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Ouvimos: My New Band Believe – “My New Band Believe”

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Ouvimos: My New Band Believe – “My New Band Believe”

RESENHA: Estreia do My New Band Believe é prog ousado e emocional: faixas orquestrais, fragmentadas e DIY misturam jazz, folk e Yes/Jethro Tull.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Rough Trade
Lançamento: 3 abril de 2026

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A parte que cabia a Cameron Picton no latifúndio de sua ex-banda, o Black Midi (na qual ele tocava baixo e cantava um pouco), era geralmente o lado mais maluco e, quase sempre, mais “progressivo”. Isso no sentido comum do estilo, que abarcava músicas cheias de historinhas, canções com parte 1, 2 e 3, ou óperas-rock que às vezes podiam soar meio abiloladas.

O primeiro álbum de sua banda nova, My New Band Believe, vem justamente dessa estética, com canções orquestrais, sequenciadas, fragmentadas e cantadas por Picton com uma voz elegante que faz lembrar um Ian Anderson (Jehtro Tull) mais tranquilo. Target practice e In the blink of an eye, logo no começo, surgem interligadas numa cadência que lembra justamente a banda do hit Aqualung – só que sem flautas e clima medieval, lembrando mais uma modinha cigana maximalista, ou o progressivo de Canterbury.

Tem influências bem variadas em My New Band Believe, o disco: violões hispânicos e jazzísticos que lembram o Return To Forever, batidas quebradas que fazem lembrar o auge do Yes, vibe folk que remete a bandas como Pentangle. Se tinha algum lado punk, qualquer um, no Black Midi, ele migrou para a carreira solo do cantor Geordie Greep: a beleza algo sombria de Heart of darkness, com suas diversas partes ligadas por golpes de violão (são quase nove minutos), corais sinistros e orquestração a la George Martin é totalmente prog. Não é nem “referenciada” em rock progressivo, é coisa de quem partiu dos discos de Yes e Jethro Tull para os de jazz-fusion.

Por sinal, já que o Yes tinha músicas como Sweetness em seu primeiro álbum (Yes, 1969), o My New Band Believe não deixa por menos e apresenta o progressivo romântico de Love story (“você é o amor da minha vida / nada se compara / a um minuto a sós com você”). Uma faixa que abre em clima quase emepebístico-jobiniano, só com um piano gravado na torre do relógio da estação St. Pancras, em Londres (!). Depois a faixa vai ganhando orquestra e ruídos de casa (pratos, torneira abrindo). Já Opposite teacher, com destaque para a voz e o violão de Cameron, lembra Donovan e Cat Stevens, mesmo quando começa a ganhar partes diferentes.

Isso tudo aí é coisa pra caramba para um projeto que começou com Picton fazendo canções “com o microfone do meu laptop e um Zoom H6, sem mixagem, sem masterização”, como ele contou ao lançar o single Lecture 25 (não está no álbum): um rock de violão corrido que depois ganhou baixo, bateria, piano e mixagem feita pelo multi-instrumentista Seth Evans. Se bem que esse clima “faça você mesmo” reside em faixas como Pearls, cheia de ruídos e de defeitos especiais. E nas condições em que muita coisa do disco foi feita, como as cordas sobrepostas – e gravadas num ambiente minúsculo! – da emocionante Actress.

No geral, mais do que qualquer progressivismo ou virtuosismo, a estreia do My New Band Believe é um disco feito com ousadia e emoção – e é o principal.

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Ouvimos: Pentelho – “Adesivo de Ferrari” (EP)

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Resenha: Pentelho – “Adesivo de Ferrari” (EP)

RESENHA: Pentelho estreia com hardcore powerviolence sufocante, protesto feroz e clima sombrio em Adesivo de Ferrari.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Lixo-O-Rama Discos
Lançamentos: 23 de maio de 2026

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O selo Lixo-O-Rama Discos estreia avisando que os discos da gravadora “explodem feito dinamite”. Não é mera figura de linguagem. O Pentelho se dedica a um subgênero do hardcore chamado powerviolence – basicamente são quilos de peso inseridos num estilo que já é pesado por natureza, o que pode tornar a audição dos discos dessa turma experiências verdadeiramente imersivas.

Adesivo de Ferrari, EP de estreia do grupo, soa como se guitarra, baixo, bateria e vocais despontassem num espaço que não dá vazão para o som alto. A sensação de compressão, de sons brigando no ouvido, faz parte da experiência – bem como a onda sombria de muitos momentos, como a abertura com o monólogo Monólogo.

  • Ouvimos: War On Women – Time under tension

Faixas como Adesivo de Ferrari e Desejo carnal investem no protesto contra as estruturas do poder (milionários, patriarcado) e num som quase noise rock – a bateria parece tocada com uma chave de roda, e soa como as latadas do disco Saint anger, do Metallica (2003), só que em tom mais industrial. Show na esquina vem bem menos atmosférica que o restante do disco, enquanto Eu não sou feliz, surge lembrando as bandas do selo Läjä Records, com letra gozadora e clima pouca coisa menos violento.

No final, tem a porrada de Ameaça patriota, que mostra bem o que é violência de verdade, e de onde ela vem: “De farda invisível e arma na palavra / mentira gritada vira lei na marra / rindo da morte, chamando de histeria / mil corpos no chão, estatística fria / não foi erro, foi projeto”. Um som que chama o ouvinte pra porrada, no melhor dos sentidos.

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Ouvimos: War On Women – “Time under tension”

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Resenha: War On Women – “Time under tension”

RESENHA: Hardcore feroz e político: War On Women mistura grunge, punk pop e revolta feminista em Time under tension, disco pesado e cheio de hinos contra o sistema.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Smartpunk Records
Lançamento: 8 de maio de 2026

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“Guerra contra as mulheres” é um ótimo nome para uma banda punk feminina cheia de músicas ferozes no repertório. O War On Women faz jus ao nome, pesando bastante o som e escrevendo hinos contra o patriarcado. Time under tension mantém a vibe de sempre, mas com algumas mudanças. Uma delas: Messages unsent, uma canção quase punk pop para os padrões delas, é uma raríssima canção de amor do repertório do grupo, “a primeira que escrevi em muito tempo e certamente, a primeira nesta banda”, diz a vocalista Shawna Potter.

Outra: Serve, a melhor do disco, tem clima próximo do grunge e uma guitarra na abertura que lembra Dinosaur Jr. De certa forma, é uma canção romântica, mas sem deixar de lado as espetadas do sistema que desprotege as mulheres: Shawna reclama de um parceiro descansado que não luta por nada, mas não está disposta a aguentar a aporrinhação por muito tempo (“você não quer trabalhar, você não quer se sujar, você não quer suar, você não quer sentir a maldita dor / como eu te mantenho no meu coração enquanto te deixo ir?”).

O War On Women é uma banda feminina que tem dois homens na formação: Shawna, Jenarchy (guitarra, vocal) e Sue Werner (baixo, vocal) dividem o grupo com Brooks Harlan (guitarra) e Dave Cavalieri (bateria). Entre temas pesados contra o machismo, acham-se músicas que, no geral, falam sobre opressão, violência e revolta, e sobre guerra aberta com quem instalou os botões do sistema. Precious problem (que abre na eletrônica e embarca no hardcore), Spun sugar e More than muscles têm versos diretos como “quem te mantém no seu lugar e mente na sua cara? / o que eles chamam de fraqueza, nós chamamos de força” e “que se danem os bons momentos, eu quero sair daqui / você está me transformando em todos os fantasmas do seu passado”.

  • Ouvimos: Death Lens – What’s left now?

No repertório, há também punk rocks originais e despadronizados (Shapes) e lembranças sonoras de L7 e Ramones (Malevolence, Feels good), além de vibes mais sombrias (Balance, Hunger stones). Uma curiosidade é a melódica e feroz The movie Fear starring Reese Whiterspoon, com lembranças de Medo (1996, dirigido por James Foley), que conta a história de uma adolescente, Nicole (Reese) apaixonada pelo psicopata David (Mark Wahlberg). Na letra, espectadora e personagens se confundem: “Ondas e ondas, diga como se fosse verdade / é o nosso pequeno segredo até que acabe / um tremor na câmera, um toque de falsidade / eu quero que isso seja real?”.

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Ouvimos: Lowsunday – “Ghost machine black EP”

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Resenha: Lowsunday – “Ghost machine black EP”

RESENHA: Shoegaze, pós-punk e ruído em clima sombrio: o Lowsunday volta após décadas com guitarras gigantes e faixas hipnóticas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Projekt
Lançamento: 15 de maio de 2026

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Banda surgida em Pittsburgh em 1994, o Lowsunday é de uma época em que o shoegaze nem se chamava shoegaze – e desde essa época, vêm se dividindo entre estilos como darkwave e pós-punk, mas sempre com uma baita nuvem de guitarras sobrevoando tudo. Hoje um duo com Shane Sahene (vocal, guitarra, sintetizador, baixo, bateria) e Bobby Spell (baixo, guitarra, bateria), eles estavam sem gravar desde 1999, até que retornaram com a primeira parte desse disco, Ghost machine white EP, no ano passado. Um som atmosférico e ultratexturizado.

E aí que vem o Ghost machine black EP, frequentando ambientes bem mais sombrios que o lançamento anterior. O som é até mais punk do que puramente shoegaze. You’re so wired, a faixa de abertura, parece algo gravado em fita K7, em mono (!), nos anos 1990. Aliás, parece um dream pop em que a palavra “dream” tem apenas sentido figurado (e pop, então, nem se fala, mas é quase uma negação da estrutura comum do dream pop.

  • Ouvimos: Telehealth – Green world image

Shattered investe em riffs e ruídos de guitarra, e é uma canção bonita, bem antes de ser uma canção hipnótica. Someone to talk to soa psicodélica no começo, com riff buzinando, mas logo se transforma num paredão de guitarras. A sensação é a de estar num ambiente com caixas acústicas enormes, em que o som ultrapassa a capacidade do local. This is not heaven mantém do shoegaze apenas a voz sussurrada – no geral, é pós-punk maquínico. E no final, tem a porrada dançante e distorcida de Don’t want to dream again. Ótima volta.

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