Em 1968, um poeta novaiorquino chamado John Giorno (1936-2019), que havia criado três anos antes o coletivo de poesia pop Giorno Poetry Systems, teve uma ideia genial. Ele inventou um serviço telefônico chamado Dial-A-Poem, pelo qual as pessoas ligavam para uma linha telefônica (212 628 0400) e ouviam gravações de textos sendo lidos por artistas e poetas como Patti Smith, Allen Ginsberg, John Ashberry, Bobby Seale, Jim Carroll e o próprio Giorno.

Giorno chegou a dizer em entrevistas que, por causa do serviço que ele criou, o mesmo sistema passou a ser usado para informações sobre esporte e mercado de ações. Quando uma pessoa ligava para o Dial-A-Poem, encontrava quinze linhas telefônicas ligadas a atendimentos individuais. A partir de 1969 (diz aqui), o serviço passou a funcionar das 9h às 17h e 20h30, e das 19h às 23h30, e a focar em temas como Guerra do Vietnã, revolução sexual e outras modernidades. A ideia surgiu, afirmou Giorno, quando ele percebeu que artes como a música, a escultura e dança estavam muito mais adiantadas no uso das mídias de massa e tecnologias. “Vi que a poesia estava 75 anos atrás disso aí tudo”, afirmou.

Esse site aqui separou alguns momentos do Dial-A-Poem e das obras do Giorno Poerty Systems. O Dial-A-Poem de 18 de julho de 1973 inclui textos lidos por John Cage, Allen Ginsberg, William Burroughs, Emmett Williams, Ed Sanders, Taylor Mead, Jim Carroll, Aram Saroyan, Anne Waldman e Bobby Seale (os nomes são lidos logo no comecinho). A partir de 2012, as poesias do GPS se transformaram numa uma instalação composta por quatro telefones vinculados a 200 poemas gravados, reproduzidos aleatoriamente. O projeto chegou a ser exibido na Fundação Louis Vutton, em Paris, entre outubro e novembro de 2014.

Dá para dizer, sem medo de errar, que os projetos de Giorno funcionaram como uma ponte bem interessante entre os os poetas beat e os pré-punks de Nova York (enfim, Patti Smith e Jim Caroll estavam lá). Tanto que o caminho mais natural para a turma de John Giorno, nos anos 1970, foi… passar a gravar discos. Em 1972, ele transformou seu serviço em Giorno Poetry Systems Records e lançou uma compilação chamada The Dial-A-Poem Poets, com textos lidos por uma porrada de beats e poetas de Nova York. É o disco aí de baixo (que não está no YouTube).

Em 1983, depois de vários discos e artistas da música e da poesia lançados (até Laurie Anderson começou gravando lá, numa coletânea dupla lançada em 1981 chamada You’re the guy I want to share my money with), o selo comemorou seus 15 anos com You’re a hook, disco que misturava colaborações de Jim Carroll, Frank Zappa, William S. Burroughs, Laurie Anderson, Patti Smith e outros. Essas faixas estão no YouTube. O disco abre com um rap pós-punk de Giorno, (Last night) I gambled with my anger and lost. E tem Jim Carroll recitando The basketball diaries, trecho de seu livro de 1978 que geraria o filme Diário de um adolescente, de Scott Kalvert (1995).

E tem um lançamento do Giorno Poetry Systems que é muito especial para os fãs brasileiros do New Order.

É Like a girl, I want you to keep coming, LP lançado em 1989 que mesclava faixas de Debbie Harry (Invocation to Papa Legba), do Pre-Metal Syndrome – banda esquisitona da Flórida que compareceu com Living on the outside (Fucked up world), produzida por Chris Stein, do Blondie -, David Byrne (com Song for the trees or I know sometimes the world is wrong), Rollins Band (Hard), William S. Burroughs (o poema irônico Just say no to drug hysteria, zoação com a campanha antidrogas do governo Reagan, Just say no). E nada menos que Sister Ray, do Velvet Underground, gravada pelo New Order ao vivo no show da banda no Ibirapuera, em São Paulo, no dia 1º de dezembro de 1988.

Olha a playlist com o disco todo aí. Sister Ray, talvez você saiba, é uma canção de Lou Reed (gravada no lado B inteiro do segundo disco do Velvet, White light/White heat, de 1968) que fala sobre uma orgia de drag queens com marinheiros que acaba em morte. E que recebeu algumas tentativas de sequência por parte do Velvet. Isso é assunto para outro dia.