Crítica
Ouvimos: The Pale White – “Inanimate objects of the 21st century”

RESENHA: Em Inanimate objects of the 21st century, The Pale White mistura stoner, glam e power pop em disco sobre tecnologia, nostalgia e excesso digital, com ecos de Beatles, QOTSA e anos 60/70.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: End Of The Wall Recordings
Lançamento: 27 de março de 2026
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Aparentemente, a tecnologia como vida pessoal, vida interior, vida exterior, vida após a morte etc etc e etc, deve virar um tema “instigante” para artistas e bandas nos próximos anos. The hedonist, EP do The 113 que tá vindo aí, fala disso – e Inanimate objects of the 21st century, terceiro disco da banda britânica The Pale White, segue a mesma onda.
Mais: um dos temas do disco é uma espécie de náusea em relação às mudanças na tecnologia. O punk glam Absolutely cinema, herdado tanto de Kinks quanto de Buzzcocks, fala de uma época (distante) em que ir ao cinema era uma diversão até acessível – algo bem distante dos ingressos caríssimos e da fartura de streamings de hoje em dia. Göbekli Tepe, que recorda uma antiga vila arqueológica da Turquia, é outra música que parece falar do que já foi o máximo e foi sendo esquecido. E é uma espécie de dream-metal, que chega a lembrar uma versão stoner do Aphrodite’s Child.
- Ouvimos: Uni Boys – Uni Boys
Essa filiação stoner do The Pale White, aliás, é uma atração à parte. O som dos irmãos Jack e Adam Hope, que lideram o projeto, tem ligação tanto com Queens Of The Stone Age quanto com Beatles, Badfinger, glam rock e até Wings. Faixas ótimas como This fascination e Disappoint me unem vocais estelares, batida e clima sessentistas, e cuidado melódico – tudo isso junto soa como uma citação nada discreta da fase anos 1970 de Paul McCartney.
Moth in the headlights, faixa de abertura, une fronteiras do desconhecido, tecnologia e buracos negros como fatores de descoberta, numa onda glam + stoner + power pop que inclui corais lá em cima, batida rocker herdada dos Beatles e ótimas guitarras wah wah, além de surpresas melódicas. Essa onda 60’s, que passa necessariamente por evocações de bandas como Supergrass, pega também faixas como Float away e a glam Medusa, além do soul + punk Oh brother (que abre com aquela guitarrinha estilo Weezer + Pixies que tá ficando célebre hoje em dia, e cuja estrutura entrega algo próximo até de Jack White e Black Keys).
Inanimate exala um clima bem típico de discos feitos por fanáticos por discos: citações sonoras de bandas como The Moody Blues e The Pretty Things rolam aqui e ali, até no som meio Pixies de Carpe diem e, em especial, na balada psicodélica Mannequin. E ainda por cima o disco do The Pale White encerra com uma versão absolutamente sombria de All I have to do is dream, o hit dos Everly Brothers – só que a canção fica parecendo uma “lentinha” dos Smashing Pumpkins. Essa banda vai para o trono.
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Crítica
Ouvimos: Hyper Gal – “Our hyper”

RESENHA: Duo japonês Hyper Gal faz noise caótico e ensurdecedor em Our hyper, misturando tecnohardcore, kraut e ecos de Suicide num ataque sonoro intenso.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Skin Graft Records
Lançamento: 10 de abril de 2026
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Vindas de Osaka, no Japão, Koharu Ishida e Kurumi Kadoya, as duas integrantes do Hyper Gal, fazem som para quem gosta muito de barulho – a ponto de levar um susto com a introdução de Our hyper, seu novo álbum. Uma rajada de balas sonoras toma conta de Killua, uma espécie de tecnohardcore falado, que é justamente a faixa de abertura. Null abre com um baixo distorcido (sintetizado?) e uma batida intermitente, além de vocais que mais parecem um “atenção senhores passageiros” do inferno – a cara de bandas como Suicide, só que patinando no pesadelo sonoro.
- Ouvimos: Melvins e Napalm Death – Savage Imperial Death March
Já o blues do ruído Hazy até consegue soar meio “ameno” – e o vocal ganha ares de cantiga infantil. Só que depois a faixa ganha sucessivas porradas de bateria, acompanhadas de microfonias e distorções. O tipo de som que faz qualquer pessoa enlouquecer caso ouvido no volume máximo. Tem ainda a viagem quase krautrock de I said you said, pouca coisa mais calminha que as faixas anteriores.
Seguindo pro final de Our hyper, o Hyper Gal faz de tudo para deixar as coisas mais pesadas e ensurdecedoras – faz até eletrohardcore de roda em Fade out, e mais sons que poderiam estar no repertório do Suicide, como Tinnitus. Porrada sonora de verdade.
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Crítica
Ouvimos: Outros Bárbaros – “Pelas ruas das Américas”

RESENHA: Em Pelas ruas das Américas, a banda Outros Bárbaros mistura reggae, ska e samba com pop 90s, ganhando identidade e apontando caminhos variados no decorrer das faixas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 6 de fevereiro de 2026
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Banda de Florianópolis, Outros Bárbaros exibe clima de grupo carioca ou baiano em seu terceiro disco, Pelas ruas das Américas, cercado de sons ligados ao reggae, ao ska e ao samba em várias faixas. O álbum de Maurício Peixoto (voz e guitarra), Eduardo Lehr (baixo) e Marco Mibach (bateria e percussão) soa bastante referenciado na liberdade do pop nacional dos anos 1990, mais até do que na música brasileira.
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Essa lembrança do pop noventista surge especialmente nas primeiras faixas, Pelas ruas das Américas, Cheguei cadê você (rock + blues com metais e clima de balada reggae) e no ska Nós dóis. São músicas que têm detalhes bem legais, como os vocais luminosos no fim de Nós dois – o risco é apresentar o Outros Bárbaros como uma banda parecida demais com o som da época.
Mesmo posicionada num lugar arriscado em Pelas ruas das Américas (é a quarta faixa, local de destaque no qual merecia aparecer uma canção autoral) a versão quase blues da banda para Alucinação, de Belchior, provoca uma divisão no álbum. A partir daí, vão surgindo canções com uma cara bem mais própria, destacando o baladão 60’s Aquela canção do Roberto, o ótimo samba-rock-reggae Sem paz, sem chão (a melhor do disco) e a vibe roqueira de Fortaleza hostil, cuja letra cita Refazenda, clássico de Gilberto Gil.
Essa onda roqueira toma conta também da ótima Bicho acuado, música que inicia como um reggae com cara dub. No final, Brasil criança une Jorge Ben e Santana no mesmo espaço – é um bom samba-rock com guitarra lembrando os solos e timbres do mexicano. Pelas ruas das Américas soa como demonstração dos diversos caminhos que o Outros Bárbaros pode seguir daqui pra frente.
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Crítica
Ouvimos: Sunn O))) – “Sunn O)))”

RESENHA: Sunn O))) lança álbum epônimo com drones longos, som denso e ritualístico; experiência hipnótica, estranha e nada acessível para qualquer ouvinte.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Sub Pop
Lançamento: 3 de abril de 2026
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Greg Anderson e Stephen O’Malley, os dois únicos integrantes do Sunn O))), um projeto musical mais-do-que-apenas experimental de Seattle, lançam seu vigésimo álbum – que se chama apenas Sunn O))), e cujas músicas têm durações de assustar qualquer um. XXANN, a faixa de abertura (e veja lá que titulo) dura 18:21. Butch’s guns tem pouco mais de 14 minutos. Mindrolling passa dos 18 minutos. E as outras três faixas são mais econômicas (!), ficando entre o sete e dez minutos.
No fim das contas, são setenta minutos de um disco que oferece uma atração musical bem, digamos, fora da curva: notas sombrias e monótonas de guitarra, tocadas à guisa de riffs (não são riffs de verdade, vale dizer) e que vão sendo bastante esticadas. O resultado lembra uma música do Black Sabbath rodando na menor velocidade possível, ou a nota final de guitarra de 2000 light years from home, dos Rolling Stones, sampleada e colada nela própria. Tudo vai ganhando um ar cerimonial e até relaxante (pode acreditar), ainda que seja um relaxamento em pleno caos.
Greg e Stephen são igualmente mestres numa escola da qual fazem parte projetos como o Angine de Poitrine: não basta ser uma banda, você tem que levar seus fãs para um universo muito louco. É o tal do world building, sobre o qual o produtor e músico Felipe Vassão falou outro dia em seu canal, que consiste em um artista criar sua própria mitologia. Os dois integrantes do Sunn O ))) tocam fantasiados de monges, têm uma aparência bem misteriosa e usam gelo seco à vontade em seus shows – na real, você quase consegue observar a fumaça em pleno ar ao ouvir a música do duo em casa.
Mesmo que haja um evidente parentesco com estilos como post-rock, rock de vanguarda, etc, o imaginário do Sunn O ))) pertence ao heavy metal, e o som é drone metal – ganhando aspectos ameaçadores musicalmente lá pelas tantas em faixas como Does anyone hear like Venom? e sendo interrompido como um sinal luminoso com defeito em Butch’s guns. Mindrolling tem barulho de chuva ao fundo, e consegue fazer até os zumbidos das guitarras se tornarem algo decorativo.
Everett Moses e Glory black, no final, dão uma diferenciada no som – a primeira aderindo a um clima mais tenso, com corte brusco no fim, a última ganhando uma cara mais melódica, que poderia se tornar um grunge-blues de compasso ternário como os do Soundgarden, caso ganhasse baixo e bateria. Tem muito mistério a respeito de como o som do Sunn O ))) é criado em estúdio. Um perfil recente da dupla publicado no New York Times (veja bem, o New York Times anda interessado na estranhice musical, algo que pode ser creditado ao hype do Angine de Poitrine) diz que só para esse disco, 130 faixas de guitarra foram gravadas e escolhidas.
Ouvindo, nem parece: tudo soa bem simples, como se o Sunn O ))) seguisse até uma espécie de receita de bolo de drone metal. Não dá pra dizer que o resultado não é atraente – só não é pra qualquer ouvido e qualquer momento.
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