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Crítica

Ouvimos: Daniel Avery – “Tremor”

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Daniel Avery abraça um clima sombrio e rock-eletrônico em Tremor, mesclando Nine Inch Nails, Depeche Mode e shoegaze, sem abandonar sua veia hipnótica e espacial.

RESENHA: Daniel Avery abraça um clima sombrio e rock-eletrônico em Tremor, mesclando Nine Inch Nails, Depeche Mode e shoegaze, sem abandonar sua veia hipnótica e espacial.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Matador
Lançamento: 31 de outubro de 2025

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“A música que me interessa é a música que soa irreal. Música que soa como se viesse de um lugar completamente diferente, que te pega pela mão e te leva para um lugar onde você nunca esteve antes”. Quem disse isso foi o músico, DJ e produtor londrino Daniel Avery, quando perguntado em 2018 pela revista Interview sobre a importância da psicodelia em sua vida.

A Interview chamou Avery de “autor techno” e ele fez questão de dizer que amava a drone music de artistas como Brian Eno e William Basinski. Tudo a ver com um sujeito que estreou com um álbum chamado Drone logic (2013), tratando basicamente de módulos dançantes e hipnóticos – sendo que, muitas vezes, os tais módulos nem precisavam ser dançantes, era só hipnotizar. Já Tremor, seu novo disco, bastante colaborativo e marcando sua estreia pela Matador, tem como característica aproximar o clima normal de Avery de uma noção mais reconhecível pelos fãs de rock, ou de junções electrorock.

A tal “música que te pega pela mão” em Tremor é a vinheta ambient Neon pulse, que introduz o disco. Mas basicamente Avery volta investindo em vibes tristes e sombrias em Tremor, como no Depeche Mode frio de Rapture in blue (com a voz de Cecile Believe), o horror industrial de Haze (com guitarra distorcida e beat industrial, e os vocais de Ellie) e a eletrônica pesada e fantasmagórica de A silent shadow – basicamente uma música de suspense, com participação da banda de eletroshoegaze bdrmm.

Só pelo que já foi lido até aqui, acredito que já deu pra perceber uma coisa: Avery, que sempre adorou Nine Inch Nails, voltou querendo se parecer BASTANTE com eles – não por acaso, muita coisa de Tremor faria melhor figura como trilha sonora para Tron: Ares do que a trilha feita por Trent Reznor e Atticus Ross. Não apenas com eles: você acha evocações de Radiohead, Depeche Mode (já falei disso…), Joy Division e até My Bloody Valentine em Tremor. Alan Moulder, que trabalhou com Smashing Pumpkins e com o próprio NIN, é um dos responsáveis pela mixagem do disco. Faz sentido.

Se você era realmente fã do lado trance, repetitivo e hipnótico de Avery, pode estranhar algumas coisas em Tremor – mas vai acabar reconhecendo o começo do produtor na viajante New life (drum’n bass do espaço, com os vocais macios de Yune Pinku), na bad trip de Until the moon starts shaking (espacial e tranquila, até que parece que deu uma pane na viagem interestelar) e até no clima sexy, sombrio e distorcido de Greasy off the racing line, com Alison Mosshart (The Kills) nos vocais.

O disco tem até um trip hop + post rock com lembranças de NIN e Mogwai, I feel you (o beat tem clima industrial e os teclados dão vibe sonhadora), além da tristeza sombria e noturna de A memory wrapper in paper and smoke e da psicodelia distorcida de Disturb me (com Yeule). Aliás, tem até um misto de Depeche Mode e My Bloody Valentine que surge nas distorcidas e enevoadas In keeping (Soon we’ll be dust) e Tremor, a faixa-título. Enfim, Avery decidiu pegar o ouvinte pela mão e levá-lo para vários lugares diferentes – quase sempre com emoção e inventividade.

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Crítica

Ouvimos: Luvcat – “Vicious delicious”

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Luvcat estreia com Vicious delicious, disco de pop nostálgico e lânguido, entre Hollywood vintage, art-pop e sombras pós-punk, com poucos tropeços.

RESENHA: Luvcat estreia com Vicious delicious, disco de pop nostálgico e lânguido, entre Hollywood vintage, art-pop e sombras pós-punk, com poucos tropeços.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: AWAL
Lançamento: 31 de outubro de 2025

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Luvcat é a segunda encarnação – e o segundo ato de carreira – da britânica Sophie Morgan Howarth, nascida em Liverpool em 1996, e que tem três EPs de folk alternativo lançados como Sophie Morgan. Rola um subtexto pós-punk/britpop na história dela: ainda com seu nome anterior, ela abriu uma turnê dos Waterboys e foi ajudada pelo baixista do The Verve, Simon Jones. Luvcat, seu novo nome artístico, é uma referência ao sucesso do The Cure, The lovecats.

Vale citar que folk e pós-punk são estilos que até aparecem em Vicious delicious, estreia de Luvcat, mas são secundários ou terciários num manifesto pop que, basicamente, é tão nostálgico da velha Hollywood quanto os discos de Lana Del Rey, e tão “lânguido” quanto Lana e Billie Eilish – e cuja estética mexe com as mesmas estranhices pop de vários lançamentos de hoje.

  • Ouvimos: Angélica Duarte – Toska

É um álbum pop, feito com um alvo à frente, mas com princípios básicos que o tornam às vezes mais próximo do art-pop, como na sexy e latina Lipstick, no soft rock Alien (música sobre inadequação, drogas e introspecção, com versos como “sempre fui uma de nós / garotinha verde em seu próprio mundo”), a experimentação reggae-pós-punk-gore de Matador (“eu queria amor / mas você quis sangue”). E na onda sofisticada de Dinner @ Brasserie Zedel, com heranças da música francesa, e He’s my man, alt-folk com recordações de Jacques Brel, Scott Walker e David Bowie do começo.

Tem um lado sombrio no disco, como no folk mórbido de Laurie, música de amor tristonho com metais, violão e cordas. Ou na vertigem de The Kazimier Garden, e ono clima meio Siouxsie + David Bowie de Emma Dilemma. Faz parte da lista de sensações visitadas por Luvcat, no disco, embora haja também uma canção que poderia concorrer ao Eurovision (a faixa-título) e algo que faz lembrar o lado praiano e desértico do Roxy Music (Love & money).

Lá pelas tantas, dá para se perguntar até o que o dispensável hard rock country Blushing, que lembra Bon Jovi, está fazendo no disco, já que Vicious delicious, mesmo com uma certa confusão conceitual e musical, tem lados melhores para apresentar.

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Crítica

Ouvimos: Ira Glass – “Joy is no knocking nation” (EP)

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RESENHA: EP maníaco do Ira Glass, Joy is no knocking nation mistura pós-hardcore, math rock, fanfarra sombria e ataques free-jazz, criando uma avalanche ruidosa, tensa e coesa.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Fire Talk
Lançamento: 14 de novembro de 2025.

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Vindo de Chicago, o Ira Glass vive de causar estranhamento: é um quarteto escoladíssimo no pós-hardcore e no math rock, mas que às vezes, parece estar querendo repetir eternamente o final de 21 century schizoid man, do King Crimson, com aquele ataque free-jazz de guitarra, baixo, bateria e metais.

Joy is no knocking nation, segundo EP da banda, é basicamente um disco de rock experimental maníaco, soando como uma fanfarra sombria em faixas como It’s a whole “Who shot John” story – faixa, que curiosamente tem vocal em clima grunge e destruidor, chegando a lembrar Alice In Chains. Essa onda de fanfarra do mal chega no seu ápice em fd&c red 40, repleta de vocais guturais e gritos mais chegados do screamo, e no stoner tenso e quebradiço de New guy (Big softie). Nem precisa falar que nomes como James Chance, Wire e Swans pairam sobre todo o repertório do disco, e que o próprio Fugazi, com suas quebras rítmicas, também é citado aqui e ali.

Jill Roth, saxofonista da banda, é um dos responsáveis pela tal cara free-jazz que o Ira Glass tem – e que, felizmente, não surge forçada nem mesmo quando é inserida em momentos mais pesados do disco. Fritz all over you é o mais progressivo e suave que o grupo parece querer soar, mas sempre numa onda sombria. No fim, That’s it/That? That’s all you can say?, entre gritos e vocais demoníacos, soa como uma música tocada ao contrário, uma roda de ruídos presa numa corrente igualmente ruidosa. Uma porrada bem elaborada, mesmo quando parece que tudo saiu do controle.

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Ouvimos: Jerk – “As night falls”

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Jerk mistura soul, smooth jazz, city pop e MPB instrumental em um álbum curto e hipnótico, cheio de fusão psicodélica, clima noturno e achados sonoros.

RESENHA: Jerk mistura soul, smooth jazz, city pop e MPB instrumental em um álbum curto e hipnótico, cheio de fusão psicodélica, clima noturno e achados sonoros.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: DeepMatter Records
Lançamento: 14 de novembro de 2025

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Com um nome artístico bem autodepreciativo, Jerk (ou Joshua Kinney, seu nome verdadeiro) pode soar como um daqueles sujeitos que falam da alegria e da tristeza do perdedor – pelo menos quando a gente lê o nome dele por aí. Nada a ver: As night falls, seu novo álbum, é basicamente uma mescla de soul, smooth jazz, jazz fusion, drum’n bossa, city pop, sons psicodélicos e MPB instrumental transante na onda de Lincoln Olivetti e Robson Jorge. Nas oito curtas faixas do disco (que dura 20 minutos), ele toca de tudo: guitarra, baixo, flautas, saxofone, sintetizador, piano Rhodes – a bateria fica com a amiga e colaboradora Martina Wade.

As night falls é a primeira parte de um projeto dividido em dois discos (ele fala que são dois EPs, mas o disco figura como álbum nas plataformas). Aliás, ele também diz aqui que cada lançamento representa “dia” e “noite”, e que se lançasse as 16 faixas de uma só vez, o disco poderia nem ser tão ouvido, já que é “difícil captar a atenção das pessoas hoje em dia”.

  • Ouvimos: Nyron Higor – Nyron Higor
  • Ouvimos: Yves Jarvis – All cylinders

Seja como for, As night falls captura a atenção imediatamente, especialmente de caçadores de raridades nos sebos. A faixa-título abre com violão e flauta, chegando a lembrar Dori Caymmi – até que ganha programação eletrõnica e som comandado pelo piano elétrico e pelos beats enérgicos. Dance beneath the dripping moon e o soul latino Stealthy, she moves! soam como sobras jazzísticas de Robson e Lincoln. Incoming, A divine wrath e Set adrift são jazz fusion psicodélico e vaporoso.

Wading, com percussão relaxante e clima quase espacial, tem tom musical de mergulho – segundo o próprio Jerk, que quase pôs na faixa o nome de “underwater” (subaquático), e decidiu dar à faixa uma cara diferente e experimental, usando pedais de guitarra em todos os instrumentos. Emergence and reckoning tem beat brasileiro, som derretido (com guitarra parecendo que vem de uma fita antiga) e metais. Uma viagem sonora daquelas.

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