Crítica
Ouvimos: Pete Townshend, “Live in Concert 1985-2001” (box set)

Pete Townshend decidiu facilitar as coisas para quem acompanhava uma espécie de lado B de sua carreira solo – os discos ao vivo, que ele lançava desde 1985, mas que lá por 2000/2001, quando ele passou a dedicar atenção especial a seu estúdio/gravadora Eel Pie, passaram a ser lançados quase um atrás do outro, sempre em tiragens limitadas e com vendas restritas à internet. A caixa Live in concert 1985-2001 só é complicada de se achar em formato físico, já que é um item caro. Mas vale a pena: vem com 14 CDs, extensa memorabília em um livro de 28 páginas (assinado por Richard Evans) e fotos raras. Para quem é muito fã de Pete fora de sua banda, o The Who, são 14 horas e 26 minutos de música. Mas tem que ser fã de verdade, ou metade da experiência desaparece.
Pra quem espera o efeito “uma noite com Pete Townshend” e nada mais que isso, valer ouvir na ordem e ir direto para os dois primeiros CDs da caixa, trazendo a clássica apresentação de Pete na Brixton Academy em novembro de 1985. Parte desse material já havia saído no LP Deep end!, de 1985, gravado por Pete com uma banda de curta duração – que incluía músicos como David Gilmour, do Pink Floyd, na guitarra. No disco, excelentes versões de músicas como Maryanne with the shaky hands, A little is enough, Behind blue eyes e até Save it for the later (releitura de uma música do English Beat, que chegou a tocar no rádio no Brasil). O mesmo efeito intimista surge nos dois CDs gravados ao vivo no Fillmore em 30 de abril de 1996, com um orgulhoso Pete de volta ao local em que o Who estreou nos Estados Unidos, revendo hits como Magic bus, Rough boys, Sheraton Gibson e vários outros.
Para desafiar futuros seguidores, Pete apresenta no CD 3 a gravação ao vivo de sua ópera rock solo Psychodelerict (1993), quase um álbum de spoken word, montado como uma novela de rádio que mistura elementos de Tommy e The wall, do Pink Floyd – um disco que, vale citar, ganha nariz torcido de vários fãs radicais. A gravação foi feita na Brooklyn Academy of Music, em 1993, e ainda ocupa mais um CD com hits, incluindo de Let my love open the door a Magic bus, passando por versões bacanas de dois hits da fase anos 1980 do Who, You better you bet e Eminence front.
De inusitado, tem os dois CDs gravados no The Empire, em Londres, em 9 de novembro de 1998, nos quais cabem desde Anyway, anyhow, anywhere com dez minutos de duração e solos de gaita e guitarra, e Substitute com voz e violão, além de Sensation, do Who, transformada em (She’s a) sensation, e participações de um rapper, Hame, improvisando em faixas como Magic bus. Já a insistência de Townshend em mostrar a ópera Lifehouse como ela realmente deveria ter sido lançada – antes de ser toda picotada para entrar no disco Who’s next (1971) e na estreia solo de Pete, Who came first, de 1972 – deu nos dois CDs gravados no teatro Saddler’s Wells, em Londres, em 25 e 26 de fevereiro de 2000, com participação da London Chamber Orchestra. Músicas como Baba O’Riley, Bargain e Love ain’t for keeping são recolocadas em seus lugares, com a entrada de canções como I don’t even know myself e Pure and easy no repertório.
No final da caixa, mais de quatro horas de música espalhada em 4 CDs gravados em duas datas de junho de 2001 no La Jolla Playhouse, teatro da Universidade da Califórnia. Duas noites em que Pete estava mais a fim de falar do que de cantar. Boa parte das músicas são tomadas por discursos de cinco, seis minutos (gravados em volume bem baixo, se vire pra entender) o que pode dar uma certa vontade pular as faixas. Quem ouvir tudo, vai ver Pete zoando colegas e falando sobre conflitos de geração – como a descoberta de que seu filho era fã do Blink-182.
Nota: 8
Gravadora: Universal.
Crítica
Ouvimos: The Chameleons – “Arctic moon”

RESENHA: The Chameleons voltam após 24 anos com Arctic moon, disco que expõe as raízes do britpop em sete faixas épicas e elegantes.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Metropolis Records
Lançamento: 12 de setembro de 2025
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The Chameleons surgiram em 1981 em Manchester e são o tipo da banda que influenciou todo mundo. Todo mundo mesmo – se você nunca ouviu, talvez se espante em perceber o quanto grupos como Oasis. House Of Love, Suede e Blur (dependendo da fase) devem a eles. Noel Gallagher já confessou isso algumas vezes, inclusive.
Já bandas como Arctic Monkeys igualmente parecem ter herdado deles a vontade de fazer um pós-punk “de luxo”, que une a espacialidade de Echo and The Bunnymen, os climas do Joy Division, a elegância do Roxy Music – além de algo que acaba vindo, nem que seja inconscientemente, de bandas como Beatles, Rolling Stones e The Who. Arctic moon, novo álbum do grupo – e o primeiro em 24 anos – é o tipo de disco que, mais do que mostrar o que originalmente era o britpop, parece mostrar do que o britpop é realmente feito.
A visão de “rock britânico” dos Chameleons é feita de romantismo, elegância, ironia e guitarradas entre The Who e o pós-punk, como na faixa de abertura, Where are you?. Mark “Vox” Burgess, vocalista e baixista, canta a busca de um amor idealizado – na real, um amor totalmente dependente (“preciso de alguém que entenda / as aflições que pesam sobre este homem / para abraçá-lo, pegar sua mão / e guiá-lo a uma terra sagrada”), mas cantando sob uma base foda de rock, total encontro entre anos 60, 80 e 90. Lady strange responde pelo lado maios beatle do álbum, com climas emanados da obra de George Harrison e misturados com Kinks.
Arctic moon é um disco especial, lembrando que mesmo os anos 1980 eram repletos de experimentalismos: são sete longas faixas, oscilando às vezes entre sons clássicos do rock e sons clássicos da música, como na valsa britpop de Feels like the end of the world, que lembra uma canção típica irlandesa e fala sobre a sensação de fim de mundo que vem com as guerras. Free me tem muito do glam rock e tem passagens sonoras que fazem lembrar All the young dudes (David Bowie + Mott The Hoople). A balada espacial Magnolia fala de amores que terminam e deixam vazios.
Tem mais: David Bowie takes my hand, som enigmático que lembra do Bowie de The man who sold the world (1971) e do de Low (1977), fala de uma vida em que amigos somem, a felicidade parece um sonho distante e o amor é estranho – mas o camaleão surge como o cara que salva vidas e aponta o melhor caminho. Um salvador bem diferente dos falsos profetas de Savior, tapa na cara de um certo presidente alaranjado, enxergado como um mafioso incendiário (“super Nero com seu sorriso ególatra”). Um pós-punk com guitarra dedilhada, bem bonito e ágil. Uma beleza espacial como todo o som de Arctic moon.
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Crítica
Ouvimos: Lucy Kruger and The Lost Boys – “Pale bloom”

RESENHA: Lucy Kruger and The Lost Boys criam suspense em Pale bloom: pós-punk sombrio, folk e tensão emocional em climas entre sonho e pesadelo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Unique Records
Lançamento: 13 de fevereiro de 2026
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A alemã Lucy Kruger e sua banda The Lost Boys fazem música para causar… Bom, não exatamente medo, mas uma sensação de perigo, de que algo pode acontecer a qualquer momento – tá mais pra um filme de suspense do que de terror. Fãs de PJ Harvey vão ficar felizes ouvindo os vocais dela e a instrumentação seca, introspectiva e direta de Pale bloom, sétimo disco do grupo.
É um álbum que parece dividido em duas partes: o começo traz um pós-punk elevando-se do folk, com músicas sombrias e letras alternando sonho e pesadelo, ou sonho e realidade. Bloom, a música de abertura, é a melhor representação desse “algo vai acontecer”: folk tristonho, algo feito para simbolizar a tristeza em voz e efeitos sonoros. Seguindo, Damp tem clima de súplica e entrega na letra, um pós-punk sombrio e minimalista que ganha ares de dub. Ambient heat une rock, blues e vibrações selvagens. Nectarine une pesadelos, assédio, e imagens de violência, automutilação e desesperança (“o que é a oração para uma garota sem deus / além de todo o medo que você engole com o seu nome em uma idade tão faminta? / o que é uma garota com a língua mordida?”).
- Ouvimos: Melting Palms – Head in the clouds (EP)
A segunda metade de Pale bloom é mais experimental ainda, circular, cheia de climas. Às vezes parece que as sombras da primeira parte do disco assustam menos, ou ganham alguma forma de controle – como nos efeitos sonoros de Animal / Symbol, que lembram Laurie Anderson, enquanto a letra faz lembrar alguns dos exercícios que eram propostos por Yoko Ono em poesias (“pegue uma estrela cadente e coloque-a no seu bolso nunca a deixe desaparecer”). Reaching é um blues indie que ganha chuva de ruídos, Woolf abre com violão, voz e sombra sonora, e ganha teclados que lembram Autobahn, do Kraftwerk.
Pale bloom chega ao fim como algo bastante próximo do terror vivido por uma criança em épocas de aprendizagem – na balada Ghosts, ou no dub Anchor, cuja letra cita Blue, disco de Joni Mitchell. A ansiedade de Fawning, que encerra o disco, junta medos ligados ao próprio ato de fazer música (“eu lasco as unhas da manhã / fecho as cortinas / hesitante / eu persigo o degelo / uma página gasta / uma frase emprestada / recordando que rimei e mal quis dizer”). Mas parece trazer um clima doce e meio infantil a um álbum cheio de vibes trevosas.
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Crítica
Ouvimos: Reverendo Frankenstein – “Renascido!” (EP)

RESENHA: Reverendo Frankenstein estreia nova formação em Renascido!: punk de terror com surf, Ramones e clima sombrio no Psycho Carnival.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Ohio Entertainment
Lançamento: 13 de fevereiro de 2026
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Lançado no Psycho Carnival, em Curitiba, Renascido! traz o primeiro registro com a formação atual da banda de psychobilly Reverendo Frankenstein (M. Krempel na voz, Alex From Hell na guitarra, Villa Von Zorch no baixo e Renan Pigmew na bateria). O som não é uma atualização do estilo, mas dá para dizer que basicamente o Reverendo volta fazendo punk de terror, com referências de pós-punk, Ramones e da fase solo de Joe Strummer.
O respiro, na abertura, traz um reforço de peso do rock paulista – a letra é assinada por Fábio Gasparini, vocalista da lendária banda Varsóvia – para ajudar a construir uma faixa que fala de sufocos e sombras pessoais. Deixa ela falar tem guitarras em clima de faroeste, vocais graves e uma parte “metal” no meio, com uma letra que fala de amor à música. O lado Ramones dá as caras com força em Tubarões e serpentes, com cara de anos 1950 e 1960, vibe de terror, e letra de protesto trabalhista (“mulheres e homens sem glória ou esperança / das 9 às 17, seis dias por semana / o seu suor derrubavam / a maioria nascia só pra morrer”).
Já Não me arrependo é surf punk com melodia sombria e bonita, herdado do repertório da banda santista The Bombers (a faixa vai está num tributo ao grupo, organizado pela Mutante Radio). E falando em surf punk, o disco ainda tem uma faixa chamada Surf punk, união de jazz, blues e hardcore, com trecho da letra de Caralho voador (do Faith No More) e uma participação especialísima, na guitarra jazzística, de ninguém menos que Robertinho de Recife – isolada depois na vinheta Jazz punk. Um renascimento e uma transição.
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