Cultura Pop
E os 35 anos de Warehouse: Songs and Stories, do Hüsker Dü?

Bob Mould, líder da banda punk americana Hüsker Dü, passou por uma transformação pessoal pouco antes de fazer as canções do disco Warehouse: Songs and stories, o sexto e último álbum do grupo (lançado em 19 de janeiro de 1987). Ainda que o cantor e guitarrista não fizesse o gênero junkie, sua relação autodestrutiva com a bebida já tinha chegado a níveis altíssimos – Mould teve uma fase duradoura em que bebeu todos os dias, deixava uma garrafa de uísque de prontidão na gaveta da escrivaninha e inventava desculpas do tipo “se não está atrapalhando meu trabalho, tudo bem, posso encher a cara”.
O cantor diz ter seguido um caminho bem sui generis: não seguiu nenhum programa de doze passos, nem nenhum tipo de aconselhamento. Apenas parou de beber de uma hora para outra. Se você tem problemas com bebida, recomendamos que faça uma visita ao AA. Mas enfim, foi desta forma que deu certo para Mould, no fim de 1986, quando ele se trancou no quarto para começar a imaginar o disco.
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“Eu estava começando a me evadir da cena e da própria banda”, recordou ele em seu livro See a little light: The trail of rage and melody, lembrando que a banda começava a se separar ali, com Greg Norton (baixo) casado e Grant Hart (bateria) mais ocupado com outros rolês. A boa e velha competição com Grant, segundo compositor e “arma secreta” do grupo, voltava firme e forte. Com o agravante de que a banda mal se falava, e o comportamento passivo-agressivo era a maneira como os três muitas vezes escolhiam se comunicar.
Por acaso, Warehouse, um disco duplo (assim como o fenomenal Zen arcade, de 1984), é o LP em que a divisão de canções entre Mould e Hart aparece mais acentuada. Praticamente uma canção de um, seguida de uma canção de outro, sem pular. Hart brigou para ter mais músicas, conseguiu, mas ouviu de Mould que ele “nunca assinaria mais da metade das composições num disco do Husker Dü” (sem problemas, já que o grupo encerrou atividades).
Uma coisa que pode surpreender fãs do Hüsker Dü é que Mould não é um grande fã de Warehouse – pelo menos é o que ele revela no livro. O cantor diz que teria lançado um excelente disco simples se tivesse resolvido cortar algumas canções. Maldade com um disco que tem Could you be the one (“escrita especificamente para ser um single”, ele diz), These important years, Too much spice, Standing in the rain, She floated away e várias outras. Provavelmente o excesso de lembranças ruins turvou algumas coisas.
O álbum foi todo ensaiado num velho armazém (daí o título, “armazém: canções e histórias”) e foi quase um lançamento indie dentro da Warner, com Hart e Mould dividindo a produção e adotando técnicas malucas de gravação, como gravar os pratos da bateria em separado. Greg Norton, por sua vez, engoliu o fato de seus colegas terem resolvido regravar eles mesmos algumas linhas de baixo, sem avisá-lo. O grupo começou a sofrer pressões da Warner para entregar um disco mais comercial e surpreendentemente, não viu cara feia da gravadora quando avisou que havia feito um LP duplo. Só precisaram engolir uma redução de royalties, porque a multinacional só topava se eles não se incomodassem de receber o equivalente a um LP simples.
Entre brigas, animosidades e problemas com gravadora e empresários, o Hüsker fez de Warehouse um disco excelente, do tipo que passa voando, mas você vai querer voltar para ouvir um detalhe ou outro. O trio, formado por punks influenciados por Who e Byrds, retornava falando basicamente sobre desencontros, como em It’s not peculiar, Standing in the rain (sobre um pé na bunda mortal), Ice cold ice e várias outras. Charity, chastity, prudence and hope era um comentário particular de Hart sobre ganância.
No reservations, de Mould, é tristeza pura (“como uma telha solta numa tempestade de vento/devo me soltar e voar?”), mas termina com notas de otimismo. A bela Turn it around, também de Mould, parecia um recado para Hart, assim como as músicas do baterista pareciam ter Mould como destinatário. Era nesse pé (de guerra!) que Warehouse poderia ser entendido.
O fim do Hüsker Dü viria em breve, e geralmente é creditado ao vício de Hart em heroína. O baterista sempre questionou isso, e em 1989 diria à Spin que apenas deixou a banda, e só conseguiu largar a droga quando finalmente ficou solo. Houve outros problemas graves que apressaram o fim, como a morte do empresário da banda, David Savoy – além de muita falta de comunicação, animosidade e arrogância, em doses quase iguais. Seja como for, a música de Bob Mould, Grant Hart e Greg Norton continua vencendo as barreiras de tempo e espaço.
Cultura Pop
George Harrison em 2001: “O que é Eminem?”

RESUMO: Em 2001, George Harrison participou de chats no Yahoo e MSN para divulgar All Things Must Pass; com humor, respondeu fãs poucos meses antes de morrer – e desdenhou Eminem (rs)
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução YouTube
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“Que Deus abençoe a todos vocês. Não se esqueçam de fazer suas orações esta noite. Sejam boas almas. Muito amor! George!”. Essa recomendação foi feita por ninguém menos que o beatle George Harrison no dia 15 de fevereiro de 2001 – há 25 anos e alguns dias, portanto – ao participar de dois emocionantes chats (pelo Yahoo e pelo MSN).
O tal bate-papo, além de hoje em dia ser importante pelos motivos mais tristes (George morreria naquele mesmo ano, em 29 de novembro), foi uma raridade causada pelo relançamento remasterizado de seu álbum triplo All things must pass (1970), em janeiro de 2001. George estava cuidando pessoalmente da remasterização de todo seu catálogo e o disco, com capa colorida e fotos reimaginadas, além de um kit de imprensa eletrônico (novidade na época), era o carro-chefe de toda a história. O lançamento de um site do cantor, o allthingsmustpass.com, também era a parada do momento (hoje o endereço aponta para o georgeharrison.com).
Os dois bate-papos tiveram momentos, digamos assim, inesquecíveis. No do Yahoo, George fez questão de dizer que era sua primeira vez num computador: “Sou praticamente analfabeto 🙂 “, escreveu, com emoji e tudo. Ainda assim, um fã meio distraído quis saber se ele surfava muito na internet. “Não, eu nunca surfo. Não tenho a senha”, disse o paciente beatle. Um fã mais brincalhão quis saber das influências dos Rutles, banda-paródia dos Beatles que teve apoio do próprio Harrison, no som dele (“tirei todas as minhas influências deles!”) e outro perguntou sobre a indicação de Bob Dylan ao Oscar (sua Things have changed fazia parte da trilha de Garotos incríveis, de Curtis Hanson). “Acho que ele deveria ganhar TODOS os Oscars, todos os Tonys, todos os Grammys”, exultou.
A conta do Instagram @diariobeatle deu uma resumida no chat do Yahoo e lembrou que George contou sobre a origem dos gnomos da capa de All things must pass, além de associá-los a um certo quarteto de Liverpool. “Originalmente, quando tiramos a foto eu tinha esses gnomos bávaros antigos, que eu pensei em colocar ali tipo… John, Paul, George e Ringo”, disse. “Gnomos são muito populares na Europa. E esses gnomos foram feitos por volta de 1860”.
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A ironia estava em alta: George tambem disse que se começasse um movimento como o Live Aid ajudaria… Bob Geldof (!)., o criador do evento. Perguntado sobre se Paul McCartney ainda o irritava, contemporizou: “Não examine um amigo com uma lupa microscópica: você conhece seus defeitos. Então deixe suas fraquezas passarem. Provérbio vitoriano antigo”, disse. “Tenho certeza de que há coisas suficientes em mim que o irritam, mas acho que já crescemos o suficiente para perceber que nós dois somos muito fofos!”. Um / uma fã perguntou sobre o que ele achava da nominação de Eminem para o Grammy. “O que é Eminem?”, perguntou. “É uma marca de chocolates ou algo assim?”.
Bom, no papo do MSN um fã abusou da ingenuidade e perguntou se o próprio George era o webmaster de si próprio. “Eu não sou técnico. Mas conversei com o pessoal da Radical Media. Eles vieram à minha casa e instalaram os computadores. Os técnicos fizeram tudo e eu fiquei pensando em ideias. Eu não tinha noção do que era um site e ainda não entendo o conceito. Eu queria ver pessoas pequenas se cutucando com gravetos, tipo no Monty Python”, disse.
Pra ler tudo e matar as saudades do beatle (cuja saída de cena também faz 25 anos em 2026), só ir aqui.
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Cultura Pop
No nosso podcast, os erros e acertos dos Foo Fighters

Você pensava que o Pop Fantasma Documento, nosso podcast, não ia mais voltar? Olha ele aqui de novo, por três edições especiais no fim de 2025 – e ano que vem estamos de volta de vez. No terceiro e último episódio, o papo é o começo dos Foo Fighters, e o pedaço de história que vai de Foo Fighters (1995, o primeiro disco) até There’s nothing left to lose (o terceirão, de 1999), esticando um pouco até a chegada de Dave Grohl e seus cometas no ano 2000.
Uma história e tanto: você vai conferir a metamorfose de Grohl – de baterista do Nirvana a rockstar e líder de banda -, o entra e sai de integrantes, os grandes acertos e as monumentais cagadas cometidas por uma das maiores bandas da história do rock. Bora conferir mais essa?
Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: encarte do álbum Foo Fighters). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.
(a parte do FF no ano 2000 foi feita com base na pesquisa feita pelo jornalista Renan Guerra, e publicada originalmente por ele neste link)
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Cultura Pop
No nosso podcast, Alanis Morissette da pré-história a “Jagged little pill”

Você pensava que o Pop Fantasma Documento, nosso podcast, não ia mais voltar? Olha ele aqui de novo, por três edições especiais no fim de 2025 – e ano que vem estamos de volta de vez. No segundo e penúltimo episódio desse ano, o papo é um dos maiores sucessos dos anos 1990. Sucesso, aliás, é pouco: há uns 30 anos, pra onde quer que você fosse, jamais escaparia de Alanis Morissette e do seu extremamente popular terceiro disco, Jagged little pill (1995).
Peraí, “terceiro” disco? Sim, porque Jagged era só o segundo ato da carreira de Alanis Morissette. E ainda havia uma pré-história dela, em seu país de origem, o Canadá – em que ela fazia um som beeeem diferente do que a consagrou. Bora conferir essa história?
Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: Capa de Jagged little pill). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.
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