Sempre que folheio minhas revistas antigas, me surpreendo com alguma bizarrice. Foi o que aconteceu nesta semana, enquanto passava os olhos em alguns exemplares antigos da Vídeo News (editora Sigla), publicação dedicada a cinema e vídeo, que circulou durante as décadas de 1980 e 1990. A revista trazia várias páginas de propagandas de videolocadoras e distribuidores de fitas de vídeo, em alta na época.

Anúncios infantis de antigas revistas de vídeo que hoje parecem bem estranhos

Guardo essas revistas há muitos anos e nunca tinha notado nada de mais nessas propagandas. Isso até alguns dias atrás, quando esse tipo de publicidade começou a chamar minha atenção nas páginas da revista. Sabe aquela sensação de “algo está fora de lugar”? Como esta propaganda de uma distribuidora de fitas VHS:

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Fitas infantis e pornôs conviviam em harmonia na mesma “vitrine”. Que o digam O Natal do Ursinho Ted e Fantasias íntimas de Karen (revista Video News nº 50, 1986). Ted, ursinho popular entre a criançada dos anos 1980, dividindo o espaço com Traci Lords, rainha dos pornôs americanos da mesma década.

Nesta outra propaganda (página dupla), na mesma edição da revista, de um lado estão coisas como Inspirações eróticas, Platos, O Palácio do Prazer e Minha primeira vez. Do outro, estão Joãozinho e Maria, Chapeuzinho Vermelho e Dani, um cachorro muito vivo.

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Na época, parecia até lógico: o pai/mãe que lia a revista podia escolher um presente para o filho e um “presente” para o casal. Mas hoje o anacronismo desse “antigo normal” é inevitavelmente incômodo. Além do forte apelo sexual, as crianças também coexistiam com a violência explícita em filmes, comerciais e programas de TV e revistas.

Neste anúncio da Transvideo, por exemplo, os desenhos animados Dot e Kito e Simbad, o marujo dividem espaço com fitas como A ilha da morte, O sexo e os animais e Gosto de massacrar os outros. (Vídeo News nº 54, 1987)

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Tenho essas revistas há décadas e só alguns dias atrás tive o choque de realidade. Ou de atualidade. Ou, para ser mais exato, da realidade atual. Realmente as costumes evoluem, os padrões mudam e as perspectivas se modificam.

Cresci nos anos 1980. Esse era o “normal” no nosso dia a dia. A nudez e a erotização estavam por toda parte, estivessem as crianças por perto ou não. E ninguém estranhava nada. Tudo absolutamente aceitável. O que chocava mesmo era a inflação.