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Crítica

Ouvimos: Morrissey – “Make-up is a lie”

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Make-up is a lie mostra Morrissey amargo e conspiratório, preso a mágoas e polêmicas. Musicalmente irregular, mistura bons momentos a ideias cansadas.

RESENHA: Make-up is a lie mostra Morrissey amargo e conspiratório, preso a mágoas e polêmicas. Musicalmente irregular, mistura bons momentos a ideias cansadas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 6
Gravadora: Sire Records
Lançamento: 6 de março de 2026

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Morrissey nunca desistiu da carreira, apesar de às vezes parecer que largou tudo de mão. Mas a julgar pelo seu novo álbum, Make-up is a lie, dependendo da recepção, das vendas e do que mais acontecer, é provável que ele só lance qualquer outra coisa daqui a uns dez anos, ou desapareça de vez do mercado fonográfico. Para começar, o ex-Smiths nunca soou tão desgostoso a respeito da própria carreira e da própria história. E, da mesma forma, nunca pareceu tão consciente de que seu nome virou motivo de chacota.

Na real, em algumas letras do novo álbum, Morrissey segue uma espécie de rotina de tiozão do zap. Em You’re right, it’s time, ele diz que quer distância “daqueles que ficam olhando para telas o dia todo” e que quer “se expressar sem ser aprisionado pela censura”, antes de afirmar que “chegou a hora” de morrer. Em várias outras letras, fala de si próprio como um ser humano perseguido e injustiçado, como se ele não tivesse feito nada para causar perseguição alguma.

Kerching, kerching, por exemplo, questiona: “Lembro-me de um garotinho numa cidadezinha / com um cachorrinho e um sorriso tímido / e me pergunto o que deu errado / o que deu errado?”. Nessa faixa, Morrissey dá uma despistada nos caçadores de referências (fala sobre um irmão falecido, e ele só tem uma irmã mais velha, Jaqueline) e diz que “kerching” (barulho de caixa registradora, usado para indicar entrada de grana) é “a amante que você nunca poderá deixar”.

Mais: por Make-up is a lie percebe-se que Morrissey acredita que ataques terroristas foram a culpa do incêndio na Catedral de Notre-Dame, ocorrido em 2019 (o sinistro é o tema da faixa Notre-Dame), crê que sua principal virtude é não maquiar seus pensamentos (na faixa-título), permanece apostando no isolamento e na defesa dos animais (Zoom zoom the little boy) e usa até o santo nome de Iggy Pop, ao que parece, para defender o “ser você mesmo” (em The night pop dropped).

Traduzindo, ou pelo menos interpretando: Morrissey possivelmente só grava e faz shows porque precisa de grana, está cada vez mais misantrópico e de saco cheio, e não reconhece que andou contribuindo para o próprio cancelamento, e para o próprio isolamento. Em 2019, Johnny Marr, ex-guitarrista dos Smiths, chegou a afirmar que uma possível reunião da banda teria que contar com Nigel Farage, líder inglês de extrema-direita, na guitarra. Por aí se vê como andam as coisas.

Musicalmente, uma parte de Make-up is a lie funciona e muita coisa lembra coisas antigas de Morrissey, como rola em You’re right, it’s time e The monsters of pig alley. Tem novidades: Zoom zoom the little boy lembra Zombies e a faixa-título é pop sofisticado com mão de beatmaker. Isolando a letra xenófoba e conspiratória de Notre Dame, a música é um synthpop bacaninha – a questão é que você precisa ser muito fã pra isolar. Amazona, cover do Roxy Music, é boa, mas soa como faixa-bônus que cresceu de posto.

O que não funciona: Morrissey tentando dar uma de cantor-compositor dramático na linha de Jacques Brel em chatices como Boulevard e Many icebergs ago; emulando o beat de ABC, do Jackson 5, em The night pop dropped; soando como um peido do Japan em Kerching, kerching, e como um peido de si próprio em Lester Bangs, homenagem a um dos inventores da crítica musical. Uma curiosidade bisonha é Headache: lembra Sparks, e a letra ameaça um comentário irônico sobre casamentos na linha dos irmãos Mael. Mas só parece, porque a letra destila misoginia e nojo puro de relacionamentos (verso inacreditável: “o homem nascido de mulher tem pouco tempo para viver / e ainda assim é tempo demais”).

Há uns trinta anos, já tinha gente perguntando coisas como “será que ainda dá para ter paciência com Morrissey?”. A questão não é ter exatamente paciência: é impossível ignorar Morrissey – até porque, sim, ele mudou vidas nos anos 1980 e 1990. E da mesma forma, é impossível não notar o acúmulo de bizarrices que foi levando o cantor até o que ele é hoje. Quem melhor traduziu isso foi Robbie Williams, que em sua música Morrissey (do disco Britpop) basicamente pinta o cantor como uma pessoa carente que mal sabe pedir um abraço. O Morrissey que emana de Make-up is a lie é um pouco pior do que esse sujeitinho insociável aí.

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Crítica

Ouvimos: Sleep – “Hempispheres”

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Resenha: Sleep - "Hempispheres"

RESENHA: Sem Matt Pike, o Sleep retorna com Hempispheres, mas o novo disco de stoner e doom psicodélico aposta em riffs e atmosferas que soam mais repetitivos do que hipnóticos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 6
Gravadora: Third Man Records
Lançamento: 3 de setembro de 2026

Enquanto o cofundador do Sleep, Matt Pike, leva adiante o High On Fire – com direito a um show agendado no Brasil – a banda veterana de stoner + doom, conhecida pelo disco clássico Dopesmoker, continua sem ele, numa nova formação em que resta apenas o baixista e vocalista Al Cisneros como membro original. O novo guitarrista do Sleep é Bubba Dupree, do Void. Na bateria, está o eternamente ocupadíssimo Dale Crover, que toca também no Melvins e no Redd Kross. E foi essa turma que entrou em estúdio para gravar um inesperado novo disco do Sleep, Hempispheres.

Um novo disco de uma banda tão sui generis (tudo neles gira em torno de fumar maconha o dia inteiro, usando apetrechos que vão desde maricas comuns até cálices de coco, e fazer músicas sobre isso) envolve muita coisa: as agendas dos músicos, a disposição para permanecer à cata de aventuras esquisitas, a vontade de permanecer fazendo cagada de maneira profissional.

O lance é que Hempispheres é “profissional” demais para os estranhos padrões de uma banda que já quis abrir seu contrato com uma grande gravadora lançando um disco com uma só faixa, de mais de uma hora (Dopesmoker, engavetado pela London em 1995, e só lançado com o “corte definitivo” em 2022). Os discos anteriores do Sleep eram bons porque eram repetitivos – aquela bem vinda repetição “chapada”. Hempispheres parece repetitivo por falta de ideias melhores para riffs, solos e ambiências sonoras.

O material de Hempispheres soa mais como uma sobra de discos anteriores ou uma mixtape – até mesmo na decolagem stoner + doom de Have spacesuit will travel e no clima indiano de The morrisist, faixas que tinham tudo para serem bem legais. Se você já atravessou os 60 minutos de Dopesmoker feliz da vida, vai estranhar sentir tédio nos dez minutos de Arrival of the industry ships e vai estranhar mais ainda achar que Whole wheat mountain / Well baked parece demais com uma sobra do Kyuss.

No geral, é como se o metal moroso, psicodélico e sabatthiano do Sleep já estivesse acostumado a uma fórmula – que inclui trocadilhos com o nome de Tony Iommi nas letras, além de uma referência cara de pau ao Hemispheres, disco de 1978 do Rush, no título. Quem nem sequer esperava um disco novo do Sleep vai ter que esperar mais um pouco.

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Crítica

Ouvimos: Big Marias – “Hungry heart” (EP)

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Resenha: Big Marias – “Hungry heart” (EP)

RESENHA: Big Marias, trio de Palmas (TO), lança Hungry heart, EP que cruza punk, stoner, grunge e doom, entre ecos de Nirvana, Babes In Toyland, Hole e Black Sabbath, em canções viscerais e sombrias.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Wheels of Confusion Records / Rocklab
Lançamento: 28 de agosto de 2026

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O EP novo dessa banda de Palmas (TO) é quase uma sessão de bruxaria rocker, influenciada por punk, stoner, grunge, e por vivências viscerais e sangrentas. Em Hungry heart, Sam Cayres (guitarra e voz), Didia Cayres (bateria) e Felipe Supernaut (baixo), os três do Big Marias, soam como o encontro entre Kyuss e Babes In Toyland na faixa-título, impõem clima cantarolável à moda de Hole e Ramones a Nasty, capricham no peso depressivo em Deep trip e Gone… E quase sempre soam como uma banda que ouviu atentamente a estreia do Nirvana, Bleach (1989), mas juntou tudo com vibes que fazem lembrar bandas como Sisters Of Mercy e até Black Sabbath.

Hungry heart adere ao punk quase puro, mas com uma gama de lembranças que vai de Black Sabbath a Rita Lee, em Mistakes can bleed, canção com título em inglês, e boa parte da letra em português. E ganha ares metálicos e arrastados na última faixa, Ti – que adapta uma ideia da era do CD e encerra com uma coda, trazendo a mesma música em versão de voz e piano, após alguns segundos de silêncio. Bonito e pesado.

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Ouvimos: Sundayclub – “Sundayclub”

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Resenha: Sundayclub - "Sundayclub"

RESENHA: O duo canadense Sundayclub estreia com um disco de shoegaze etéreo, cruzando guitarras distorcidas, new wave e emo para transformar saudade, paixão e frustração em “alegria triste”.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Paper Bag Records
Lançamento: 10 de julho de 2026

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Vindos de Winnipeg, Courtney Carmichael e Nikki St. Pierre (os dois do Sundayclub) têm uma curiosa origem em estilos bem diferentes do shoegaze que marca seu álbum epônimo de estreia). O duo começou quando Courtney e sua irmã queriam produzir uma demo para enviar ao festival folk de sua cidade, e acabaram esbarrando com Nikki, que erã fã de metal, punk e indie rock. Courtney, aliás, chegou a tocar polca (!) numa banda liderada por seu tio – sua família é da Ucrânia e ela tocava violino e violão no grupo.

Sundayclub, o disco, não reflete essas experiências anteriores: o som é distorcido, meio eletrônico (a curta Tune in, na abertura, une guitarras a um beat intermitente e quase industrial) e etéreo, com vocais quase sempre overdubbados. Blue wave, uma canção de saudade e de “alegria triste”, tem uma onda quase new wave na composição – pode ser basicamente o hit “de arena” do grupo. A dedilhada Sad summer tem uma energia de férias frustradas, em que tudo poderia ter dado certo, mas não foi bem o que rolou (“eu queria me divertir / curtir o sol / mas não consigo me arrastar da minha própria cama”).

Essa vibe de “por que estou tão triste quando deveria estar alegre”, juvenil até a medula, é a cara do Sundayclub, que põe nuances de paixão teenager-jovem na emo-gaze Camera shy e na bela e ruidosa Corydoon Ave (To meet you). O grupo igualmente invade áreas mais sonhadoras em faixas celestiais como Lombard e Turquiose, antes de falar de um casal meio explosivo na docinha-fake Sober (“essa festa é uma merda / e eu iria pra casa se pudesse / eu te daria 50 dólares / se você calasse a boca”).

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