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Crítica

Ouvimos: Anna B Savage, “You & I are Earth”

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Ouvimos: Anna B Savage, "You & I are Earth"
  • You & I are Earth é o terceiro álbum da musicista Anna B Savage, londrina que reside hoje na Irlanda. O release do álbum o define como “um disco que é tanto sobre cura quanto sobre um senso de curiosidade inabalável e, mais simplesmente, ‘uma carta de amor a um homem e à Irlanda’ (…) O disco testemunha um pedaço específico da terra – a Irlanda, e o relacionamento de Savage com ela como seu novo lar”.
  • “Para aquele disco (in/Flux, segundo álbum, lançado há dois anos) eu estava trabalhando quase dois anos atrasada e eu só precisava lançá-lo. Mas eu já sabia que esse novo álbum estava chegando, então, quando eu estava escrevendo, eu meio que canalizei algumas coisas para o futuro, o que foi uma tarefa mental interessante para mim mesma”, contou Anna B Savage site The Line Of Best Fit.

Música, natureza e amor se entrelaçam em You & I are Earth, terceiro álbum de Anna B Savage. Já no título, a cantora sugere um universo íntimo e particular, um planeta criado a dois, enquanto a capa evoca uma música das matas. Entre ecos de sonoridades celtas e irlandesas — reflexo de sua vida de artista inglesa vivendo em Dublin — e nuances quase progressivas ou próximas do jazz, o disco cria uma atmosfera mágica, envolvente e, por vezes, hipnótica, num folk contemplativo e experimental.

You & I are Earth é invadido por sons de mata na quase new age Talk to me, que abre o álbum e revela a voz simultaneamente forte e angelical de Anna B Savage. Os ruídos da natureza seguem em Lighthouse, um folk maduro e contemplativo, guiado pelo balanço envolvente de um baixo acústico. A bela Agnes, uma dos maiores destaques do álbum, funde a melancolia dos Smiths e a vibe agridoce do folk setentista. É importante falar que as letras do disco, carregadas de romantismo, às vezes flertam com uma idealização amorosa que soa um tanto fora de lugar. Isso fica evidente na delicada The rest of our lives, quase camerística, ou no folk celta de Donegal, onde juras de amor eterno dominam o tom.

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Mon cheol thú (“você é minha música”, uma expressão de louvor tradicional na Irlanda) abraça o encantamento do amor com versos como “você é minha música/você é minha musa/eu vou cantar por horas/e escrever um álbum sobre você”). A melodia, outro destaque do álbum, começa como um folk pastoril, dedilhado na guitarra, e vai ganhando corpo com a entrada de cordas e sopros. A relaxante Big & wild e o folk-quase-valsa de I reach for you in my sleep também são invadidas por imagens mais ternas do amor.

Nem tudo no conciso You & I are Earth é perfeito. Mas trata-se de um disco ora etéreo e meditativo, ora arrebatador, e que convida à imersão, sempre com a força da emoção em primeiro plano.

Nota: 8
Gravadora: City Slang
Lançamento: 24 de janeiro de 2025.

Crítica

Ouvimos: Os Tropix – “Embala pra viagem, o disco”

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Resenha: Os Tropix – “Embala pra viagem, o disco”

RESENHA: Vindos do Maranhão, Os Tropix revisitam samba-soul, boogie, reggae e MPB dos anos 1970 e 1980 em Embala pra viagem, o disco, com frescor e ótimas referências.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Independente
Lançamento: 5 de maio de 2026

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Os Tropix vêm do Maranhão, mas Embala pra viagem é um disco bem carioca – ou melhor: é a música carioca vista de longe, com outro olhar e a distância necessária para que aquilo não seja naturalizado. O som transante de Lincoln Olivetti e do boogie oitentista ganha cara renovada em faixas como De que maneira?, o samba-soul dos anos 1970 volta com uniões sonoras entre Bebeto, Tim Maia e trap em Amor de cafezinho e o samba-rock ganha ótimas guitarras em Fittipaldiando (que título!) e na sacana Catarina, tangerina.

  • Ouvimos: Vários – CarioCaos: Poder popular (EP)

Eu disse “música carioca”? Dá pra quebrar essa tese um pouco, até porque muita coisa da MPB dos anos 1970 e 1980 foi terminada no Rio, mas veio mesmo foi do Norte-Nordeste. Daí tem em Embala pra viagem o reggae pop de Coraçãozinho, com Castello Branco, que lembra o Gilberto Gil da fase Um banda um (1981). O afoxé da faixa-título traz o Gil e o Caetano Veloso dos anos 1980, assim como a disco music de Não quero dançar, tudo a ver com a era em que a MPB virou pop adulto e som de pista.

Para grudar na mente e não sair mais: Nonato e Seu Conjunto fala de um grupo lendário dos bailes, unindo Lenine, samba-soul e Di Melo – este, não apenas como referência, mas também como participação. Música de último volume.

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Crítica

Ouvimos: L.A. Sagne – “Good company”

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Resenha: L.A. Sagne – “Good company”

RESENHA: Punk holandês afiado: no álbum Good company, o L.A. Sagne mistura Stooges, new wave e pós-punk em letras ácidas sobre política, dinheiro e cotidiano.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Gertruida
Lançamento: 27 de março de 2026

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A maior parte do material que você vai ver por aí sobre a banda punk holandesa L.A. Sagne nem é em inglês – o que mostra que a banda liderada pela cantora Tara Wilts ainda precisa ser descoberta de verdade por muita gente. Quem ouvir Good company vai descobrir uma banda entre o punk, a new wave e o clima acintoso de Iggy Pop e Stooges.

Isso tudo aí bate ponto na união 60’s e 70’s de My name e na onda gótica-new wave de Music in the neighbourhood, Rampage e I can. Mas o L.A. Sagne também investe em guitarras elegantes em Rain on my skin e em vibrações pós-punk em faixas como Jean Paul, I’m a girl e I paint walls.

Nas letras, o L.A. Sagne zoa revolucionários e ideólogos de sofá (o punk rock Armchair critic), milionários escrotos (Music in the neighbourhood), o neotabagismo (o quase stoner Cigs are fun prega: “vou fumar até morrer / nunca me importei em viver tanto tempo / cigarros são divertidos porque te matam”) e… Bom, Good company tem uma música chamada God save the geese.

Seria uma brincadeira do L.A. Sagne com a origem burguesa da mais nova sensação da crítica musical? Seja como for, a letra fala de uma realidade bem diferente dos bons colégios e da vida ricaça dos integrantes do Geese (“os juros do meu empréstimo estudantil me deixaram sem chão / que merda / fui para a faculdade só para ter minhas penas arrancadas / deus salve os gansos / fui para a escola fazer uma obra-prima / produzimos muito esforço e isso não compensa nada”).

I paint walls, por sua vez, fala de um dedicado pintor de paredes que sonha em ser reconhecido como artista, em meio a guitarras buzinando. Euh, no fim, une hardcore e o som do Motörhead para falar da barra que mulheres são obrigadas a enfrentar numa simples saída de noite: “não fomos devidamente apresentados, eu acho / bem, eu só vim aqui para beber minha cerveja em paz (…) / ela já bebeu quatro canecas e agora acha que ele é sábio”.

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Crítica

Ouvimos: Headfooter – “Boo hoo” (EP)

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Resenha: Headfooter – “Boo hoo” (EP)

RESENHA: No EP Boo hoo, Headfooter mistura pós-punk, eletrônica e humor sangrento em músicas que soam como trilha perdida de uma fita VHS dos anos 1980.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Double Great Records
Lançamento: 13 de junho de 2025

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Criado por um cara chamado Jay Henry, o Headfooter é um projeto que, ao mesmo tempo em que recorda os anos 1980, enche sua música e seu conceito de vibes malucas e sanguinolentas. O clipe de Boo hoo, uma história de reunião de trabalho que acaba em transplante de cérebro e sangueiras brutais, é um ótimo exemplo.

Já musicalmente, o som tem elementos de Talking Heads, LCD Soundsystem e, pode acreditar, Viagra Boys. Essa turma toda bate ponto em Boo hoo e em músicas mais loucas ainda no EP Boo hoo, como About yr sons e o pós-punk Never enough, com baixo à frente, teclados vintage e ar de pós-punk espacial. Parece uma gozação vintage, em que todas as músicas poderiam ganhar clipes feitos em VHS – o de Boo hoo não apenas é assim, como também a música ganhou o subtítulo From the “Weird Scenes” compilation, para parecer algo tirado de uma daquelas fitas de vídeo bizarras que geral alugava nos anos 1980.

Waste, no final, parece coisa da fase intermedária do Ultravox: teclado que parece um sinal de transmissão, beat eletrônico, que vai ganhando guitarras depois e ficando pouca coisa menos atmosférico. Soa como uma banda que tem surtos de fantasmagoria com uma época. E merece muito a a audição.

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