Crítica
Ouvimos: Ryan Adams, “Another wednesday”

Wednesdays, disco de 2020 de Ryan Adams, foi um lançamento problemático – aliás um lançamento problemático de um cantor (bastante) problemático, para não dizer outra coisa. Foi anunciado em 2019 e adiado assim que surgiu um vendaval de acusações de abuso e má-conduta sexual em cima de Adams. O álbum saiu finalmente no ano da pandemia, com as edições físicas chegando as lojas apenas em 2021.
Como resultado, muita gente ignorou o disco. Já as poucas resenhas publicadas não separaram a conduta de Adams do material de Wednesdays, descrito por muita gente como um lançamento repleto de autopiedade, pés na bunda e toxicidades mil. Adams sempre demonstrou todos esses sentimentos bisonhos ao compor, e a própria seleção de canções de Blackhole – disco “perdido” dele, lançado oficialmente há poucos meses, com várias faixas feitas entre 2003 e 2006 – tem muito desse clima aí.
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Especificamente no caso de Wednesday, Adams parecia antever que o karma iria pegá-lo na esquina: as letras relembram paixões não-correspondidas, amores que se foram, épocas em que o mundo parecia mais risonho e, mesmo que tudo seja bem bonito, quem não gosta de chororô deve passar longe desse disco. Another wednesday por sua vez, é uma maneira de fazer os fãs redescobrirem o álbum. O cantor mudou a ordem das faixas, gravou tudo ao vivo com um público animado e deu uma baixada de bola até em Dreaming you backwards e I’m sorry and I love you, as músicas “com bateria” do álbum original.
Quem ama Ryan Adams já deve ter até uma cópia física de Another wednesday em casa, daí o papo é com quem tem 300 discos na fila das plataformas. E lá vai: mesmo tendo canções legais, Wednesdays já podia ser visto como uma emulação meio piorada de artistas como John Denver, Jim Croce, James Taylor e outros – portanto não era um disco que apresentava nada de novo. Another wednesdays vai na mesma onda, só que na frente de um público, com Adams exorcizando histórias de amor e desamor que foram originalmente lançadas em má hora.
No disco, Ryan insere terror, tristeza e morte em Mamma, descreve um amor que evanesce em Wednesdays, lembra dias mais venturosos em Birmingham e emula Elton John e Supertramp em I’m sorry and I love you, além de incluir covers de músicas como Moon river (sucesso de Frank Sinatra) na lista. O resultado tem beleza, mas ao mesmo tempo tem muita egolatria, e muitas lágrimas de crocodilo, que saem bem na frente – e dão uma estragada na audição.
Nota: 6
Gravadora: Pax AM
Lançamento: 14 de fevereiro de 2025
Crítica
Ouvimos: Ladytron – “Paradises”

RESENHA: Do cais de Liverpool ao electroclash, o Ladytron mistura hedonismo e reflexão em Paradises, disco longo, hipnótico e fiel à sua identidade.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Nettwerk Music Group
Lançamento: 20 de março de 2026
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Com uma vida que gira em torno do cais do porto, Liverpool é um dos lugares mais “e aí, cara, qual é a parada?” da Inglaterra. Se Londres era o ponto cool da Inglaterra, era nas cidades próximas do Rio Mersey que as coisas aconteciam, que problemas eram resolvidos na base da prática e que tudo era guiado pelo interesse em saber que oportunidades e aventuras haviam lá do outro lado do rio. O próprio documentário Paul McCartney: Homem em fuga (já viu?) fala disso.
E por acaso, foi de lá que veio o Ladytron, uma das maiores forças recentes da música eletrônica, e uma banda interessadíssima na cena de dance music não apenas como “música para dançar”, mas como afirmação pessoal. Quem leu a entrevista que o grupo deu recentemente ao periódico britânico The Guardian pegou um pouco dessa história: a cena electroclash – um combinado de estilos que gira em torno da união de dance music, new wave e punk – se desenvolveu não apenas com o surgimento de nomes como Miss Kittin e Peaches, mas com a descoberta, por parte do Ladytron, de que havia todo um cenário dançante, “hedonista, extravagante e não-binário” (nas palavras da cantora e musicista Mira Aroyo, fundadora do grupo) lá em Nova York, bem distante da terra natal da banda.
Foi desse misto de consciência, descoberta e diversão que surgiu o primeiro single de Daniel Hunt, Helen Marnie, Mira Aroyo e o ex-integrante Reuben Wu: o extremamente dançante Seventeen, que ao mesmo tempo falava sobre etarismo e abuso no mundo da música e da cultura. O Ladytron passou por fases mais explosivas e mais melancólicas ao longo dos anos, e hoje unem os diferentes lados em seu oitavo álbum, Paradises. Um disco cuja elaboração rendeu várias etapas e passou por vários lugares, de Liverpool a São Paulo – Hunt hoje mora em SP e até o clipe de Caught in the blink of an eye foi gravado na metrópole.
- Ouvimos: Say She She – Cut & rewind
Em tempo de álbuns curtos e concisos, o Ladytron volta falando sua própria linguagem. Paradises tem 16 faixas, 70 minutos de duração, e poderia até ter sido lançado em 1999, ano em que a banda começou. Não passaria despercebido e indicaria a chegada de um som dançante e distante, com vocais mágicos e clima psicodélico, meditativo. Uma vibe em que a repetição de trechos, de riffs e de climas é essencial para a fruição do som, em faixas venturosas como I believe in you, a kraftwerkiana In blood, a crescente I see red e o eletrorock Secret dreams of thieves. Ou o som retrô e quase psicodélico de Metaphysica.
Essa onda passa também pela sonhadora Sing – uma música cheia de “la la las”, em que a letra parece trazer lembranças da noite em que o Ladytron descobriu outras realidades em Nova York: “as noites eram longas / se transformaram em dias / um teste sem fim / um estado sem esperança (…) / cante, querida, cante / tudo está feito / deixe as fronteiras desaparecerem / eu sei, eu sei, você ficará bem”.
Passa também por outras músicas que apontam para a mudança sem margem de dúvidas, para a partida sem volta, como a mágica Free, free e o redemoinho de possibilidades de For a life in London, que lembra um Pet Shop Boys menos exuberante e mais chegado ao krautpop. Ou Ordinary love, uma viagem musical alegre e sofisticada em que, apesar de tudo, o futuro parece cantar com felicidade. E essa escolha pela felicidade apesar de tudo é a cara do Ladytron.
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Crítica
Ouvimos: Say She She – “Cut & rewind”

RESENHA: Trio vocal Say She She mistura soul, disco e pós-punk em Cut & rewind: som dançante, moderno e político, menos retrô e mais “discodélico”.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Drink Sum WTR
Lançamento: 3 de outubro de 2025
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O Say She She vem do Brooklyn, em Nova York, é formado por três cantoras de formação clássica (Piya Malik, Sabrina Cunningham e Nya Brown) e é costumeiramente descrito como um grupo vocal de soul + funk, só que com um coeficiente de maldade sonora a mais. Essa maldade sonora indica que, no terceiro disco, Cut & rewind, o som delas vem bem menos retrô. Ou vem retrô de outro jeito, mais próximo de um encontro entre pós-punk, disco, new wave e uma coisa que já andaram definido como “discodélico”, dançante, mas prestes a alçar voo.
Essa onda já toma conta do disco desde o comecinho. A faixa-título, que abre o álbum, tem teclados que lembram o Japan, cadência fazendo lembrar Talking Heads, baixo que parece sampleado de Get down, make love, hit do Queen, e vocais operísticos – além de um clima entre o pós-punk e o soft rock. Under the sun é soul luminoso com bateria abafada, vibe de Motown e ambiência derretida, quase palpável.
- Ouvimos: Stealing Sheep – GLO (Girl Life Online)
Faixas como Possibilities deixam entrever algo da visão art pop que David Bowie tinha de estilos como soul e disco, enquanto Take it all ataca na união de disco e afrobeat formal. A “discodelia” do álbum, por sua vez, fica cada vez mais forte em faixas como Chapters of love, ou na onda kraut disco de Shop boy, funk com vocais robóticos e teclados esparsos. E também no final, com a quebração rítmica e robótica de Make it known – canção que chega a soar meio sombria, até que o refrão explode.
Já Disco life responde pelo lado mais abertamente retrô de Cut & rewind: poderia até ser uma composição do Mister Sam ou do Carlos Imperial, com aquele mesmo clima cafajeste do encontro entre boogie e disco (ou da aurora da ítalo-disco). A letra fala do passado com um olhar de admiração: o verso “nunca tive uma vida disco”, repetido várias vezes, é a boa e velha “saudades do que não vivi”. Mas também soa como lembrança do próprio caráter comunitário da disco music, quando a pista de dança realmente parecia um momento de elevação espiritual – ainda que fosse ilusão passageira.
Não por acaso, Cut & rewind é também uma lembrança forte do caráter demolidor da disco – estilo musical que fazia a alegria de várias comunidades oprimidas ao redor do mundo (negros, latinos, mulheres, gays). A sacudida She who dares é um hino feminista. Under the sun fala sobre poderosos opressores. O gélido tema disco Bandit é dedo na cara: “Diga o que você quer dizer / tente me derrubar / ninguém vai se importar / quando você não estiver mais por perto” – cada um dos três primeiros versos cantado por uma delas, e o quarto verso explodindo no coral. Mobilização dançante, criativa e moderna.
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Crítica
Ouvimos: Paola Lappicy – “Coisas que eu quis te dizer antes de tudo acabar”

RESENHA: Paola Lappicy mistura MPB, eletrônico e samba em disco urbano sobre solidão, amores e caos interno, com referências diversas e clima contemplativo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 20 de março de 2026
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Paola Lappicy é uma cantora, compositora e pianista de Brasília. Mas tem muito da MPB paulistana (da mais vanguardista à mais pop) na música de seu segundo álbum solo, Coisas que eu quis te dizer antes de tudo acabar. As músicas falam de um dia a dia urbano, em que ao mesmo tempo que acontece um monte de coisas, várias pessoas estão perdidas em seus pensamentos, suas tristezas e infernos pessoais.
Não é por acaso que uma das melhores faixas do álbum se chama Choro no metrô – com letra falando sobre tristeza em estações de metrô e ônibus de SP (“quem já chorou no busão / às cinco da tarde ali pela Consolação”), e um clima sonoro que une samba, beat eletrônico, referência musical ao balanço de Madalena (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza) e Itamar Assumpção (citado na letra). E mais: tem algo tanto de Benito di Paula quanto de Cida Moreyra em faixas como o samba-maracatu Me leve pra outro lugar, e o tecno-samba Coração cheio, que abre com um riff de piano próximo da música clássica.
- Ouvimos: Anna Calvi – Is this all there is? (EP)
Coisas que eu quis te dizer antes de tudo acabar chega perto da estileira do Radiohead na quase-instrumental Prelúdio (cuja letra é o nome do disco repetido), ganha ares trip hop e quase psicodélicos em O céu vai desabar e Isso tem que melhorar. E também põe elementos nacionais no alt-pop, em músicas como Começo do infinito, o forró-reggae eletrônico A noite é linda como o céu da tua boca e nada menos que Espumas ao vento, composição original do pernambucano Acioly Neto. Aquela mesma música que já foi cantada por Fagner, Ney Matogrosso, Elza Soares, Alice Carvalho (a atriz fez seu registro para a trilha da série Cangaço novo), e que aqui ganha um ar de balada etérea, tocada no piano.
A onda variada de Coisas… dá espaço ainda para ainda A gente tentou, uma balada contemplativa, com ar de Jovem Guarda. A letra fecha o conceito do disco, falando do que sobrou de bom no fim de um relacionamento. Uma música que resume o clima do álbum, e da própria capa: tranquilidade sempre, mas com alguma coisa pegando fogo – por dentro e por fora.
(e no domingo, dia 29, Paola mostra o som de seus dois álbuns no Blue Note Rio).
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