Cultura Pop
Lucio Mauro Filho num papo sobre música (Novos Baianos em especial) e TV

Lucio Mauro Filho é ator e guitarrista. Aliás, tem se envolvido cada vez mais com a música, que sempre foi uma paixão, e de certa forma, uma segunda ocupação. Teve uma banda na adolescência “que tocava basicamente Jimi Hendrix, The Doors e Led Zeppelin”, como diz. Já fez trabalhos como DJ, participou da primeira edição da batalha musical de astros Popstar (Globo), aderiu às lives musicais até mesmo antes da pandemia.
Os fãs já estão acostumados à ver Lucio à frente da banda Lucio Mauro & Filhos, todo sábado no Caldeirão, comandado por Marcos Mion. No mesmo dia da semana, além disso, o ator pode ser visto também na Escolinha do Professor Raimundo, fazendo o personagem Aldemar Vigário (que durante vários anos foi interpretado por seu pai, Lucio Mauro) e na novela Quanto mais vida melhor, no papel do advogado Cardoso. Mas quem estiver pelo Rio, neste sábado (5), ainda pode ver Lucio ao lado de Pedro Baby, mais uma vez, como músico. Os dois fazem às 19h o show A lei natural dos encontros, no Bosque Bar (na Gávea, Zona Sul do Rio).

Divulgação/Nando Chagas
A apresentação é uma desculpa para os dois revisitarem o repertório dos Novos Baianos – e para quem não lembra, no espetáculo Novos Baianos, o musical, que chegou aos palcos em 2020, Lucio fazia o roteiro e Pedro (filho de Baby do Brasil e Pepeu Gomes, e guitarrista) fazia a direção musical. O show do Bosque teve uma estreia em dezembro retorna agora quinzenalmente, para não atropelar as gravações – e Lucio diz ao Pop Fantasma que o show vai incluir também repertório de outros artistas que têm conexões com a música do grupo que há 50 anos lançava o clássico disco Acabou chorare. E quem quiser se encontrar com o lado DJ de Pedro, até que a situação da variante Ômicron melhore, tem as playlists que ele faz e divulga em seu instagram.
(foto lá de cima: João Cotta/Globo/Divulgação)
Como foi quando vocês estrearam o show e mostraram os sucessos dos Novos Baianos para a plateia?
Foi muito especial. A gente interrompeu a temporada do espetáculo dos Novos Baianos, onde começou nossa parceria, em pleno voo. A gente tinha acabado de fazer São Paulo e Rio, sucesso estrondoso. Depois íamos fazer festival de Curitiba, íamos para Salvador, as perspectivas eram lindas. Veio essa tragédia aí da pandemia. E pra nós foi muito frustrante, porque levantar um espetáculo desses, com essa quantidade de equipamentos, de artistas envolvidos… É tudo muito caro.
E foi tudo sem lei de incentivo (rindo), porque elas foram demonizadas. É carro e arriscado, se é um sucesso, maravilha. Se não é, é perigosíssimo. A gente estava num céu de brigadeiro, fazendo sucesso, lotando as casas. E veio a pandemia e com isso, uma ducha congelante, que bateu em toda a classe. Quando os espaços começaram a reabrir, pra peça voltar, não tem jeito. Tem que refazer o projeto, captar, tem que ter agenda, agenda de todo mundo, quem vai poder fazer, quem não vai pode fazer. Não é um espetáculo que “ah, dá pra levantar semana que vem”. E aí aquele gostinho de relembrar aquela alegria, e ao mesmo tempo, estando eu envolvido com a música por causa do meu trabalho no Caldeirão… E aí numa dessas conversas com Pedro, ele disse: “Vamos levar um som, então, nós mesmos?”.
Imagina, já seria algo pra me inspirar pra caramba. Nosso trabalho no musical foi muito intenso, mas lá eu era autor e ele era diretor musical. Ainda não tínhamos experimentado brincar de música os dois juntos. E como é que podia eu não estar levando um som com ele? (rindo) Falei então: “Vamos inventar logo um show, e aí a gente tem aquele motivo pra ensinar, se encontrar e tal”. Procuramos o Leo, que é amigo de todos nós e tem o Bosque. Nossa prerrogativa era que fosse um espaço ao ar livre, que não fosse um lugar fechado. Foi tudo em duas semanas no fim do ano, e foi um esforço coletivo.
E como tá sendo escolher o repertório, já que Novos Baianos é esse universo todo?
Na verdade, o que acontece é o seguinte: a ideia é cada vez mais tocar de tudo. Os Novos Baianos foram estratégicos porque eram as músicas que a gente já estava trabalhando por causa do espetáculo. Eram um porto seguro para a gente começar um projeto musical com esse tempo exíguo, tão curto, e com os protocolos. A gente queria inventar um negócio que demandasse no máximo dois ensaios de estúdio para não ficar enfurnando todo mundo. Tem uma série de coisas que você tem que botar na balança na hora de estrear um projeto como esse. A gente quis ir dando um passo de cada vez, não estávamos com as condições ideais para iniciar um projeto já com um super repertório vasto, que todo mundo ia ter que ensaiar, estudar.
Nesse sentido, a gente sabia que as músicas vinham no automático. É uma homenagem ao que nos uniu. Mas também aproveitamos para fazer um set de Jorge Ben, já que nós somos discípulos dele. Tivemos a oportunidade de tocar um Tim Maia, e apontamos para novidades que a gente quer vir trazendo a cada show. Mas respeitando aquela proposta de uma festa, muito mais do que um show, de ficar de exibicionismo, queremos simular quase o DJ com a banda, no que diz respeito ao flow da pista. É uma coisa que a gente curte, eu tenho meu trabalho de DJ há muito tempo. Tenho essa cabeça do bpm, de você pensar na noite, num crescendo. Foi fundamental para pensar no show, que é uma festa-show, onde não tem tantas interrupções, tanto papo. A ideia é que as pessoas realmente dancem e curtam como numa festa.
Você falou do Jorge Ben, ele tem um ponto de ligação com Novos Baianos que é o Dadi, que foi baixista dele e da banda… Surge a ideia de juntar a música de um artista com a do outro, no show?
Sim, claro! E quando a gente está ensaiando, a gente fica muito atento a isso, aos tons, às canções que combinam, muitas combinam. Da mesma maneira, canções de Marisa Monte, Tribalistas… Se a gente for ver são artistas complementares. Todo mundo bebe um pouco no Jorge Ben, que foi um cara fundamental pra nossa história, ele começa a mistura do samba com o rock, que depois os Novos Baianos vão lá e dão um passo a frente, trazem o choro a bossa nova, João Gilberto. E Marisa Monte é discípula dos dois. Quando você vai fazer o que eu chamo de dramaturgia da noite (rindo) é uma história que se conta. A gente toca Barato total, de Gal Costa, e Pepeu Gomes foi guitarrista dela, aí casa com Baby e vai pros Novos Baianos. São universos complementares. Se o cara for mais leigo, vai dançar, curtir o show, mas o cara mais antenado em música tem outras possibilidades…
É toda uma história que está sendo contada ali, da música popular brasileira de verão, certo?
Exatamente. Tocamos inclusive coisas do repertório solo do Pepeu. Tocamos canções de Baby do Brasil. De uma certa maneira nada ali está desencaixado, ou é aleatório. É uma história a ser contada todas as noites. A gente quer sempre diversificar, toda vez que tiver a festa, trazer uma novidade, e até músicas atuais que estejam antenadas com aquilo. Nada nos impede de trazer um arrocha, um piseiro… De certa maneira o que tá acontecendo, a eletrificação do forró é um fenômeno que você vai de Luiz Gonzaga a Barões da Pisadinha.
A música nordestina acaba tendo uma influência muito grande no nosso pensar musical. Ambos somos filhos de nordestinos. Minha mãe é baiana, meu pai é paraense. Pedro é filho de Pepeu e da Baby, que é a niteroiense mais baiana do planeta (rindo). Todo esse universo, de Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Daniela Mercury, Carlinhos Brown, a gente orbita. A gente vai pinçando, vendo como a pista reage.
E como tá sendo ter um espaço semanal pra mostrar seu trabalho como músico, no Caldeirão?
Cara, é um desafio absurdo, né? Eu sempre flertei com a música, acho que minha vida inteira. Ela sempre esteve ali presente, todo trabalho. Fiz musicais, fiz Mágico de Oz, participei do Popstar na televisão, cantando. Tenho meu show de bossa nova com Celso Fonseca, que é bossa nova e comédia. Fiz meu evento de bossa nova com o BossaCucaNova, no Copacabana Palace. A música estava sempre ali. Sempre fui metido a tocar meu violãozinho sarapinha (rindo), e de repente o que acontece é que isso ficou represado já lá da época do Popstar. Porque virou um grande treinamento pra mim, mesmo na correria que eu tava – eu estava fazendo a Escolinha e a Malhação. Mesmo assim eu aprendi absurdamente, meu produtor no Popstar era Marcelo Sussekind. Cada dia de estúdio com ele era uma universidade.
Eu estava pronto para acabando o programa, sair em turnê, e inclusive com a banda pronta. Porque os meus parceiros da minha banda no programa eram figuras espetaculares, apaixonantes. Só cheguei na final porque tive a ajuda desses monstros: Serginho Melo, que é batera do Lulu Santos, Artur de Palla, que é baixista do Djavan… Você sair em turnê com esse pessoal, não tem universidade que te entregue isso. Mas eu estava fazendo a Malhação, e na segunda precisei voltar a minha vida normal de funcionário da TV Globo (rindo). E minha mulher estava grávida, foi uma gravidez temporã que a gente teve. Então tive que abrir mão de, naquele momento, continuar a brincadeira com a música. Aquilo ficou represado, guardado para algum momento. Não foi nada que eu falasse: “pô, perdi uma chance”, porque minha vida é muito dinâmica. Continuei trabalhando com música de um jeito ou de outro.
Mas aí aconteceu esse fenômeno das lives da quarentena. A princípio parecia uma coisa mais por diversão, até porque eu já fazia lives anteriormente à quarentena tocando uma viola, que eu chamava de “roda de violão virtual do Lucinho”.
Sim, eu lembro…
Eu chegava de madrugada, tocava um violão, os amigos pediam música. Com o advento do confinamento, essas lives começaram a ser mais regulares, virou algo terapêutico… Daqui a pouco a Teresa Cristina, de quem eu já era amigo, começou a fazer. Eu frequentava a live dela, ela frequentava a minha, um dia ela me chamou pra cantar. Daqui a pouco um dia ela fala: “Você não quer fazer uma live inteira comigo, a gente fazendo uma batalha de música?”. Daqui a pouco a gente tava fazendo batalha das décadas, batalha do rock (rindo). Toquei de Elba Ramalho a Total eclipse of the heart (Bonnie Tyler), porque os temas das batalhas faziam com que eu tivesse que ensaiar para não fazer feio na hora da live.
Isso foi me dando uma cancha muito grande e as pessoas foram vendo que eu tocava um pouco de tudo, me arriscava. E um dos frequentadores assíduos das lives era o Boninho, que estava sempre ali, fazia um comentário e outro. Aí o povo enlouquecia, pedia vaga no BBB (rindo). O Boninho, que foi o diretor geral do Popstar, acho que de alguma maneira ele ficou: “Pô, olha aí o Lucinho, hein?”. Ficou comigo na gaveta, uma bola quicando na cara do gol. Quando veio o projeto do Caldeirão, veio esse fenômeno que começou com a ida do Faustão para a Band, e essa dança das cadeiras, o Lu (Luciano Huck) querendo ir para domingo… Aí tudo bem, resolveu um problema, mas abriu outro que era sábado, e o Mion veio e resolveu o problema. Quando foram preparar o programa do Mion, tinha que ter uma banda. “Mas que banda vai ser?”. E falaram: “Vamos chamar o Lucinho pra essa brincadeira”. Porque eu estava um pouco com essa expertise não só de tocar, e de cantar, mas também de produzir, por causa do espetáculo dos Novos Baianos. Testamos mais de 300 artistas, selecionamos essas figuras, dirigimos.
Um dos grandes talentos do Boninho é enxergar o profissional que encaixa em cada lugar. Ao mesmo tempo é um cara do acolhimento, e descobriram que eu tinha uma relação de amizade com o Mion. E falaram: “Não, é o Lucinho que tem que estar ali!”. Porque o Mion merecia também ser acolhido, aquela estrela que vem de São Paulo, para aquele mundo da Globo. O Mion já era gigante independentemente disso. Mas ele chegou num lugar em que não tinha intimidade, e foi bacana ter um amigo para trocar, e eu já estou ali há vinte anos, trabalhei em todos os setores. E um programa de variedade trabalha com todos os setores: artistas, esportes… Já tinha essa expertise por ter trabalhado ali com teledramaturgia, comédia, variedades, com música, show. Foi o bom e velho estar certo, na hora certa. E preparado para um desafio, que é enorme!
Imagino…
Mesmo assim, estou tendo que correr muito atrás. Ali é programa, não pode parar. Eu tinha que estar preparado para me comunicar com a banda de uma forma muito dinâmica. Me comunicar com o Mion, ajudar, entender o projeto. De um lado a banda, do outro Boninho, a direção. É uma novidade. Mas isso é a síntese da minha carreira: eu estar desafiado, é uma coisa que eu procuro o tempo inteiro.
Eu passei 14 anos num lugar só, né, bicho? (faz referência à série A Grande Família) Isso é um perigo danado, você vai ficando numa zona de conforto perigosíssima. Enquanto dura é uma maravilha, mas quando acaba, pode te destroçar. Se você não estiver preparado psicologicamente e articulado para seguir em frente… Porque um sucesso desses não se repete. Tem gente que fica a vida inteira atrás de um sucesso desses e não experimenta uma vez sequer. E de repente você está ali experimentando aquilo e alimenta uma expectativa de que vai ser sempre assim, e não vai. Mas eu tinha um Marco Nanini, uma Marieta Severo, para alertar: “Isso que a gente tá vivendo é tipo um sonho, tá? Mas mantenhamos sempre o pé na realidade”. Esse meu pé na realidade é o tal do desafio.
Quando vem uma coisa que me tira da zona de conforto que me tira pra estudar. Sempre fui aquele estudante preguiçoso, precisava estar na recuperação, ou precisando da nota pra estudar… Aí eu brilhava (rindo).
Sei bem o que é isso…
Não é? Isso já era um indicativo na minha vida de que eu precisava de desafios, para me manter ativo, não subir no salto, achar que tá tudo ganho e não está. O próprio Boninho me colocou isso de forma muito clara: “Maninho, você tem todo o direito de dizer sim ou não para esse projeto, mas uma vez que você disse sim, já saiba: vai ser ralação!” (rindo). E eu disse sim de olho fechado, nem deixei ele terminar de dizer a frase. E você trabalhar numa equipe que você confia, que você admira as pessoas, é fundamental.
E lá tem uma equipe de profissionais com os quais eu venho trabalhando há vinte anos em diferentes produtos. Quando ele falou “a equipe é essa, é essa, essa”, eu: “eita, tá louco, tô em casa!”. É a importância das boas relações que a gente faz na vida, a vida vai lá e devolve, e te junta de novo com aquelas pessoas. E agora tem essa lua de mel linda com o Mion, já tínhamos trabalhado em projetos com participações pequenas e havia uma afinidade muito grande. Passamos agora cinco meses de muito afeto e profissionalismo. Já era fã dele, mas agora eu assisto de camarote. Fico ali naquele palquinho pensando em tudo, trabalhando em tudo, e ao mesmo tempo assistindo, e ele é um artista com muita ferramenta.
E sobre A Grande Família, como foi fazer parte de um programa de TV que as pessoas já tinham como garantido? Para muita gente, não havia semana sem A Grande Família…
É um fenômeno. Quando a gente decidiu terminar A Grande Família, mesmo assim teve que durar dois anos. Você tem que avisar pro mercado, tem que preparar o mercado. Você tá tirando um produto que agrega patrocinadores, tem os melhores patrocinadores. E que querem botar dinheiro naquilo, porque é um retorno garantido. É um assunto universal, que é família… Aí junta um assunto que gera um manancial de histórias praticamente inesgotável, grandes artistas da televisão, um nível de qualidade acima da média, grandes diretores, grandes produtores, grandes figurinistas… Todo mundo que passava por ali era top, de primeira.
É um momento raríssimo. Uma sorte também. Claro que não é só sorte, quanto mais a gente trabalha mais sortudo a gente fica. Mas eu acho que é o sonho de qualquer artista, profissional, em qualquer área, formar uma baita de uma equipe e passar um tempão no topo. Uma coisa é chegar ao topo, outra coisa é manter. É um troço delicado, que demanda muita conversa, muita luta, muito equilíbrio. Foi muito especial.
E ainda demos a sorte de viver aqueles anos pré-rede social. Nem sei como seria hoje em dia uma Grande Família com rede social, poderia ser um sucesso também, não dá para garantir. Mas digo isso porque quando as pessoas perguntam “o que você creditaria como um dos pilares do sucesso da Grande Família?”, eu acho que um dos pilares era o fato de que ninguém se expunha na mídia. A gente tinha um elenco em que não tinha ninguém que aparecia na Caras, que ficava mostrando a vida pessoal. A gente sempre foi muito preservado nesse lugar.
A gente não teve isso. Poderia ter, nem é uma crítica, mas o fato é que não tinha. No meu modo de enxergar, quanto mais a gente se interessa pelos personagens e menos pelo artista, mais longevidade vai ter um projeto de teledramaturgia. Quando a gente começa a se interessar mais pelo artista, ele fica mais interessante que o personagem. Então você não está querendo saber da obra, dos projetos dramatúrgicos. Quer saber mais o que o cara faz por fora. Como a gente não tinha isso, fica mais fácil preservar uma magia em torno dos personagens.
Só que mais uma vez, repito, não é uma crítica a quem gosta de se divulgar, de divulgar a vida. Hoje em dia isso é uma coisa que é dramaturgia também, já até mudou. Mas para aquela época em que A Grande Família aconteceu, a discrição daquele grupo foi com certeza um pilar para manter a magia durante tanto tempo.
Cultura Pop
Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.
Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.
O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.
Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.
Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.
Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.
De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.
Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.
Foto: Reprodução Internet
Cultura Pop
Qual é a dos dois discos novos de Lana Del Rey?

Lana Del Rey passou tanto tempo adiando e reformulando o próximo álbum que já dava para imaginar que ele nunca chegaria. Primeiro era Lasso. Depois virou The right person will stay. Em seguida apareceu como Stove. Agora a cantora resolveu complicar um pouco mais o roteiro: além de Stove, ela diz que também está preparando um segundo álbum inédito.
A novidade surgiu em uma publicação no Instagram, onde Lana contou que o disco extra nasceu durante o mesmo processo criativo do sucessor de Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd. Segundo ela, o novo trabalho funciona como uma espécie de “companion album”, desenvolvido quase ao mesmo tempo que Stove.
- Os bastidores do raro Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, que ganha lançamento oficial
A cantora também afirmou que esse segundo disco surgiu das transformações pessoais e criativas que viveu nos últimos quatro anos, funcionando como uma espécie de contraponto ao álbum principal. Se tudo correr como planejado — e essa ressalva é indispensável quando o assunto é cronograma de Lana Del Rey — os dois discos devem ficar prontos em cerca de um mês para seguir para a prensagem em vinil.
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Ela também afirmou que ambos já têm capas prontas e descreveu os projetos como algumas das obras de que mais se orgulha. O álbum principal, Stove, continua reunindo os singles Henry, come on, Bluebird e White feather hawk tail deer hunter, além de outras músicas que ela vem mostrando ao vivo nos últimos meses. Tudo indica que First light, single lançado como single da trilha sonora do jogo 007 First Light, escrito em parceria com David Arnold, é só um projeto à parte e não estará no disco.
Embora Lana ainda não tenha confirmado um título para o álbum companheiro, fãs passaram a chamá-lo de Spyda após identificarem esse nome em uma das artes divulgadas pela cantora nas redes sociais (aliás, no Reddit, tem fãs reclamando que a imprensa tá caindo rapidamente numa suposição deles mesmos, os fãs)
Ainda não há datas de lançamento para nenhum dos dois discos. Mas, considerando o histórico recente da cantora, talvez seja prudente evitar tatuar qualquer título no braço até que eles realmente apareçam nas plataformas de streaming. Afinal, se um álbum já mudou de nome três vezes antes de nascer, nada impede que um quarto nome apareça antes do play.
Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.








































