Crítica
Ouvimos: Holly Humberstone – “Cruel world”

RESENHA: Holly Humberstone reflete o fim da infância em Cruel world, disco de pop confessional, bittersweet e introspectivo, misturando memórias, estranheza e sons variados.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Polydor / Geffen
Lançamento: 24 de outubro de 2022
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Você pode alegar (e com alguma razão) que o mundo é bem mais cruel com gente bem pobre e que faz parte de alguma minoria – e Holly Humberstone é uma mulher branca de olhos claros, vinda de Grantham, localidade do leste da Inglaterra, conhecida por ter dado ao mundo ninguém menos que Margaret Thatcher. Dá um certo susto quando você lê que Cruel world, novo álbum de Holly, fala sobre “fim da infância”.
Na verdade, Cruel world é basicamente música confessional, que fala de um mundo onde o “eu” fala por algo próximo do “todo mundo” – e que tem como cenário o fato de seus pais terem se desfeito de sua casa de infância (ela as irmãs foram chamadas a Grantham para se desfazer de seus pertences, que estavam lá havia anos, e a casa era tão velha que tinha “cogumelos nas paredes”, como lembrou Holly na Rolling Stone britânica).
Cruel world, de fato, tá mais para um disco bittersweet, aberto com compassos de orquestra (a vinheta So it starts…) e caindo no pop adulto sintetizado e alternativo em Make it all better – que fala de amigos, de proteger pessoas, de envelhecimento, de fazer tudo ficar bem. To love somebody tem alguns versos bem lapidares (“no filme da sua vida / você é a primeira a morrer / e os críticos chamaram de lixo” é o melhor deles) e investe no pop dançante e introvertido, com ambiência e alguma grandiloquência.
Nas doze faixas, Holly cai dentro de um certo jeito inglês de fazer pop, dando uma cláusula de estranheza até quando tudo parece muito bem formatado. A faixa-titulo abre com teclados cintilantes e percussões, e emenda num pop de filme de Sessão da tarde, dedicado a um amor à distância. O soft rock White noise envolveu uma ida a Nashville e uma emendada na onda country local – embora o próprio nome da faixa entregue outras sensações (mas o tal “white noise” são só mexericos no banheiro feminino).
O belíssimo folk-pop de ninar Lucy, cheio de vocais de arrepiar, vai para uma seara conhecida do pop e do rock: a criação de personagens simples, que andam de trem, trabalham e se sentem perdidas diante do tal “mundo cruel” – no caso, a faixa só tem personagens mulheres. Tem um lado sexy e empoderado em Cruel world que vem embalado em memórias, sensações e numa musicalidade mais próxima do lado introspectivo do pop, como no som crescente de Red chevy, no eletrorock de Scarlett e no soft rock de Drunk dialing. Ou nas baladas de piano Peachy e Beauty pageant, que mexe daqui e dali, podem até caber na voz de Mariah Carey – mas são mais apropriadas para vozes introspectivas.
A febre de pop distópico, vale dizer, pegou Holly em Cruel world, já que ela faz de Die happy um pop vampiresco com baixo chupado dos Pixies. Uma faixa com mais do que apenas uma lembrancinha de Morrissey, em versos como “morrer com você é morrer feliz”, e uma proximidade, ainda que velada, com Olivia Rodrigo (“eu queria escrever uma música para pessoas que amam tanto que isso às vezes as assusta”, definiu Holly).
Tem ainda o dream pop distorcido e psicodélico de Blue dream, que Holly fez para o namorado, o músico Joe Atkinson (que, segundo ela, é chegado no blue dream, uma cepa de de cannabis com 20% de THC). E aí que uma das grandes qualidades de Cruel world é quebrar expectativas, o que Holly faz no disco inteiro – é pop, mas a entrega não é 100% facilitada.
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Crítica
Ouvimos: Fat Dog – “Cancel me (I’m tired)”

RESENHA: No segundo álbum, Cancel me (I’m tired), o Fat Dog leva o dance-punk a novos extremos, misturando new rave, synthpop, guitarras pesadas e humor politicamente incorreto em músicas sobre poder, opressão e esgotamento.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Domino Recording Co.
Lançamento: 2 de outubro de 2026
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Juro que quando ouvi o Fat Dog pela primeira vez, achei que aquela classe toda fosse gerar uma banda legal, e nada mais do que isso. Woof, a estreia dessa banda britânica (2024, resenhado aqui), revelava um grupo atrevido, imaginativo, chegado a uma estranha mistura de disco music, música eletrônica, emo e sons pesados e dançantes de modo geral – e que poderia ser categorizado naturalmente como indie sleaze, dance-punk, coisas do tipo.
Vai daí que Cancel me (I’m tired), o segundo álbum, é bem mais do que apenas uma surpresa, já que se trata de uma banda que reza no credo de grupos com Viagra Boys, Yard Act e até Shame, mas com personalidade própria. O Fat Dog voltou carregando mais ainda no humor absurdo e num clima musical que coloca a banda como sobrinhos da geração new rave (lembra desse nome?). Ou como uma turma que entendeu que o politicamente incorreto está em mãos erradas, e se arrisca a entrar para o mesmo local onde hoje residem as camisas da seleção brasileira.
Nomes como Devo, Happy Mondays, Battles, David Bowie e até Kaiser Chiefs surgem como evocações e lembranças do álbum, em canções como Smile and wave (quase Viagra Boys + Shame + dance punk), Go fuck urself (rastros de Der kommissar, de Falco, mas com um ar meio chique dado pelo saxofone) e a ótima Shit love – esta, uma zoeira entre rock e música eletrônica, com guitarras em tom sabbathiano.
O eletro-punk comanda em especial The devil, Bad dog (beat pesado e onda sonora próxima de Master Peace), Call it what you want e a ótima faixa-título – mas no novo testamento, o Fat Dog também promove a união de Bowie, Lloyd Cole e synthpop em Heart of darkness, além de unir country e orquestra em Snakes, e de fechar o álbum com uma balada grandiosa e bem diferente do restante do álbum, Aliens.
Nas letras, o Fat Dog aponta suas armas para tudo aquilo que possa significar poder e opressão existencial – tipo o excesso de expectativas e aporrinhações na faixa-título (na qual eles consideram a hipótese até de usar IA para fazer música), Smile and wave e Go fuck urself. Gente com quem o diabo acharia melhor não fazer um pacto aparece em The devil, a revolta política dá as caras em Call it that you want, e gente problemática e “poderosa” cai do cavalo em Bad dog e Heart of darkness. Que virada.
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Crítica
Ouvimos: Naimaculada – “Acromatopsia” (EP)

RESENHA: Em Acromatopsia, o Naimaculada transforma uma São Paulo cinzenta e padronizada em música, cruzando MPB, metal, jazz e rock progressivo, com participações de Kiko Dinucci, BNegão e outros convidados.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Deck
Lançamento: 14 de setembro de 2026
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A modernidade, segundo gente de áreas como arquitetura e design, e artistas visuais em geral, está se tornando um deserto sem cores, ou com pouca variedade de tonalidades. Basta você olhar para uma área mais colorida ou até poluída visualmente, para que aquilo seja automaticamente associado aos anos 1980. Em compensação, é na era dos lugares “instagramáveis” que tudo parece ficar igual, asséptico, com as mesmas cores – e, no caso do próprio Instagram, com as mesmas fontes de letras.
Indo mais além, nada como a era da IA para tudo ficar REALMENTE parecido – e nem só os textos, mas as ideias, os estilos de vida e uma espécie de combo on-offline da vida, do trabalho e da psiqué de todo mundo. O EP novo do Naimaculada, Acromatopsia, é uma espécie de voyeur dessa falta de variedades tonais: o grupo passeia por uma São Paulo em que tudo é preto e branco.
Apresentando vários convidados (Thalin, do projeto Maria Esmeralda, Nabru, Sol, Kiko Dinucci e BNegão) e parte das gravações realizadas em Shijiazhuang, na China – com músicos tocando instrumentos locais – Acromatopsia vai bem além do progressivo altamente brasileiro e vigoroso da estreia A cor mais próxima do cinza (2024). O título faz referência a uma condição visual rara caracterizada pela incapacidade total ou parcial de perceber as cores. As letras enxergam tudo por esse prisma, em que São Paulo é um festival de inércias e engessamentos, um paraíso que reluz de longe, mas não de perto.
Com a voz forte de Ricardo Paes à frente, as músicas soam as vezes como um improvável encontro entre Black Sabbath, Gilberto Gil e Luiz Melodia, partindo para o jazz do inferno em O pecado tem medo, para um progressivo “distante” em Shangri-La (com os músicos chineses) e para uma MPB-metal afrontosa em O que é que será? Já Terminal Bandeira, com Kiko Dinucci, fica no mesmo corredor de Medusa, novo álbum do músico – abre com uma guitarra bem própria, e vai achando um caminho igualmente particular para chegar a algo que lembra um pós-hardcore. Ou um Nintendocore.
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Crítica
Ouvimos: O Preço – “Caóticas palavras”

RESENHA: Liderado por Christian Targa, fundador dos Blind Pigs, O Preço mistura street punk, ska e reggae em Caóticas palavras, disco de protesto sobre desinformação, escolhas políticas e resistência popular.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 5 de outubro de 2026
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Banda punk paulista liderada por Christian Targa (voz e guitarra), um dos fundadores do Blind Pigs, O Preço não escolheu esse nome à toa: o repertório do álbum Caóticas palavras fala sobre o preço que todo mundo anda pagando pelas escolhas mais erradas que o mundo tem feito. E adianta algumas coisas que, se ninguém tomar cuidado, podem acontecer após o segundo turno das eleições presidenciais no Brasil.
O som do O Preço tem a ver com a vocação rueira do punk dos anos 1970 e 1980, quase sempre apontando para o clima street punk de bandas como Angelic Upstarts, ou para uma versão mais acelerada de bandas como The Clash e The Damned. Começo imediato abre o disco falando em derrotas inaceitáveis e lembra que a vanguarda é o cidadão trabalhador. Maldita calamidade fala de desinformações do dia a dia, em clima que lembra Richard Hell & The Voidods.
No decorrer de Caóticas palavras, hinos marciais como Cara planilha e Desumano não unem-se a canções de guerra como Revolver a evolução, Enquanto houver a esperança e Parentes e amigos – além de letras irônicas e realistas como a de Muamba militar. Inserido no contexto do punk setentista, e recuperados ao longo da história do estilo, gêneros como reggae e ska surgem na faixa-título e no rap-reggae O ska é a munição, com Bocão DRR soltando o verbo do lado da banda.
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