Entre 1986 e 1992, vários adolescentes da Filadélfia (EUA) grudavam os olhos na TV para curtir uma atração que, vista hoje, podia lembrar uma espécie de Só toca top do mundo invertido. Ou um Cassino do Chacrinha mais juvenil. O Dance Party USA durava só meia horinha por edição, descendia de um programa mais antigo – o Dancin’ on air, que começou a ir ao ar em 1981 – e levava à telinha artistas em começo de carreira, entremeados com grupinhos de adolescentes dançarinos.

A história desses dançarinos é um caso à parte. Alguns deles estavam sempre no programa, viraram atrações locais e suas presenças lá já eram esperadas. Mas nada era tão cor de rosa assim. Nos bastidores, rolavam histórias de rancores com o canal que exibia a atração (a rede a cabo USA Network) e com alguns dos produtores. E recentemente, alguns desses “regulares” soltaram o verbo.

Heather Day, hoje uma mulher de 45 anos que é dona de uma academia de pole dance, era mais conhecida como Princess na época do programa, no qual sempre se apresentava. Mas reclamou numa entrevista à Philly Mag que o corpo de dançarinos nunca foi pago. Quando finalmente foi notada e virou apresentadora do Dance Party USA, no finalzinho da história da atração, a situação melhorou mas nem tanto. A adolescente ganhava a merreca de US$ 55 para ficar doze horas por dia em pé na frente das câmeras.

Para tornar a história mais dramática, ainda tinha outro detalhe. Habitués do Dance Party USA como Heather, mantiveram suas participações gravadas em antigos VHS por vários anos. Com o surgimento das redes sociais e do YouTube, acharam que seria uma ótima ideia digitalizar os vídeos e subir o material para a internet. Deu ruim: quase todos os vídeos foram derrubados supostamente por produtores que detém os direitos das atrações. Não só isso: até mesmo um evento beneficente criado por ex-dançarinos com o nome do programa foi proibido.

Se você tem dúvidas sobre a importância local do Dance Party e do Dancin’ on air, como programas que divulgavam uma rapaziada aí que prometia bastante, olha aí Madonna lançando no Dancin’ on air o hit Everybody, em 1984. O vídeo está sem som porque possivelmente a cantora ou a gravadora dela mandaram tirar.

Uma molecada bem nova fazendo demonstrações de dança new wave (e de cortes absurdos de cabelo) no Dance Party USA.

O lado Passa ou repassa do programa, com a turma da Mandan High School e a sensação pop Debbie Gibson, em 1988.

Em 1989, um ano especialmente animado para a música dançante (afinal, foi quando a acid house já havia ganho espaço na mídia), o Dance Party US recebeu uma visita… bem… inusitada é um modo de descrevê-la. O Nine Inch Nails não tinha muito a ver com o esquema alegria-total-alto-astral do programa, mas apareceu por lá. Ressalte-se que o NIN naquela época não era ainda a assustadora banda industrial de discos como The downnard spiral (1994).

O disco de estreia, Pretty hate machine (1989) ainda era bem sintetizado e dançante. E precisava estourar, o que levou a gravadora a agendar visitas da banda aos programas que tinham mais audiência. Como não existia o Globo de Ouro, o Programa Raul Gil ou o Clube do Bolinha na Filadélfia, lá foi Trent Reznor ao Dance Party USA tocar para os dançarinos da atração sacudirem o esqueleto, ao som do hit Down in it.

Olha o vídeo aí. A apresentadora é a própria Princess, a que virou professora de pole dance. Ela se despede da banda com um singelo “Nine Inch Nails, uhu!”

“Nossa, a gravadora obrigou a banda a ir nesse programa, que tragédia”, você deve estar dizendo. Deixe de ser ingênuo (a): o próprio Reznor sugeriu a ida do NIN ao Dance Party USA. É bem verdade que fez isso de brincadeira, justamente por achar que seria uma opção bem estapafúrdia. Quando viu que sua ironia tinha sido levada a sério e o programa estava agendado, não teve como escapar.

“Rimos tirando sarro das pessoas, suas escolhas de moda e estilos de cabelo. A vida era boa. Anos depois, a internet é descoberta… Há uma moral em algum lugar. Pensando bem, Skrillex pode de fato me dever algumas publicações sobre esse penteado”, brincou Trent.

Via Far Out Magazine