Crítica
Ouvimos: Slowdive, “Everything is alive”

- Everything is alive é o quinto álbum da banda britânica Slowdive, Neil Halstead (voz, guitarra, teclados), Rachel Goswell (voz, guitarra, teclado), Nick Chaplin (baixo), Christian Savill (guitarra) e Simon Scott (bateria, guitarra, eletrônicos). É também o primeiro da banda desde 2017, quando lançaram o epônimo Slowdive.
- A banda toca no Primavera Sound São Paulo em dezembro. O evento leva a banda para fazer shows também em Buenos Aires, Assunção e Bogotá. Por fora do festival, a banda toca em Santiago.
- O Slowdive começou atividades em 1989, durou até 1995 (deixando três álbuns gravados) e retornou em 2014. Com a banda em hiato, surgiram grupos como Mojave 3, Black Hearted Brother e Monster Movie, além de projetos solo. Ao voltarem, anunciaram ensaio, mas ainda sem projetos de lançar músicas novas. “Estávamos surpreendentemente bem. Algumas canções voltaram rapidamente”, contou o o vocalista Neil Halstead na época ao The Quietus.
Dono de uma carreira musical que lembra mais um projeto paralelo do que uma banda de verdade, o Slowdive surge bem mais interessante nesse quinto disco, Everything is alive. O álbum está longe de ser um exercício ligado às formulas comuns do shoegaze (aviso: achamos realmente que os primeiros discos da banda são bem formulaicos) e vale dizer que, no século 21, a banda decidiu voltar bem mais consciente de sua missão de criar músicas que quase abraçam o ouvinte. Nesse ponto, dá pra traçar um paralelo com o Sigur Rós e sua disposição para quase criar trilhas sonoras para filmes que não existem.
Everything is alive é mais um disco de ambient music do que um álbum ligado ao lo-fi. Comparações foram tecidas por veículos estrangeiros com New Order antigo (tem bem pouco a ver, talvez só na hora das dançantes e sorumbáticas Kisses e Alfie) e The Cure da fase Faith (sim, ecos de músicas como The funeral party e The drowning man, do Cure, surgem aqui, mas sem a mesma vocação pop de Robert Smith & cia). Para ficar claro que a ideia é criar uma música que ressoe como a chegada num ambiente, teclados e batidas dançantes surgem unidos a células sonoras ruidosas na bela Shanty, que abre o álbum.
Na sequência, uma bela imagem sonora vai se formando na frente do ouvinte em Prayer remembered, marcada pela fórmula (certeira) de tema que vai crescendo aos poucos. Andalucia plays, com célula rítmica dada por violões e guitarras, dependendo de para onde você olha, pode soar quase como uma tentativa de música hispânica lenta. Já as três últimas, Skin in the game, Chained to a cloud e The slab, têm uma “coisa” pós-punk que soa associada a The Cure e ao lado mais meditativo dos Smashing Pumpkins – destaque no disco para o baixo de Nick Chaplin, por sinal.
Gravadora: Dead Oceans
Nota: 8
Foto: Reprodução da capa do álbum
Crítica
Ouvimos: Automatic – “Is it now?”

RESENHA: Automatic mistura synthpop gelado e pós-punk dançante em Is it now?: muitas referências, mas identidade própria e letras de recusa ao padrão.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Stones Throw Records
Lançamento: 26 de setembro de 2025
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Formado pelo trio Izzy Glaudini, Halle Saxon e Lola Dompé, o Automatic faz música como se criasse seu próprio som – ou como se usasse referências apenas na base do “eu achei legal, mas mudaria tudo”. Ouvindo Is it now?, é meio claro que bandas como Slits, Japan e Suicide foram ouvidas pelas três em algum momento (nesse papo na comunidade do reddit Indie Heads, Gary Numan foi igualmente citado), mas a colagem foi realizada de um jeito tão particular que dá para imaginar que se usassem IA, iam enlouquecer o sistema.
Vai daí que o synthpop estilingado e pontiagudo delas envolve pós-punk dançante e sustentado pelo baixo (Black box, Lazy, o beat eletrônico rudimental de Don’t wanna dance, o voo controlado de The prize), sons que lembram Ultravox, Talking Heads e o começo sombrio do Human League (PlayBoi, Smog summer, o eletropop alemão de Country song), coisas entre o pós-punk e a psicodelia (a flautinha de mq9, a vibe quase dub de Mercury). O teclado entra para dar uma onda “gelada” em meio ao clima bem pé-no-chão do baixo e da bateria, como se cumprisse a cota de climas mais viajantes no som. De bandas mais novas, dá para perceber algo linkado a Bravery e Arctic Monkeys na faixa-título, marcada também por vocais maquinados e onda meio krautrock.
Na letra de Is it now?, a faixa-título, dá para sentir que o Automatic propõe antes de tudo um manifesto estético – da mesma forma que Re-make / Re-model, do Roxy Music, propunha mudar tudo e enxergar beleza onde o movimento hippie poderia ver caretice ou sujeira. “Corte o cabelo com tesoura de cozinha / novo visual, uma imagem diferente / de segunda mão, não de televisão / shoppings, eles te tornam cruel”, avisam elas. Don’t wanna dance mostra que elas, de fato, não querem se parecer com todo mundo: “as luzes estão me cegando / eu não quero dançar, estou me escondendo / cada momento aqui me lembra que / eu não quero dançar”. Um “não é não” musical, de fino trato e em alto volume.
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Crítica
Ouvimos: Carlos Dafé, Adrian Younge – “Carlos Dafé JID025”

RESENHA: Carlos Dafé e Adrian Younge unem soul e samba em JID025, disco setentista, orquestral e psicodélico que reencontra passado e presente.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Jazz Is Dead
Lançamento: 17 de outubro de 2025
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Enxergando o soul e o balanço brasileiros como um precioso álbum de figurinhas, o norte-americano Adrian Younge vem fazendo uma série de lances especiais: vem por aí um álbum gravado ao lado de Antonio Carlos & Jocafi, e já saíram discos feitos com Hyldon e Dom Salvador, além de um solo cheio de convidados. E tem também JID025, gravado ao lado de Carlos Dafé, uma das melhores vozes da história da MPB, e um dos compositores mais hábeis no oscilar entre soul e samba.
JID025 parece um disco que Dafé adoraria ter lançado nos anos 1970: Amor enfeitiçado, logo na abertura, tem psicodelia nos acordes de guitarra, mudanças de tom e clima de abertura antiga de novela. E um pouco de paz, com recordações do som de Cassiano, lembra tema de filme policial. Bloco da harmonia tem metais e cordas vibrando junto com a percussão, além de lembranças do lado sambista de Dafé, compositor já gravado por Alcione e Nana Caymmi – embora a canção ganhe clima sombrio no fim. Jazz está morto une jazz, soul e grandiloquência herdada de Isaac Hayes e do Marvin Gave do disco What’s going on (1971). Cítara e harpa marcam o início de Verdadeiro sentimento, balada como as dos discos setentistas de Dafé.
Do começo ao fim, JID025 soa como um flashback turbinado e ácido, que também aponta para o Funkadelic em O baile funk vai rolar, e ganha ar voador em É real… é verdade, no samba orquestral Esse som é verdadeiro e na declamada Como entender o amor. Um reencontro entre passado e presente.
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Crítica
Ouvimos: Period Bomb – “Cuntageous”

RESENHA: Period Bomb, de Camila Alvarez, retoma o riot grrrl com inclusão e barulho experimental. O EP Cuntageous mistura egg punk e críticas diretas ao machismo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Crass Lips Records
Lançamento: 2 de dezembro de 2025
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No Brasil ainda não tem muita gente comentando a respeito do Period Bomb – uma pena. Esse projeto estadunidense criado pela musicista Camila Alvarez reavivou o cenário riot grrrl em Los Angeles nos últimos 15 anos, e já lançou discos como Permanently wet (2020) e o EP 24-carat clit (literalmente, “clitóris de 24 quilates”, que saiu em janeiro do ano passado). Um dos trabalhos dela foi ajudar a incluir mulheres trans e mulheres negras que se sentiram excluídas das ondas riot grrl anteriores – como a própria Camila conta nessa entrevista.
- Ouvimos: Ratboys – Singin’ to an empty chair
Cuntageous, o EP mais recente do Period Bomb, não economiza em duas coisas: sons experimentais e dedo na cara de homens babacas. Em alguns momentos lembra Yoko Ono, em outros parece um som ligado também à onda egg punk, de teclados distorcidos e sujos. Cunty boy (“garoto cuzão”) tem vocais afinados, mas prontos para zoar e meter o malho – lado a lado com programação eletrônica e teclados. Parking ticket junta teclados maníacos e voz com vibe fantasmagórica de brincadeira. Birth of labubu zoa uma das manias de 2025 em clima sonoro que mistura Devo, Yoko Ono e Young Marble Giants.
O Period Bomb faz também samba latino experimental em espanhol, Porriquitico, lembrando Mutantes – e lembrando também o quanto o “não é não” é difícil no dia a dia. No final, os 40 segundos da vinheta-título, fazendo questão de explicar que a babaquice masculina é bastante contagiosa. E é.
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