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Cinema

Rockers: reggae na tela grande

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Rockers: reggae na tela grande

Nos anos 1970, quem queria música realmente inovadora, estava BASTANTE ligado no reggae. O estilo jamaicano já inspirava artistas do rock, do folk e ao pós-punk havia muito tempo. Mas depois de um certo momento parecia que estava em tudo quanto era canto. Surgia em uma melodia ou outra do Bob Dylan. Ou na paixão de Keith Richards (Rolling Stones) pelo trabalho de Peter Tosh. Também estava num hit de Eric Clapton (I shot the sheriff, de Bob Marley), no lado ska da new wave e em momentos do disco London calling, do Clash.

No Brasil, quem viveu a época lembra de um período forte em que ninguém ainda usava camiseta de Bob Marley nas ruas, em que roqueiros não se mesclavam com fãs do estilo, e que o amor pelo reggae ainda era coisa de surfistas que importavam discos – ou que voltavam de viagem com LPs novos. Já havia misturas de reggae com MPB (A Cor do Som, Gilberto Gil, Moraes Moreira) que chegavam às paradas. E o próprio Bob Marley viria ao Brasil em 1980. A viagem do cantor quase não aconteceu, foi curta e não chegou nem a ter shows por causa da censura.

Por acaso, Kaya, disco de 1978 de Bob, quando editado no Brasil, teve a contracapa – com a foto de um enorme pé de maconha – cortada por “ordens superiores”. Os fãs que não conseguiram uma cópia importada só foram babar na contracapa em 1987, quando saiu um relançamento nacional.

O FILME

E foi nesse contexto mundial que saiu (lá fora, calma) um filme chamado Rockers, dirigido por Theodoros Bafaloukos, um cineasta grego que havia viajado para a Jamaica em 1975 como fotógrafo. Lá, ele viveu momentos meio perigosos: o governo jamaicano queria saber o que aquele cara estava fazendo lá e prendeu Theodoros, achando que ele era espião da CIA. Mas teve compensações: ficou amigo do reggaeman Augustus Pablo e, pelos contatos que fez lá, surgiu a ideia de fazer um filme sobre reggae.

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Rockers: reggae na tela grande

Rockers virou um filme de ficção, mas começou com o diretor propondo ao produtor cinematográfico Patrick Hulsey a criação de um documentário sobre reggae. A dupla prosseguiu fazendo viagens à ilha ao longo do ano de 1976 e teve contato com nomes como Burning Spear, Leroy “Horsemouth” Wallace, Richard “Dirty Harry” Hall, Lee “Scratch” Perry, Robbie Shakespeare e o produtor Jack Ruby. Boa parte dessa turma está no filme. O roteiro conta a história de um baterista (o supermúsico Leroy “Horsemouth” Wallace, interpretando a si próprio) que ganha grana vendendo e distribuindo discos.

Aliás, o filme está no YouTube, legendado. Mesmo sem as legendas, por sinal, vale ao menos ver as paisagens e curtir o som.

VIOLÊNCIA

Em Rockers, Leroy aparece na própria casa em que morava com a esposa e os filhos (que fazem pontas no filme). Boa parte dos músicos da área morava em guetos locais ou em moradias que passavam longe da riqueza. Aliás, não custa lembrar que a história de Rockers se desenvolve numa época bastante complicada na Jamaica. Um país que, havia vários anos, estava bem distante do estereótipo de som, sol, praia, paz e amor. O dia a dia era cheio de violência nas esquinas, milícias, tráfico de armas e drogas.

O filme foi todo criado e realizado enquanto se desenrolava um sombrio momento político no país. O então primeiro-ministro socialista Michael Manley, do Partido Nacional do Povo (PNP), candidato à reeleição em 1976, duelava com o direitista Edward Seaga, do JLP (Jamaica Labor Party), apoiado pelo governo americano. No meio dessa briga, em 3 de dezembro de 1976, sete homens armados entraram na casa do maior popstar do reggae, Bob Marley, que levou um tiro no peito e sobreviveu. Aliás, os homens atiraram em todo mundo que estava lá – Rita, mulher de Bob e cantora, foi alvejada e também escapou por milagre.

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“SORRIA, JAMAICA”?

Na época, surpreendeu o fato de sete homens terem entrado na casa de Marley sem que ninguém fizesse nada para impedir, já que a residência estava sendo vigiada por policiais dia e noite. O cantor passou a sofrer ameaças de morte logo após topar fazer um show gratuito em Kingston, Smile Jamaica, organizado por Manley com a ideia de levar um pouco de felicidade à assustada população da capital.

O show aconteceria no dia 5 de dezembro e Manley mudou a data das eleições para o dia 15. Por causa disso, ficou difícil para os inimigos do candidato não enxergarem aquilo como um enorme showmício com o maior nome da música popular do país. Marley, mesmo abatido e correndo mais riscos, subiu ao palco do tal evento. Depois, exilou-se nas Bahamas por alguns anos. Voltou ao local exatamente em 1978, ano não apenas de Rockers como da estreia do festival de reggae Sunsplash.

Rockers, justamente por mexer em vespeiro, trouxe riscos a seus realizadores. Parte da grana da produção foi roubada do hotel onde a equipe estava hospedada, por uma turma de bandidos de Kingston. O filme que foi para os cinemas – e virou sucesso em vários países – não deixa transparecer nada disso, e o filme ganha ares de documentário por mostrar um pouco do estilo de vida dos músicos da área. Veja hoje mesmo.

Via Thrornbury Picture House e Central do Reggae Download.

Veja também no POP FANTASMA:
– Como? Você nunca ouviu falar em Exuma, The Obeah Man?
– Um 60 minutes sobre os rastafaris, em 1979, com Bob Marley

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Cinema

Toomorrow: quando Olivia Newton-John fez um musical espacial “jovem”

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Toomorrow: quando Olivia Newton-John fez um musical espacial "jovem"

Fãs de Olivia Newton-John (que saiu de cena nos últimos dias) deram uma reclamada, com razão, quando viram nas redes sociais um bando de gente que só lembrou da fase Physical da cantora. Ou de clássicos da telinha como Grease e Xanadu, surgidos de uma fase em que Olivia já era tudo, menos um rosto novo. Antes disso, ela já vinha gravando discos na onda do country pop e do folk desde 1971, tinha conseguido o primeiro disco de ouro em 1975 com o sexto álbum, Clearly love, e vinha fazendo filmes desde o começo da década.

Um filme bem interessante que Olivia fez, e que está inteiro no YouTube (pelo menos por enquanto), tem um plot bem curioso, e ainda por cima rendeu um trilha sonora que prometia. Aliás, o próprio filme foi uma promessa – que não rolou. Toomorrow, dirigido por Val Guest, saiu em 27 de agosto de 1970 no Reino Unido, e tinha a cantora como protagonista. Olivia fazia uma personagem chamada Olivia, que era a líder de um grupo pop (cujo nome era Toomorrow) que era observado de longe por extraterrestres, e acabava sendo abduzido.

Além da cantora, o grupo tinha Karl Chambers (bateria), Ben Thomas (voz, guitarra) e Vic Cooper (teclados). Essa turma, que mantinha a banda como uma forma de financiar os estudos, acabava envolvida numa trama que misturava musical, ficção científica e filme “jovem”, com direito a cenas de protestos estudantis e sit-ins alegres. Se você nunca viu, nem ouviu falar e tem curiosidade, segue aí.

Toomorrow não chegou a ser um grande sucess… não, pensando bem foi um retumbante fracasso. O filme teve problemas desde o começo porque sua dupla de produtores começou trabalhando direitinho e depois passou a se odiar. Os dois eram ninguém menos que Harry Saltzman, que produziu filmes de James Bond, e Don Kirshner, que foi o primeiro produtor dos Monkees. Nessa época inicial, problemas com o roteiro, que nunca ficava do jeito que a dupla e o diretor queriam, e problemas maiores ainda com grana (Guest diz nunca ter sido pago pelo filme) melecaram o processo ainda mais. Olivia chegou a afirmar que o filme “pelo menos valeu a experiência”.

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No fim das contas, Toomorrow foi exibido por apenas uma semana em Londres, e ressurgiria anos depois em exibições especiais, além de seu lançamento em DVD. O mais curioso é que o filme teve até uma trilha sonora, lançada pela RCA. Apesar de ser uma trilha, era creditada à banda Toomorrow, que não existia na prática. Esse disco, um não-marco do pop gostosinho, está até no Spotify.

A tal trilha saiu em 1970, junto do não-lançamento do filme, e honrava bem um projeto que, de certa forma, havia começado com a ideia torta de ser um Monkees de luxo da nova década. Don Kirshner atuou como supervisor musical (todo o material foi publicado em sua editora) e tanto as composições das faixas quanto a produção do LP são creditadas ao cantor e compositor Ritchie Adams e ao produtor Mark Barkan. Chegaram a sair mais duas faixas do Toomorrow num single, também de 1970, lançado pela Decca – a capinha do disco anunciava até pôsteres do grupo.

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Tangarella: uma pornochanchada com Jô Soares e Paulo Coelho (!)

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A carreira de Jô Soares como ator incluiu um filme que pediu para ser trash e ficou três vezes na fila: Tangarella, a tanga de cristal era uma pornochanchada soft lançada em 1976, dirigida e escrita por Lula Campello Torres, e que tinha o humorista interpretando uma espécie de mordomo trapalhão (Erasmo), meio viciado em participar de concursos, que trabalhava para uma família disfuncional e falida, e que complementava a renda trabalhando como consultor sentimental numa revista.

A grande curiosidade é a participação de ninguém menos que Paulo Coelho (!), naquele que talvez seja seu único papel no cinema, interpretando Avelar, um garotão meio vida-torta. Numa das cenas, Paulo aparece sentadão numa poltrona, lendo um exemplar da revista Vampirella. Por acaso, Cachorro urubu, parceria dele com Raul Seixas, aparece na trilha do filme (na interpretação de Raul no disco Krig ha bandolo, de 1973).

Tangarella: pornochanchada de 1975 com Jô Soares e Paulo Coelho (!)

A tal família esquisita era o prato principal do filme. Lucio Tangarella (Jardel Filho), um marido abusivo, viciado em jogo, violento com a mulher e a filha, Sandra – que assiste a todas as brigas dos pais. Ele fica viúvo e casa-se com Luísa Maria (Lidia Mattos), uma dondoca também viúva, que tem três filhos, Âncora (Regina Torres), Alvorada (Fanny Rose) e o tal Avelar. Sem grana por causa do vício em jogo do marido, Luisa sai em busca de um empregado que não saiba fazer nada direito, para que ela possa pagar bem pouco a ele. Erasmo, que mal consegue carregar objetos sem se atrapalhar, é contratado.

O que a madame não contava era que Lucio desaparecesse e deixasse a esposa com o três filhos, com o mordomo e… com a filha Sandra, já adolescente (e interpretada por Alcione Mazzeo). Ela sofre bullying da família e é tratada como uma criada. Até que surge na história um garotão interiorano, rico e meio outsider, Muniz Palacio (interpretado pelo designer de capas de discos e editor do jornal alternativo Presença, Antonio Henrique Nitzche) e algumas coisas mudam.

Tangarella foi lançado discretamente, em cinemas do Rio e de São Paulo, e foi considerado um filme “leve”, liberado para jovens de 14 anos. É uma produção que dá vontade de socar as paredes de tão trash, mas é um filme bem legal – aliás é uma boa indicação para quem curte ver imagens antigas do Rio de Janeiro, já que aparecem lugares como a Lapa, o Largo da Carioca, o Túnel do Pasmado (mesmo local em que o personagem de Roberto Carlos já havia entrado com um helicóptero no filme Em ritmo de aventura, de 1967) e até o Carnaval carioca (que dá sentido à tal “tanga de cristal” do título).

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Lula Campello Torres é um cineasta sobre o qual há bem pouca informação – na Globo, em 1991, ele escreveu uma minissérie chamada Meu marido, ao lado de Euclydes Marinho, que foi assistente de direção em Tangarella. O filme foi todo montado como se fosse uma espécie de documentário ou novelinha de rádio “com imagens”, já que um narrador (Aloysio Oliveira, dublador de filmes da Disney e criador do selo bossa-nova Elenco) vai explicando toda a história. As aparições do já saudoso Jô Soares são quase sempre de rolar de rir, especialmente quando ele participa de uma maratona de corredores sambistas, ou quando se veste de fada madrinha para ajudar Sandra.

Pega aí antes que tirem do YouTube.

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Vai sair caixa com as trilhas sonoras dos filmes de John Hughes

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Vai sair caixa com as trilhas sonoras dos filmes de John Hughes

O site Brooklyn Vegan, quando noticiou a caixa Life moves pretty fast – The John Hughes mixtapes, com o repertório dos filmes do diretor norte-americano, lembrou bem: “Algumas pessoas podem argumentar que as trilhas sonoras dos filmes de John Hughes resistiram melhor do que os próprios filmes”. Maldade com o diretor que melhor conseguiu sintetizar a angústia jovem dos anos 1980, em filmes como Gatinhas e gatões, Clube dos cinco e Curtindo a vida adoidado.

A “década perdida” (pelo menos para os países da América Latina, como dizem alguns economistas) pedia um novo tipo de filme jovem, em que até as picardias de produções como Porky’s, do canadense Bob Clark (1981), tinham seu tempo e lugar, desde que reembaladas e exibidas com um verniz mais existencial e (vá lá) inclusivo.

Ainda que se possa alegar que algumas situações envelheceram (e algumas envelheceram muito), que não havia diversidade racial, etc, tinha espaço para o jovem zoeiro e audacioso de Curtindo a vida adoidado, para o choque de tribos de Clube dos cinco e A garota de rosa shocking (este, dirigido por Howard Detch e roteirizado por Hughes), para a decepção com a vidinha besta e burguesa de Ela vai ter um bebê. Eram criações bastante originais para a época, tudo fruto do trabalho de Hughes, um ex-publicitário e ex-colaborador da revista de humor National Lampoon. Tudo embalado pela sensação de que a vida é, sim, apenas um piscar de olhos – como o próprio Ferris Bueller (Matthew Broderick) sentenciou em Curtindo a vida adoidado.

>>> Leia também no Pop Fantasma: Quando teve uma sitcom do Ferris Bueller

Live moves pretty fast, a caixa em questão, é a primeira compilação oficial de músicas de todos os filmes de John Hughes, incluindo aqueles que ele dirigiu ou apenas escreveu o roteiro. Sai em 11 de novembro pela Demon Music e vai ser vendida em vários formatos: box com LPs, CDs, etc, incluindo canções que estavam nos filmes mas acabaram não aparecendo nas trilhas sonoras.

Entre as bandas que apareciam nas trilhas, New Order, The Smiths, Echo & The Bunnymen, Simple Minds, Oingo Boingo, OMD, The Psychedelic Furs, Simple Minds, e várias outras que, muitas vezes, chegaram ao grande público por aparecem num filme dele. Ou já estavam virando “tendência” e foram pinçadas quando as agendas bateram, como foi o caso do New Order com Shellshock e Elegia em A garota de rosa shocking – um filme que ainda tinha na trilha Smiths com Please, please, let me get what I want e Echo & The Bunnymen com Bring on the dancing horses, gravada especialmemte para a trilha.

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Teve também o caso de Don’t you forget about me, da trilha de Clube dos cinco – aquela famosa música que o Simple Minds não queria gravar de jeito nenhum, mas acabou gravando. E virou o maior hit deles. Você já leu sobre isso aqui.

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