Saiu documentário sobre a banda punk norte-americana dos anos 1980 The Dicks. “The Dicks from Texas”, dirigido por Cindy Marabito, pode ser comprado em DVD (lá fora) e sai junto com um álbum-tributo, com músicas da banda como “Hate the police”, “Babysit” e “Fake bands” nas vozes de bandas como The Bulemics, The Dickins, The Beaumonts e outras.

Unindo punk, hardcore e até discretos toques de rock clássico em seu som, The Dicks inovava não apenas na música. O vocalista Gary Floyd era um dos raros músicos assumidamente homossexuais da cena punk da época, o que já bastava para deixar todo mundo chocado no Texas, um estado bem mais conservador nos anos 1980 do que nos dias de hoje. Em shows do começo da banda, vestia-se de drag queen no palco – um escândalo na época.

Gary enchia as letras de discursos políticos, entre a ironia e agressividade, sempre apontando para o lado mais fraco da corda (e para a convicção socialista). “I hope you’re get drafted” berrava: ‘Você não está nem aí para a guerra nuclear, ou para quantas pessoas morrem/ está sempre rindo na cara da morte (…)/Seu bundão apolítico/Espero que você seja o primeiro a morrer”. “Rich daddy” falava de garotos que tinham pais ricos para pagarem todas as despesas. Já músicas como “Saturday night at the bookstore” falavam abertamente de homossexualidade e de encontros amorosos do cantor.

O grupo estava entre as diversas bandas punk que participavam dos festivais Rock Against Reagan, criados para protestar contra as políticas (tidas como fascistas por boa parte da classe artística) do então presidente norte-americano Ronald Reagan. Bandas como MDC e Dead Kennedys estiveram em vários desses eventos.

The Dicks: voz punk assumidamente gay ganha filme

E se você achou algum ponto em comum entre The Dicks e os Kennedys – tão irônicos, desafiadores e raivosos quanto a banda de Floyd – não foi à toa: The Dicks esteve entre os contratados do selo Alternative Tentacles, criado por Jello Biafra, líder dos DK. Lançou por lá o LP “These people”, em 1985. Na época, o grupo se mudara para San Francisco, onde Floyd montou também um grupo de blues-rock, Sister Double Happiness. E estava com uma formação modificada, com Floyd, a baterista Lynn Perko, o baixista Sebastian F e o guitarrista Tim Carroll.

Essa fase posterior dos Dicks fica de fora de “The Dicks from Texas”, que trata do início da banda em sua terra natal, com a primeira formação. A cineasta Cindy, também texana, recordou em papo com o “Houston Press” que teve sua vida modificada pela banda. “As canções originais deles me ajudaram a passar pelos desafios da vida. E encontrei muita gente que compartilhou suas experiências comigo”, disse ao periódico.

“Quis recriar o sentido de comunidade que havia entre The Dicks e a cena punk de Austin. Havia realmente algo de especial naquela época, quando você nadva pelas ruas e via gente interessante, artistas, músicos, de verdade. Poderia encontrar uma grande estrela como Patti Smith se divertindo um pouco na cidade, ou outros luminares, mas havia algo mais no ar. Todo mundo era especial. Quis mostrar esse sentimento no filme, devia isso aos Dicks e a Austin daquele tempo. Queria que as pessoas pudessem apreciar isso como quem entra na máquina do tempo”.

A fama dos Dicks chegou a outras cenas dos Estados Unidos. Olha aí o Mudhoney, de Seattle, relendo “I hate the police”.