Crítica
Ouvimos: Unknown Mortal Orchestra, “IC-02 Bogotá”

O IC do título do novo lançamento da Unknown Mortal Orchestra significa “improvisação / colaboração”. IC-02 Bogotá é o segundo volume de uma série de álbuns que a banda começou a lançar em 2018 (o primeiro era IC-02 Hanoi), sendo que cada álbum foi gravado na cidade que dá nome ao disco. E a última loucura de Ruban Nielson, criador do grupo, é fazer música improvisada, que só os/as fãs de música bem estranha vão gostar.
Não basta curtir bandas como Kraftwerk, Gong e Neu para gostar de IC-02 Bogotá – é preciso estar preparado para uma sonoridade que ora remete a jazz sintetizado, ora remete a Mort Garson, compositor que gravou discos como o sintetizado Plantasia – um disco “para as plantas ouvirem”, lançado em 1976, e que já foi assunto neste site.
IC-02 Bogotá tem 4 faixas chamadas Earth (do 1 ao 4), uma Heaven 7 e Underworld 1, 4 e 6. Earth 1, de 11 minutos, tem batidinha de samba, flauta, piano lembrando Herbie Hancock e Azymuth – e o resultado parece uma trilha de telejornal antigo. As outras incluem climas do pop oitentista, jazz-samba de bolso e boogie-de-videogame, com vocoder e synths antigo.
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Em todo o disco, parece que a programação de bateria foi feita num antigo teclado Casio – e na Heaven 7, uma espécie de samba celestial, essa impressão fica bem mais forte. A percussiva Underworld 1 parece um samba de gringo, só que distorcido e ruido. A quase vinheta Underworld 4 é mais dançante e levada no piano Rhodes, e chega a lembrar de leve o tema do filme Condor, feito por Dave Grusin – só que depois de marinar no LSD. Encerrando, a sombria Underworld 6, de 14 minutos, tem percussão intermitente, batida uptempo, samples de berimbau, e qualidade sonora de documentário brasileiro antigo.
E basicamente, IC-02 Bogotá documenta algo bem louco e criativo que rola pela mente de Ruban Nielson, um sujeito que muitas vezes, soa como uma versão moderninha de Brad Miller – criador da variadíssima Mystic Moods Orchestra, um grupo dos anos 1960/1970 que gravava discos bem específicos e era maluco por unir easy listening, gravações de campo e esquisitices.
Nota: 8,5
Gravadora: Jagjaguwar
Lançamento: 28 de março de 2025
Crítica
Ouvimos: Cuir – “Monoface”

RESENHA: Banda de synth-punk francesa, o Cuir volta com o curto álbum Monoface e, entre teclados e climas ágeis, aponta para bandas como Angelic Upstarts e até o lado punk do Anthrax.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 19 de junho de 2026
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O Cuir é um curioso projeto musical francês, feito por um cara chamado Doug Zilla, veterano do hardcore local – e que para sua banda nova, adotou uma espécie de balaclava rosa. O som é synthpunk, quase tão distorcido quanto sintetizado, com letras no estilo que-se-foda. Monoface é um álbum com, digamos, jeito de EP – mais ou menos como o da banda punk brasileira Basttardz, também assunto nosso hoje.
O nome “monoface” é justamente porque todo o repertório, que dura 15 minutos, cabe em apenas um lado de disco. Já o som do novo disco, mesmo com os teclados, aproxima-se às vezes da mescla de metal e hardcore, com Majeur em l’aair, na abertura, lembrando Anti-social, o hit da banda francesa de hard rock Trust que o Anthrax imortalizou. E faixas como Derniète minute e Road trip lembram bandas como Angelic Upstarts, enquanto Rock’n roll, interim, chômage cai dentro do hardcore-synth. Aliás, dá pra perceber uma conexão forte com a oi! music no som deles, embora Doug não concorde com o rótulo.
Os synths surgem como uma curtição a mais, em meio ao peso punk do grupo – que ganha ar de Stranglers + Rancid em Blastover e Brûler les barrières, e dá uma lembrada em Billy Idol em Spleen. Como vocalista, Doug é quase um rapper cantando punk, com vocais quase sempre brigões e falados. Resta saber se vinil e K7 (o disco sai nos dois formatos) de Monoface vão ter música só no lado A. Ou no B.
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Crítica
Ouvimos: Basttardz – “Tramas & traumas”

RESENHA: Banda maranhense Basttardz une peso, introspecção, punk, funk e até piseiro nas curtíssimas faixas do curto álbum Tramas & traumas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Brisa Rec
Lançamento: 13 de julho de 2026
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Seguindo a onda do álbum pequeno, Tramas & traumas, terceiro disco da banda maranhense Basttardz, é curtinho (oito faixas, 15 minutos) e foca no punk e no hardcore com misturas inusitadas e letras introspectivas. O som une hardcore e estilos como funk e rap (na faixa-título e em favelas), parte para o reggae punk em O inconsciente coletivo e insere até algo de piseiro, forró e reggamuffin em músicas como Vitrine e Do culto ao lucro.
O som do grupo é pensado como um mergulho, tanto no som quanto no universo deles – que inclui temas como influencers que surgem do nada, violência, exclusão, drogas de 2026 (na ótima letra de Tarja preta, que fala de aditivos usados para trabalhar, produzir, estudar, dormir e se deixar manipular) e memórias amargas que ganham espaço como traumas, anos depois. Tem inovação no som e um clima herdado da vulnerabilidade do emo Midwest, embora na prática o Basttardz faça uma música com bem mais foco em peso e beats.
- Ouvimos: Arlomine – Francis Frankenstein
Nas letras de Tramas & traumas, o grupo também une depressão e falta de grana. O desespero diante do capitalismo dá o tom de músicas como Desconstrução, que, inspirada em Construção, de Chico Buarque, encerra o disco olhando para quem já está quase desistindo de tudo.
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Crítica
Ouvimos: Francis Of Delirium – “Run, run pure beauty”

RESENHA: Entre shoegaze, dream pop e soft rock, Francis Of Delirium cria um álbum de melodias etéreas, ruído elegante e atmosfera cinematográfica.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Dalliance Recordings
Lançamento: 29 de maio de 2026
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Jana Bahrich, musicista radicada em Luxemburgo, responde pelo codinome Francis Of Delirium – que basicamente significa sonho, construções melódicas baseadas no mesmo delírio que surge no nome do projeto. Run, run pure beauty, o segundo álbum, tem elementos associáveis ao que normalmente é chamado de “shoegaze” e “dream pop” – no caso desse último, ele serve como um bom rótulo, por causa dos vocais mágicos e do clima quase voador das melodias.
Aliens, a música de abertura, tem o mesmo clima geralmente associável ao shoegaze, com guitarras em nuvem – mas Jana tem o cuidado de associar a seu som um mistério musical dado pelo uso de instrumentos de orquestra, que dá a algumas faixas um ar análogo ao de Ocean rain, o sombrio disco de 1984 do Echo and The Bunnymen.
- Ouvimos: Divers – Odd dog in the capital
O disco prossegue na beleza de Out tonight e da faixa-título – esta, com cordas em vibe meio beatle, lembrando as espirais de I am the walrus. Mas a partir daí surgem lados diferentes do Francis, que investe em aclimatações soft rock, em faixas como Higher, Little black dress e Sucker punch. Tudo combinado com a disposição para o barulho, já que Open up your mouth to love, por exemplo, une tranquilidade sonora, dada pelos violões, a um clima shoegaze leve.
Por causa disso tudo aí, tem momentos em que o som do Francis chega a lembrar uma versão mais indie dos Cranberries – ou o Mazzy Star com ambições mais épicas. Essa impressão dá bastante as caras em Requiem for a dying day. Em outras occsiões, o lado pós-punk do projeto dá uma escalada, como no baixo-à-frente e no clima meio Eurythmics de Damned, ou no noise-pop anos 1990 de It’s a beautiful life. No geral, um som muito bem concebido e montado.
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