Cultura Pop
Estilos musicais internacionais pouco citados dos anos 1990: descubra agora!

Neste sábado (11), só se falou, obviamente, dos vinte anos dos ataques às torres gêmeas, nos Estados Unidos – um assunto que dá pano para a manga, e que, a julgar por canções como Lies lies lies, do Ministry, suscita bem mais detalhes sórdidos do que se costuma noticiar. Então, pode se preparar. Daqui a duas semanas, só vai dar grunge. No dia 24 de setembro, dois discos de bandas de Seattle, clássicos dos anos 1990, fazem 30 anos: Nevermind, do Nirvana, e Badmotorfinger, do Soundgarden.
Os detalhes sórdidos e não-sórdidos do grunge vêm sendo amplamente explorados pela mídia pop já tem um tempo. Nesta semana, inclusive, voltaram a falar bastante de Smells like teen spirit, do Nirvana, porque o single completou 30 anos. Aliás, cá pra nós, os recursos mais lembrados quando se fala da música internacional dos anos 1990 são lembrar do grunge e do britpop, que revelou grupos como Oasis, Blur e Pulp. Os dois estilos ofuscam muita coisa legal que aconteceu há trinta anos.
Sabendo disso, resolvemos fazer uma pequena lista de oito estilos musicais dos anos 1990 que vêm tendo bem menos espaço do que merecem em reportagens sobre música. Pega aí! 🙂
MATHCORE. Muitas bandas geralmente tidas como experimentais, vêm do chamado math rock. É um estilo musical que soa como “projeção” do rock progressivo a la Rush e Primus, com batidas quebradas, solos que param no meio, síncopes e certa complexidade rítmica. Se você queria essa sonoridade, mas desde que ela viesse acompanhada por muito peso, vocais berrados e letras depressivas e tensas, tente esse estilo multi-tudo, o mathcore. Que aliás, é costumeiramente negado por alguns músicos que o fazem, na base do “não sei o que é mathcore, isso tudo é besteira de jornalista”.
O nome mathcore já foi bastante usado para definir bandas como Deathguy, Converge e Dillinger Escape Plan, já que se tratavam de bandas que se entregavam às quebradas rítmicas, mas com um peso mais próximo do hardcore e do metal alternativo (bandas como Tool geralmente são consideradas grandes influências nesse estilo musical). Tem também quem nisso tudo influências do jazz e dos beats da música eletrônica dos anos 1990, ou de bandas como Pantera.
“Quero ouvir só uma música desse estilo. Escuto qual?”. Vá sem susto em 43% burnt, do primeiro disco do Dillinger Escape Plan, Calculating infinity (1999).
PÓS-GRUNGE. Sim, pelo que dizem, parece que ele existe. O problema é: o termo grunge é bastante amplo (e já não identifica um estilo musical de fato). Agora imagina a parte 2 dele.
Bom, o nome pós-grunge já foi usado para definir bandas que fizeram sucesso após 1991 e que não eram da mesma turma de Nirvana e Pearl Jam. Por serem considerados apenas derivativos, grupos como Collective Soul e Stone Temple Pilots já receberam esse título. Com o tempo, o nome passou a designar bandas como Foo Fighters (liderada, você deve saber, pelo ex-baterista do Nirvana), Hoobastank, Three Days Grace e até mesmo o Nickelback, e de modo geral, indica bandas que tocam rock com peso, guitarras altas e melodias acessíveis. Muitas vezes bastante acessíveis, já que até mesmo o Nickelback já recebeu tal rótulo.
“Quero ouvir só uma música desse estilo. Escuto qual?” Vá no popular e ouça Monkey wrench, dos Foo Fighters, modelo para toda banda de “pós-grunge” que surgiu depois.
TEJANO. Sabemos o que você, conhecedor de música latina, está pensando ai: o tejano vem de longe, muito longe, e é bem mais antigo do que as bandas dos anos 1990. O estilo musical latino que combina influências do México e detalhes do som pop norte-americano começou a ganhar mais espaço entre o público jovem nos anos 1980 e foi pegar de vez na década seguinte. O Brasil não passou batido pela onda: canções de axé, sertanejo e até uma ou outra coisa de pagode traziam influências aqui e ali Tex-Mex (nome “oficial” do estilo, que pegou mesmo, mui apropriadamente, no México e no Texas).
O estilo teve uma rainha, cuja carreira terminou de maneira trágica: a texana Selena, assassinada por uma fã em 1994. Selena, que ja acumulava hits, bateu um recorde post-mortem (com Dreaming of you, de 1995, primeiro disco póstumo, que estreou liderando a Billboard 200), foi interpretada no cinema em 1997 pela novata Jennifer Lopez, e passou a ecoar em estrelas pop como Shakira e, dizem alguns críticos, até Beyoncé. O gênero também estourou outros nomes, como Lynda V, Elsa Garcia e Bobby Pulido.
“Quero ouvir só uma música desse estilo. Escuto qual?” Amor prohibido é a mais popular canção de Selena, e ganhou um clipe bem simpático. Ouve lá.
GABBER. Esse estilo de música eletrônica fez a cabeça de vários fãs de punk nos anos 90 (João Gordo já afirmou que adorava) e costumeiramente é grafado também como gabba. É tido como o mais intenso e rápido estilo do techno, até por unir influências de hardcore e som industrial. Esse texto do site Mixmag define o gabber como um primo eletrônico do heavy metal e lembra que lá por 2019, o estilo fez uma volta rápida à cena musical, com direito a entrada de DJs em festivais e podcasts com mixagens do gênero.
“Quero ouvir só uma música desse estilo. Escuto qual?” I wanna be a hippy, clássico de 1995 do projeto de techno hardcore Technohead (um dos vários nomes utilizados pelo projeto britânico Greater Than One), já é uma introdução. O clipe dá até nervoso, pela rapidez (e tem luzes que piscam bastante, melhor avisar).
SCREAMO. O emo já é um estilo musical conhecido pelas emoções intensas e pelos vocais cantados às alturas em várias músicas. O screamo (scream + emo), surgido em algum lugar dos anos 1990, combina esse transbordamento emocional com vocais gritados. Além de um ou outro experimentalismo musical ali pelo meio, que coloca o som numa trilha bem estranha: dá pra dizer que o screamo tem lá seus pés no pós-punk (por causa da deprê das letras e melodias) e no punk da Califórnia (por causa das batidas rápidas).
Vale falar que o screamo é mais um dos milhares de estilos musicais cuja existência é negada por seus maiores expoentes (“não fazemos screamo, nem sei o que é isso, a gente faz punk” é a frase-assinatura). Também é importante dizer que alguns críticos e músicos apostam numa ramificação do estilo chamada emoviolence, mas aí é outra história.
“Quero ouvir só uma música desse estilo. Escuto qual?” Pega aí New Jersey vs. Valhalla, perdição de gritos, batidas e muralha de guitarras da banda americana Orchid.
BAGGY. O fato das calças baggy (largonas) estarem super na moda no comecinho dos anos 1990 gerou um estilo musical diferente, de pouco fôlego, e que na real não passa de uma defecção meio estranha da cena Madchester – aquela turma indie de Manchester que unia elementos de acid house, psicodelia e pop sessentista, com direito a guitarras jangle, órgãos Farfisa e coisas do tipo.
Essa onda… bom, na verdade não foi uma onda, foi uma marolinha. E que durou tempo suficiente para render discussões de mesa de bar sobre o que era baggy, o que era indie-dance e o que era Madchester. Ninguém sabia explicar, mas o consenso era que baggy definia bandas assemelhadas às da turma de Manchester, só que vindas de lugares como Liverpool ou Londres. Até mesmo o Blur ganhou o rótulo no comecinho.
“Quero ouvir só uma música desse estilo. Escuto qual?” Pega aí o primeiro hit da banda Flowered Up, de Londres, Weekender. Treze minutos de pós-psicodelia dançante.
THIRD WAVE SKA. A “terceira onda do ska” teve seu início lá pelos anos 1980 mas ficou famosíssima (e gritou bem alto nas paradas) após os 1990. Só que rola uma confusão básica aí: o mais conhecido nome dessa galera, o No Doubt, estourou mesmo foi com uma simpática balada em tons ska, Don’t speak. O Sublime, outro nome famoso, conheceu o sucesso com Santeria (popular no Brasil a ponto de ter entrado na trilha de Anjo mau, no remake de 1997).
Outras bandas tiveram sucessos pontuais no Brasil, como Reel Big Fish, Suicide Machines, Voodoo Glow Skulls e The Mighty Mighty Bosstones. Aliás o estilo ficou tão famoso por aqui nessa época que choviam CDs independentes, bandas novas e até discos de bandas estrangeiras lançados no Brasil.
“Quero ouvir só uma música desse estilo. Escuto qual?” Qualquer uma do Voodoo Glow Skulls. Shoot the moon foi quase-hit aqui.
NEO SOUL. Mais um estilo musical controverso: veio de uma ideia de Kedar Massenburg, executivo da Motown, quando começaram a despontar carreiras como as de Lauryn Hill, D’Angelo e Erykah Badu. O nome não foi unanimidade. Muitos fãs, artistas e até alguns jornalistas não curtiram o rótulo, acreditando que o termo criava a falsa ideia de que o soul terminou e estava sendo revivalizado.
De qualquer jeito, era o antigo estilo dos anos 1970 retornando às paradas com mais elementos de hip hop e r&b, novas tecnologias, e novas vozes. Uma curiosidade que une quase todos os artistas do neo soul: são carreiras de poucos discos – às vezes só um disco foi preciso para marcar várias gerações de fãs, como aconteceu com Lauryn Hill. D’Angelo, um dos nomes mais influentes do chamado neo soul, ficou quatorze anos afastado por completo da música.
“Quero ouvir só uma música desse estilo. Escuto qual?” Brown sugar, de D’Angelo,é um hit memorável.
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Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.
Cultura Pop
“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.
Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.
Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.
O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.
Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.
Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.
Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.
“Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.








































