides in white (com guitarras tão ruidosas que nem se ouve a bateria), em Let’s get pregnant e em todo o material do EP Lucifer’s crank, lançado à própria custa em 1988 e relançado depois pela Rough Trade.
Nobody likes me, uma das músicas dessa fase, parece coisa de Calvin & Haroldo: “Ninguém gosta de mim / todo mundo me odeia / então vou sentar e comer minhocas”. Mas o disco documenta a passagem entre duas encarnações dos Dwarves: de um grupo de garage barulhento para uma máquina de punk/hardcore de músicas absurdamente curtas. O material também é bastante fragmentado, já que reúne músicas de diferentes sessões, versões alternativas, gravações lançadas oficialmente e material dos singles.
As faixas vão ganhando mais cara de “canção punk” em faixas como as inacreditáveis I wanna kill your boyfriend, Sit on my face e That’s rock’n’roll – dos versos “bem, eu tinha 16 anos e estava farto da escola / eu não sabia o que queria fazer / matei meus professores (…) / eu tenho uma agulha, eu tenho uma colher / eu tenho uns caras, eles estão lá no meu quarto”. Tem ainda a “cirurgia punk” que a banda fez em I’m a man, de Bo Diddley, e o cruzamento entre punk e parede de barulho do EP Toolin’ for a warm teabag (1988), incluído aqui.
Do meio para o fim de Free cocaine (ou seja, lá pena vigésima faixa), tem até uma subversão de Surfin’ bird, dos Trashmen – aquela imortalizada pelos Ramones. Só que a banda fez o favor de mudar o nome para… Motherfucker. Enfim, o clima dos Dwarves era essa loucura para poucos aí, com direito à migração para o garage-punk em faixas como I’m not talking e Crawl – esta, um exemplo de psicodelia de araque das boas.
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Crítica
Ouvimos: Sleep – “Hempispheres”

RESENHA: Sem Matt Pike, o Sleep retorna com Hempispheres, mas o novo disco de stoner e doom psicodélico aposta em riffs e atmosferas que soam mais repetitivos do que hipnóticos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 6
Gravadora: Third Man Records
Lançamento: 3 de setembro de 2026
Enquanto o cofundador do Sleep, Matt Pike, leva adiante o High On Fire – com direito a um show agendado no Brasil – a banda veterana de stoner + doom, conhecida pelo disco clássico Dopesmoker, continua sem ele, numa nova formação em que resta apenas o baixista e vocalista Al Cisneros como membro original. O novo guitarrista do Sleep é Bubba Dupree, do Void. Na bateria, está o eternamente ocupadíssimo Dale Crover, que toca também no Melvins e no Redd Kross. E foi essa turma que entrou em estúdio para gravar um inesperado novo disco do Sleep, Hempispheres.
Um novo disco de uma banda tão sui generis (tudo neles gira em torno de fumar maconha o dia inteiro, usando apetrechos que vão desde maricas comuns até cálices de coco, e fazer músicas sobre isso) envolve muita coisa: as agendas dos músicos, a disposição para permanecer à cata de aventuras esquisitas, a vontade de permanecer fazendo cagada de maneira profissional.
O lance é que Hempispheres é “profissional” demais para os estranhos padrões de uma banda que já quis abrir seu contrato com uma grande gravadora lançando um disco com uma só faixa, de mais de uma hora (Dopesmoker, engavetado pela London em 1995, e só lançado com o “corte definitivo” em 2022). Os discos anteriores do Sleep eram bons porque eram repetitivos – aquela bem vinda repetição “chapada”. Hempispheres parece repetitivo por falta de ideias melhores para riffs, solos e ambiências sonoras.
O material de Hempispheres soa mais como uma sobra de discos anteriores ou uma mixtape – até mesmo na decolagem stoner + doom de Have spacesuit will travel e no clima indiano de The morrisist, faixas que tinham tudo para serem bem legais. Se você já atravessou os 60 minutos de Dopesmoker feliz da vida, vai estranhar sentir tédio nos dez minutos de Arrival of the industry ships e vai estranhar mais ainda achar que Whole wheat mountain / Well baked parece demais com uma sobra do Kyuss.
No geral, é como se o metal moroso, psicodélico e sabatthiano do Sleep já estivesse acostumado a uma fórmula – que inclui trocadilhos com o nome de Tony Iommi nas letras, além de uma referência cara de pau ao Hemispheres, disco de 1978 do Rush, no título. Quem nem sequer esperava um disco novo do Sleep vai ter que esperar mais um pouco.
Crítica
Ouvimos: Big Marias – “Hungry heart” (EP)

RESENHA: Big Marias, trio de Palmas (TO), lança Hungry heart, EP que cruza punk, stoner, grunge e doom, entre ecos de Nirvana, Babes In Toyland, Hole e Black Sabbath, em canções viscerais e sombrias.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Wheels of Confusion Records / Rocklab
Lançamento: 28 de agosto de 2026
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O EP novo dessa banda de Palmas (TO) é quase uma sessão de bruxaria rocker, influenciada por punk, stoner, grunge, e por vivências viscerais e sangrentas. Em Hungry heart, Sam Cayres (guitarra e voz), Didia Cayres (bateria) e Felipe Supernaut (baixo), os três do Big Marias, soam como o encontro entre Kyuss e Babes In Toyland na faixa-título, impõem clima cantarolável à moda de Hole e Ramones a Nasty, capricham no peso depressivo em Deep trip e Gone… E quase sempre soam como uma banda que ouviu atentamente a estreia do Nirvana, Bleach (1989), mas juntou tudo com vibes que fazem lembrar bandas como Sisters Of Mercy e até Black Sabbath.
Hungry heart adere ao punk quase puro, mas com uma gama de lembranças que vai de Black Sabbath a Rita Lee, em Mistakes can bleed, canção com título em inglês, e boa parte da letra em português. E ganha ares metálicos e arrastados na última faixa, Ti – que adapta uma ideia da era do CD e encerra com uma coda, trazendo a mesma música em versão de voz e piano, após alguns segundos de silêncio. Bonito e pesado.
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