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Cultura Pop

A única vez que falei com Vanusa na vida

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A única vez que falei com Vanusa na vida

Quando a Billboard Brasil iniciou atividades em 2010, colaborei (por intermédio do amigo Pedro Só, que comandou a publicação) com algumas edições da revista em formato físico. Lembro de ter feito matérias bem legais para lá, como o dia em que passei uma tarde com Baby do Brasil – que me contou histórias de todos os discos solo dela, além dos discos dos Novos Baianos. Também cobri o Carnaval do Recife e de Olinda. E bati um papo com Vanusa.

Não achava que Vanusa fosse querer falar. Uns meses antes da entrevista (feita, se não me engano, em dezembro de 2009), apareceu no YouTube o famigerado vazamento do vídeo em que ela aparecia cantando o Hino Nacional Brasileiro no Primeiro Encontro Nacional de Agentes Públicos, na Assembleia Legislativa de São Paulo. O vídeo havia sido feito em março daquele ano.

A matéria que eu havia oferecido à revista era justamente sobre o que havia acontecido com a carreira de três artistas (Belchior, Byafra e Vanusa) após terem se transformado em virais da internet. Belchior, sumido da mídia havia alguns anos, tinha sumido de verdade – foi achado pelo Fantástico para uma rápida entrevista mas desapareceu de novo. Byafra foi redescoberto a partir de um vídeo de divulgação do documentário Alô, alô Teresinha, de Nelson Hoineff, em que ao cantar Sonho de ícaro (“voar, voar, subir, subir”), teve seu rosto atingido por um parapente que caía. Vanusa, com mais de 40 anos de carreira e grandes sucessos, passou a atrair uma curiosidade mórbida (e injusta) que jamais havia enfrentado durante toda a vida.

Não achei (na verdade nem procurei) Belchior e o papo foi com um ex-empresário e um antigo amigo dele, que garantiram que se o cantor voltasse naquele momento, ia ter show pra fazer todos os dias. Byafra disse ter passado a ter mais movimentação na carreira e, sempre bem humorado, disse que não via problemas em ir a programas de TV falar do vídeo desde que fosse lá também para cantar. “O Pânico na TV queria que eu fosse lá para ficar de brincadeirinha e eu não quis. Nada contra, porque os humoristas são eles, não eu. Mas se for só o vídeo, já tem o filme que mostra isso, todo mundo está careca de saber”, afirmou.

Achar Vanusa para conversar não foi das coisas mais fáceis. Tinham me dado o contato dela, mas ninguem atendia o telefone. Se havia WhatsApp no Brasil em 2009 (não faço a mínima ideia), ele não estava popularizado, então se você queria falar com alguém, era ligar ou mandar SMS. Já estava pensando em entregar os pontos. Até que alguém me deu o contato do empresário dela, Waldemar Tchirichian. Por sinal, o mesmo que tinha sido responsável por um retorno da carreira de Wilson Simonal durante os anos 1980.

Não me lembro mais se liguei ou se mandei e-mail para o Waldemar, mas marquei a entrevista para alguns dias depois. Lembro que conversei com Vanusa usando meu celular, na hora do almoço. Aliás, a conversa se deu na escadaria do prédio em que ficava uma agência de publicidade na qual trabalhei por alguns meses, no Centro do Rio.

Eu estava bastante tenso com aquele telefonema. Para minha surpresa, Vanusa foi simpática. Parecia até mesmo feliz de poder falar sobre os efeitos que aquela exposição tinha causado à carreira dela. Na conversa, manifestou não ter gostado da história, mas não a ouvi indignar-se com o assunto. “Meu advogado me aconselhou a não ver TV, não entrar na internet, não atender telefonemas e não conversar com ninguém sobre aquilo”, afirmou.

Quando o vídeo surgiu no YouTube, a cantora estava de cama, após três cirurgias na clavícula. Aliás, de certa forma, após se transformar em viral, Vanusa sofreu um cancelamento. Não do público, mas de empresários que deixaram de agendar shows seus após o vazamento do vídeo.

“Acabou me prejudicando. Meu empresário me disse que sente dificuldade de me vender. Tenho shows marcados para novembro e dezembro, mas perdi um show porque o contratante ficou com medo de eu cair no palco. E não sou alcoólatra nem uso drogas. Em 41 anos de carreira, nunca tive um escândalo. Hoje estou evitando fazer TV, só topei fazer o (programa do) Gugu. Mas me contaram que em outros programas teve um monte de merda, gente fazendo chacota”.

Lembro que por alguns momentos me deu uma sensação meio estranha – na minha cabeça, Vanusa era uma cantora de MPB extremamente popular durante os anos 1970, alguém que não saía da TV, e talvez a maior ameaça ao trono de Elis Regina, por causa de suas interpretações para músicas como Paralelas, de Belchior. Naquele momento, era uma artista vivendo uma situação bastante desconfortável e injusta, com uma rede de solidariedade bem pequena.

Possivelmente nem eu mesmo, com pressa pra entregar a matéria, consegui ser uma voz tão dissonante assim no que dizia respeito a mostrar que Vanusa era bem mais do que um meme, ou do que uma piada idiota. De qualquer jeito, ela chegou a me falar – com essas palavras – que já estava rindo da história.

“Diria que seria cômico se não fosse trágico. E qualquer um de nós é passível de erros. Sei que de qualquer maneira ele chegou a muita gente, foi visto até em Portugal”, conta. “Mas emocionalmente, foi ruim. Fui a um restaurante outro dia com umas amigas e um rapaz na mesa do lado me viu e começou a cantar o Hino Nacional. Uma amiga minha queria jogar um copo na cara dele. Foi algo que me prejudicou. Mas passa. E ficar parada foi bom para repensar”.

O “repensar” de Vanusa deu em mais alguns shows e um CD, Vanusa Santos Flores, produzido por Zeca Baleiro, e pouco divulgado. E em uma situação que tem se tornado comum num país que cuida pouco de suas carreiras e de sua memória: assim como a Legião Urbana tem frequentado mais as páginas de polícia do que a de cultura, Vanusa passou a aparecer mais em colunas de fofocas do que em seções de música pop ou MPB.

Usando uma frase do amigo Marcos Lauro, que volta e meia colabora com o POP FANTASMA, num caso como o que aconteceu com Vanusa na época do “hino”, faltou reconhecermos o humano por trás do meme. Houve um grande erro que poucas pessoas não cometeram.

(a matéria inteira com Vanusa, Byafra e – por intermédio de outros – Belchior está aqui)

Crítica

Ouvimos: Paul McCartney e Wings, “One hand clapping”

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One hand clapping era uma espécie de tesouro secreto-mas-nem-tanto da era Wings de Paul McCartney. Primeiro porque o material já vinha surgindo havia anos em gravações piratas, e muita coisa chegou a reaparecer como bônus de relançamentos de luxo. Gravado “ao vivo no estúdio” (em Abbey Road) entre os dias 16 e 30 de agosto de 1974, em áudio e filme, deu a entender que Paul estava disposto a viver com sua nova banda tudo o que não havia vivido com os Beatles.

Lançado finalmente agora em disco, traz um conjunto precioso de canções – muitas delas pertencendo a era Band on the run (1973) – executadas de maneira urgente e despojada, mas com o rigor que Paul sempre se impôs. Há arranjos de orquestra (a London Symphony Orchestra tocou com traje de gala), as músicas soam similares às gravações em disco e não há espaços desocupados. Vocais, guitarras e sintetizadores (além do saxofone de Jet) estão todos ali, tocados pelo núcleo duro dos Wings (Paul, Linda McCartney e Denny Laine), ao lado de Jimmy McCulloch (guitarra), Geoff Britton (bateria) e convidados.

O conceito original de One hand clapping era igualmente mais despojado ainda. Isso porque a ideia de Paul (conforme o exposto em biografias do cantor) variava entre duas ideias. A primeira: fazer uma espécie de Get back/Let it be dos Wings, com a banda sendo filmada 24 horas por dia durante um ensaio. A outra: apenas gravar uma sessão do grupo em videotape para saber como a banda completa, que ainda não havia excursionado, se sairia no palco.

  • Temos episódio do nosso podcast sobre a era de Band on the run.
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O cineasta era o então inexperiente David Litchfield, que trabalhava como designer gráfico e editor de uma revista de arte que estava quase falindo (David admitiria mais tarde que o trabalho com o cantor salvou o pagamento de seus boletos). Paul havia informado a ele que o documentário era apenas para uso interno – mas não parecia, já que o projeto ganhou um título, One hand clapping. E o beatle gostou tanto da brincadeira que estava despejando uma montoeira de grana naquilo, além de gravar depoimentos e uma narração em off. O diretor chegou a ver Paul entrando em ação para fazer um músico da orquestra parar de enrolar no estúdio: o beatle simplesmente cantou as notas de um solo de violoncelo como se fossem palavras, para orientar o violoncelista. Acabou aplaudido pela orquestra.

No fim das contas, o documentário One hand clapping quase foi vendido a canais de TV, mas foi saindo do radar de Paul, mais ocupado com as brigas judiciais com o ex-empresário Allen Klein e com as turnês. Só chegou a público num relançamento de luxo de Band on the run em 2010. Nos depoimentos do cantor no filme, Paul garantia que adorava fazer parte de um grupo e que os Wings eram uma banda livre, que qualquer um “podia sair e voltar” (mentira: o artista dava esporros trágicos em músicos de sua banda que se envolvessem em projetos paralelos, e agia mais como um déspota boa praça do que como um administrador de clima).

O que importa é: One hand clapping, inteirinho, tá longe de ser um filler, uma encheção de linguiça. Mesmo quando parece ser, já que Paul recorda músicas dos Beatles (Let it be, Lady Madonna e The long and winding road) em vinhetas e parece sem tanta vontade assim de tocar seu repertório sessentista. Uma olhada distraída na lista de músicas já dá uma ideia do que há de magistral no disco. Músicas como Band on the run, Let me roll it, Jet e Live and let die surgem com a ourivesaria do trabalho em estúdio, e a urgência do material ao vivo.

O mesmo acontece com Nineteen hundred and eighty-five (aberta com Paul cantando e tocando a música ao piano, sem acompanhamento) e com Junior’s farm. E baladas como Maybe I’m amazed e My love sempre vão emocionar todo mundo. A lista é complementada com algumas covers (Blue moon of Kentucky, gravada por Elvis Presley, aparece com sotaque country, por exemplo), canções esquecidas dos Wings (o reggae C moon, de 1972) e uma ou outra brincadeira de estúdio. Um presente para os fãs, ainda mais por trazer um gênio do rock jogando uma pelada como se fosse uma partida clássica.

Nota: 8,5
Gravadora: MPL

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Cultura Pop

No nosso podcast. Rita Lee (e Roberto de Carvalho) entre 1980 e 1983

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No nosso podcast. Rita Lee (e Roberto de Carvalho) entre 1980 e 1983

No começo dos anos 1980, se bobear o Brasil tinha bem poucos seres humanos vivos que nunca tinham sequer ouvido falar de Rita Lee – uma cantora que, ao lado do marido Roberto de Carvalho, vendia muitos discos, tinha música em abertura de novela e ganhava especiais de TV no horário nobre. E como se não bastasse, era contratada do verdadeiro canhão de comunicação que era a Som Livre daquela época. Mesmo com a censura do fim do governo militar no contrapé, foi um período de shows inesquecíveis, muitos hits, álbuns lançados um atrás do outro, e uma verdadeira ritaleemania tomando conta do país.

Hoje no nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, damos um sobrevoo na trajetória de Rita e Roberto no começo dos anos 1980 – a época dos álbuns Rita Lee (mais conhecido como Baila comigo, 1980), Saúde (1981), Rita Lee & Roberto de Carvalho (mais conhecido como Flagra, 1982) e Bom bom (1983). Ouça em alto volume e escute os discos depois.

Século 21 no podcast: Jane Penny e Bel Medula.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (fotos: reproduções das capas dos álbuns de Rita entre 1980 e 1983). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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Crítica

Ouvimos: Alan Vega, “Insurrection”

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Ouvimos: Alan Vega, "Insurrection"

Alan Vega e sua ex-banda Suicide não eram apenas “rock industrial”. Eram música infernal, mostrando para todos os ouvintes que situações assustadoras eram vividas não apenas em filmes de terror, mas no dia a dia. No contato com vizinhos perturbados, na violência nossa de cada dia, na vida fodida dos debandados do capitalismo – que é o verdadeiro assunto de Frankie Teardrop, música assustadora lançada no epônimo primeiro disco da dupla formada por ele e Martin Rev, de 1977.

Vega viveu no limite: antes do Suicide ter qualquer tipo de sucesso, passou fome e enfrentou dificuldades. No palco, era do tipo que se cortava e saía sangrando dos shows. Seu som sempre teve ideais radicais, inclusive politicamente – ele chegou a ser atacado pela polícia ao participar de passeatas, e o Suicide homenageou Che Guevara na música Che. Dos dois integrantes do Suicide, hoje só Martin Rev vive para perturbar os ouvidos dos outros com som pesado, distorcido e sintetizado. Alan, que prosseguiu por décadas como lenda viva do punk e da música eletrônica, lançando discos e fazendo exposições de arte, teve um derrame em 2012 e morreu durante o sono em 2016.

Seu material como compositor, ironicamente, devia bastante às raízes do rock, e à postura de “herói” do estilo. O novaiorquino Alan era fanático por Iggy Pop e Stooges, e seu vocal variava entre dois uivos – o de Elvis Presley, cujo visual inicial trabalhado-no-couro passou a imitar, e evidentemente o de Iggy. Os primeiros álbuns solo de Alan variavam entre o synth-pop nervoso e uma espécie de rockabilly aceleradíssimo e violento (o melhor exemplo é a estreia epônima de Vega, lançada em 1980). Não custa lembrar que o som do Suicide, de fato, chegou a impressionar até mesmo Bruce Springsteen, que já disse ser (pode acreditar) fã da dupla.

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Insurrection é uma coletânea de gravações inéditas que estavam no baú de Alan. São músicas industriais e infernais feitas no fim dos anos 1990, todas falando sobre morte, sofrimento e contagem de mortos como se fosse algo natural, do dia a dia – e pensando bem, olhando os jornais e andando pelas ruas, é meio isso. É “bom de ouvir” dependendo do seu humor: é o disco das dançantes e góticas Sewer e Crash, do synth pop monocórdico Invasion, do pesadelo selvagem Cyanide soul e do lamento sonoro (de quase dez minutos) de Murder one.

Mercy é um estranho e assustador pedido de clemência, falando em gritos, anjos sangrando e tempestades sombrias. E nessa música o vocal de Alan lembra de verdade o de Elvis Presley, o que soa mais estranho ainda. Os beats são dados por uma percussão intermitente e tribal, seguida por uma batida eletrônica mais próxima do “dançante”. Soa mais insociável do que qualquer coisa lançada pelo Ministry ou pelo Alien Sex Fiend, por exemplo. Chains soa como entrar numa bizarra ressonância magnética de distorção. E Fireballer spirit oferece a mesma sensação, só que acrescida de barulhos eletrônicos.

Nota: 7,5
Gravadora: In The Red

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