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Ouvimos: Bodega, “Brand on the run”

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Ouvimos: Bodega, “Brand on the run”
  • Brand on the run é a versão deluxe do disco Our brand could be yr life, quinto álbum da banda norte-americana Bodega – estreia do grupo no selo Chrysalis, após quatro álbum pelo selo novaiorquino What’s Your Rupture? A história do álbum, no entanto, vem de bem antes disso – falamos disso na resenha.
  • Como você deve saber, o nome do álbum é uma paródia de Band on the run (disco de Paul McCartney e Wings) e o da edição deluxe parodia o livro escrito pelo jornalista Michael Azerrad, Our band could be your life.
  • O Bodega tirou seu nome de uma loja de esquina em Nova York (o termo é largamente usado por lá para definir aquele misto de café e loja de conveniência que fica aberto até altas horas) e hoje é formado por Ben Hozie (voz, guitarra), Nikki Belfiglio (voz), Dan Ryan (guitarra), Adam See (baixo) e Adam Shumski (percussão).
  • “As novas músicas exploram a crise existencial que vem com uma vida dedicada à música rock underground. Para complementar nossa dissecação dos mitos do rock underground, exploramos vários gêneros, como Madchester, shoegaze e glam”, diz Hozie.

Brand on the run não é o “novo” disco do Bodega, enfim. No comecinho do ano (e perdemos essa), o grupo pós-punk novaiorquino lançou o terceiro disco, Our brand could be yr life. Que para aumentar um pouco a confusão, não é um disco tão novo assim. A banda decidiu dar uma guaribada num material que havia gravado na época em que se chamava Bodega Bay.

Existiu um Our brand… inicial, lançado pelo Bodega Bay em 2015, e que hoje pode ser encontrado no Bandcamp. Na época, o grupo era tão iniciante que fez tudo usando o programa Garage Band. E em 2015 o Bodega Bay nem sequer se preocupou com detalhes básicos como “esse disco tá muito grande”: meteu logo lá 33 músicas e fez uma quase ópera-rock sobre música feita para consumo, valorização da marca em detrimento da qualidade, mercantilização e transformação da música e de qualquer tipo de arte em “conteúdo”. O álbum terminava inclusive com uma espécie de suíte pós-punk em cinco partes chamada Cultural consumer, cuja parte II abria com os versos “não acredito que você nunca ouviu isso/não acredito no fato de que você nunca ouviu falar disso?!/a obra inteira é BitTorrent agora”.

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Aí corta pra janeiro de 2024 quando saiu o novo Our brand. O Bodega (que havia tirado o Bay do nome fazia tempo) reduziu o material de 33 canções para 15 e recontou a história do disco, variando entre influências de Talking Heads e Elvis Costello (em faixas como Bodega bait e Tarkovski) a sons lembrando Big Star (Major Amberson), cabendo também um quase shoegaze (Stain gaze), um punk rock meio na onda da Gang Of Four que parodia o Pink Floyd (Set the controls for the heart of the drum, em cima de Set the controls for the heat of the sun, música da fase sessentista da banda britânica) e neopsicodelia oitentista revisitada (Webster Hall poderia estar num disco dos Psychedelic Furs).

O curioso é que, em tempo de discos reimaginados, o disco criado pela banda em 2015 parecia imaginar com antecedência um cenário bastante atual. Nas 15 faixas do álbum, dá pra reconhecer assuntos como OnlyFans, inteligência artificial, relacionamentos online, algoritmos, gentrificação e gente que, se deixar, vende até a mãe para fazer sucesso – músicas como GND Deity, ATM, Born into by what consumes (com abertura citando Acid Queen, do Who) e Dedicated to the dedicated falam exatamente disso tudo aí. Bodega bait, aberta com o verso “qual é a diferença entre um artista e um anunciante?” zoa coaches, plataformas digitais e artistas que não tiram o olho das redes sociais.

Agora corta para o fim de 2024: Brand on the run é a edição deluxe de Our brand, com sete faixas a mais. Uma delas é uma versão de Cry when yr young, música da banda novaiorquina City Milk, executada nos shows do Bodega Bay. Três delas são lados-B de single da época de Our brand: Adaptation of The Truth about Marie (uma adaptação em música do romance The Truth About Marie, do romancista belga Jean-Philippe Toussaint, em clima 60’s), NASS (New Age Spineless Sophists) e Cultural consumer IV. Vale como maneira de recauchutar pela terceira vez um disco que, se não passou despercebido, também não chegou a fazer um enorme barulho.

Nota: 8
Gravadora: Chrysalis.

Crítica

Ouvimos: Lowertown – “Ugly duckling union”

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Resenha: Lowertown – “Ugly duckling union”

RESENHA: Lowertown mistura slacker rock, tristeza e ironia em Ugly duckling union, disco introspectivo sobre caos emocional e sujeira capitalista.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Summer Shade
Lançamento: 22 de maio de 2026

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Dupla da Georgia com aparência de musa e muso indie, o Lowertown não seria o que o senso comum chamaria de “patinhos feios”, mas parece a beleza ou a feiúra aqui são medidas pelo bem ou pelo mal que Olivia Osby e Avsha Weinberg podem fazer um ao outro. Ugly duckling union, segundo álbum do duo – lançado após um hiato em que só saiu o EP Skin of my teeth – é um disco introvertido e às vezes, dolorido, mas que passeia da tristeza à ironia em segundos.

Tanto que Olivia e Avsha preferem encarar Ugly duckling como a história de um patinho (!) que resolve se juntar a uma turma e brigar com uma empresa chamada LBH (“uma corporação de mídia tirânica empenhada em separar e isolar em sua busca pelo controle”). Não dá pra ver muito isso no disco, mas essa fanfic faz sentido: o Lowertown é uma banda de pandemia (I love to lie, a estreia, é de 2022) e que se empenhou em varrer a web atrás de fãs, numa época em que mal havia espaços para shows, porque estava tudo fechado.

  • Ouvimos: Broken Social Scene – Remember the humans

De lá pra cá, as oscilações de humor do Instagram já mudaram tudo uma centena de vezes, a IA virou assunto de boteco, e muita coisa mudou mais do que a velocidade das pessoas pode acompanhar. Não mudou o fato de que o Lowertown é um duo de garagem, com um som que é basicamente slacker rock unido a folk, soft rock, heranças do pós-punk, etc. Rola um clima buena onda nos vocais, mesmo que às vezes Olivia e Avsha cantem com muuuita profundidade e dor sobre assuntos incômodos.

Em Mice protection, soft rock despojado que abre o disco, Olivia parece ter sido acordada há poucos minutos para gravar (detalhe: o nome da faixa é “proteção contra ratos” porque o disco foi gravado na casa dele, que estava infestada de roedores). Worst friend, que une Pixies e Horsegirl, é… Bom, a letra: “eu sou sua pior amiga, mas não é minha culpa / porque fui criada por uma bruxa que chamo de mãe / não tenho dinheiro, é difícil achar emprego / meu chefe maluco acabou de me demitir por cochilar”. As sombras tomam conta mesmo é em Echo of desire, com vocal meio cansado e vibe triste no geral.

O Lowertown não é o tipo de banda que atira para vários lados – o clima do disco segue mais ou menos o mesmo, sem um trilhão de referências ou influências descombinadas, e com duas vozes que às vezes soam como Lou Reed convertido ao folk rock. Tem algumas surpresas: Big thumb, com violão e pandeirola, se rearranjado, poderia ser um dance-pop oitentista, ou uma música do Roxette. Cover you migra para o chamber folk, I like you a lot lembra um rock sulista com cara slacker e (I like to play with) Mutts é o experimento mais pós-punk do álbum, com baixo à frente e vocal rappeado, feito por Olivia.

Tem ainda um certo clima de loucura sonora em Forgive yourself, música em que o duo fala de erros e falhas, e sobre como o perdão é mais complicado para quem nem sequer se perdoa. Agora, quer falar de loucura, pule logo para a faixa mais direta e realista do álbum: é a sombria e hipnotizante Anything good takes blood, um hino da exploração do lixo corporativo e da porquice capitalista (“lá vem, estou afundando / pulmões queimando por causa do óleo em chamas / fuligem espessa e preta cobre o solo escuro e úmido / tudo vem do sofrimento / suba nos corpos de outros seres de sangue quente”). Brabeira.

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Crítica

Ouvimos: Seera – “Sarab” (EP)

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Resenha: Seera – “Sarab” (EP)

RESENHA: Seera mistura psicodelia, prog e sons árabes em Sarab, EP originalíssimo, entre Pink Floyd, metal e folk saudita – e cantado em árabe!

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Women in CTRL
Lançamento: 22 de janeiro de 2026

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Talvez o Seera vire mania cult – talvez seja cult até demais para virar mania. Mas não há dúvida de que se trata de uma banda bem original. Afinal, trata-se de um grupo feminino da Arábia Saudita, que mistura vibes psicodélicas e sons locais, tudo cantado em árabe. A formação tem duas irmãs, Nora e Meesh, nos vocais e no baixo, respectivamente – além de uma guitarrista chamada Haya e de (atenção!) um baterista mascarado, conhecido pelo nome “Thing” (“coisa”). Muita gente conheceu elas por uma matéria da BBC, mas recentemente a Far Out Magazine as entrevistou.

Para se acostumar com o Seera, vale bastante pegar os discos da banda holandesa Shocking Blue – que uniam vibrações ciganas, arábicas e indianas lá por 1966, 1967. Por intermédio deles, você vai conseguir até chegar mais perto da muita coisa de Sarab, um EP que varia entre soar progressivo e psicodélico logo nas primeiras faixas, Shams e Akhir sarkha. Essa última tem algo de Emerson, Lake & Palmer disfarçado – na real é uma valsa árabe que vai ganhando ares de canção “de trabalho”, entoada enquanto a lida segue.

  • Ouvimos: Martin Carr – What future

O clima vai dando uma pequena mudada em Athar, que abre com clima sombrio e quase gótico, como se fosse começar ate um metal sinfônico – a música ainda varia entre parecer com o Pink Floyd de Echoes, e com um progressivo hispânico e cigano. O vocal é falado e sussurrado. Zaman, no fim, é o rock pauleira do disco, e a música mais diferente de Sarab. Abre com um riff que é a cara do Metallica do Black album (1991) e vai ficando mais ágil. Essa variedade, somada ao link com os sons de sua terra, é o tempero do Seera – coisa pra nenhum produtor espertinho mexer ou botar defeito.

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Crítica

Ouvimos: Traidora – “Una mujer trans sin país”

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Resenha: Traidora – “Una mujer trans sin pais”

RESENHA: Thrash punk trans e furioso: Traidora transforma trauma, política e ódio ao sistema em dezoito minutos demolidores.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: La Vida Es Un Mus
Lançamento: 26 de setembro de 2025

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Lembra de quando John Lydon, à frente do Public Image Ltd, cantava que “raiva é uma energia”? Pois pode mandar o velho punk, hoje um trumpista bem estranho, ir chupar um prego. Quer falar de raiva, fale com Eva Leblanc, mulher trans nascida na Venezuela e residente no Reino Unido, e criadora do Traidora, banda na qual ela divide os trabalhos com mais três pessoas queer.

Una mujer trans sin país não é apenas música – é ódio concentrado num álbum de menos de vinte minutos, focado no hardcore e em flertes com a rapidez de bandas como Ratos de Porão e Napalm Death. Gênero, sexo, moralidade, afetos, causa da Palestina, tudo isso vira assunto para Eva, que impressiona pela violência sonora de músicas como Grito ausente, que em 26 segundos resume uma existência de traumas e apagamentos, em espanhol: “sua língua sangrava de raiva / a maldita raiva / te faltaram abraços, palavras, gestos / mas siga adiante”.

  • Ouvimos: Sutiã Rasgado – Trash meninas (EP)

O álbum prossegue colado numa mescla de Ratos de Porão e Dead Kennedys em Dime algo que valga la pena e Desolación, e investindo em ondas quase sabbathianas em Disfioria eterna (“seu corpo, uma vida equivocada / disforia eterna / solidão / sua cara estranha”). Baixo com distorção, percussões e vibe marcial surgem em Rio arriba quema el sol, e violências do sistema tomam conta de músicas como a faixa-título e Cenizas em el rostro (“essas cinzas são de uma mulher que foi morta viva na Palestina / um homem que foi queimado vivo na Palestina / uma criança que foi morta na Palestina”).

Un cuerpo trans lleno de ódio é revolta thrash + punk, e um aviso de que não haverá perdão (“massacradas e golpeadas / viveremos sempre armadas / com a raiva entre os dentes”). Seamos immorales é sexo puro. Já o terço final de Una mujer trans sin país é o “vai encarar?” em forma de canção, com La rabia vital, Ella e os dezessete demolidores segundos de Disgender. Ouça para acordar – para o dia, e para a realidade que não sai no jornal, nem nas redes sociais.

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