Crítica
Ouvimos: Kathryn Mohr, “Waiting room”

- Waiting room é o novo álbum da musicista californiana Kathryn Mohr. O disco foi concebido durante um mês que ela passou numa vila de pescadores de Stöðvarfjörður, no leste da Islândia. A moradia-estúdio de Kathryn no local foi uma sala de concreto sem janelas, iluminada por uma fileira de lâmpadas multicoloridas – que aparece na capa do álbum.
- “Os jovens são expostos a todos os tipos de mídia, sem razão ou cuidado. É a mesma coisa na vida – você nunca espera o que vai acontecer a seguir ou quão horrível pode ser. Em um segundo você está assistindo a um documentário sobre a natureza, no momento seguinte a reprodução automática mostra alguém tendo o braço arrancado em um elevador. O inesperado do horror, como ele é jogado sobre você, imposto, por outras pessoas, governos, demônios pessoais, algoritmos ou puro acaso, é chocante para mim”, conta ela sobre o disco e sobre uma das faixas, Elevator.
Kathryn Mohr chega com um primeiro álbum que parece sussurrar do além. Waiting room não é só um disco sombrio – é quase um ritual, sem pressa, sem concessões, que envolve o ouvinte num ambiente rarefeito. Letras, músicas e arranjos parecem um véu que, ao ser tirado, revela muito do dia a dia, dos medos terrenos e até das cidades-fantasma pessoais de cada um de nós.
Por acaso (ou não), a faixa-título, que encerra o disco trazendo Kathryn acompanhada por um órgão de tubo, transforma o amor em algo vazio, utilitário, pleno de carências e de misoginia, prestes a ser descartado: “Meu amor é uma cadeira vazia/meu amor é uma sala de espera (…)/meu amor é uma árvore podre/meu amor é um floppy disk”, diz a letra.
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Waiting room, a música, ainda assim, é um raro momento de respiro melódico num disco sobrenatural. Em quase todo o álbum, Kathryn canta e toca violão e guitarra em meio a vários efeitos sonoros – sem nenhuma bateria ou percussão, com exceção do batimento cardíaco de Cornered e de alguns ruídos mais ou menos ritmados em Prove it. Músicas como as gêmeas Diver e Driven foram feitas para assustar e embevecer: os sons desafinam aos poucos, vozes aparecem invertidas e o design sonoro parece evocar presenças invisíveis, como se vultos pudessem ser ouvidos além de vistos.
Petrified é um misto de PJ Harvey, Kurt Cobain e Neil Young, em que Kathryn parece uma folk singer do além, cantando e tocando de pernas cruzadas em cima de uma tumba. Elevator, um grunge fantasmagórico, é para quem tem paixão por sangue, morbidez, automutilação e terror: “Ponho meu braço na porta/o elevador de andar em andar, de andar em andar (…)/e agora meu membro começa a sangrar/eu perco meu braço na manga”. A já citada Cornered, após o tal batimento cardíaco, ganha uma gravação de caixa postal anunciando que “você ligou para um número que foi desconectado ou não está mais em serviço” – e prossegue com três minutos de samples aterrorizantes, numa vibe desassociativa, de transe post-mortem.
A “sala de espera” do disco de Kathryn explora o medo do desconhecido, além das estranhas vibrações (e atrações) ligadas àquilo que Raul Seixas disse que “talvez seja o segredo desta vida”. Mas no fundo, Waiting room não é só sobre morte – é sobre o que nos assombra enquanto ainda estamos aqui.
Nota: 8,5
Gravadora: The Flenser
Lançamento: 24 de janeiro de 2025.
Crítica
Ouvimos: Maddie Ashman – “Her side” (EP)

RESENHA: Maddie Ashman leva microtonalidade ao pop em Her side, EP que mistura chamber pop, psicodelia e afinações pouco usuais.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: AWAL
Lançamento: 6 de fevereiro de 2026
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O assunto microtom foi por muito tempo restrito à música clássica, aos sons experimentais e a nomes nada ligados ao universo pop, como o brasileiro-suíço Walter Smetak (1913-1984). Também tinha todo um esoterismo ligado aos intervalos menores que o semitom – o próprio Smetak era interessado nisso. O rock e o universo pop foram se aproximando dessa história por intermédio de nomes como Wendy Carlos, Glenn Branca e poucos outros.
A musicista londrina Maddie Ashman faz parte de uma nova geração de artistas que trabalham com as mágicas microtonais, explorando afinações alternativas e sons quase sempre ignorados na hora de compor e arranjar música. Her side, seu novo EP, pode chegar sem problemas a ouvidos acostumados com chamber pop e rock progressivo, e a fãs de nomes como Beach Boys, Judee Sill, Electric Prunes, Laurie Anderson – mas a “experiência psicodélica” aqui vem mais do estudo dedicado dos tons, e dos sons que chegam a confundir ouvintes.
- Ouvimos: Wilza – Wilza (EP)
Rumours, na abertura, chega a ganhar um beat quase industrial e a vertiginosa Seraphim tem algo de Wind chimes, música dos Beach Boys (do álbum Smiley smile, de 1967), mas a experiência aqui é bem outra, bem mais mágica. She said, uma valsa vocal, tem clima quase clássico, Jaded leva tudo para um canto mais fantasmagórico. Waterlily é outra valsa formada por vozes, além de piano, cordas e um ritmo lento que acompanha o que já é dado pelos outros instrumentos. Uma curiosidade é In autumn my heart breaks, aberta com vocais gregorianos que soam como um órgão de igreja, sendo acrescidos de outros vocais mais agudos e de extensão desafiadora.
O final, com Behind closed eyes, aponta para um sonho musicado (“na minha cabeça, um show me mantém acordada à noite / ouço todas as músicas que gosto repetidamente”), e é a música de Her side mais próxima de uma ideia de “rock” – na verdade um jazz-blues voador e tecnológico, marcado por vozes e beat forte.
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Crítica
Ouvimos: Trauma Ray – “Carnival” (EP)

RESENHA: Trauma Ray mistura shoegaze e metal 90s no EP Carnival, unindo peso à la Alice In Chains a climas sombrios e nada sonhadores.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Dais Records
Lançamento: 20 de fevereiro de 2026
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O “raio do trauma” dessa banda texana é, na verdade, um trocadilho com a palavra alemã träumerei, que significa “estado de sonho” O Trauma Ray já tem um álbum e alguns EPs e singles lançados, indo na contramão do que se entende nos dias de hoje como shoegaze. Numa conversa com a newsletter First Revival, o vocalista e guitarrista Uriel Avila disse ser fã de Slowdive (em especial), Helmet e da fase inicial do Weezer e foi taxativo ao falar sobre o que acha do lado mais “sonhador” do estilo: “Sinceramente, acho meio chato”, confessou ele, dizendo que prefere usar o lado suave para atenuar a faceta mais musicalmente agressiva da banda.
- Ouvimos: Melting Palms – Head in the clouds (EP)
Vai daí que no EP Carnival, o Trauma Ray se exibe como uma cópula entre shoegaze e metal que não se parece com o Deafheaven, e que canaliza sonoridades pesadas dos anos 1990. Tanto que você consegue encontrar sons que fazem lembrar Alice In Chains e Deftones aqui e ali, mesmo que sejam guitarradas lentas em meio à estética “cheia de nuvens” do shoegaze. O EP abre com uma vinheta sombria e leve, Carousel, e emenda num stonergaze, Hannibal, com alma de metal e punk, mas que logo vai ganhando uma cara viajante no refrão.
O vocal de Avila é doce e delicado como costuma acontecer no shoegaze, e a banda – mesmo acrescentando novidades – é fiel ao receituário de bandas como Slowdive. Méliès, na sequência, tem abertura épica de metal e clima deprê, a ponto de dar uma confundida com o Paradise Lost no comecinho. E logo embica num som viajante, mas misterioso e pesado.
Aliás, não custa notar que o título da faixa é uma homenagem ao ilusionista e cineasta francês Georges Méliès, criador de produções perturbadoras como A mansão do diabo (1896) e Viagem à lua (1902) – assim como vale notar que o Trauma Ray propõe um passeio emocional por um lugar que apenas parece ser um parque de diversões (na letra de Clown, a última faixa, uma chave de entendimento: “eu sei a saída / você não quer pegar minha mão? / você precisa sair / este não é o seu país das maravilhas”).
Seguindo, Funhouse tem uma chuva de distorções na abertura, e clima entre doom metal e metal gótico, mais até do que aproximação com o shoegaze. A já citada Clown, no final, é a música mais prototipicamente shoegaze do EP, mas com clima deprê vindo direto das profundezas dos anos 1990 (Alice In Chains, Smashing Pumpkins). O Trauma Ray pode se tornar sua banda preferida. Pode adotar.
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Crítica
Ouvimos: Lia de Itamaracá e Daúde – “Pelos olhos do mar”

RESENHA: Lia de Itamaracá e Daúde unem história e emoção em Pelos olhos do mar, entre rezas, afro-latinidades e releituras cheias de memória.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Selo Sesc
Lançamento: 27 de novembro de 2025
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Chega de termos como “potente”, que qualquer IA escreve: o encontro de Lia de Itamaracá e Daúde no disco Pelos olhos do mar tem é muita história, além de muita música. Essa verdadeira pororoca musical impressiona bastante em todas as faixas, unindo a força e a emoção de Daúde e toda a carga histórica da voz de Lia, trazendo rezas, sons afro-latinos e canções célebres da música brasileira que vão ganhando violões, percussões e vibes eletrônicas.
- Ouvimos: Samira Chamma – Estou viva
Muita coisa Pelos olhos do mar foi composta para as duas cantarem. Emicida fez a linha do tempo lírica e musical de Santo Antônio da Boa Fortuna, com violão, cordas e clima de rio correndo. O samba-reggae-soul Florestania, de Céu e Russo Passapusso, traz os sons da natureza, numa faixa com clima de clássico musical. As negras, que abre o disco, vem do repertório de Chico César, e se torna uma louvação às duas vozes do álbum – com um som que lembra os discos mais antigos da própria Daúde. Recordações do som popularíssimo que um dia já tocou no rádio tomam conta das releituras de A galeria do amor, de Agnaldo Timóteo (transformada numa espécie de guarânia-blues, com Pedro Baby na guitarra, Zé Ruivo no piano Rhodes e Daúde nos vocais) e Quem é?, bolero imortalizado por Silvinho, cantado candidamente por Lia.
A faixa-título, por sua vez, tem cara de música composta nos anos 1970 – e não é. É um bolero feito por Otto e Pupillo que lembra João Bosco e Gonzaguinha. A mesma impressão de flashback rola com Bordado, feita por Karina Buhr. Uma faixa que une duas épocas: tem algo de pop MPBístico oitentista garantido pelo synth ao fundo, mas depois chega a lembrar algo bem mais pop, até jovemguardista. Se meu amor não chegar nesse São João, do cirandeiro pernambucano Mestre Baracho, vai ganhando ares de ciranda espacial, como num sonho. Um disco que não tenta reviver o passado, mas prova que ele ainda canta no presente.
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