Connect with us

Crítica

Ouvimos: Manger Cadavre? – “Como nascem os monstros”

Published

on

No disco Como nascem os monstros, o Manger Cadavre? usa crust metal brutal e arranjos belos para atacar capitalismo e big techs, com horror, peso e letras em português.

RESENHA: No disco Como nascem os monstros, o Manger Cadavre? usa crust metal brutal e arranjos belos para atacar capitalismo e big techs, com horror, peso e letras em português.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Blood Blast
Lançamento: 7 de fevereiro de 2025

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Vindo de São José dos Campos (SP), o Manger Cadavre? lida em seu quarto álbum, Como nascem os monstros, com criaturas bem mais diabólicas e assustadoras do que em qualquer disco de black metal. Com disposição para fazer arranjos bonitos em meio ao peso, à distorção e aos vocais guturais (da cantora Nata Nachthexen), o quarteto fala o tempo todo de uma realidade solitária patrocinada pelo capitalismo e pelas big techs, em faixas como Engaiolados, Obsolescência programada (“assombrados pelo fantasma da substituição / engolimos orgulho com agonia / pelo medo de perder o pão de cada dia”), A terceira onda, Mortos que caminham, Câncer do mundo (Capitalismo) e Abutres – que encerra o álbum com Nath perguntando diversas vezes “quem patrocina a guerra? / quem lucra com a dor?”. Um clima de horror que lembra um animal assustado brigando para proteger seu território.

Definido geralmente como crust metal, o som do grupo é pródigo em beats tribais, bases que lembram bandas como Napalm Death e riffs associados aos momentos mais deprê do Black Sabbath. O instrumental Insônia abre com uma divisão de canais e uma brincadeira com o silêncio que realmente dá a sensação de despertar no meio da noite, ou de tentar pegar no sono sem sucesso. Engaiolados consegue ter delicadeza sonora mesmo com o peso monstruoso. Paralisia abre com ar blues e algo de stoner, embicando depois num bate-bate entre o metal e o hardcore, com riff demoníaco. E várias sombras sonoras habitam músicas como Câncer do mundo (Capitalismo).

Com letras um tanto complicadas de serem entendidas de primeira nas plataformas (dica preciosa: tem tudo no Bandcamp), o Manger Cadavre? canta tudo em português, faz suas músicas olhando no olho do brasileiro, mas fala de questões que o mundo todo vive. Ouça no volume máximo – obrigue a vizinhança a ouvir.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Crítica

Ouvimos: Sleep – “Hempispheres”

Published

on

Resenha: Sleep - "Hempispheres"

RESENHA: Sem Matt Pike, o Sleep retorna com Hempispheres, mas o novo disco de stoner e doom psicodélico aposta em riffs e atmosferas que soam mais repetitivos do que hipnóticos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 6
Gravadora: Third Man Records
Lançamento: 3 de setembro de 2026

Enquanto o cofundador do Sleep, Matt Pike, leva adiante o High On Fire – com direito a um show agendado no Brasil – a banda veterana de stoner + doom, conhecida pelo disco clássico Dopesmoker, continua sem ele, numa nova formação em que resta apenas o baixista e vocalista Al Cisneros como membro original. O novo guitarrista do Sleep é Bubba Dupree, do Void. Na bateria, está o eternamente ocupadíssimo Dale Crover, que toca também no Melvins e no Redd Kross. E foi essa turma que entrou em estúdio para gravar um inesperado novo disco do Sleep, Hempispheres.

Um novo disco de uma banda tão sui generis (tudo neles gira em torno de fumar maconha o dia inteiro, usando apetrechos que vão desde maricas comuns até cálices de coco, e fazer músicas sobre isso) envolve muita coisa: as agendas dos músicos, a disposição para permanecer à cata de aventuras esquisitas, a vontade de permanecer fazendo cagada de maneira profissional.

O lance é que Hempispheres é “profissional” demais para os estranhos padrões de uma banda que já quis abrir seu contrato com uma grande gravadora lançando um disco com uma só faixa, de mais de uma hora (Dopesmoker, engavetado pela London em 1995, e só lançado com o “corte definitivo” em 2022). Os discos anteriores do Sleep eram bons porque eram repetitivos – aquela bem vinda repetição “chapada”. Hempispheres parece repetitivo por falta de ideias melhores para riffs, solos e ambiências sonoras.

O material de Hempispheres soa mais como uma sobra de discos anteriores ou uma mixtape – até mesmo na decolagem stoner + doom de Have spacesuit will travel e no clima indiano de The morrisist, faixas que tinham tudo para serem bem legais. Se você já atravessou os 60 minutos de Dopesmoker feliz da vida, vai estranhar sentir tédio nos dez minutos de Arrival of the industry ships e vai estranhar mais ainda achar que Whole wheat mountain / Well baked parece demais com uma sobra do Kyuss.

No geral, é como se o metal moroso, psicodélico e sabatthiano do Sleep já estivesse acostumado a uma fórmula – que inclui trocadilhos com o nome de Tony Iommi nas letras, além de uma referência cara de pau ao Hemispheres, disco de 1978 do Rush, no título. Quem nem sequer esperava um disco novo do Sleep vai ter que esperar mais um pouco.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Big Marias – “Hungry heart” (EP)

Published

on

Resenha: Big Marias – “Hungry heart” (EP)

RESENHA: Big Marias, trio de Palmas (TO), lança Hungry heart, EP que cruza punk, stoner, grunge e doom, entre ecos de Nirvana, Babes In Toyland, Hole e Black Sabbath, em canções viscerais e sombrias.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Wheels of Confusion Records / Rocklab
Lançamento: 28 de agosto de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

O EP novo dessa banda de Palmas (TO) é quase uma sessão de bruxaria rocker, influenciada por punk, stoner, grunge, e por vivências viscerais e sangrentas. Em Hungry heart, Sam Cayres (guitarra e voz), Didia Cayres (bateria) e Felipe Supernaut (baixo), os três do Big Marias, soam como o encontro entre Kyuss e Babes In Toyland na faixa-título, impõem clima cantarolável à moda de Hole e Ramones a Nasty, capricham no peso depressivo em Deep trip e Gone… E quase sempre soam como uma banda que ouviu atentamente a estreia do Nirvana, Bleach (1989), mas juntou tudo com vibes que fazem lembrar bandas como Sisters Of Mercy e até Black Sabbath.

Hungry heart adere ao punk quase puro, mas com uma gama de lembranças que vai de Black Sabbath a Rita Lee, em Mistakes can bleed, canção com título em inglês, e boa parte da letra em português. E ganha ares metálicos e arrastados na última faixa, Ti – que adapta uma ideia da era do CD e encerra com uma coda, trazendo a mesma música em versão de voz e piano, após alguns segundos de silêncio. Bonito e pesado.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Sundayclub – “Sundayclub”

Published

on

Resenha: Sundayclub - "Sundayclub"

RESENHA: O duo canadense Sundayclub estreia com um disco de shoegaze etéreo, cruzando guitarras distorcidas, new wave e emo para transformar saudade, paixão e frustração em “alegria triste”.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Paper Bag Records
Lançamento: 10 de julho de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Vindos de Winnipeg, Courtney Carmichael e Nikki St. Pierre (os dois do Sundayclub) têm uma curiosa origem em estilos bem diferentes do shoegaze que marca seu álbum epônimo de estreia). O duo começou quando Courtney e sua irmã queriam produzir uma demo para enviar ao festival folk de sua cidade, e acabaram esbarrando com Nikki, que erã fã de metal, punk e indie rock. Courtney, aliás, chegou a tocar polca (!) numa banda liderada por seu tio – sua família é da Ucrânia e ela tocava violino e violão no grupo.

Sundayclub, o disco, não reflete essas experiências anteriores: o som é distorcido, meio eletrônico (a curta Tune in, na abertura, une guitarras a um beat intermitente e quase industrial) e etéreo, com vocais quase sempre overdubbados. Blue wave, uma canção de saudade e de “alegria triste”, tem uma onda quase new wave na composição – pode ser basicamente o hit “de arena” do grupo. A dedilhada Sad summer tem uma energia de férias frustradas, em que tudo poderia ter dado certo, mas não foi bem o que rolou (“eu queria me divertir / curtir o sol / mas não consigo me arrastar da minha própria cama”).

Essa vibe de “por que estou tão triste quando deveria estar alegre”, juvenil até a medula, é a cara do Sundayclub, que põe nuances de paixão teenager-jovem na emo-gaze Camera shy e na bela e ruidosa Corydoon Ave (To meet you). O grupo igualmente invade áreas mais sonhadoras em faixas celestiais como Lombard e Turquiose, antes de falar de um casal meio explosivo na docinha-fake Sober (“essa festa é uma merda / e eu iria pra casa se pudesse / eu te daria 50 dólares / se você calasse a boca”).

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Acompanhe pos RSS