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Crítica

Ouvimos: The Cramps – “Gravest gravy”

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Capa do disco Gravest Gravy, dos Cramps

RESENHA: Gravest gravy reúne gravações dos Cramps anteriores ao debut, produzidas por Alex Chilton, em uma mistura visceral de rockabilly, garage rock, terror e caos que antecipou o punk.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Vengeance Records
Lançamento: 21 de agosto de 2026

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Você é fã de rock e ignora os Cramps? Pois pode ir entregando de volta sua carteirinha de roqueiro: o grupo liderado pelo casal Lux Interior e Poison Ivy, os dois sempre cercados por uma pequena trupe de doidos nas formações da banda, não apenas fazia rock como personificava o estilo – e dizendo isso, não estamos caindo numa daquelas caricaturas de excessos, drogas, tietes, camarins cheios e comitivas de pintar o caneco.

Pra começar, poucos anos antes do punk existir, Poison e Lux já estavam muito além dele, fazendo um som que misturava estética de filmes de terror, filmes B, ficção científica, loucura na sua forma mais pura (enfim, o comportamento de gente considerada inapta para a sociedade e institucionalizada), rock dos anos 1950 e garage rock. As gravações de Gravest gravy (sobre as quais já falamos no Pop Fantasma) são um desenvolvimento dessa onda: o grupo ainda nem tinha nenhum disco gravado, e estava embarcando em sua primeira aventura de estúdio.

O conteúdo de Gravest gravy é o dessas sessões, e poderia ter gerado o primeiro disco da banda, o que não rolou – só em 1980 sairia o debute Songs the lord taught us. Quem cuidou das gravações de Gravest foi ninguém menos que Alex Chilton, o ex-Big Star, que estava entrando em uma nova fase de sua carreira, morando em Nova York, e acabou vendo um show dos Cramps no CBGBs. Alex ficou tão enamorado do som deles que descolou horas gratuitas no estúdio da Ardent, ex-gravadora do Big Star, e convenceu a banda a se mandar para Memphis para gravar.

O material que hoje compõe Gravest gravy é, talvez, louco demais para fãs conservadores de rock – e quem sabe, “clássico” demais para a iconoclastia punk dos anos 1970, embora o tempo coloque tudo em seus lugares. Poison e Lux, acompanhados do guitarrista Bryan Gregory e do baterista Nick Knox, fazem um som visceral, que ressoa nas pernas, como no festejo rocker de TV set, Weekend on Mars, Can’t find my mind, The natives are restless e covers bem sacados como o de Problem child (música do dono da gravadora Sun Records, Sam Phillips, imortalizada por Roy Orbison).

Como vocalista, Lux era um revivalista podre, nada a ver com o revivalismo super-bacana que se fazia nos anos 1970 (e que unia Bruce Springsteen, The Cars, Elvis Costello e outros). Sua voz lembrava um Elvis Presley amalucado, e tinha mais a ver com as síncopes e os soluços do rockstar maldito Gene Vincent. Poison Ivy, no baixo, deixava às vezes apenas uma sombra do instrumento, dando espaço para Bryan tocar riffs que lembravam canções clássicas como Be-bop a lula (de Gene) e Stupid cupid (o hit de Connie Francis).

Em vários momentos, você começa a achar que está ouvindo Nik Fiend (do Alien Sex Fiend) liderando uma banda de rockabilly podre. Em outros momentos, tem a certeza de que alguém andou enlouquecendo além da conta. Rocket in my pocket, clássico escrito por Jimmy Lloyd em 1958, encerra com um pobre diabo assustado com a performance de Lux (pelo barulho, o vocalista parece ter chutado algo para longe, talvez literalmente um balde), e que tenta interromper a sessão. É posto para fora pelo vocalista aos berros (“ninguém interrompe a porra de uma gravação dos Cramps na porra do estúdio!”).

Vale citar que muita coisa do disco (que, só pra lembrar, é o primeiro lançamento de uma produtora criada por Henry Rollins e Ian MacKaye, do Fugazi, e que irá remexer o baú dos Cramps) não é inédita. Faixas e mais faixas de Gravest gravy saíram em compilações e em singles – e por bem pouco esse material não foi lançado nos anos 1980. Demorou, mas o conjunto todo ganhou sua melhor forma.

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Crítica

Ouvimos: Sleep – “Hempispheres”

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Resenha: Sleep - "Hempispheres"

RESENHA: Sem Matt Pike, o Sleep retorna com Hempispheres, mas o novo disco de stoner e doom psicodélico aposta em riffs e atmosferas que soam mais repetitivos do que hipnóticos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 6
Gravadora: Third Man Records
Lançamento: 3 de setembro de 2026

Enquanto o cofundador do Sleep, Matt Pike, leva adiante o High On Fire – com direito a um show agendado no Brasil – a banda veterana de stoner + doom, conhecida pelo disco clássico Dopesmoker, continua sem ele, numa nova formação em que resta apenas o baixista e vocalista Al Cisneros como membro original. O novo guitarrista do Sleep é Bubba Dupree, do Void. Na bateria, está o eternamente ocupadíssimo Dale Crover, que toca também no Melvins e no Redd Kross. E foi essa turma que entrou em estúdio para gravar um inesperado novo disco do Sleep, Hempispheres.

Um novo disco de uma banda tão sui generis (tudo neles gira em torno de fumar maconha o dia inteiro, usando apetrechos que vão desde maricas comuns até cálices de coco, e fazer músicas sobre isso) envolve muita coisa: as agendas dos músicos, a disposição para permanecer à cata de aventuras esquisitas, a vontade de permanecer fazendo cagada de maneira profissional.

O lance é que Hempispheres é “profissional” demais para os estranhos padrões de uma banda que já quis abrir seu contrato com uma grande gravadora lançando um disco com uma só faixa, de mais de uma hora (Dopesmoker, engavetado pela London em 1995, e só lançado com o “corte definitivo” em 2022). Os discos anteriores do Sleep eram bons porque eram repetitivos – aquela bem vinda repetição “chapada”. Hempispheres parece repetitivo por falta de ideias melhores para riffs, solos e ambiências sonoras.

O material de Hempispheres soa mais como uma sobra de discos anteriores ou uma mixtape – até mesmo na decolagem stoner + doom de Have spacesuit will travel e no clima indiano de The morrisist, faixas que tinham tudo para serem bem legais. Se você já atravessou os 60 minutos de Dopesmoker feliz da vida, vai estranhar sentir tédio nos dez minutos de Arrival of the industry ships e vai estranhar mais ainda achar que Whole wheat mountain / Well baked parece demais com uma sobra do Kyuss.

No geral, é como se o metal moroso, psicodélico e sabatthiano do Sleep já estivesse acostumado a uma fórmula – que inclui trocadilhos com o nome de Tony Iommi nas letras, além de uma referência cara de pau ao Hemispheres, disco de 1978 do Rush, no título. Quem nem sequer esperava um disco novo do Sleep vai ter que esperar mais um pouco.

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Crítica

Ouvimos: Big Marias – “Hungry heart” (EP)

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Resenha: Big Marias – “Hungry heart” (EP)

RESENHA: Big Marias, trio de Palmas (TO), lança Hungry heart, EP que cruza punk, stoner, grunge e doom, entre ecos de Nirvana, Babes In Toyland, Hole e Black Sabbath, em canções viscerais e sombrias.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Wheels of Confusion Records / Rocklab
Lançamento: 28 de agosto de 2026

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O EP novo dessa banda de Palmas (TO) é quase uma sessão de bruxaria rocker, influenciada por punk, stoner, grunge, e por vivências viscerais e sangrentas. Em Hungry heart, Sam Cayres (guitarra e voz), Didia Cayres (bateria) e Felipe Supernaut (baixo), os três do Big Marias, soam como o encontro entre Kyuss e Babes In Toyland na faixa-título, impõem clima cantarolável à moda de Hole e Ramones a Nasty, capricham no peso depressivo em Deep trip e Gone… E quase sempre soam como uma banda que ouviu atentamente a estreia do Nirvana, Bleach (1989), mas juntou tudo com vibes que fazem lembrar bandas como Sisters Of Mercy e até Black Sabbath.

Hungry heart adere ao punk quase puro, mas com uma gama de lembranças que vai de Black Sabbath a Rita Lee, em Mistakes can bleed, canção com título em inglês, e boa parte da letra em português. E ganha ares metálicos e arrastados na última faixa, Ti – que adapta uma ideia da era do CD e encerra com uma coda, trazendo a mesma música em versão de voz e piano, após alguns segundos de silêncio. Bonito e pesado.

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Ouvimos: Sundayclub – “Sundayclub”

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Resenha: Sundayclub - "Sundayclub"

RESENHA: O duo canadense Sundayclub estreia com um disco de shoegaze etéreo, cruzando guitarras distorcidas, new wave e emo para transformar saudade, paixão e frustração em “alegria triste”.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Paper Bag Records
Lançamento: 10 de julho de 2026

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Vindos de Winnipeg, Courtney Carmichael e Nikki St. Pierre (os dois do Sundayclub) têm uma curiosa origem em estilos bem diferentes do shoegaze que marca seu álbum epônimo de estreia). O duo começou quando Courtney e sua irmã queriam produzir uma demo para enviar ao festival folk de sua cidade, e acabaram esbarrando com Nikki, que erã fã de metal, punk e indie rock. Courtney, aliás, chegou a tocar polca (!) numa banda liderada por seu tio – sua família é da Ucrânia e ela tocava violino e violão no grupo.

Sundayclub, o disco, não reflete essas experiências anteriores: o som é distorcido, meio eletrônico (a curta Tune in, na abertura, une guitarras a um beat intermitente e quase industrial) e etéreo, com vocais quase sempre overdubbados. Blue wave, uma canção de saudade e de “alegria triste”, tem uma onda quase new wave na composição – pode ser basicamente o hit “de arena” do grupo. A dedilhada Sad summer tem uma energia de férias frustradas, em que tudo poderia ter dado certo, mas não foi bem o que rolou (“eu queria me divertir / curtir o sol / mas não consigo me arrastar da minha própria cama”).

Essa vibe de “por que estou tão triste quando deveria estar alegre”, juvenil até a medula, é a cara do Sundayclub, que põe nuances de paixão teenager-jovem na emo-gaze Camera shy e na bela e ruidosa Corydoon Ave (To meet you). O grupo igualmente invade áreas mais sonhadoras em faixas celestiais como Lombard e Turquiose, antes de falar de um casal meio explosivo na docinha-fake Sober (“essa festa é uma merda / e eu iria pra casa se pudesse / eu te daria 50 dólares / se você calasse a boca”).

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