Cultura Pop
Erasmo Carlos bate um papo com a gente sobre música, futuro, passado e vacina

Há uma relação entre o nome do programa de TV Jovem Guarda e uma conhecida máxima do líder russo Vladimir Ilyich Ulianov (o popular Lênin, que escreveu que “o futuro pertence à jovem guarda” ou “o futuro do socialismo repousa nos ombros da jovem guarda”, dependendo da tradução). Essa história, um dos segredos mais mal guardados do rock nacional, havia surgido em algumas poucas publicações sobre música brasileira. Como por exemplo, o fascículo dedicado a Roberto e Erasmo Carlos da série Nova história da música popular brasileira, da Abril, nos anos 1970. Ou a histórica entrevista que Roberto Carlos deu para a Bizz em 1988. Mas ficou para trás com o tempo.
Entre a Revolução Russa e a revolução de Roberto e Erasmo, ainda houve outra jovem guarda – a da coluna de jornal de mesmo nome, assinada pelo futuro “rei da noite” Ricardo Amaral, que fazia bastante sucesso nos anos 1960. O publicitário Carlito Maia, um dos criadores do conceito da “jovem guarda” de Roberto, Erasmo e Wanderléa (e por sinal um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores) costumava, de qualquer jeito, citar a frase do líder comunista como inspiração para o nome do programa.
“O tempo é que me levou a descobrir que a coluna (do Ricardo Amaral) tirou da frase do Lênin, então o programa também tirou de lá. Foi um efeito dominó”, brinca Erasmo, que revisitou oito clássicos do movimento em seu novo disco, O futuro pertence à… Jovem Guarda: tem Ritmo da chuva (Demetrius), Nasci para chorar (versão de Dion & The Belmonts, feita por ele e gravada por Roberto), A volta (dele e de Roberto, gravada pelos Vips), O bom (de Eduardo Araújo). O disco é, mais do que um retorno ao passado, uma declaração de princípios e um olhar carinhoso para o futuro, como o próprio Erasmo conta nesse papo com o Pop Fantasma (foto: Guto Costa/Divulgação)
Como foi escolher o repertório e rearranjar as músicas?
A gente procurou fazer uma coisa contemporânea, como se as músicas tivessem sido gravadas agora. Porque quando se fala em Jovem Guarda, a pessoa remete logo ao órgão do Lafayette, aquele órgão marcante, aquelas músicas… E não, é só mudar a roupa da música que ela fica nova. A gente fez isso, procurou dar ênfase aos vocais… Para escolher o repertório, me reuni com os produtores, o Pupillo e o Marcus Preto, e o Leo Esteves – meu filho que coordena mais ou menos minha vida artística. Fomos cada um com seus preferências e depois fizemos o somatório. Escolhemos só sucessos, músicas marcantes com outros artistas, e que eu nunca tinha gravado. Foi fácil até escolher as oito músicas, valeram as mais votadas.
Você chegou a conviver com muitos desses artistas?
Claro. Com o Demetrius (de Ritmo da chuva) foi pouco, porque ele começou antes da Jovem Guarda. Com o Bobby de Carlo também foi pouco. O resto foi tudo durante a Jovem Guarda mesmo. Eu me dava bem com todo mundo, me dou até hoje. Não tenho nada contra ninguém, ninguém tem nada contra mim (risos).
Como foi emocionalmente pra você revisitar esses tempos gravando o disco?
Eu não fiz o disco com intenção de relembrar, na verdade. Fiz com intenção de projetar pro futuro. Porque eu quis homenagear a frase: “O futuro pertence à Jovem Guarda”. É uma frase da qual foi tirado o nome do programa. Era uma frase do Lenin. Eu vejo muito além dessa questão do programa de TV, vejo uma proposta, uma profecia, uma contestação, uma sugestão. Isso de “o futuro pertence à Jovem Guarda” é uma verdade.
Até porque a jovem guarda são as novas gerações, o bebê que tá nascendo agora. A gente não está cuidando direito deles. A gente tá negligenciando muito, não estamos dando prioridade à educação, á saúde. Eles precisam disso pra crescer fortes, sadios, espertos, para fazer um mundo melhor. Porque o mundo como tá hoje, tá uma merda! Ninguém tá satisfeito com o mundo atual, parece até que o ódio está vencendo. Mas é uma mentira isso. O amor é a arma mais poderosa que alguém já inventou.
Eu quis usar o amor das músicas da Jovem Guarda para perpetuar esse amor no futuro. Porque o amor das músicas da Jovem Guarda é um amor puro, inocente. Sabe? “Você é o tijolinho que faltava na minha construção” pode parecer brega, mas é de uma inocência muito bonita. Uma ingenuidade que você só encontra numa criança ou num cachorro.
As pessoas têm gostado do disco, eu fico acompanhando nas plataformas quem ouviu, quantos ouviram… Claro que não chega aos pés do funk, né? Que aí é trinta milhões de pessoas e tal. Nada disso, meu público é o que gosta de boa música, que se arrepia com um arranjo, pra quem fala diretamente com deus quando ouve música… Aí são poucas pessoas.
Como você lida com essa questão dos algoritmos, essa concorrência toda nas plataformas? Isso passa pela sua cabeça quando faz um disco novo?
Tô convivendo igual a você (risos), aprendendo as novidades. São 30 anos de novidade por dia, tem agora metaverso, bitcoin, você tem que aprender. Se você não aprender, você é ultrapassado, o progresso não perdoa ninguém. Tem que ter essa consciência, procuro sempre estar antenado. E fazendo coisas, eu tenho que ser notado, quero que o jovem por exemplo ouça uma coisa que eu estou fazendo agora. E se ele gostar, vai querer saber o que é que eu fiz. Se ele gostar, aí eu ganhei mais um fã. Meu processo de renovação existe a partir desse princípio: tenho que fazer agora pro jovem gostar e assumir o velho como novo.
Por acaso nos seus discos dos anos 80 sempre havia uma música infantil, como Meu bumerangue não quer mais voltar. Como era fazer esse tipo de música? Você sentia que estava fazendo novos fãs?
Então, sempre tive vários segmentos musicais: o romântico, com Roberto Carlos, tem o segmento romântico meu, sozinho, que é diferente do dele. Faço com ele e faço coisas sozinho. Tenho músicas de humor, de protesto, vários segmentos que fiz através dos tempos. A do Bumerangue eu classifico como uma música de humor, é um amor que foi embora, quem sabe ele volta. Gravei com a Xuxa até!
Voltando ao disco novo: na época vocês sabiam que a frase “o futuro pertence à Jovem Guarda” vinha de uma frase do Lênin? Porque tinha também a coluna do Ricardo Amaral, também chamada de Jovem guarda…
Tinha, tinha. Mas ninguém informava nada a gente, não, a gente nem sabia de nada. A gente dizia que era da coluna. O tempo é que me levou a descobrir que a coluna tirou da frase do Lênin, então o programa também tirou de lá. Foi um efeito dominó.
Como tá sendo voltar à estrada? Aliás como tá sua saúde?
Tá uma maravilha voltar a estrada. Fiquei doze dias na CTI por causa da covid e fiquei mal, bicho. Perdi voz, perdi respiração, equilíbrio. Pensei que nunca mais eu iria voltar, que iria acabar minha carreira. Depois foi uma correria pra voltar à forma. Fiz sessões de fonoaudiologia, acupuntura, fisioterapia. Muitos exercícios, e fui voltando à minha forma. Aí faltava a emoção do show, o aplauso das pessoas, testar fôlego. Surgiu uma oportunidade em Porto Alegre, o primeiro show da turnê. Fizemos o segundo em São Paulo, o terceiro no Rio. Agora estamos esperando a janela abrir de novo pra fazer Belo Horizonte. Agora considero que voltei legal, mas sem trocadilho com a música A volta (risos)…
Como bateu em você quando você da pandemia?
Fiquei sabendo, acho que ninguém soube de estalo. Primeiro falavam de um resfriado, depois de não sei o que, aí depois foi se agravando. Aí todo mundo foi sabendo. Já vi esse filme muitas vezes, porque vejo filme de ficção científica, então 30 jeitos diferentes do mundo acabar eu já conheço (risos). As pessoas que têm medo da própria imaginação é que são pegas de surpresa, e a surpresa tem um efeito muito maior. Eu tô acostumado com esses segmentos todos das histórias que eu leio e dos filmes que eu vejo.
Eu pergunto isso até porque essa coisa dos novos tempos, ou de coisas meio apocalípticas tá muito presente no seu trabalho. Você vê um disco como 1990 – Projeto salvaterra (1974), por exemplo…
É, minha cultura é de história em quadrinhos, eu não tenho cultura escolar. A vida que me ensinou as coisas. E eu tenho cultura de história em quadrinhos e cinema, minha cultura foi essa. Eu uso muito minha imaginação. Eu sempre falei, sempre protestei, falando em termos de humanidade, de civilização. Nunca protestei muito falando do Brasil, não. Meus pensamentos são sempre pro mundo, são as pessoas do mundo que estão erradas. Não são só as pessoas do Brasil, não.
Como você tá vendo essa onda dos artistas antivacina, como rolou com o Eric Clapton?
Ah, cada um tem sua cabeça. Não concordo não, aliás eu quero que ele se dane, tá cuidando da vida dele e eu da minha (risos). Eu me vacino, ele que faça o que ele quiser. Eu não obrigo as pessoas a fazerem as coisas, não. Só não quero que ele frequente minha casa! Sem estar vacinado, não dá. Todo mundo tem o direito de fazer o que quer e falar o que quer, desde que não agrida as outras pessoas. Quem toma uma posição dessas de não se vacinar, tem que assumir a proibição de não ir em certos lugares, porque as pessoas não querem uma pessoa que não foi vacinada no seu convívio.
Erasmo, esse ano faz 50 anos de um grande disco seu que é o Sonhos e memórias. Quais são suas lembranças desse disco?
Ah, é um disco muito bonito. É um disco que eu gosto muito. A crítica em geral gosta do Carlos, Erasmo (1970), mas eu gosto muito do Erasmo Carlos & Os Tremendões (1969)…
Que também é um grande disco, impressionante como não lembram tanto…
Foi o disco em que eu comecei minha mudança interior. Ela se apresentou já pronta no Carlos, Erasmo, mas começou lá. E o Sonhos e memórias é um disco que eu gosto muito, foi a última saudade que eu tive. Eu tenho uma saudade muito grande da minha infância, da minha adolescência. Botei tudo nesse disco. Aí nunca mais tive saudade de nada (risos), porque eu vivo mesmo é do presente e do futuro.
O que são aquelas falas entre as músicas do Sonhos e memórias? Aliás no fim de Preciso urgentemente encontrar um amigo tem um negócio que parece trailer de filme sobre a guerra do Vietnã…
Tem uma fala que é meu filho Gil Eduardo, ele que falou “o Natal tá chegando e eu quero dar presente pra todo mundo!” (antes de Vida antiga). A gente sacaneia ele até hoje por causa disso. Em Preciso urgentemente encontrar um amigo, aquilo é um locutor falando sobre a guerra do Vietnã. Essa música foi feita com essa intenção, era aquela época da Guerra do Vietnã, e era a época da peça de teatro Hair, no mundo inteiro a música Aquarius estava estourada e era aquela coisa dos hippies, paz e amor. E a necessidade de uma amizade, de um ombro amigo, era muito grande. Então essa música foi feita nessa época, assim como É preciso dar um jeito, meu amigo.
Esses detalhes aí só pessoas atentas como você percebem (wow!), porque 99% do público não está nem aí. Uma vez um diretor de gravadora falou pra mim e pra Roberto: “Vocês têm que parar de fazer essas músicas sobre ecologia, essas coisas de mato, de bicho”. A gente: “Não, a gente tem que falar, sim, porque é preciso, porque há animais entrando em extinção…”. E ele: “Não tem que falar porra nenhuma, cara, ninguém quer saber disso não, as pessoas só querem saber é de dançar. Por exemplo: você fizeram agora uma música chamada As baleias. Ninguém quer saber disso não. E quer saber do que mais? Baleia não compra disco!” (risos). O cara falou isso na nossa cara…
E hoje a gente tá vendo o quanto custa não falar de ecologia…
E a mentalidade é essa, né?
Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.
Cultura Pop
“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.
Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.
Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.
O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.
Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.
Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.
Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.
“Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.








































