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Cinema

Tem filme sobre Sun Ra de graça na Mostra Afrofuturismo

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Tem filme sobre Sun Ra de graça na Mostra Afrofuturismo

Documentarista com foco em música (e realizador de filmes como O evangelho segundo Al Green), o americano Robert Mugge ficou de 1978 a 1980 acompanhando o dia a dia do jazzista Sun Ra (1914-1993), e de sua Arkestra. O resultado foi o filme Sun Ra: A joyful noise, lançado em 1980, e que pode ser assistido gratuitamente e online até a próxima quarta (15) na Mostra Afrofuturismo do Centro Cultural São Paulo.

Sun Ra havia montado a Arkestra na década de 1950 como um projeto afrofuturista, que misturava jazz experimental, poesia, design inspirado no Egito antigo, e conceitos religiosos, filosóficos e espaciais. O músico era, além de líder musical, uma espécie de guia espiritual da Arkestra. O músicos ficavam dia e noite ensaiando no quartel-general do músico, uma casa de três andares em Germantown, Filadélfia, para onde toda a turma havia se mudado em 1968.

O músico e sua turma desenvolveram uma relação bastante comunitária com a região, com direito a shows de graça numa praça em Germantown, e passeios pelo local. Danny Ray Thompson, o saxofonista da orquestra (morto por acaso no ano passado, um dia depois de declarada a pandemia de covid-19), chegou a montar uma loja de miudezas na cidade, que era sempre frequentada pelas crianças de Germantown. Tanto a lojinha quanto a relação com os vizinhos da casa aparecem no filme, por sinal.

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A joyful noise mostra bem a musicalidade de Sun Ra e de sua turma, com apresentações impressionantes. O grupo, liderado por um Sun Ra com a barba pintada de azul, faz um ensaio monstruoso, repleto de ganchos teatrais e espiritualistas, na cobertura do Philadelphia’s International House. Ra, mostrando sua destreza como maestro, pianista, organista e como criador de música psicodélica (em vários solos), aparece fazendo shows com os músicos em lugares como o Famous Ballroom, em Baltimore.

Num dos momentos mais legais de A joyful noise, Mugge leva Sun Ra para a porta da Casa Branca, e grava o músico fazendo o seguinte pronunciamento: “Estou sentado em frente à Casa Branca olhando para o outro lado da rua, e não vejo a Casa Negra”, diz. “Você não pode ter nada sem seu paralelo e seu oposto. Isso é algo que as pessoas da Terra desconhecem”. Boa parte do filme, por sinal, é tomada por depoimentos do músico, falando sobre história, poesia, vida em outros planetas e assuntos religiosos.

Os filmes da mostra estão todos aqui: vimeo.com/showcase/afrofuturismoccsp

(dica do amigo e leitor André Mansur)

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Quando fizeram um drama televisivo com John Lennon e Yoko Ono

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Quando fizeram um drama televisivo com John Lennon e Yoko Ono

Em 1985, você deve saber, John Lennon completou cinco anos de morto, o que dava espaço para que começassem as várias homenagens, tributos e coisas parecidas. Era um ano bastante movimentado no que dizia respeito a tudo do catálogo dos Beatles, já que os direitos do songbook de Lennon-McCartney tinham ido para um inacreditável leilão público, e tinham sido comprados por Michael Jackson. Já o nome de John, para uso em homenagens e tributos, esbarrava numa questão que talvez fosse um pouco mais complicada: sem Yoko Ono, nada rolaria. Mas de qualquer jeito, ela foi bem colaborativa quando uma turma apareceu com a proposta de fazer um telefilme sobre a vida dela com John, e que se tornaria John and Yoko: A love story.

A novidade é que esse filme está legendado no YouTube para alegrar (ou não) a tarde de sábado que você passaria assistindo ao Caldeirão do Mion.

John and Yoko: A love story assusta pela duração: são três horas (!) de filme contando a história do casal, com Mark McGann e Kin Mioyri nos papéis principais. Yoko colaborou, cedeu músicas, mas também apitou em algumas coisas. “John J. McMahon, produtor executivo da Carson Productions, escolheu Sandor Stern como roteirista e diretor depois que um roteiro inicial de Edward Hume (do filme O dia seguinte) supostamente não agradou Yoko porque continha muito material sobre drogas, A versão de Stern dos anos de John e Yoko é muito mais diplomática, apenas tocando em partes dos incidentes de drogas públicos e privados, sem mencionar algumas das infidelidades amplamente divulgadas de Lennon”, contou o The New York Times no lançamento do filme, em dezembro de 1985.

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Bom, a vida do casal era romantismo com alguns lances bem estranhos: uso de drogas, abandono parental (Julian, filho mais velho de John, ficou anos sem vê-lo), traições, inseguranças de Lennon, brigas domésticas. Da história romântica do casal, não deu para não falar da época em que John e Yoko se separaram e o ex-beatle foi viver com May Pang, e do dia em que John e o brother Harry Nilsson foram expulsos de uma boate por atrapalharem um show dos Smothers Brothers. Isso tem no filme. O contexto político de todos os períodos

Aliás John and Yoko: A love story não fica só na história do casal. Ele abre com nada menos que os próprios Beatles, em 1966, vivendo a tensão de ver seus discos queimados no Alabama, depois que o próprio John Lennon declarou que a banda era mais popular do que Jesus Cristo. Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr são interpretados respectivamente por Kenneth Price, Peter Capaldi e Phillip Walsh.

O filme, aliás, tem dois detalhes interessantes. Aos 22 anos e iniciando carreira, Mike Myers faz um papel rápido e não creditado, como um entregador (vídeo abaixo). E um ator chamado Mark Lindsay chegou a ser considerado para o papel de Lennon, após impressionar a própria Yoko Ono durante um teste. Só que a viúva de Lennon descobriu que o nome do ator era… Mark Lindsay Chapman. E, como você deve saber, o nome do cara que matou Lennon era Mark David Chapman. Claro que Yoko dispensou Mark na hora.

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Aquela vez em que fizeram um documentário sobre Karen Carpenter com bonecas Barbie

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Aquela vez em que fizeram um documentário sobre Karen Carpenter com bonecas Barbie

“O problema nunca foi a Mattel, sempre foi Richard Carpenter”, vociferou certa vez o diretor Todd Haynes, quando perguntado sobre seu documentário Superstar: The Karen Carpenter story, feito em 1987, e que usava bonecas Barbie e Ken (da empresa de brinquedos Mattel) em todas as encenações dramáticas, até mesmo na morte da cantora por anorexia (ocorrida em 1983).

Todd, que lança na Apple TV em outubro o documentário The Velvet Underground, sobre a banda americana, lembrou numa entrevista que o filme deixou o irmão de Karen Carpenter muito zangado. Por razões familiares, afetivas e pessoais, segundo o cineasta.

“Se você já o ouviu dar entrevistas ou falar sobre Karen Carpenter, nota que há muita raiva lá, e ressentimento. Acho que ele está zangado porque ela morreu e levou a carreira dele junto, quando Richard pensava que sempre tinha sido o talento da dupla, o que gerou tudo”, disse Todd, ele mesmo bem puto da vida com o músico.

O filme também insinuou que Richard fosse homossexual, o que – numa era em que além da homofobia, havia muito desconhecimento e bem menos sensibilidade – provavelmente deixou o cantor bastante irritado, até porque publicamente ele nunca havia tratado do assunto. Superstar o exibiu também como um personagem bastante manipulador. Em “troca”, Richard proibiu que o filme utilizasse qualquer música dele e do grupo, claro.

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O filme, realizado quando Todd estava concluindo seu mestrado em Bard College, sequer tem uma duração longa: são apenas 43 minutos. E, diz um texto do The Guardian, parecia ter sido feito para a internet mesmo antes dela ganhar acesso público, já que sua linguagem influenciou vários canais do YouTube.

Todd falou do filme no vídeo abaixo, entre outros assuntos. O cineasta diz que uma das coisas mais interessantes do filme é que ele parece algo feito a mão, meio infantil, “até pela sensação que ele dá de brincar com bonecas”. Mas que quando as pessoas vão assisti-lo, veem que não se trata de uma piada com a dupla e que a história é bastante séria e pesada. Sim: em vários momentos, o filme de Todd chega a lembrar alguma maluquice de Kenneth Anger, como o bizarro Mouse heaven. E o material é bem claro: Karen passava por momentos de abuso, a máquina do showbusiness era cruel e ela precisava muito de ajuda.

E, bom, o filme está no YouTube já há um tempinho, após entrar e sair outras vezes.

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Lembra da fase rocker de Mae West?

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Lembra da fase rocker de Mae West?

Famosa como atriz, como celebridade de Hollywood e como cantora, Mae West ficou dez anos sem gravar. Aliás, ficou mais tempo ainda afastada do cinema. Foram quase trinta anos, voltando apenas em 1970 num filme que resultou num fracasso de bilheteria e numa recepção mais humilhante ainda da crítica, Myra Breckinridge, com Raquel Welch no papel principal (opa, você já leu sobre esse filme aqui no Pop Fantasma).

O que muita gente não esperava é que Mae – cujo primeiro álbum, The fabulous Mae West (1956), tinha basicamente grandes clássicos da canção norte-americana – retornasse em formato rock and roll no fim dos anos 1960. E depois retomasse o estilo em 1970. Olha aí o segundo disco da cantora e atriz, Way out west, formado por clássicos do pop, do soul e do rock. No álbum, lançado em 1966, a estrela era acompanhada por uma banda chamada Somebody’s Chyldren, formada por quatro cabeludos – enfim, por quatro garotos com cabelo crescendo pouco acima das orelhas.

Olha ela cantando If you’ve gotta go, go now, de Bob Dylan.

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Day tripper, dos Beatles, ficou bem legal na voz dela.

Olha que rock de garagem perfeito a versão dela para Shakin all over, de Johnny Kidd, que fazia parte também do repertório do The Who (e de mais uma porrada de bandas)

Hoje em dia, o mundo está acostumadíssimo com roqueiros de 60, 70, 80 anos – evidente, já que o próprio estilo musical tem mais de sete décadas. Na época em que gravou Way out west, Mae West tinha 72 anos e isso causou certo escândalo – afinal, era uma senhora, grande dama de Hollywood, voltando com um disco de rock de garagem. Seja como for, foi uma grande surpresa: o disco chegou à posição de 116 no Hot 200 da Billboard e Mae se tornou a mulher mais idosa a atingir a parada. Além disso, Mae West curtiu mesmo cantar rock. Olha aí o terceiro disco dela, lançado em novembro de 1966, Wild Christmas.

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Wild Christmas era quase um mini-álbum, com oito músicas e pouca duração (só 22 minutos e uns quebrados). Cinco das faixas tinham “Papai Noel” no título, sendo que duas delas haviam sido gravadas por Elvis Presley, Santa Claus is back in town e Santa bring my baby back (To me).

Quem produziu esses dois discos de Mae foi um jovem músico e produtor chamado David Mallet – um inglês que anos depois viraria diretor de clipes e faria vídeos como Bicycle race (Queen), Hangin on the telephone (Blondie) e nada menos que Ashes to ashes (David Bowie), entre vários outros. Mallet na época era um garotão roqueiro de 20 e poucos anos que estava dando lições de guitarra à estrela de Hollywood, e Mae já tinha até seu próprio instrumento, como diz essa matéria do The Sun Herald, de 3 de julho de 1966. “Desde que descobriu o rock, ela tem deixado a estação de rádio local de Hollywood em explosão total”, diz o texto.

O mergulho de West no rock deu certo, tanto que ainda teve um terceiro disco – só que Great balls of fire saiu um pouco atrasado. Foi gravado em 1968 e saiu só em 1970, por uma gravadora bacana, a MGM Records. Ao contrário dos dois primeiros, este disco foi produzido por Ian Whitcomb, compositor, produtor e escritor inglês. Não fez sucesso e não chegou às paradas, mas tem uma versão curiosíssima (e boa demais) de Light my fire, dos Doors.

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E teve, claro, o sucesso gravado por Jerry Lee Lewis, que virou faixa-título disco e foi gravado por ela.

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