Connect with us

Cultura Pop

Relembrando: MC5, “Kick out the jams” (1969)

Published

on

Imagens raras do MC5 tocando na Inglaterra em 1972

A importância do recém “ido” Wayne Kramer e de sua banda, o MC5, é enorme. O imaginário evocado pelo grupo é um baú que parece não ter fundo: conflitos raciais em Detroit (terra da banda), antirracismo, rock de garagem, marxismo, guerrilhas, Motown, fábricas de automóveis, poluição, sexo, orgias, jazz, blues e soul. Tudo isso no cenário quase desmoronado de uma das mais conhecidas cidades industriais do mundo.

Além disso, o grupo de Wayne (guitarra), Rob Tyner (voz), Fred “Sonic” Smith (guitarra), Michael Davis (baixo) e Dennis Thompson (bateria), organizou alguns importantes movimentos musicais que viriam na sequência. Punk, heavy metal, hard rock, glam rock, tudo isso partiu dos três álbuns lançados por eles entre 1969 e 1971.

  • Apoie a gente e mantenha nosso trabalho (site, podcast e futuros projetos) funcionando diariamente.

Assim como Stooges e Velvet Underground, o MC5 não vendeu muitos discos e enfrentou mais portas fechadas do que braços abertos. Mas virou notícia rapidamente, e surgiu sob as bênçãos de um marketeiro político daqueles: o ativista político John Sinclair. Envolvido com a política de esquerda radical e com o Partido dos Panteras Brancas (uma adesão de jovens brancos dos EUA à agenda dos Panteras Negras), ele se tornou a partir de 1968 um empresário não-convencional do grupo. O anti-capitalista Sinclair preferia definir-se como um “orientador” do quinteto e nada mais do que isso.

Não custa lembrar que o superlativo John Sinclair não foi responsável por fazer a cabeça do MC5. O grupo já existia desde 1963, observava o mundo do ponto de vista apertadíssimo da classe trabalhadora dos EUA, e seu som pesado e berrado já havia chamado a atenção de grupos revolucionários e radicais norte-americanos (como os encrenqueiros de plantão do Up Against The Wall Motherfuckers). Sinclair levou um pouco mais de ideologia explosiva à banda, e também produziu e organizou o trabalho do grupo, que vinha de várias tentativas e já havia lançado singles por selos pequenos. “John Sinclair era a única pessoa que respeitávamos e cuja orientação aceitaríamos. Tínhamos uma longa série de traficantes de segunda categoria no mundo da música e empreendedores de negócios musicais que tentaram administrar o MC5. Não éramos gerenciáveis”, divertiu-se Kramer aqui.

O barulho que o MC5 fazia era enorme, no palco e na mídia – revistas como a Rolling Stone já haviam acordado para o quinteto. Tanto que a Elektra não deixou por menos e contratou a banda, aproveitando para gravar o primeiro álbum, Kick out the jams (fevereiro de 1969), ao vivo. O disco foi registrado em duas noites no Grande Ballroom, um histórico salão de danças de Detroit que em 1966 havia sido adquirido pelo DJ Russ Gibb, cujo objetivo era fazer do local uma casa análoga ao Fillmore, de São Francisco. O repertório do álbum era bem mais louco e variado do que o normal para uma banda que desejava fazer sucesso – mas era, no geral, tudo filtrado pelo pré-punk.

A ousadia do MC5 era tanta que Kick out the jams abria com uma pregação (!) de um minuto e meio. JC Crawford, listado como “conselheiro espiritual” do grupo, exortava a plateia como um pastor protestante, dizendo frases como “chegou a hora, irmãos e irmãs, de vocês decidirem se querem ser parte da solução ou parte do problema”. O grupo nem sequer fez questão de abrir o disco com uma canção autoral. Preferiu relembrar os tempos de banda de garagem e transformou a safada e sexualmente ativa Ramblin’ rose, popularizada por Nat King Cole, num punk legítimo, cantado por Tyner com um falsete gozador.

Em seguida, a faixa-título, que causou discussões na gravadora por causa do “kick out the jams motherfuckers” berrado pelo vocalista. Não havia um consenso na Elektra sobre se aquele palavrão era desejável ou não. O disco saiu com ele, foi censurado pela gravadora a posteriori, e versões com e sem o “motherfuckers” (substituído por “brothers and sisters”) circularam quase ao mesmo tempo. Fato é que o álbum prosseguia unindo sexo (e sexismo, vá lá), psicodelia, distorções, microfonias e letras malcriadas em doses iguais, nas autorais Come together, Rocket reducer  nº 62 (Rama lama fa fa fa) e Borderline.

Até aí, ecos das letras do grupo poderiam ser achados posteriormente em discos como Ziggy Stardust, de David Bowie (o “wham bam thank you ma’am” de Suffragette city, de Bowie, estava também em Rocket reducer). Mas o restante do lado B aumenta o tom, em música e letra. O grupo resgatou um blues de protesto gravado por John Lee Hooker em 1967, Motor city is burning, avisando que a revolta e a destruição viriam. Trouxe de volta em versão quase heavy metal I want you right now, uma canção do repertório de uma banda quase tão proto-punk quanto eles, os Troggs.

Os nove últimos minutos do disco são ocupados com o terror espacial de Starship, uma parceria entre a banda e o jazzista afrofuturista Sun Ra. Era mais violento que o Black Sabbath, era quase stoner rock, era o mesmo progressivo punk que o Hawkwind estaria fazendo mais ou menos naquela período, só que sob um viés bem mais destruidor.

Kick out the jams soou como a explosão de um carro-bomba: estacionou nas vendas, foi recusado por uma cadeia importante de lojas (a Hudson’s), foi marcado por shows caóticos, e representou o fim da linha da banda na Elektra. John Sinclair caiu no ardil de um policial e foi preso por tráfico de maconha. Passou dois anos na cadeia, foi homenageado por John Lennon com a música John Sinclair, virou herói da esquerda no rock, mas acabou destituído do cargo de “orientador” da banda – anos depois reclamou que nenhum dos integrantes do MC5 foi visitá-lo na prisão e que “nem os mafiosos abandonam seus presos dessa forma”.

Sem Sinclair, restou o peso e uma certa postura de heróis do rock, que levou a um novo contrato com a Atlantic e à gravação de mais dois álbuns com a formação clássica, o fraco Back in the USA (1970) e o pesado e redefinidor High times (1971). Drogas, baixas vendagens e mudanças na formação abreviaram o fim. Mas um pulo no tempo encontrou Wayne em 2023, confiante, anunciando um disco novo do MC5 com Bob Ezrin na produção. O guitarrista, que largou as drogas e iniciou carreira solo nos anos 1990, infelizmente se foi. O que vem por aí fica como documento e legado de tempos bastante explosivos na música.

Cultura Pop

Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

Published

on

The Coverups: Billie Joe recebe Bruce Dickinson (Foto: Reprodução Internet)

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.

Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.

O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.

Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.

Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.

Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.

De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.

Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.

Foto: Reprodução Internet

Continue Reading

Cultura Pop

Qual é a dos dois discos novos de Lana Del Rey?

Published

on

Lana Del Rey (Foto: reprodução YouTube)

Lana Del Rey passou tanto tempo adiando e reformulando o próximo álbum que já dava para imaginar que ele nunca chegaria. Primeiro era Lasso. Depois virou The right person will stay. Em seguida apareceu como Stove. Agora a cantora resolveu complicar um pouco mais o roteiro: além de Stove, ela diz que também está preparando um segundo álbum inédito.

A novidade surgiu em uma publicação no Instagram, onde Lana contou que o disco extra nasceu durante o mesmo processo criativo do sucessor de Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd. Segundo ela, o novo trabalho funciona como uma espécie de “companion album”, desenvolvido quase ao mesmo tempo que Stove.

  • Os bastidores do raro Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, que ganha lançamento oficial

A cantora também afirmou que esse segundo disco surgiu das transformações pessoais e criativas que viveu nos últimos quatro anos, funcionando como uma espécie de contraponto ao álbum principal. Se tudo correr como planejado — e essa ressalva é indispensável quando o assunto é cronograma de Lana Del Rey — os dois discos devem ficar prontos em cerca de um mês para seguir para a prensagem em vinil.

Ela também afirmou que ambos já têm capas prontas e descreveu os projetos como algumas das obras de que mais se orgulha. O álbum principal, Stove, continua reunindo os singles Henry, come on, Bluebird e White feather hawk tail deer hunter, além de outras músicas que ela vem mostrando ao vivo nos últimos meses. Tudo indica que First light, single lançado como single da trilha sonora do jogo 007 First Light, escrito em parceria com David Arnold, é só um projeto à parte e não estará no disco.

Embora Lana ainda não tenha confirmado um título para o álbum companheiro, fãs passaram a chamá-lo de Spyda após identificarem esse nome em uma das artes divulgadas pela cantora nas redes sociais (aliás, no Reddit, tem fãs reclamando que a imprensa tá caindo rapidamente numa suposição deles mesmos, os fãs)

Ainda não há datas de lançamento para nenhum dos dois discos. Mas, considerando o histórico recente da cantora, talvez seja prudente evitar tatuar qualquer título no braço até que eles realmente apareçam nas plataformas de streaming. Afinal, se um álbum já mudou de nome três vezes antes de nascer, nada impede que um quarto nome apareça antes do play.

Continue Reading

Cultura Pop

Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Published

on

Peter Hook: "Roubamos muito o Kraftwerk"

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.

Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.

Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.

O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.

Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.

Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.

Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.

Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.

A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.

Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.

E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.

Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.

Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.

Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.

Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.

Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.

Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.

Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.

O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.

O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!

Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.

Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).

Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.

A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.

Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados ​​de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.

Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.

Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.

Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.

Continue Reading

Acompanhe pos RSS

Palco Supernova terá dia 100% feminino no Rock in Rio 2026 - Foto: Divulgação
Urgente14 minutos ago

Palco Supernova terá dia 100% feminino no Rock in Rio 2026

Caian Zattar - Belchior jovem (Foto: Divulgaçã)
Urgente3 horas ago

“Alucinação”: série do Canal Brasil acompanha Belchior do começo ao desaparecimento

Glue Trip (Foto: Samuel Esteves / Divulgação)
Urgente4 horas ago

Glue Trip anuncia tour por sete países e põe disco bem psicodélico na agulha para setembro

Jardim Depressa (Foto: Divulgação)
Urgente4 horas ago

Pós-punk, shoegaze e parede de som: conheça “Diabo”, som novo do Jardim Depressa

Paulo Tatit (Foto: Divulgação)
Urgente4 horas ago

Paulo Tatit, do Palavra Cantada, encara o caos adulto em novo single

Kauan Calazans e DOCONTRA: punk e skacore em "De cabeça no planeta"
Urgente4 horas ago

Kauan Calazans e DOCONTRA: punk e skacore em “De cabeça no planeta”

Urgente24 horas ago

“Curious subject”: Chaka Khan faz perguntas sobre si mesma em single novo

Cameron Winter ao piano - Foto: Lewis Evans / Divulgação
Urgente1 dia ago

“Live at Carnegie Hall”: Cameron Winter em disco ao vivo, só com voz e piano

Adult Leisure (Foto: Divulgação)
Urgente1 dia ago

O bicho-papão cresceu: Adult Leisure encara os medos adultos em novo single

Kiss resgata show histórico de 1976 no álbum "Destroys Anaheim ’76"
Urgente2 dias ago

Kiss resgata show histórico de 1976 no álbum “Destroys Anaheim ’76”

Cara Delevingne (Foto: Blair Brown / Divulgação)
Urgente2 dias ago

“Crazy, baby”: Cara Delevingne solta música com clipe sáfico e misterioso

Lydia Lunch e The Art Gray Noizz Quintet releem Magazine e Iggy Pop em modo destruição
Urgente2 dias ago

Lydia Lunch e The Art Gray Noizz Quintet releem Magazine e Iggy Pop em modo destruição

Punk de NYC, The Underbites prepara disco sobre um mundo fora de controle
Urgente2 dias ago

Punk de NYC, The Underbites prepara disco sobre um mundo fora de controle

Until They Burn Me (Foto: Divulgação)
Urgente2 dias ago

Until They Burn Me: skate punk e histórias de sobrevivência em “Addict”

Charm Offensive (Foto: Divulgação)
Urgente2 dias ago

Charm Offensive encara a solidão moderna com humor ácido em “Apathy”

The Days Away transforma obsessão em pós-punk ensolarado
Urgente2 dias ago

The Days Away transforma obsessão em pós-punk ensolarado

Baú de David Bowie libera as gravações dele em 1965 (com Jimmy Page na guitarra)
Urgente4 dias ago

“Today”: sai mais um single de David Bowie nos anos 1960

Juliano Costa transforma fim de namoro em clipe de stop motion
Urgente4 dias ago

Juliano Costa transforma fim de namoro em clipe de stop motion