Lançamentos
Plebe Rude: lyric video de “O pêndulo da história”, encerramento do projeto “Evolução”

Num espelho do que acontece com bandas do punk britânico como The Damned e Stranglers, a Plebe Rude continua firme, forte e produtiva, e cheia de planos, no mercado independente – vários anos após (como acontece com as duas bandas citadas) ter passado pelas grandes gravadoras e pelas paradas de sucesso.
O grupo formado pelos plebeus originais Philippe Seabra (voz, guitarra) e André X (baixo, voz), mais Clemente Tadeu (voz e guitarra, também Inocentes) e Marcelo Capucci (bateria) vem lançando ocasionalmente novos discos e singles, e entre 2019 e 2023 fez seu lançamento mais ambicioso: o par de discos Evolução (volumes 1 e 2), uma ópera-rock que narra “a saga da humanidade e o seu desenvolvimento através da violência do homem, desde o despertar da consciência no Homo Sapiens”, e que partiu de uma antiga canção da Plebe que havia sido esquecida pela banda (justamente Evolução, considerada irreverente demais para o repertório do grupo e engavetada por vários anos).
Dessa vez, sai um lyric video com a última faixa do pacote Evolução, que é O pêndulo da história. Uma canção de dez minutos, que “fecha numa grandiosidade como os musicais Hair e Tommy, com o tema principal do musical reaparecendo num grosso naipe. É o momento, mais para o final da música, de todo o elenco no palco aparecer cantando com os braços abertos”, diz Seabra. O baixista André X completa: “Se o musical fosse encenado, seria um encerramento épico, com vozes, dança, cordas e metais acompanhando a banda”.
“A Plebe Rude finaliza essa empreitada com a imagem de um pêndulo gigante que vai e vem no balançar natural de sua cadência durante a história, às vezes tendendo à hesitação, ficando suspenso em uma das extremidades, ora de um lado ora de outro, alternando entre a glória e a dor, a redenção e erros. O perigo mesmo está nos extremos”, acredita Philippe (Foto: Caru Leão/Divulgação)
Crítica
Ouvimos: Chico Chico – “Let it burn / Deixa arder”

RESENHA: Let it burn/Deixa arder é o disco mais longo e confessional de Chico Chico: ousado, difuso no início, mas com caminhos que se revelam aos poucos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Deck
Lançamento: 24 de outubro de 2025
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Quem achava excelentes os discos anteriores de Chico Chico justamente por sua concisão e pelo ir-direto-ao-assunto, musicalmente falando, que marcava o seu trabalho, talvez se sinta meio perdido com esse novo álbum, Let it burn / Deixa arder. Na verdade, é um disco no qual dá para se perder inicialmente, mas dá achar novos caminhos logo depois.
Let it burn tem 20 faixas e duração de álbum duplo (são 74 minutos de música). Como todo álbum duplo, nasce da necessidade de criar, experimentar e não se sentir aprisionado por limites. Foi o que rolou com o Clash em London calling (1979), com os Beatles no White album (1967) e, para falar de um brasileiro, com Gilberto Gil no adiado Cidade do Salvador (feito em 1973 e lançado apenas em 1999, já em CD).
Numa conversa recente com Silvio Essinger no jornal O Globo, Chico explicou sua atual fase, cheia de novas demandas e mudanças pessoais. Uma história que dá ótimo pano de fundo para o atual momento criativo do cantor, e para o fato de Let it burn ser um disco ousado, diferente e bastante confessional, com letras em inglês e em português e releituras.
É o que rola em faixas como o blues a la Tom Waits Two mother’s blues (uma música biográfica, que fala da morte do pai biológico, da morte da mãe Cássia Eller, e da presença da segunda mãe Maria Eugênia em sua vida), a tranquila Tanto pra dizer, o blues-reggae Não carece, e a cigana e nordestina Parabelo da existência (com Josyara).
Também é o que acontece no neo-folk Heal me, com clima emotivo e lembranças da fase final da carreira de Cássia. E no beat beatle-maracatu de Na minha idade, no afro-pop tropicalista de Rita e Luísa e no curioso folk-tango de Lugarzin. E na MPB derivada do blues de Zero jogo, que poderia ter sido feita para Cássia gravar, ou para Gal Costa gravar.
No geral, Chico, que sempre teve cara própria como cantor e compositor – e lutou para não ser visto apenas como filho de Cássia Eller, apesar de seu início de carreira representar uma lenda musical tão esperada quanto as de Jeff Buckley e Maria Rita – parece mais tranquilo. Há momentos em Let it burn / Deixa arder, em que ele não parece constrangido do seu tom de voz lembrar o da mãe, ou de certos momentos evocarem fortemente Cazuza, Nando Reis e até Cida Moreira (rola bastante na teatral Farsa).
O disco tem também covers bem sacados, como Four and twenty (Crosby, Stills, Nash & Young), Girl from the North Country (Bob Dylan) e Vila do Sossego (de Zé Ramalho, por acaso uma música que fez parte do repertório de Cássia). São escolhas que aproximam Chico de um público mais variado, ao mesmo tempo que fazem (vá lá) uma certa transição para a turma dos profetas do folk-rock, armados de violão e voz.
No fim, Let it burn/Deixa arder pode ser até longo e meio difuso, mas nunca entediante – e soa como um presente de Chico para si próprio, extensivo aos fãs.
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Crítica
Ouvimos: They Are Gutting A Body Of Water – “Lotto”

RESENHA: Lotto, novo disco do They Are Gutting A Body Of Water, traz shoegaze cru e experimental, com clima 90s, ruídos lo-fi, narrativas traumáticas e caos emocional.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Julia’s War / ATO Records
Lançamento: 17 de outubro de 2025
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Definido basicamente como “banda de shoegaze”, o They Are Gutting A Body Of Water (volta e meia tendo seu nome reduzido por aí para TAGABOW) vem da Filadélfia, existe desde 2017, e vem mostrando bem mais do que isso em seus discos – especialmente em seu quarto álbum, Lotto. É um disco experimental, extremamente cru (parece ter sido gravado em fita K7), cuja maior aproximação é com os anos 1990 e a época em que o nome “shoegaze” ainda não era citado largamente em resenhas de álbuns. Há evocações de bandas como Smashing Pumkins e Soundgarden, e uma aparente intenção de chegar mais perto do noise rock oprimido, com estilhaços de sentimentos sendo colocados para fora em cada faixa.
O titulo Lotto soa irônico – a “loteria” do título está mais para apostas perdidas, sacanagens do destino, traumas que requerem anos de terapia e pedras gigantescas no meio do caminho. The chase, a lenta e saturada faixa de abertura, fala sobre os terrores da abstinência do opioide Fentanyl (problema vivido e narrado em primeira pessoa pelo vocalista e guitarrista Douglas Dulgarian), em letra de spoken word, como se fosse uma transmissão por walkie-talkie. Um clima que paira sobre o disco, e volta com força na última faixa, Herpim – slacker rock formado por ruídos que lembram um tecnorock psicodélico e sombrio, e cuja letra fala segundo a segundo sobre um acidente de avião, como se a narração viesse da cabine do piloto.
- Ouvimos: Ira Glass – Joy is no knocking nation (EP)
Por acaso, as histórias bisonhas do They Are Gutting A Body Of Water em Lotto são cantadas e narradas sem desespero, como na pancadaria shoegazery de Sour diesel (“eu sou o anfitrião / o pai, o filho e o fantasma / e quando dói / eu cutuco a ferida até piorar”), a lentidão de Trainers (um dia bem estranho passado no Disney World, com versos como “trate a morte como o aluno preferido do professor / desça até a loja / o amanhecer se espalha sobre pores do sol mortos”) e a viagem sombria de faixas quase lo-fi como RL stine, Violence III e American food – essa, uma canção triste e carregada, marcada por um riff de violão e por versos traumatizados como “deixaram meu andar torto / a vantagem de acreditar que você é mau / é que você tem alguém para culpar”.
Lotto ainda tem uma releitura do Fugazi (a instrumental Slo crostic) e o caos emocional de Baeside K, que traz um respiro e um estilhaço de romantismo em meio ao dia a dia tenso, ainda que com versos estranhos como “um céu vazio / quando a vida real acaba com a minha euforia / o caos das roupas dela / vai me amar quando eu morrer”. Barra quase sempre pesada.
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Crítica
Ouvimos: Walter Willy – “Cinturões de Van Halen”

RESENHA: Walter Willy lança Cinturões de Van Halen, disco experimental gravado em fita única, cheio de colagens, psicodelia lo-fi e loucuras que testam o ouvinte.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7,5
Gravadora: Chupa Manga Records
Lançamento: 5 de dezembro de 2025
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Figurinha bem misteriosa do rock nacional experimental, Walter Willy é a faceta mais louca do músico Luiz Bruno – gaúcho que passou onze anos vivendo em Londres e recentemente lançou o ao vivo Lule e As Crianças Adultas ao vivo no Espaço (resenhamos aqui). Louco, aliás, é pouco: Cinturões de Van Halen, o 11º disco do projeto Walter Willy, foi gravado num Tascam de 4 canais – só que a fita master foi uma só e as canções foram gravadas repetidamente uma em cima da outra.
O lado mais “normal” do disco, que surge em músicas como Vizinhos xarope, tem lados distintos: algumas dessas faixas lembram o rock dos anos 1960 (Who e Kinks em especial) ou uma espécie de synthpop podre. Tem até versões em português de The gnome (Pink Floyd) e Be my head (Flaming Lips). Só que Cinturões de Van Halen é um disco mais pródigo ainda em manipulações de tapes, colagens sonoras, sons tirados de telejornais e gravações casuais, num resultado que depende mais da coragem do/da ouvinte do que qualquer outra coisa, em faixas como O melhor banho do Brasil, VHF, Jean Michael Basquiat, Conta paga e bla bla bla, Jogo duro não é pelada como se pensa e outras loucuras.
Mais: Eu sei que tá difícil pra todo mundo começa com fitas rodadas ao contrário e parece uma música infantil com rotação acelerada. Psicodelia das ruas tem gravações de jornalísticos populares, beat eletrônico e clima “sombrio” de brincadeira. O jovem místico é zoeira folk psicodélica – lembrando que “o jovem místico / quer abundância”. Vai encarar?
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