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Crítica

Ouvimos: Mevoi, “O vice-versa”

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Ouvimos: Mevoi, "O vice-versa"
  • O vice-versa é o segundo disco da banda Mevoi, autodefinida como “art rock”, e que tem no núcleo duro dois integrantes: Ciro Lubliner(voz, guitarra, violão) e Rafa Well (baixo, guitarra, violão e programação).
  • O grupo destaca no texto de lançamento que no segundo disco, o título “remete à ideia de retorno, da reciprocidade e do duplo, mas também trata de, ironicamente, valorizar o vice, o segundo lugar, os derrotados que se enunciam pelo mote de que “a prata é bela e reluz mais que o ouro'”.

Se você nunca conseguiu imaginar um encontro entre Mutantes, Secos & Molhados e Sonic Youth, o mais próximo disso que você vai encontrar é o Mevoi. O grupo se define como art rock, e basicamente entrega uma mistura de psicodelia e pós-punk em O vice-versa, um disco que une distorções, sons viajantes e achados poéticos. Entre as músicas que mais se parecem com essa mistura, estão as três da abertura: a faixa título (cuja letra se resume ao nome da música), Antes que me coma o verme (um curioso power pop existencialista, com versos como “perceber teu próprio precicípio/te indica qual limite há”) e a sombria Do nada, que lembra bandas como Psychedelic Furs, e cuja letra fala do “levante político de uma massa anônima elementar”.

O lado mais “mutante” do disco comparece numa espécie de toada punk, Honeycomb (Adeus à deprê), que na verdade é uma releitura em português de uma música da banda norte-americana Wavves. E ela abre uma face mais sessentista e acústica no álbum, com Não é, a balada celestial 7e52 e a fanfarra Certeira, que pode interessar (e muito) a fãs de bandas como Dexy’s Midnight Runners. Tem ainda os sete minutos do lo-fi instrumental Durma com esse barulho – que no começo até parece uma canção para dormir, mas vai ganhando distorções e fantasmagorias sonoras.

Nota: 7
Gravadora: Independente/Tratore.

Crítica

Ouvimos: Kim Gordon – “Play me”

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Em Play me, Kim Gordon mistura punk, rap estranho e ruído para tempos de IA e Trump, num disco curto, cru e feito para ouvir bem alto.

RESENHA: Em Play me, Kim Gordon mistura punk, rap estranho e ruído para tempos de IA e Trump, num disco curto, cru e feito para ouvir bem alto.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Matador
Lançamento: 13 de março de 2026

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Se você adorou The collective, disco anterior de Kim Gordon (2024), vai adorar Play me, o terceiro – um disco curto, conciso e que parece ter sido feito com a ideia de recriar o punk à Iggy Pop em tempos de IA, Trump, renovação tecnológica do punk e do rock e etc.

Antes de mais nada, o que parecia ser uma aproximação do rap no disco anterior, soa agora com o mesmo potencial de destruição de bandas como Mandy, Indiana e Westside Cowboy. Ou seja: Kim Gordon faz rock sem a obrigação da “cara comum” associada ao rock. Tanto que você vai achar mais melodias construídas com samples e teclados do que acordes poderosos em Play me, além de sons mais próximos do horrorcore.

Na real, Kim volta consciente de que, de 2024 pra cá, o mundo mudou bem mais no que nos dez anos de alguma década anterior, e a música de Play me é o tempo todo influenciada por essa experiência. Na suja Dirty tech, ela se apavora com a possibilidade do “novo chefe” ser um chatbot de IA – com assédios sexuais e morais igualmente automatizados. O rap underground de Girl with a look, o soul-jazz eletrônico e psicodélico da faixa-título Play me (cuja letra cria estranhas playlists de aplicativos de música), o trap bizarro de Black out… Tudo no disco soa como se Kim estivesse tentando dialogar com um/uma ouvinte, mas houvesse um chatbot no meio.

A poesia das música é crua – pensando bem, nem dá pra dizer que há poesia, porque ela optou por frases soltas que constroem ideias e imagens na cabeça de quem ouve. A estratégia transforma Play me em um álbum mais sensorial do que literal.

Um dos momentos mais curiosos do disco é Busy bee. A música tem bateria e coautoria de Dave Grohl e começa com um sample distorcido de uma conversa de 1994 entre Kim Gordon e Julia Cafritz, sua parceira no projeto Free Kitten. Na letra, ela fala de um “ele” ausente e de uma abelha ocupada fazendo mel e dinheiro. Como a conversa sampleada aconteceu quando Kim estava grávida de oito meses, a faixa deixa no ar a impressão de ser dirigida a Thurston Moore, seu ex-marido e parceiro no Sonic Youth (o tal papo das duas musicistas rolou no MTV Beach House e pode ser visto no YouTube).

Busy bee é quase um r&b maldito. Já Square jaw e Subcon, que vêm em seguida, soam como uma mescla de boombap e no wave, boombap e The Fall, boombap e Wire + Swans – na verdade é tudo tão diferente que citar bandas como referência serve mais como um guia torto do que como um mapa de verdade. Post empire é um soul rock noisy em que ela diz a um certo presidente alaranjado coisas como “privilégio elástico / privilégio plástico / destrua e queime / desapareça”. No fim, Bye bye, música de The collective, ganha uma nova versão chamada ByeBye25, cuja letra traz tudo o que Trump quer limar dos Estados Unidos.

Tudo escrito de maneira crua, punk, como se coubesse ao / à ouvinte completar as lacunas e recriar em sua mente (e em seus ouvidos) um disco perturbador – e falando como quem mete o dedo na cara, como em Subcon, do verso “você quer ir para Marte / e depois?”. Nem pense em ouvir Play me em volume baixo. Kim e o produtor-parceiro Justin Raisen não fizeram o disco pra isso.

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Crítica

Ouvimos: Ottopapi – “Bala de banana”

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Em Bala de banana, Ottopapi mistura Devo e Joy Division em punk maquínico, irônico e festivo, com teclados malucos e clima indie.

RESENHA: Em Bala de banana, Ottopapi mistura Devo e Joy Division em punk maquínico, irônico e festivo, com teclados malucos e clima indie.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Seloki Records
Lançamento: 6 de março de 2026

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Co-fundador do selo Seloki Records, Otto Dardenne (o popular Ottopapi) investe numa curiosa mistura de Devo e Joy Division (!) em sua estreia solo, Bala de banana. Na real, as referências surgem diferenciadas nas músicas: Otto e sua turma – um supergrupo indie formado por Gael Sonkin, Thales Castanheira, Vitor Wutzki, Bianca Godói, Yann Dardenne e Danileira, além de Chuck Hipolitho na produção – investem num punk maquínico, que não dispensa programações e efeitos de teclados, em faixas como Goixto, Bala de banana, Purojogoduro e Ruim da cuca. E boa parte das letras parece achar uma saída irônica para a sensação de descontrole narrada por Ian Curtis nas letras do JD (ou para as ansiedades narradas por Kurt Cobain no Nirvana).

  • Ouvimos: Feira Popular – Feira Popular (EP)

Pra começo de conversa, punk aqui é fest, mesmo nos momentos mais agridoces. Ottopapi tem até uma música chamada Perdi o controle (faz vir à mente She’s lost control, do Joy, claro). Mas é um punk rock robótico sobre um cara que foi abandonado pelo seu grande amor, sua vida virou de cabeça pra baixo e ele perdeu o controle… remoto (ao que parece, pela letra). “Olhei em todo canto mas não sei onde ele tá / parece que eu perdi o controle / rezei pra São Longuinho dei pulinho pra achar”,  canta. Algumas faixas têm teclados meio doidos, no clima de Thomas Dolby, e uma das músicas, Quase que me atraso de novo, é punk country na onda de Elvis Costello.

Tem um lado 60s em Bala de banana também, em faixas como A mais gata dessa festa e no “arregaço fugaz” e nas noias do dia a dia de Pó poeira, som com certa cara mod que encerra o disco. No geral, rock de festa, e “punk pop” sem cara comum de punk pop.

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Crítica

Ouvimos: Raidol – “Todas as mensagens que nunca te enviei” (EP)

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No EP Todas as mensagens que nunca te enviei, Raidol mistura tecnobrega e tecno-melody para contar, em clima de aparelhagem, uma jornada de amor e empoderamento.

RESENHA: No EP Todas as mensagens que nunca te enviei, Raidol mistura tecnobrega e tecno-melody para contar, em clima de aparelhagem, uma jornada de amor e empoderamento.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: suave.cito
Lançamento: 3 de março de 2026

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Conheci Raidol quando participei de uma mesa de pitching no festival Se Rasgum, em Belém, em 2022. Após falar sobre seu trabalho, ela disse: “vocês precisam falar mais dos artistas da região da Amazônia”.

Uma verdade. De fato, nem sempre Rio e São Paulo ficaram de olho no que vinha de Belém e arredores. Acabam deixando passar a musicalidade de uma região que tem um rolé todo próprio de criação musical e diversão, e cujo som tem uma assinatura fortíssima.

Todas as mensagens que nunca te enviei traz Raidol, artista trans amazônica, fazendo quase um EP conceitual sobre empoderamento diante do amor, com idioma sonoro entre tecnobrega e tecno-melody. Esse teu jeito assim…, com guitarra quase indianista e participação de Madeirito (Gang do Eletro), lembra quando tudo dava certo.

O relacionamento começa a ficar cagado em Já deu a minha hora, com Rebeca Lindsay soltando a voz ao lado de Raidol e ajudando na sofrência. A personagem do EP sai fora da tristeza no alegre tecno-melody Lovezinho, quando percebe que aquele relacionamento não acrescenta nada. Uma jornada amorosa em clima de festa de aparelhagem.

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