Nada mais apropriado para uma banda londrina chamada Japan do que encerrar atividades… no Japão. Em 8 de dezembro de 1982, o grupo formado por David Sylvian (voz, guitarra), Mick Karn (baixo), Steve Jansen (bateria) e Richard Barbieri (teclados) fazia um de seus últimos shows no Budokan Hall, em Tóquio.

Para a apresentação, o Japan – uma banda sinistraça do pós-punk que vinha ganhando cada vez mais uma cara new romantic, por causa das maquiagens, ombreiras e roupas podres de chique – chamou ao palco integrantes da banda japonesa Yellow Magic Orchestra. Bem lá pro finalzinho da apresentação, Yukihiro Takahashi, Akiko Kano e Ryuichi Sakamoto juntaram-se à banda em músicas como Bamboo music (faixa solo de Sylvian com Sakamoto, tocada lá pela primeira vez), Taking islands in Africa e Good night.

Faz um tempinho, jogaram esse show de 1982 inteiro no YouTube. O arquivo tem uma qualidade de som pra lá de cagada e foi tirado direto de uma transmissão de FM. O que vale é a intenção, como dizia a sua avó.

LIVE IN TOKYO – 1982

Essa apresentação já fez bastante a festa dos pirateiros e vem gerando frutos até hoje. O site No Treble noticiou que saiu agora há pouco o CD duplo Live from the Budokan – Tokyo FM 1982. Só que o baterista Steve Jansen andou dizendo que o selo que lançou o disco não cumpriu todos os processos e que o lançamento é ilegal.Japan ao vivo no Japão

O Japan era bem querido no país que lhe deu o nome, diga-se, e as apresentações vinham sendo bastante aguardadas. O grupo, cujo nome costuma ser interpretado como referência a um verso de Ziggy Stardust, de David Bowie (“like some cat from Japan”), fazia uma mescla de glam rock, punk e sons orientais – e tons meio góticos, numa época em que isso nem era moda. Por sinal, gostavam também de mexer em vespeiro. Olha aí Communist China, do segundo disco da banda, de 1978.

“COMMUNIST CHINA”

O grupo ganhou fãs dedicados mas não chegou a fazer sucesso de verdade. Os primeiros discos foram considerados pela crítica um peido do glam rock de alguns anos antes. Por acaso, isso rolou numa época em que todo mundo estava sempre em busca de novidades.

Para piorar, alguém da gravadora achou que o Japan era uma banda no estilo do New York Dolls (de certa forma era, mas sem a atitude extrovertida do grupo novaiorquino no palco). E resolveram botar o grupo, em começo de carreira, para abrir shows dos hard rockers do Blue Öyster Cult. Não deu nada certo: quando o Japan não recebia chuva de latas, era ignorado no palco.

O Japan foi passando por metamorfoses na carreira. Chegou a fazer um single com o mago da disco music, Giorgio Moroder, Life in Tokyo, em 1979.

“LIFE IN TOKYO”

O grupo passou a fazer um pouco mais de sucesso quando abraçou as influências eletrônicas, no começo dos anos 1980. Em seguida, foi embarcado na onda new romantic. Por acaso, nessa época, a banda voltou-se para suas primeiras influências e gravou até uma releitura estranhamente bossanovísta de All tomorrow parties, do Velvet Underground.

“ALL TOMORROW’S PARTIES”

Depois do disco Quiet life (1979), mesmo com o sucesso tardio, a banda lançou só mais dois discos e encerrou atividades após a tal apresentação no Japão. O vocalista David Sylvian iniciou carreira solo e teve hits como Red guitar. Mas se tornou mais conhecido pelas experimentações de estúdio e por discos que misturavam rock, jazz, sons orientais e até poesia falada. O disco mais recente de Sylvain, There’s a light that enters houses with no other house in sight, de 2014, tem textos do poeta americano Franz Wright. E uma só faixa de mais de uma hora.

“THERE’S A LIGHT…” – DAVID SYLVIAN

Aliás, em 1991, a última formação do Japan se reuniu com o nome de Rain Tree Crow e gravou um único disco, mas encerrou atividades rapidamente. Mas aí já é outra história.

E, enfim, fique ai com um trechinho do último show do Japan, em Nagoya, Japão.

Via Light Of The 80’s