Cultura Pop
Dez histórias por trás de discos e músicas do Steely Dan

Reverenciadíssima por músicos de jazz e de rock, a dupla norte-americana Steely Dan vinha prosseguindo em turnês sem uma de suas metades, o cantor, guitarrista e baixista Walter Becker. Donald Fagen, tecladista e também cantor, esteve ausente dos shows mais recentes, em festivais em Nova York e Los Angeles, em julho – Fagen, quando perguntado, dizia que o amigo “estava se recuperando de uma cirurgia”. Quem pôde ver em ação a dupla, que passou vários anos sem fazer shows – e outros tantos anos separada -, que guarde sua lembranças, já que Becker infelizmente morreu neste domingo (3), aos 67. Mesmo com a partida de Becker (que além do SD teve também uma carreira solo bem bacana), o grupo permanece na estrada. Em outubro apresentam-se em Dublin (Irlanda) e Londres (Inglaterra), tendo como convidados especiais os Doobie Brothers.
No Brasil, um músico que sentiu bastante a partida de Becker foi Ed Motta, que sempre foi um dos maiores fãs do Steely Dan. Lá fora, o baixista Thundercat também foi outro que publicou post falando do colega.
Walter Becker dying is worse than everything. RIP to one of my real legendary heroes.
— ashy daddy (@Thundercat) September 3, 2017
Em homenagem a Becker, curta aí dez histórias por trás de discos e músicas do grupo.

NA DITADURA Can’t buy a thrill, primeiro disco do Steely Dan (1972), teve a capa acima (esq.) lançada na Espanha. A censura do país então comandado pelo ditador Francisco Franco achou a fotomontagem da capa original (acima, à dir.) lasciva demais e obrigou a gravadora a substituir a imagem por uma foto da banda tocando ao vivo. A ideia original do grupo era usar uma imagem do filme Irma la douce, de Billy Wilder (1963), mas não daria certo por causa do copyright altíssimo.
HITS Can’t but a thrill, aliás, é o disco de dois hits do Steely Dan que com certeza você conhece: Do it again e Reelin’ in the years. A primeira é uma das principais a serem lembradas até hoje pelos fãs da banda. Incrivelmente, o single dela saiu pouco depois do álbum. Na época, nem a banda, nem o produtor Gary Katz acreditavam tanto assim no potencial dela, apesar de ser a música preferida de Fagen no disco. “Só que fizemos a música como uma balada e ela conta uma história”, chegou a afirmar Fagen.
DEU CONFUSÃO Pouco antes do lançamento do segundo compacto extraído de Can’t buy a thrill (justamente Reelin’ in the years), surgiu um boato muito forte de que o Steely Dan teria que trocar de nome, por causa da banda Steelye Span, criada em 1969 pelo ex-baixista do Fairport Convention, Ashley Hutchings, e oriunda da cena folk-progressiva britânica. Saiu uma nota sobre isso na revista Sounds, mas nada se confirmou.
24 CORDAS Countdown to ecstasy (1973), segundo disco da banda, tinha quatro guitarristas, alternando-se ou dividindo algumas músicas: Jeff “Skunk” Baxter, Denny Dias (ambos integrantes “oficiais” do Steely Dan por aqueles tempos), Ben Benay e Rick Derringer (convidados). Walter Becker fazia questão de diferenciar o grupo do som que se fazia na época, em entrevistas. “Não somos uma guitar band, da mesma maneira que os Rolling Stones são. A maioria das nossas músicas nasce no piano e traz mudanças de acorde mais sofisticadas do que a maioria das bandas de rock fazem”. Sem tanto êxito comercial no cenário, o grupo costumava abrir shows para bandas como Slade e Uriah Heep – e normalmente Fagen e Becker saíam bem irritados do palco.
QUE DROGA É ESSA? My old school, single tragicômico e agridoce de Countdown… fala de uma história da adolescência de Fagen e Becker, quando eles foram pegos com suas namoradas numa batida policial para encontrar drogas numa festa, na escola em que estudavam. A letra cita uma das plantas consideradas como mais venenosas no mundo (oleandro, que já foi usado até em infusões abortivas), e já teve gente interpretando isso como uma referência disfarçada à maconha.
FLAPAMBA Se você nunca ouviu falar desse instrumento – uma variação meio “muda” da marimba – é ele que abre Rikki don’t lose that number, outro hit do Steely Dan que possivelmente você já andou ouvindo. A música foi o primeiro single de Pretzel logic, terceiro disco da banda (1974).
RIKKI A música é mais uma recordação de escola da banda, de quando Donald Fagen dividiu os bancos escolares com a escritora novaiorquina Rikki Ducornet. Rikki lembra que os dois se encontraram numa festa e, apesar de ela ser casada e ainda por cima estar grávida, o músico deu em cima dela e lhe passou seu telefone, mas a paquera não foi adiante. Na época, Fagen e Becker tocaam numa banda chamada Leather Canary, que teve um rodízio de bateristas – um deles era o ator Chevy Chase (e o exigente Fagen costumava dizer que ele tocava muito bem).
https://www.youtube.com/watch?v=zv-tjDsdduc
NA DELES O Steely Dan era classificado como “rock recluso” numa matéria da Newsweek para divulgar o disco Katy lied, em 23 de agosto de 1976 – na época, a banda tinha parado completamente de dar shows e estava focada apenas na produção de discos. Katy, lançado em março de 1975, era o primeiro disco que trazia Fagen e Becker como, de fato, os únicos integrantes do grupo – todos os outros, mesmo colaboradores de primeira hora, como Denny Dias, eram “convidados”. O grupo original havia se desfeito justamente porque a dupla de frente desistira das turnês.
JAZZÃO Há quarenta anos, no começo da era do punk, o Steely Dan fazia seu mergulho mais radical no jazz. O disco Aja foi puxado por um single de mais de seis minutos, Deacon blues, e envolveu uma série de músicos topo de linha na gravação, já que o material preparado pela dupla exigia que todos soubessem ler partituras. Na época, com a compra do selo ABC pela MCA, a banda quase resolveu ir para a Warner. Em entrevistas, o grupo costumava ironizar, dizendo que a decisão de ir para a Warner veio pelo fato de a empresa produzir os desenhos dos personagens Pernalonga e Patolino. “Nós vamos nos ramificar e começar a comercializar o nome Steely Dan. Vamos colocar nosso nome em tudo o que pudermos. Dessa forma, podemos nos tornar reais capitalistas. É o que resta para nós”, disse Walter Becker (a tal mudança para a Warner não aconteceu porque a MCA convenceu-os de que não seria adequado largar uma gravadora que tinha todo o seu catálogo).
DOCUMENTÁRIO Aja, o disco, ganhou um documentário da série Classic albums. A mudança da dupla de Nova York para Los Angeles e as diferenças entre as duas regiões deram o tom do disco, gravado por um time de músicos de ambas as áreas. “Quando começamos em Nova York, os bateristas apareciam com uma caixa e os pratos, uns pedais e as baquetas. Em Los Angeles, quando fomos para lá, eles apareciam trazendo um caminhão com dois caras, e eles montavam uma bateria enorme. E o cara ainda tinha mais duas baterias daquelas, porque ele precisava fazer show no dia seguinte”, contou Becker. “Mas os músicos de Nova York tinham um estilo e se entregavam nas suas performances de uma forma que não acontecia na Costa Oeste”. Olha o doc aí, com legendas em português (e quase toda a turma que participou do álbum tocando as músicas do LP).
R.I.P. Walter Becker
Fontes: Steely Dan – Reelin’ in the years, de Brian Sweet, The Steely Dan file, de Stephen Vincent Orourke, Steely dan reader (site)
Foto abre: Kotivalo/Wikimedia Commons
Cultura Pop
Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.
Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.
O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.
Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.
Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.
Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.
De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.
Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.
Foto: Reprodução Internet
Cultura Pop
Qual é a dos dois discos novos de Lana Del Rey?

Lana Del Rey passou tanto tempo adiando e reformulando o próximo álbum que já dava para imaginar que ele nunca chegaria. Primeiro era Lasso. Depois virou The right person will stay. Em seguida apareceu como Stove. Agora a cantora resolveu complicar um pouco mais o roteiro: além de Stove, ela diz que também está preparando um segundo álbum inédito.
A novidade surgiu em uma publicação no Instagram, onde Lana contou que o disco extra nasceu durante o mesmo processo criativo do sucessor de Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd. Segundo ela, o novo trabalho funciona como uma espécie de “companion album”, desenvolvido quase ao mesmo tempo que Stove.
- Os bastidores do raro Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, que ganha lançamento oficial
A cantora também afirmou que esse segundo disco surgiu das transformações pessoais e criativas que viveu nos últimos quatro anos, funcionando como uma espécie de contraponto ao álbum principal. Se tudo correr como planejado — e essa ressalva é indispensável quando o assunto é cronograma de Lana Del Rey — os dois discos devem ficar prontos em cerca de um mês para seguir para a prensagem em vinil.
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Ela também afirmou que ambos já têm capas prontas e descreveu os projetos como algumas das obras de que mais se orgulha. O álbum principal, Stove, continua reunindo os singles Henry, come on, Bluebird e White feather hawk tail deer hunter, além de outras músicas que ela vem mostrando ao vivo nos últimos meses. Tudo indica que First light, single lançado como single da trilha sonora do jogo 007 First Light, escrito em parceria com David Arnold, é só um projeto à parte e não estará no disco.
Embora Lana ainda não tenha confirmado um título para o álbum companheiro, fãs passaram a chamá-lo de Spyda após identificarem esse nome em uma das artes divulgadas pela cantora nas redes sociais (aliás, no Reddit, tem fãs reclamando que a imprensa tá caindo rapidamente numa suposição deles mesmos, os fãs)
Ainda não há datas de lançamento para nenhum dos dois discos. Mas, considerando o histórico recente da cantora, talvez seja prudente evitar tatuar qualquer título no braço até que eles realmente apareçam nas plataformas de streaming. Afinal, se um álbum já mudou de nome três vezes antes de nascer, nada impede que um quarto nome apareça antes do play.
Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.








































