Crítica
Ouvimos: The Divine Comedy – “Rainy sunday afternoon”

RESENHA: Novo disco do The Divine Comedy, Rainy sunday afternoon, mistura tristeza e beleza em art/chamber pop orquestral, com Neil Hannon refletindo meia-idade, perdas e amor.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Divine Comedy Records
Lançamento: 19 de setembro de 2025
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Destacão da segunda metade do ano passado (e lamentavelmente só ouvido por nós agora), o novo disco do The Divine Comedy é um daqueles raros exemplos de alegria na tristeza, de disco que é quase impossível ouvir sem deixar um nó na garganta surgir de vez em quando. Neil Hannon, o cara por trás do nome do projeto, já experimentou diversas sonoridades ao longo de sua carreira (o Divine Comedy grava desde 1990) mas sua proximidade maior é com estilos como art pop e chamber pop – algo que passa simultaneamente por Roxy Music, Scott Walker, David Bowie e Beach Boys.
Rainy sunday afternoon é um luxuoso disco de orquestra, cujos gastos foram financiados por um job importante e popular que Hannon fez: as músicas da trilha do filme Wonka (2024), dirigido por Paul King, em que o queridinho Timothée Chalamet fez o papel principal. Com um repertório focado em referências de folk-pop mágico (à moda justamente de Scott Walker e os Beach Boys, além de Donovan e Burt Bacharach e do John Cale do disco Paris 1919, de 1973), Neil trilhou o novo álbum nos ganhos, perdas e whatever da meia-idade (ele já está com 55).
O folk Achilles, que abre o disco, é um som guerreiro e leve, que lembra Paul Simon – e que tem um coral que, estranhamente, faz lembrar algo de metal clássico. Os últimos versos parecem resumir todo o álbum: “Vi um homem esta manhã / ele estava completando cinquenta e três anos / e sua mente mimada se voltava / para pensamentos sobre a mortalidade / um dia eu não serei nada / pense em como isso será estranho / pois para nós, os vivos / a morte é o calcanhar de Aquiles”.
Achilles joga o/a ouvinte no universo introspectivo de Rainy sunday afternoon – cujo ciclo é fechado com a beleza dolorida de The invisible thread, pop clássico comovente sobre a partida da filha para outro país. Neil usa climas nostálgicos e voadores para falar da perda de seu pai com Alzheimer (The last time I saw the oold man, The man who turned into a chair), amor intenso (I want you), discussões estúpidas com a namorada (a faixa-título, com piano andarilho como nas músicas de Burt Bacharach, e metais lindos) e lembranças do livro O coração é um caçador solitário, de Carson McCullers – em The heart is a lonely hunter, balada clássica e grandiloquente, com algo do rock oitentista na estrutura da composição, e um clima que faz lembrar Lou Reed + John Cale + Joy Division.
Hannon evoca também o David Bowie do comecinho da carreira na imaginativa Down the rabbit hole. E – pode levar fé – encarna uma espécie de Julio Iglesias indie em Mar-a-lago by the sea, música que mete o dedo na cara de um certo presidente sem dó nem piedade, citando o resort na Flórida do qual ele é proprietário. “Mar-a-Lago, ouso sonhar / que um dia estarei dentro de seus muros novamente (…) / trapaceando perdedores nos campos de golfe / trocando esposas por misses / fazendo discursos de casamento enfadonhos / recebendo sanguessugas fascistas”. Nem tudo em Rainy sunday afternoon olha apenas para dentro.
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Crítica
Ouvimos: Tony Iommi – “From the dark”

RESENHA: Em From the dark, Tony Iommi e o cantor Jørn Lande resgatam o metal sombrio e épico do Black Sabbath, com riffs pesados e ecos da fase Ronnie James Dio.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: BMG
Lançamento: 23 de outubro de 2026
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Primeira coisa a ser dita sobre From the dark, o novo disco de Tony Iommi: o guitarrista do Black Sabbath, símbolo máximo da atitude “o show tem que continuar” no rock, precisa de bons letristas. O vocalista norueguês Jørn Lande, seu parceiro na nova empreitada, é um letrista decente, mas tá bem longe da construção épica, cheia de comentários sobre vida, guerra e morte, de Geezer Butler, baixista e principal letrista do Sabbath. Segunda: From the dark é um disco de metal. Por metal, entenda-se exatamente isso: som pesado, viajante, sombrio, a quintessência do estilo antes de qualquer caricatura ou mistura que possa ser imaginada.
E por metal, entenda-se também: elegância nos solos, bases e riffs, mesmo quando a ideia é fazer tudo soar como músicas para emocionar um ogro. Tony inventou o estilo, e põe toda a memória do som pesado em sua música, muito embora o som de From the dark seja o do Black Sabbath com Ronnie James Dio nos vocais – e o do Heaven and Hell, continuação renomeada da formação Dio-Iommi-Butler. Lande canta como Dio e também como um Rob Halford rouco.
Jørn e Iommi investem no peso cromado em Over the violent sun e Return of the arbalist, em climas sombrios e quase góticos em Black times, Death wake (com rufar de tambores e riff sinistraço à moda do hino Black Sabbath) e Beyond the dead, e em sons estradeiros e heroicos em World alone. A energia do hit Heaven and hell, do Sabbath, paira sobre Stormwatcher – mas sem o ritmo demarcado do original, e investindo em metal-marcha fúnebre, algo que pode mesmo prever tempestades.
Acompanhados pela baixista Becky Baldwin (ex-Mercyful Fate) e pelo baterista Karl Brazil (James Blunt, Robbie Williams etc.), Jørn e Iommi encerram From the dark observando o legado do metal e do Black Sabbath como uma chama que não se apaga – em Legacy, música extensa (sete minutos) e repleta de uma carga existencial que as letras do Sabbath sempre tiveram. Versos como “olhando para o futuro, tentando em vez de se esconder / heróis e jogos, estou gravando meu nome muito além do brilho do céu / alguém cantará a música que eu trago amanhã” não são apenas música. São missões.
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Crítica
Ouvimos: The Linda Lindas – “Gotta get out”

RESENHA: Em Gotta get out, as Linda Lindas ampliam seu punk com new wave, nu-metal e eletrônica, além de parceria com Hayley Williams. Mais peso e maturidade.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Reprise
Lançamento: 28 de agosto de 2026
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Lucia de la Garza (guitarra, vocal), sua irmã Mila (bateria, vocal), Eloise Wong (baixo, vocal) e Bela Salazar (guitarra, vocal) são as The Linda Lindas, banda que começou fazendo punk adolescente e agora chega ao terceiro álbum, Gotta get out, em tom de evolução. A entrada na grandalhona Reprise não fez o grupo abandonar o punk, mas abriu espaço para beats eletrônicos, guitarras mais pesadas e outras referências. O resultado é um disco que soa como uma nova fase, sem apagar a anterior, de álbuns com No obligation (2025, resenhado aqui).
A faixa-título abre o álbum com batidas eletrônicas e riffs texturizados- é uma new wave de quem ouve nu-metal. A letra fala da sensação de viver num disco riscado, repetindo hábitos dos quais não se consegue escapar. Burning out segue por um caminho próximo, com batidas dançantes, guitarras igualmente cheias de texturas e uma mistura de pós-punk, Pixies e rock alternativo dos anos 1990. Tudo isso para falar de esgotamento.
O lado selvagem aparece em Helado de limón, punk cantado em espanhol, com algo do L7 e uma letra que dispensa aplausos e validação alheia. Blood on our hands é som e riot grrrl, com vocais raivosos e ataques ao fascismo e aos privilégios. Já Break vai ganhando velocidade até lembrar o hardcore do Suicidal Tendencies.
A relação com o Paramore aparece não só na participação de Hayley Williams em Closer, um bubblegrunge dramático e cheio de guitarras. A influência da banda está também no punk-pop de I could be wrong e no pós-punk nublado de Everybody told me. Hayley acompanha o crescimento das Linda Lindas há anos, e a colaboração acabou sendo mais do que uma participação especial.
Nothing left junta new wave, B-52’s e riffs pesados. High horse tem algo de Siouxsie and the Banshees, vocais quase rappeados e uma bronca contra gente arrogante que adora intimidar os outros. Já Okay recupera Ramones, Clash e Green Day, enquanto See you next time fecha tudo com violão, dream pop à Cocteau Twins e despedidas tristes (na letra).
A mudança da Epitaph para a Reprise não mudou as Linda Lindas – as músicas já estavam sendo trabalhadas antes da assinatura do contrato, até. Gotta get out é mais produzido, mais variado e até mais adulto do que os dois discos anteriores. E, curiosamente, as Linda Lindas parecem ainda mais à vontade no barulho.
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Crítica
Ouvimos: Guandu – “Turvo”

RESENHA: Gravado em fita K7, Turvo, segundo álbum do Guandu, amplia o slowcore e o emo da banda com blues, psicodelia, math rock e até power pop. Um disco de guitarras experimentais, com participação de Marina Mole.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 17 de setembro de 2026
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Originalmente uma banda de emo e slowcore, o Guandu começa a apresentar uma cara diferente em Turvo, o segundo álbum. Gravado em fita K7 assim como No-fi, o primeiro (2025, resenhado aqui), ele traz a banda com uma curiosa cara meio blues – o estilo se insinua em meio a músicas lentas e derretidas, com diversas evocações. Há algo da viola elétrica de John Cale no Velvet Underground na instigante Séculos, por exemplo. E um experimentalismo slow toma conta de músicas como A (cujo título é uma vogal-cântico que surge na faixa) e a vinheta Véspera da véspera, com guitarra em tom macio e quase progressivo.
Essa vinheta abre o single Véspera, que vem num clima mais romântico e ensolarado que o comum deles – é definida como “uma canção despretensiosa e aconchegante”, em que o verso “não sei do que ela gosta / mas sei que eu gosto dela” caminha entre Mutantes, Jorge Ben e Charlie Brown Jr. Já 5 tem ritmo sendo criado em torno dos dedilhados, enquanto 6 vai na onda de uma espécie de blues emo, assim com acontece com Mais um dia, gravada com Marina Mole. Faixas com títulos obscuros como + e Turva, por sua vez, caminham na direção de um emo + math rock sombrio e maldito.
Além disso tudo aí, Turvo flerta mais fortemente com a psicodelia nos ruídos guitarrísticos de J e em Sombra, e solta uma espécie de power pop deprê em Cowboy. Um teste do segundo disco muito bem aproveitado.
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