Crítica
Ouvimos: Dream Pony, “Suspicion today”

- Suspicion today é o álbum de estreia do Dream Pony, uma dupla de Nova York formada por Jordan D’Arsie e Aaron Mika, e que faz neo glam. Eles se definem como uma banda “que muda de gênero” e um grupo “destemido, irregular, ilimitado, mas sempre sincero”.
- O grupo é bem recente: foi formado em 2022. Jordan e Aaron foram apresentados por um amigo que se tornaria o futuro produtor da dupla, e que achava que os dois tinham coisas em comum. O nome do grupo veio de um sonho de Jordan que misturava, entre outras coisas, sua paixão pelo som do Suicide (por acaso, outra dupla).
- A dupla já vem trabalhando em um segundo álbum, enquanto organiza seus shows.
O Dream Pony, em algum momento, lembra os Sparks – um pouco por causa da imagem meio brincalhona, um pouco pelo fato de se definirem como “neo glam”, e não serem exatamente uma dupla glam, porque o lado caricatural do estilo é pouca areia pro caminhãozinho deles. Jordan D’Arsie e Aaron Mika estão mais para um redesenho glam no indie rock, bastante influenciado pelo lado mais vintage dos dois estilos.
Os vocais às vezes lembram os de Bryan Ferry (mas sem a mesma estileira), o tom zoeiro de nomes de faixas como La di da, Sympathetic coffee and tea e Bikini vision tem realmente a ver com os Sparks, mas muita coisa em Suspicion today vai interessar bastante a fãs de antigas formações como o Elefant (lembra?) ou da primeira fase do Arctic Monkeys.
Influências de Velvet Underground e Lou Reed pulam aqui e ali no disco, eventualmente. E encontros perfeitos entre anos 1960 (Kinks e Who em especial) e 2000 aparecem em canções grudentas como Sympathetic tea and cake, Synthetic love, Meant well e Watching the dogs. Mas o que ninguém esperaria é encontrar um misto perfeito de Jesus & Mary Chain fase Honey’s dead, Slade e Rita Lee & Tutti Frutti (!) no rock bubblegum Tonight, uma das melhores do álbum.
Tem ainda Countering, uma balada abolerada (levada adiante com guitarras e bateria tribal) sobre amores eternos que vão e vem, num clima que lembra The Jam e até o lirismo de Pete Townshend em discos como Empty glass (1980). O lado punk do grupo fica por conta de Maximum violence, e o lado pré-punk vem lembrando bastante Iggy Pop em Bikini vision, com tom new wave-punk-sixties e ritmo dado por palmas. Excelente começo.
Nota: 8,5
Gravadora: Folc Records
Crítica
Ouvimos: Lava La Rue – “Do you know everything?” (EP)

RESENHA: Lava La Rue troca o sci-fi por som coletivo em Do you know everything?, unindo punk, noise e pop em EP direto, acessível e com clima guerreiro e vibe bubblegrunge.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: BMG
Lançamento: 27 de março de 2026
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Os guitarristas Sadie Sadist e George Werbrouck-Edwards, o baterista Cian Hanley, o baixista Biz Wicks e o baterista e produtor Mattu são agora os companheiros de trabalho de Lava La Rue. Após a estreia em Starface (2024), álbum em que Ava Laurel (nome verdadeiro da artista não-binária que toca o projeto / codinome) se responsabilizava por todo o conceito espacial sci-fi, chega agora Do you know everything?, EP em que Lava se entrega a um projeto de adolescência: chegar um pouco mais perto do som de bandas como The Clash, e de um clima musical guerreiro, que margeia estilos como punk e noise rock, sem perder o dado pop.
Volta e meia tem sido possível ler em sites de músicas informações sobre um tal de bubblegrunge – “estilo” (muito entre aspas) que mistura peso e acessibilidade, com simplicidade próxima do punk. Se for por esse lado, o EP de Lava La Rue é o verdadeiro bubblegrunge. O disco começa unindo vibes maquínicas e riff de guitarra à frente na charmosa Scratches – uma música elegante que tem ares de Blondie e que lembra mais pop-rock francês do que punk britânico. E segue com a distorção pseudo-fofa de Girl is a knife, que é um noise-rock com cara pop, mais próximo de bandas como Elastica (lembra?).
No lado B de Do you know everything?, Lava manda bala num synthpop pesado, Jet lagged, que vai chamar a atenção de quem sente falta do indie dance do Republica, e que também ganha ares de The Cure em alguns momentos – aliás, essa música tem participação do Foster The People. A melhor faixa fica pro fim, que é Easy come, easy go – um eletro-rock brilhante, com riff de baixo comandando, e vibe de pop com distorções. A nova fase colaborativa de Lava La Rue promete tanto quanto no álbum anterior, embora para um próximo disco, dê uma certa vontade de ver as duas ondas (a de Starface e a de Do you know everything?) devidamente misturadas.
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Crítica
Ouvimos: Headsend – “Angel glands” (EP)

RESENHA: Trio australiano Headsend mistura grunge, punk e stoner em EP forte, Angel glands, já com status de “álbum”, após abrir shows de Tool e AC/DC.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora:
Lançamento: EMI / Universal
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Trio roqueiro e pesado da Austrália, o Headsend abriu shows do Tool em seu país… numa época em que os músicos não tinham mais do que duas músicas prontas. “Até hoje, é um choque pensar nisso. Tocamos com o Tool?”, refletiu Rasmus King, fundador, vocalista e guitarrista, num papo recente com o site The Line Of Best Fit. “Se você me dissesse isso quando eu era mais jovem, eu diria: ‘do que você está falando?'”. Detalhe: no mesmo mês (dezembro de 2025) o grupo acabou conseguindo abrir um show do AC/DC (!) no Suncorp Stadium.
No tal papo com o The Line, o grupo revelou, pouco antes de lançar Angel glands, que já estava em estúdio preparando o próximo disco – o EP tem apenas cinco músicas e ter um repertório grande pronto para ser tocado é fundamental. Angel glands, de qualquer jeito, corre o risco de ser lembrado daqui a alguns anos como aquele tipo de EP que, de tão importante na história de uma banda ou artista, ganha ares de álbum cheio.
- Ouvimos: The Dandy Warhols – Pin ups
Ouvindo Stove, música de abertura, dá pra deixar o Nirvana de Nevermind (1991) vir à mente – por acaso o EP, gravado ao vivo no estúdio, teve produção de Nick DiDia, que trabalhou com bandas como Pearl Jam, Rage Against the Machine, Stone Temple Pilots, puro suco do grunge e adjacências. O resultado tá mais pra grungy do que pra grunge: próximo do punk e até do stoner, e sem os macropontos de limpeza que Butch Vig inseriu no som do Nirvana.
And angel é que quebra as expectativas dos mais radicais: abre com uma guitarra meio bossa’n roll (pode levar fé) e tem algo até de soft rock, mas com distorções e uma vibe herdada de Smashing Pumpkins. Do do tem até algo de pré-punk – mas é punk pra cima na estileira dos Hives. Die no, na sequência, investe na mesma fórmula loud-quiet-loud popularizada pelos Pixies e bandas herdeiras, mas lá pelas tantas, você percebe até algo ligado ao Velvet Underground de Loaded (1970) na forma como a guitarra é tocada.
Mesmo com o peso do som, Rasmus (que divide a banda com seu irmão Kyuss King no baixo e seu colega de escola Bon Soric na bateria) não é, na maior parte do tempo, um vocalista gritalhão. O material de Angel glands é cantado na mesma escola viajante e doce do shoegaze. E essa ligação fica bastante clara no fim do álbum, com Chugg, punk metal em que os vocais contrastam com a agilidade da faixa. Pode apostar nessa banda.
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Crítica
Ouvimos: The Kairos – “Kneeslappas” (EP)

RESENHA: Kneeslappas, EP do The Kairos traz pós-punk revival com riffs fortes e clima indie/blues. Entre acertos e fórmulas, banda aponta caminhos promissores.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7,5
Gravadora: LAB Records
Lançamento: 27 de março de 2026
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Vindo de Liverpool, The Kairos já tem alguns singles e dois EPs lançado – esse Kneeslappas é o segundo e mais poderoso do grupo, que faz um som mais aproximado do revival pós-punk britânico dos anos 2000. Uma época que rendeu várias bandas inócuas, até pela aproximação mal feita com estilos como indie sleaze,punk-pop e o “rock alternativo” das paradas norte-americanas.
No caso do Kairos, eles chamam a atenção por causa da energia dos riffs e dos arranjos, e pela combinação eficiente de referências clássicas. Kneeslappas rende indie-rocks de arena como Punchline fistfight, Squeeze e o glam punk, com clima roubado dos Rolling Stones e dos Black Crowes, de Tell me twice. Pra quem tem saudade da forma blasé como as bandas inglesas sempre falaram das armadilhas da fama, vale dar uma olhada no blues punk de Keep in on the low, com metais e andamento lembrando London calling, do Clash, embora sem o clima épico do original.
- Ouvimos: Quedalivre – Seres urbanos
The Kairos rende bem no EP e, dependendo das escolhas para os próximos discos, pode migrar para um som bastante equilibrado ou seguir uma rotina bastante presa a fórmulas, com refrãos fáceis. Na real, dá para perceber os dois caminhos em Kneeslappas, porque é também o disco de Rat race, uma balada atraente em termos de arranjo, mas sem muita coisa além do superficial – ainda que a letra, narrando a agressividade e a competição exacerbada dos tempos de hoje, seja bem direta. Stranger, no final, une riffs a uma onda indie-blues-rock bem instigante.
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