Crítica
Ouvimos: Miya Folick, “Erotica Veronica”

Com vocais análogos aos de Dolores O’Riordan (Cranberries) e Alanis Morrisette em vários momentos de seus dois primeiros álbuns, Miya Folick se destaca pela qualidade das composições e pela abordagem de uma angústia particular e existencial em suas letras. Erotica Veronica combina ansiedade, desejo queer, desejo cis e experiências do cotidiano, com uma sonoridade que transita entre o indie pop, o soft rock e guitarras que remetem aos anos 1990.
Erotica Veronica é o disco de Erotica, faixa com letra descrevendo uma azaração sáfica – e cujo clipe mostra uma terapia erótica bem peculiar, em que Miya engatinha, pega cruzes com a boca, come terra, lambuza-se com uma melancia e é torturada com um batedor de bolo (!). Nem a música nem o clipe são experiências sombrias ou perturbadoras. Também não são sensuais no mesmo sentido que Sex, o livro de Madonna repleto de fotos explícitas.
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O disco de Miya é sexy, direto e expansivo a seu modo. Como em La da da, brit pop leve, com explosão de guitarras no refrão, em que ela representa uma mulher casada com um homem, mas que deseja outras mulheres, e leva o desejo para a cama (“você gosta de ficar chapado à noite / eu gosto de dormir sonhando com fantasias sáficas, meu amor”). Ou na ressaca amorosa braba de Love wants me dead, um soft rock sombrio, que vai ganhando em peso e intensidade, e que basicamente é uma música para cantar gritando a plenos pulmões.
Sem falar no filme da intimidade passando na frente dos olhos em Alaska, com riff de sintetizador e batidas quase robóticas dando o tom do arranjo. E há também a batalha contra traumas pessoais em Hate me, um pós-punk intenso: “preciso de liberdade para sentir que tenho uma alma do caralho / levei tanto tempo para pedir o que preciso / porque estava com tanto medo de você me odiar”.
Musicalmente, Erotica Veronica acompanha o estilo moderno de Miya, refletido em seu visual atual: cabelos curtos, olhar contemplativo e uma expressão de rockstar introspectiva e angustiada. O álbum aposta em um R&B retrô, com riff de mellotron e solo de flauta em Felicity, na delicadeza melódica de This time around e em uma fusão de indie pop com influências de R.E.M. e The Smiths em Prism of light. Já Fist combina ruídos de guitarra, uma melodia boa que lembra o XTC e toxicidades amorosas na letra: “eu tenho preparado o jantar, esperando que você me perdoe / por não querer te engolir (…) / eu me dou um soco no rosto com meu próprio punho / então eu desabo em você”.
Erotica Veronica fuça também no pop oitentista – que surge nos timbres de várias faixas, e em especial, na mescla de Cindy Lauper e Fleetwood Mac de Hypergiant. E, depois de tantos traumas expiados, e confissões, encerra com uma nota de esperança em Light through the limen, soft rock quase meditativo, oferecendo uma visão mais esperançosa e sublime, depois de anos observando o mundo de dentro de uma caverna. Miya Folick entrega um álbum que equilibra intensidade emocional e diversidade sonora, explorando desejos, angústias e transformações com autenticidade e precisão.
Nota: 9
Gravadora: Stop Talking/Nettwerk Music Group
Lançamento: 28 de fevereiro de 2025.
Crítica
Ouvimos: Deadletter – “Existence is bliss”

RESENHAS: Em Existence is bliss, o Deadletter mistura pós-punk, stoner e jazz torto, entre peso, teatralidade e ecos de Brian Eno e Peter Hammill.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: So Recordings
Lançamento: 27 de fevereiro de 2026
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Vindo da Inglaterra, o Deadletter é uma banda de pós-punk. Só que no segundo disco, Existence is bliss, eles jogaram de vez o manual no lixo: o grupo do vocalista Zac Lawrence se tornou a mescla exata de pós-punk, stoner, jazz-rock malucão e alguns vapores do progressivo. Tanto que fãs de discos como Here come the warm jets (Brian Eno, 1974) e Nadir’s big chance (a virada pré-punk de Peter Hammill, vocalista da banda prog Van Der Graaf Generator, 1975) vão achar muita diversão por aqui.
Não é só isso: fãs de bandas como Suicide, Wire e Swans vão gostar bastante de Existence, ainda mais levando em conta que Zac, quase sempre, soa como um Ian Curtis (Joy Division) elegante, que teatraliza as músicas e canta as letras mais cruas como se fossem poemas enxertados nas músicas. Purity I abre exatamente nessa onda, dando espaço à estranha mescla de jazz espiritualista e pós-punk sofisticado, com sopros e violão, de To the brim. Os ruídos de guitarra de Songless bird parecem emular um animal, e são seguidos por uma condução casca-grossa de baixo e bateria.
- Ouvimos: Josh Freese – Just a minute vol. 2
Esse contraste entre climas etéreos e uma onda pós-punk (que faz lembrar bastante também bandas como o Talk Talk) dá uma boa cara própria para Existence is bliss, disco que une climas pesados, solos de saxofone e os vocais empostados de Zac. Músicas como It comes creeping e What the world missed têm fantasmagoria e peso, enquanto Among us, uma espécie de stoner elegante, chega a lembrar o glam rock em tons graves e distorcidos do Cake. Curiosamente, (Back to) the scene of the crime, com clima quase pré-punk e riff carne-de-pescoço na abertura, ganha um improvável clima romântico por causa dos metais.
As lembranças de Peter Hammill e Brian Eno ressurgem com intensidade no trio final de músicas: o stoner gelado e sofisticado de Frosted class, o pós-punk He, himself and him e as mumunhas quase progressivas, e sombrias, de Meanwhile in a paralell. Caso típico de disco novo feito de olho na história.
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Crítica
Ouvimos: Gary Wilson – “Come on, Mary”

RESENHA: Gary Wilson transforma esquisitice em arte: No álbum lo-fi Come on, Mary, mistura soul, psicodelia e yacht rock com memórias de tempos idos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7
Gravadora: Cleopatra Records
Lançamento: 13 de junho de 2025
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“Se você não aborrecer as pessoas, não estará fazendo seu trabalho direito”. O músico norte-americano Gary Wilson costuma contar que aos 14 anos, em 1969, foi parar na casa do compositor de vanguarda John Cage e este foi um dos valiosos conselhos que recebeu dele.
Por causa disso, Gary decidiu abandonar sua banda de rock e iniciou uma carreira solo em que, no palco, passava o tempo todo coberto com máscaras coladas com fita adesiva, fazendo muito barulho com seus teclados e manipulando substâncias como sangue falso e farinha (!).
Essa loucura total gerou seus dois primeiros discos, Another galaxy (1974) e o cultuado You think you really know me (1977) – este, uma folia soul-jazzístico-espacial com letras esquisitas e vocais bem esquisitos, como se Gary estivesse prestes a ter um surto.
Artistas como Beck e Earl Sweatshirt descobriram You think, fizeram samples e cataram referências dele, o que gerou curiosidade sobre o paradeiro de Gary, que estava sumido. Aliás, tão sumido que, no começo dos anos 2000, o selo Motel Records, pensando em reeditar You think, botou um detetive atrás dele. Gary, que não tinha nenhum telefone (nem celular nem fixo), foi achado, liberou a reedição para o selo e voltou a fazer shows, para a alegria de seus fãs.
Vai daí que de lá pra cá, Gary vem se animando a lançar discos novos, e a parada do momento é Come on, Mary, disco totalmente lo-fi e psicodélico feito em homenagem a uma paixão antiga (platônica?) dele, a tal da Mary. “Num lugar chamado espaço sideral. No verão, Mary pegava o ônibus e vinha me visitar. Eu ainda sonho com Mary”, diz ele.
O disco em homenagem a Mary tem city pop amedrontador (Lisa wants to talk to you), balada com cara de Barry White (é Feel the breeze – só que as cordas comuns aos hits de Barry são trocadas por teclados) e a maior especialidade de Gary, que é yacht rock estranho.
Esse clima rola em faixas como Come on Mary, As I walk the night, Run through the woods e I woke up into a thousand dreams, além das lembranças de Wings e Crowded House de Mary, won’t you dance for me. Memória, poesia e estranhice juntas.
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Crítica
Ouvimos: Madremonte – “Neurose” (EP)

RESENHA: No EP Neurose, a banda Madremonte faz punk garageiro cru, entre Ramones, Iggy e letras irônicas do cotidiano.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 6 de fevereiro de 2026
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O Madremonte vem de São José dos Campos (SP) e vai na contramão das ondas “emo caipira” e shoegaze dos dias de hoje: no EP Neurose, faz punk, pós-punk e até pré-punk, tudo filtrado pelo garage rock e por referências que lembram Ramones e Iggy Pop. Lembra até Kinks, como na zoeira Cancelaram o Carnaval, música cuja letra cita um hipotético momento em que William Bonner anunciou o cancelamento da festa no Jornal Nacional e, a partir daí, rolou de tudo – até queda na bolsa.
Todo dia a mesma coisa tem lembranças de Ramones e letra falando sobre um dia a dia em que você nem pode morrer em paz porque “vai trabalhar”. Prato principal lembra que num cardápio qualquer de restaurante, a morte está sendo servida, em meio a clima Stooges e vocais quase falados. Mais uma dose e Disfuncional (“outra vítima de um lar disfuncional / pressentindo o começo do final”) investem no grito e na inquietude vindos do punk. Já Toda forma de errar é o lado Red Hot Chili Peppers do grupo e do disco, com groove e clima de rock clássico.
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