Quando os Beatles assinaram contrato com a United Artists para virarem artistas da telona, o contrato previa três filmes. A hard day’s night saiu em 1964, Help! em 1965 e o terceiro filme…

Bom, para completar o contrato, o grupo andou tendo ideias loucas como Shades of personality, em que um coitado com esquizofrenia quádrupla adquiria as personalidades de cada um dos Beatles. Esse projeto chegou a ser apresentado ao empresário do grupo, Brian Epstein, e esteve bem próximo de ser levado às telas. Mas não rolou porque, a bem da verdade, a banda estava cheia de serviço.

O tal “terceiro filme” dos Beatles só viria tempos depois. Em 1968, a banda achou que estaria desobrigada de cumprir o contrato fazendo Yellow submarine, desenho animado em que nem mesmo os quatro beatles eram dublados por eles mesmos, e em que a banda só aparecia numa sequência rápida no final. A United Artists não engoliu essa, e o grupo só liquidou a fatura com o velho de guerra Let it be, de 1970.

De qualquer jeito, em 1969, houve uma tentativa que animou bastante o grupo, quando a United Artists comprou (por US$ 250.000, dinheiro de pinga se comparado com a montoeira de grana que move a indústria do cinema hoje em dia) os direitos de O Senhor dos Anéis, a saga escrita por JRR Tolkien. A ideia da banda era fazer uma espécie de releitura psicodélica da obra, incluindo amenidades como Paul McCartney fazendo Frodo e George Harrison interpretando Gandalf.

Apesar dos dois primeiros filmes da banda terem sido dirigidos pelo ágil Richard Lester, os Beatles voaram alto e pensaram em ninguém menos que Stanley Kubrick para dirigir O Senhor dos Anéis. O problema é que Kubrick já tinha trabalho demais (estava ocupado com 2001: Uma Odisseia no Espaço), achou que seria impossível levar o universo de Tolkien para a tela grande e não se interessou. Pior: Tolkien detestou a ideia de ter sua obra relida por uma banda de rock. O escritor, diz esse link aqui, odiava rock, morava perto de uma garagem onde bandas ensaiavam e não queria saber de papo com os Beatles.

“Uma banda local desconhecida cujos membros costumavam usar a garagem pode ter amplificado seu ódio pelos Beatles e sua música, que ele considerava excessivamente agressiva. Em uma carta de 1964 a seu amigo Christopher Bretherton, Tolkien escreveu: ‘Em uma casa a três portas de distância mora um membro de um grupo de jovens que evidentemente pretendem se transformar em um grupo beatle. Nos dias em que chega a sua vez de ensaiar, o barulho é indescritível'”.

Bom, o fato é que os Beatles não chegaram a fazer nada com O Senhor dos Anéis, mas algumas testemunhas privilegiadas chegaram a ver o começo da empolgação dos fab four com o filme que nunca aconteceu. Heinz Edelmann, o animador por trás do desenho Yellow Submarine, diz que chegou a apresentar “a ideia de uma adaptação animada, imaginada como ‘uma espécie de ópera’ no estilo Fantasia da Disney” (isso tá escrito aqui). Havia quem acreditasse que, pelo fato do filme estar programado para ser feito após a gravação do disco Abbey Road (1969), boa parte do material do disco poderia ter vazado para a trilha.

O que seria O Senhor dos Anéis à moda beatle, nunca saberemos. Mas um cineasta chamado Alex Skorkin resolveu repensar a trilogia como se (oh Deus) tivesse sido idealizada pelo grupo e dirigida por Kubrick em 1971. Veja antes que saia do ar, porque contém a música e as APARIÇÕES (não é feitiçaria, é tecnologia, ou melhor, deepfake) da banda no trailer.

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