Que disco mais estranho, Gary Wilson!

Se você precisava de um disco bem estranho para começar sua semana, tente esse: You think you really know me, lançado em 1977 por um músico novaiorquino chamado Gary Wilson, não fez sucesso algum quando saiu. No ano do levante punk e numa época em que a new wave ainda estava em seu embrião, o cara fazia um som que lembrava o que gente como Beck estaria fazendo muitos anos depois.

Não por acaso, Beck é fã de Gary, já o citou em entrevistas e falou seu nome em um de seus hits, Where it’s at.

Gary, vamos admitir, não é dos músicos mais desconhecidos do mundo. Primeiro porque muitos fãs de Beck realmente se recordam do nome dele. Segundo porque, no começo dos anos 2000, um selo chamado Motel Records encasquetou que iria relançar You think you really know me, depois de vários anos de indisponibilidade. A gravadora estava tão decidida que botou até um detetive particular atrás de Wilson, sem sucesso.

O selo conseguiu achá-lo após esbarrar com ex-membros da banda de Wilson, a The Blind Dates. Gary foi encontrado levando uma vida extremamente pacata: morava com a namorada, trabalhava num cinema de peep show e tocava numa banda de jazz. E não tinha nem telefone fixo nem celular, daí a dificuldade para ser encontrado. Gary autorizou o lançamento e ainda se ofereceu para fazer shows para divulgá-lo. Volta e meia Gary ainda faz shows com uma formação nova da The Blind Dates e o clima é essa balbúrdia que você vê aí no vídeo.

Sim, porque Wilson, quando começou carreira, resolveu procurar um de seus maiores ídolos, o músico experimental John Cage. Gary conta que aos 14 anos, em 1969, foi parar na casa de Cage e acabou ouvindo conselhos valiosos dele, na base do “se você não aborrecer as pessoas, não estará fazendo seu trabalho direito”.

Pouco antes disso, Wilson era integrante de grupos de lounge e de uma banda de rock, o Lord Fuzz, onde tocava órgão Farfisa. O papo com Cage mudou sua perspectiva de uma tal forma, que Wilson iniciou uma carreira solo em que, no palco, passava o tempo todo coberto com máscaras coladas com fita adesiva, fazendo muito barulho com seus teclados e manipulando substâncias como sangue falso e farinha (!).

Vale citar que You think não é o primeiro disco de Gary. Em 1974, acompanhado de mais dois músicos, Gary (então um moleque de 19 anos que acabara de sair da escola) mandou prensar sozinho o disco independente Another galaxy, de jazz psicodélico-maníaco. O repertório tinha músicas estranhas como a faixa-título e Hate and depression. Another galaxy foi reeditado em LP em 2016 por um selo chamado Feeding Tube.

You think you really know me foi gravado quando Gary já tinha um bom arsenal de teclados, além de outros instrumentos. Pouco antes de realmente gravar o disco, o músico conseguiu algumas horas de gravação no estúdio da gravadora Bearsville, que lançava artistas como Foghat e Todd Rundgren.

Gary passou algumas horas lá (e as horas lá eram bastante valiosas e caras) gravando canções como 6.4 = Make out, I want to lose control e Chromium bitch. Até decidir que queria gravar o álbum ele mesmo, tocando todos os instrumentos, produzindo, gravando e mixando, tudo no porão da casa dos seus pais. Prensou 300 cópias em 1977 e fez mais um relançamento com 300 cópias em 1979.

E não custa lembrar que, para um disco esquisito, You think you really know me foi mais relançado que os discos de Benito di Paula e Odair José: ganhou outra reedição em 1991, quando pouca gente lembrava de Wilson. Depois foi reposto algumas vezes em CD e LP, e está nas plataformas digitais. A edição atual traz uma capa “psicodélica” de araque, em tons dourados. A original era a mesma foto, em preto-e-branco.

Gary Wilson foi continuando sua carreira na base do devagar-e-sempre, lançando outros discos ocasionalmente e fazendo shows sempre que podia. Suas turnês eram prejudicadas pelo seu medo de viajar de avião. Tanto que sua primeira turnê fora dos EUA aconteceu só em 2013, quando passou por Alemanha, Espanha, Holanda, Inglaterra e até por um festival em Paris. Em 2002, que foi realmente o ano do, er, retorno de Gary, já havia saído um documentário sobre ele, You think you really know me: The Gary Wilson story. Até bem pouco tempo atrás, esse filme estava inteiro no YouTube. Hoje só tem o trailer.

A onda de interesse pelo trabalho de Gary Wilson o levou a alguns programas de TV, como o de Jimmy Fallon, onde tocou com The Roots.

Recentemente, o rapper Earl Sweatshirt sampleou You were to good to be true, música de You think, em Grief. Olha aí Wilson comentando que adoraria fazer shows ao lado de Earl e de seu companheiro no Odd Future, Tyler The Creator (ele, Earl e o grupo BadBadNotGood chegaram a dividir o palco no programa de Jimmy Kimmel).

E uma das primeiras pessoas a entrevistar Wilson assim que ele foi encontrado foi o jornalista Neil Strauss, quando trabalhava no The New York Times. Neil recebeu um telefonema avisando que Wilson havia sido achado e resolveu ir visitá-lo em seu trabalho. Ouviu dele que não tinha telefone porque “eles costumeiramente trazem más notícias”, que Wilson se vê de fato como uma pessoa reclusa (“você fica mais velho e não quer sair muito”) e que o músico descobriu que não tinha mais nenhuma cópia dos seus discos, pelo motivo prosaico de que ele costumava quebrar os LPs no palco.

Er, Wilson também disse que recentemente tinha se recusado a comer um hambúrguer no McDonalds pelo simples motivo de que havia encontrado um picles nele (“só faço uma refeição por dia e não como frutas ou verduras”). E que todas as mulheres que aparecem em suas letras (de modo geral You think you really know me é um disco sobre encontros amorosos e pés na bunda) são reais. O papo de Neil com Gary foi publicado na coletânea de entrevistas Everyone loves you when you’re dead (And other things I learned from famour people).

Se você chegou até aqui, pega aí um show inteirinho de Wilson, em maio.

Via Impose Magazine

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