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Cultura Pop

Adult/Child: aquela (outra) vez em que engavetaram um disco dos Beach Boys

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Adult/Child: aquela (outra) vez em que engavetaram um disco dos Beach Boys

Uma prova concreta da total falta de senso de Brian Wilson ao gravar o disco Adult/Child em 1977 – que seria um disco dos Beach Boys mas foi mais uma das egotripes do líder da banda, com os integrantes relegados à aba do seu chapéu – foi o oferecimento de Still I dream of it, uma das canções do álbum, a Frank Sinatra para que o veterano cantor a gravasse. Sinatra, que já tinha 62 anos em 1977, nem respondeu a oferta de Brian, que ficou bastante aborrecido com isso.

O que se passou na cabeça do mais criativo dos irmãos Wilson, para achar que o cantor de My way fosse se interessar por uma canção que basicamente lê o mundo pela perspectiva desencantada de um adolescente, só ele sabe (“quando eu era mais novo, minha mãe me ensinou que Jesus ama o mundo/se isso é verdade, porque ele não me ajudou a encontrar uma garota para mim?”, cantava o trintão Brian).

Adult/Child: aquela (outra) vez em que engavetaram um disco dos Beach Boys

Selinho de uma das edições piratas de “Adult/Child”

Adult/Child guardava algumas semelhanças com Smile, o projeto abortado dos Beach Boys de 1966. A mais dramática delas: nunca foi oficialmente lançado (ok, Smile foi, mas décadas depois de gravado) e passou vários anos sendo pirateado pelos fãs da banda.

A outra semelhança: Brian comandou todas as gravações com mão de ferro, relegou seus irmãos aos backing vocals, encheu o estúdio de músicos de orquestra e, claro, deixou puto da vida o primo Mike Love, seu eterno algoz nas discussões sobre o futuro dos Beach Boys. A ideia era, em plena era da disco music, do punk rock e de algumas ramificações mais comerciais do rock, lançar uma homenagem às big bands. Por acaso, a gravadora que distribuía naquele momento a Brother Records, selo dos Beach Boys, era a Reprise Records, fundada por ninguém menos que Frank Sinatra. A Reprise engavetou o disco e mandou os Beach Boys criarem algo mais comercial.

1977 foi um ano particularmente difícil para várias estrelas do rock dos anos 1960, mas até que a segunda metade dos anos 1970 parecia promissora para Brian Wilson. O músico voltara a se apresentar com os Beach Boys após anos afastado dos palcos, a banda ganharia um especial de TV (Beach Boys: It’s OK, o da célebre cena em que John Belushi e Dan Aykroyd, fantasiados de policiais, obrigavam Brian a surfar) e, hum, Brian começaria a fazer terapia com o famigerado Eugene Landy.

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O terapeuta, que tinha lá seus pés no showbiz (chegou a ser empresário de George Benson), era conhecido por acompanhar seus pacientes 24 horas por dia, usando um time de conselheiros. Usava técnicas bizarras com Wilson, como jogar água no músico para tirá-lo da cama e acompanhá-lo em compromissos profissionais, portando cartazes de papelão com palavras como “smile” e “positive”, para animá-lo. Volta e meia surgia no colo (!) do paciente em vídeos e fotos. Na época, com Wilson deprimido, entupido de drogas e fumando quatro maços de cigarro por dia, parecia uma boa ideia.

Adult/Child veio logo após uma frustração de Brian: a de perceber que não tinha estrutura psicológica para fazer uma carreira solo. O disco Beach Boys love you, de 1977, era para ter se chamado Brian Wilson loves you. O título do que seria o disco subsequente dos Beach Boys foi dado por (adivinhe só) Eugene Landy, criador de uma teoria bizarra que dizia que “havia duas partes de uma personalidade: um adulto que quer estar no comando e uma criança que quer ser cuidada, um adulto que conhece as regras e uma criança que está aprendendo e testando regras”.

Wilson decidiu convidar um arranjador que trabalhara com Sinatra (Dick Reynolds) e encheu o disco de referências infantis, adolescentes e meio bizarras, como em Hey little tomboy (na qual Brian, voltava a seu antigo falsete, mesmo sem poder – sua voz enfraquecera muito nos últimos anos) e Roller skating child. Em Life is for the living, uma das músicas em que Wilson mais tenta imitar os arranjos de Sinatra, a voz dele não parece nada em ordem. Havia também versões de clássicos como On Broadway (gravada por uma porrada de gente e, anos depois, por George Benson) e Deep purple (outra com uma lista enorme de regravadores).

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Os tais backing vocals do disco foram feitos quase que exclusivamente pelos outros irmãos Wilson. Al Jardine e Mike Love apenas entraram com vocais tirados de sessões anteriores e Love, não custa dizer, soltou um “que merda é essa?” quando escutou o disco. No fim das contas, a gravadora decidiu que o álbum não tinha apelo comercial e mandou a banda fazer outra coisa.

Depois de Adult/Child, a banda embicaria numa sequência de mais dois (!) discos rejeitados pela gravadora – um disco de Natal entre eles. Em outubro de 1978, finalmente, saiu The M.I.U. album (que trazia, de qualquer jeito, a engavetada Hey little tomboy), a banda saiu da Reprise e foi para a CBS. Landy seria afastado do convívio de Wilson mas retornaria no começo da década de 1980, quando o consumo de drogas por parte do músico aumentou – viraria até parceiro dele em músicas. Mas esse assunto fica para a próxima.

Ah, sim, Adult/Child está inteiro no YouTube. Pega aí.

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Dez fatos sobre os Beach Boys em 1967

Cultura Pop

Music Factory: o programa de rádio de Tom Wilson

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Music Factory: os programas de rádio de Tom Wilson

Muita gente não se recorda ou não fazia a menor ideia, mas Tom Wilson (1931-1978), o cara que assinou o contrato do Velvet Underground com a Verve/MGM, era um radialista. Tom  que conta-se, foi o verdadeiro produtor de The Velvet Underground and Nico, estreia do grupo, comandou o Music factory, um programa de rádio “muito livre” (como define um site dedicado ao seu legado) transmitido pela WABC-FM (Nova York). Aliás, vale citar que Tom já tinha larguíssima experiência como produtor e executivo de gravadora antes disso – foi dono da Transition Records, um selo de jazz de vanguarda, e produziu discos de Bob Dylan, o single de Like a rolling stone entre eles.

O programa estreou em junho de 1967, durou um ano, e acabou virando uma atração nacional, por um motivo bem básico. Por causa da ligação de Wilson com a MGM, a atração era um excelente ponto de divulgação para os lançamentos da gravadora, que patrocinava a atração. Logo sairiam discos de vinil com edições do programa, prontas para serem enviadas a emissoras em todos os Estados Unidos.

“Wilson é um anfitrião genial, um locutor encantador com uma presença calorosa. Seu humor é autodepreciativo, e ele sempre deixa seus convidados à vontade com sua risada robusta (às vezes muito robusta). Os episódios são cápsulas do tempo interessantes de um período em que a fidelidade de áudio superior estava ajudando os rádios FM a colherem músicas do AM, que estava atormentado pela estática”, avisa um site dedicado à obra radiofônica de Wilson, e que coletou e pôs no ar, em MP3, nada menos que 26 edições do Music factory.

Tom Wilson transmitia comerciais dos discos da MGM/Verve – discos como White light/White heat, do Velvet Underground, e Chelsea girl, estreia de Nico, ganharam reclames produzidos pela gravadora, mesmo que fossem álbuns de pouco público. Entre os entrevistados ou noticiados pelo programa, estavam nomes de altíssima estirpe, como The Cowsills, Artie Ripp (produtor e diretor de selos como Buddah e Kama Sutra), Richie Havens, Ultimate Spinach (banda psicodélica de Boston) e… John Cale e Lou Reed, do Velvet Underground. Há quem diga que o papo com os dois foi absolutamente desinteressante. Não exatamente.

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Cultura Pop

Mike Love (Beach Boys): “Mick Jagger é um covarde”

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Discos da discórdia 5: Mick Jagger, com "She's the boss"

Existem várias bandas que nos anos 1960 foram tidas como “rivais” dos Beatles em algum momento: Byrds, Beach Boys, Rolling Stones, quase todo mundo que aparecia em algum momento era envolvida na rivalidade por algum jornalista espertinho – e opa, os Beatles também tinham lá seus motivos para se assustarem com todo mundo que se arvorava a fazer sucesso. Pior que, pelo menos no que dependesse de Mike Love, um dos beach boys, haveria uma bizarra rivalidade entre os bem sucedidos Stones e os vida-torta da banda de surf music da Califórnia. Tudo por causa de um rancor guardado em tonéis de carvalho por vários anos.

No dia 8 de maio de 1966, Mick Jagger, que praticamente nunca foi visto falando dos Beach Boys na vida, foi perguntado pela Melody Maker sobre o que achava da banda. Bom, digamos que o cantor dos Stones foi bastante sincero: disse que odiava o grupo, apesar de gostar de Brian Wilson, o gênio da turma. Um “gostar” que se aproximava mais da zoação paternalista do que da sinceridade pura e simples, diga-se, mas o cantor não parou por aí. “Brian Wilson é um cara legal e diferente deles. Eles são uns caras estúpidos, como vários grupos que começaram junto com eles e agiram feito idiotas todo o tempo”, disse, comparando a banda com “um bando de caras grosseirões que invadem um pub”.

Jagger curtia Pet sounds, por sinal um disco que Brian Wilson trabalhou e retrabalhou, e pelo qual Mike Love historicamente nunca teve muito amor. Ainda assim o disco não levou nota 10 do stone. “Brian é um grande produtor mas poderia variar os sons das vozes. Os sons, não as harmonias, me irritam um pouco”. Dennis Wilson, o baterista, é definido por Mick como um músico que “não poderia manter o tempo das músicas nem para salvar sua vida”. Brian é definido como um bom letrista, mas o resultado final é “inocente”.

Olha aí a arenga do Mick.

Até que em 1988, na cerimônia do Rock And Roll Hall Of Fame, Mike Love deu novas dimensões à palavra “rancor”. O beach boy soube que Mick Jagger estava na plateia e decidiu incluir o cantor em seu discurso de indução. Bom, “incluir” é apelido – Love chamou o vocalista de “covarde” e desafiou o frontman de uma das bandas mais bem sucedidas do mundo a subir no palco com ele.

A propósito, 1988 foi aquele famoso ano em que Keith Richards preparou seu primeiro disco solo, Talk is cheap, e os Stones “milagrosamente” decidiram conversar sobre uma turnê nova, adiada porque o guitarrista não iria abrir mão do trabalho solo. Ao mesmo tempo, o próprio Jagger (cujos voos solitários já haviam deixado os Stones na mão em outros momentos e tinham emputecido, em particular, Keith) fez sua primeira turnê solo, começando pelo Japão.

Mas ali no palco, o papo foi esse aí: “Os Beach Boys fizeram cerca de 180 apresentações no ano passado”, esbravejou Mike Love. “Eu gostaria de ver Mick Jagger subir neste palco e fazer I get around versus Jumpin’ Jack Flash, a qualquer momento. Eu gostaria de nos ver no Coliseum e Jagger no Estádio de Wembley porque ele sempre foi um covarde para subir no palco com os Beach Boys”.

A tal encrenca Mike Love vs. Mick Jagger, pelo que Love contou numa entrevista, chegou nos bastidores. O beach boy conta que rolou até de ele e Mick atirarem fora os sapatos um do outro. De qualquer jeito, o discurso puto da vida de Mike Love foi gravado e tá até no YouTube.

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Cinema

Toomorrow: quando Olivia Newton-John fez um musical espacial “jovem”

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Toomorrow: quando Olivia Newton-John fez um musical espacial "jovem"

Fãs de Olivia Newton-John (que saiu de cena nos últimos dias) deram uma reclamada, com razão, quando viram nas redes sociais um bando de gente que só lembrou da fase Physical da cantora. Ou de clássicos da telinha como Grease e Xanadu, surgidos de uma fase em que Olivia já era tudo, menos um rosto novo. Antes disso, ela já vinha gravando discos na onda do country pop e do folk desde 1971, tinha conseguido o primeiro disco de ouro em 1975 com o sexto álbum, Clearly love, e vinha fazendo filmes desde o começo da década.

Um filme bem interessante que Olivia fez, e que está inteiro no YouTube (pelo menos por enquanto), tem um plot bem curioso, e ainda por cima rendeu um trilha sonora que prometia. Aliás, o próprio filme foi uma promessa – que não rolou. Toomorrow, dirigido por Val Guest, saiu em 27 de agosto de 1970 no Reino Unido, e tinha a cantora como protagonista. Olivia fazia uma personagem chamada Olivia, que era a líder de um grupo pop (cujo nome era Toomorrow) que era observado de longe por extraterrestres, e acabava sendo abduzido.

Além da cantora, o grupo tinha Karl Chambers (bateria), Ben Thomas (voz, guitarra) e Vic Cooper (teclados). Essa turma, que mantinha a banda como uma forma de financiar os estudos, acabava envolvida numa trama que misturava musical, ficção científica e filme “jovem”, com direito a cenas de protestos estudantis e sit-ins alegres. Se você nunca viu, nem ouviu falar e tem curiosidade, segue aí.

Toomorrow não chegou a ser um grande sucess… não, pensando bem foi um retumbante fracasso. O filme teve problemas desde o começo porque sua dupla de produtores começou trabalhando direitinho e depois passou a se odiar. Os dois eram ninguém menos que Harry Saltzman, que produziu filmes de James Bond, e Don Kirshner, que foi o primeiro produtor dos Monkees. Nessa época inicial, problemas com o roteiro, que nunca ficava do jeito que a dupla e o diretor queriam, e problemas maiores ainda com grana (Guest diz nunca ter sido pago pelo filme) melecaram o processo ainda mais. Olivia chegou a afirmar que o filme “pelo menos valeu a experiência”.

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No fim das contas, Toomorrow foi exibido por apenas uma semana em Londres, e ressurgiria anos depois em exibições especiais, além de seu lançamento em DVD. O mais curioso é que o filme teve até uma trilha sonora, lançada pela RCA. Apesar de ser uma trilha, era creditada à banda Toomorrow, que não existia na prática. Esse disco, um não-marco do pop gostosinho, está até no Spotify.

A tal trilha saiu em 1970, junto do não-lançamento do filme, e honrava bem um projeto que, de certa forma, havia começado com a ideia torta de ser um Monkees de luxo da nova década. Don Kirshner atuou como supervisor musical (todo o material foi publicado em sua editora) e tanto as composições das faixas quanto a produção do LP são creditadas ao cantor e compositor Ritchie Adams e ao produtor Mark Barkan. Chegaram a sair mais duas faixas do Toomorrow num single, também de 1970, lançado pela Decca – a capinha do disco anunciava até pôsteres do grupo.

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