O portal Flashbak recorda o dia em que os Cramps fizeram um concerto grátis no Napa State Hospital, lá em Napa, Califórnia, para os internos. O grupo do casal Lux Interior e Poison Ivy estava em turnê, vinha de Nova York e, na ocasião, tinha o show aberto por The Mutants, uma banda punk de San Francisco.

A comparação que o site faz é que o show dos Cramps – uma banda que já era fora da casinha por natureza – disputa com a afamada Sex Pistols Christmas Party (em que o grupo punk tocou para famílias de mineiros e bombeiros em greve e teve crianças na plateia) a posição de show de rock mais maluco e estranho do mundo. Seja como for, a apresentação dos Cramps entrou para a história por causa da introdução feita por Lux Interior, para apresentar a banda. “Somos os Cramps de Nova York, dirigimos 3 mil milhas para tocar para vocês, caras. Alguém me disse que vocês são malucos, mas não estou certo disso. Parecem normais para mim”, bradou.

Quem esteve cobrindo o show foi Howie Klein, um jornalista local que escrevia no fanzine punk “New York Rocker” e publicou suas impressões em julho de 1978. Entre as histórias anotadas por Klein estão a de que os Mutants perguntaram à plateia se alguém tinha maconha – o público respondeu que todos tinham apenas Thorazine, antipsicótico usado no tratamento de esquizofrenia, e que hoje é conhecido pelo nome Clorpromazina. “Depois da primeira música, a plateia ficou maluca. Todo mundo começou a fazer o que queria e metade da plateia invadiu o palco”, escreveu Klein no texto abaixo (em inglês, mas de fácil leitura).

Agora, a curiosidade é que não foram só os Cramps que se apresentaram no Napa State Mental. Uma banda da Bay Area chamada Irish Newsboys – formada basicamente por jornalistas e músicos da antiga, que tocam música irlandesa – tocou no hospital em março de 2014. Um dos músicos do grupo era ninguém menos que Barry Melton (guitarra), que tocava nos anos 1960 na banda de Country Joe & The Fish e se apresentou no último dia do Festival de Woodstock. Outro músico, o então vocalista Kevin Fagan, escreveu um artigo sobre o show para o blog do jornal “San Francisco Gate”.

“O hospital é verdadeiramente controlado e não tem muito entretenimento – é como a maioria das instituições e prisões. São lugares que muita gente não enxerga, a não ser a equipe que trabalha lá e os confinados. Por causa disso, muitas bandas ou artistas nem pensam em ir lá”, escreveu.

Avisados de que não poderiam fotografar ou perguntar o nome de nenhum paciente, os integrantes cumprimentaram vários internos, falaram com eles e ficaram espantados com o entusiasmo deles por canções tradicionais como “Whiskey in the jar” (aquela mesma, que Thin Lizzy e Metallica gravaram) e com o fato de alguns pacientes mal conseguirem acreditar que havia uma lenda do rock sessentista (Melton) tocando para eles. O grupó havia sido convidado por um psicólogo clínico chamado Patrick O’Reilly, e descobriu que até tolavam shows no Napa, mas dos próprios internos – de artistas de fora, pelo menos naquele período, não havia nada. “Estávamos levando nossa música para um lugar onde as pessoas precisavam dela. E se não a levássemos, eles não conseguiriam chegar perto dela”, lembrou Melton.

Aliás, se você ficou curioso com os Mutants, pega aí uma apresentação deles em Detroit, em 1979.