Crítica
Ouvimos: Humberto Gessinger, “Quatro cantos de um mundo redondo”

- Quatro cantos de um mundo redondo é o quarto disco solo de Humberto Gessinger, ex-vocalista, baixista e guitarrista dos Engenheiros do Hawaii. O disco foi lançado aos poucos em quatro blocos (Power Trio, Trio Acústico, Quarteto e Solo). O trio traz Gessinger no baixo e nos teclados, acompanhado pelos dois músicos que tocam com ele nos shows: Rafa Bisogno (bateria) e Felipe Rotta (guitarra).
- Fevereiro 13 foi feita para a filha de Humberto, Clara, que mora na Suécia – e foi gravada durante uma visita do músico a ela, no estúdio Atlantis, antigo QG do ABBA em Estocolmo. O disco tem uma releitura, a de AEIOU, de Bebeto Alves, gravada com Duca Leindecker (com quem Gessinger teve uma dupla/banda, o Pouca Vogal).
Rei do humor e da composição de repertório popular, Moacyr Franco me disse certa vez que evitava inserir canções novas em seus set lists, e que costumava avisar aos fãs para tranquilizá-los: “Olha, pode ir sossegado no meu show que não tem novidade nenhuma”.
O ex-engenheiro do hawaii Humberto Gessinger é filho dessa mesma atitude, ainda que invista constantemente em álbuns solo, em músicas novas e em iniciativas como aproveitar uma visita à filha na Suécia para gravar uma música (a bela e acústica Fevereiro 13) no antigo estúdio do ABBA, o Atlantic. Assim como acontecia com bandas como Supertramp, 14 Bis e Fleetwood Mac (na fase dos dois casais), boa parte do fascínio que as músicas de Humberto exercem sobre os fãs vem de um design sonoro e poético já estabelecido há anos, e raramente de grandes experimentações de estúdio. Caso apareçam novidades pelo caminho, elas vão acabar sendo inseridas num contexto que os fãs dele conhecem desde 1986 – e que surge mais ou menos em boa forma nesse disco novo.
Valorizando bastante o som do baixo na mixagem (ouvindo de fone, o instrumento é o que mais chama a atenção), Quatro cantos não é tão brilhante quanto o ótimo Não vejo a hora, o anterior (2019). Dividido em blocos, soa melhor no lado “rock básico”, de trio, nas faixas No delta dos rios (a melhor do disco, soando como um filhote adocicado de The Police e Pretenders, como já rolava com o hit Muros e grades, dos Engenheiros), Espanto e Vaga semelhança. Nas letras, o lado acústico, com viola caipira e acordeom, é o mais reflexivo, sonhador e (até) romântico, em faixas como Começa tudo outra vez e Mais que sombras. O resgate de AEIOU, música de Bebeto Alves (gravada aqui com feat de Duca Leindecker), emociona. O título do disco segue a sina normal de Humberto, de fazer trocadilhos soarem (supostamente) como coisa séria.
Gessinger, à moda de Raul Seixas, Rita Lee e até Roberto e Erasmo, costura nas letras assuntos do dia a dia (“gosto desse papo de lugar de fala/e sobre como as luzes da cidade atrapalham os pássaros”, em Fevereiro 13), sacadas meio aconselhativas e um certo aconchego em tempos de pandemia e pós-pandemia (“vai por mim, estarei por ti se der errado/vai por mim, estarei aqui, braços abertos”, em No delta dos rios).
Nota: 6,5
Gravadora: Deck
Foto: Divulgação
Crítica
Ouvimos: Starly Kind – “Inferno (xe/xem)”

RESENHA: Starly Kind mistura lo-fi, screamo, pós-punk e psicodelia em Inferno (xe/xem), EP sombrio sobre angústia queer e demônios internos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: CorpoRAT Records
Lançamento: 8 de maio de 2026
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Musicista agênero do Oregon, Estados Unidos, que se radicou em São Paulo, Starly Lou Riggs criou a Starly Kind como veículo para uma música lo-fi e fantasmagórica. Um som que volta e meia ganha ares math rock, ou que se aproxima de um art rock em clima de pesadelo. Inferno (xe/xem) é um EP sobre demônios xamânicos, angústia existencial queer, dores acumuladas durante uma vida inteira – e sobre como é chamar o inferno de casa.
Starly kind, a faixa de abertura, é lo-fizaça, com glitches, clima dreamy e vocais torturados e gritados. Held me with soma a isso um clima mais ambient, em que vibrações screamo unem-se ao experimentalismo da música. Superanatural clutches fica entre a psicodelia e a no wave, com direito a uma guitarra próxima do som do Black Sabbath. Uma curiosidade e uma mudança de rumo vêm com Bloodlust rising, algo entre Beach Boys, Residents e Devo – seguida justamente pela onda reggae + dub + fantasmagoria de And the devil watched me dance in.
- Ouvimos: Delmore – Tão logo cada poste se ilumina
Demon dreams, que encerra o disco, é pós-punk mais do que tudo, e é a música mais bonita do EP – aliás lida com uma noção mais tranquila de “beleza” na melodia, ainda que também invista na vibe sombria das outras faixas. Um disco bem instigante, em todos os momentos.
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Crítica
Ouvimos: Duo Violeta – “Mar pequeno”

RESENHA: Duo Violeta mistura violão, escaleta e folk nordestino em Mar pequeno, disco contemplativo, viajante e cheio de imagens sonoras.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: The Citadel House
Lançamento: 22 de maio de 2026
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Se você for com muita sede ao pote no disco do Duo Violeta e chegar meio desavisado, pode acabar adorando o encontro do violão com a sanfona. Depois vai dar risada quando descobrir que André Sant’Anna e Rafael Campanaro, são na real, e respectivamente, o encontro da escaleta – teclado de sopro popularizadíssimo pelo reggae e pelo dub – com o violão. Mais que isso, as gravações tiveram vários testes de estúdio, que envolveram posicionamentos dos músicos, microfones diferentes e muitas experimentações sonoras.
- Ouvimos: Seera – Sarab (EP)
Mar pequeno tá bem longe de ser um disco experimental, mas passa perto. É um disco brasileiríssimo e quase sempre nordestino, que parece seguir o curso de um rio e contar uma história – já que as músicas parecem encadeadas e evocam imagens que soam do mesmo modo. Será marés, Na rede e O boto, no começo, são folk nordestino – sendo que a última insere clima sombrio e efeitos de tremolo na escaleta. Para a ilha é forró + jazz, mas tem algo de indie rock na sonoridade, até algo de Beatles no meio da melodia. Inverno no mar é balada, blues e folk, com final contemplativo e várias partes diferentes.
Esse clima de viagem sonora, que insere segmentos diferentes em canções curtas, chega no ápice na última faixa do álbum, Emergiu. Até lá, André e Rafael proporcionam surpresas como a melodia de À deriva, que chega a lembrar um soul no final. Ou a recriação da folclórica Peixe vivo, cujas linhas melódicas só se tornam claras lá pelas tantas. Ou o clima folk brasileiro de Náufrago. Um disco muito bonito.
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Crítica
Ouvimos: Soma Please – “Ballet” (EP)

RESENHA: Soma Please mistura synth pop, pós-punk e dream pop em Ballet, um EP que cruza Queen, U2, LCD Soundsystem e até samba indie.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Skud & Smarty
Lançamento: 14 de maio de 2026
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O Soma Please é um duo luso-britânico, formado pelos músicos Nuno Bracourt e Rob Williamson. Não chega a ser um som muito inovador, mas tem detalhes que conquistam de cara, já que Ballet, o EP, soa às vezes como um encontro entre estilos e épocas. Tipo o que rola com I’m a fan, entre o synth pop e uma onda que lembra o Queen, ou Love, um dream pop com peso. Pockets on my sleeves é pós-punk com alma oitentista, e algo de Radiohead e LCD Soundsystem misturado.
- Um tributo português a David Bowie
As duas últimas faixas do EP são as mais diferentonas do disco: Alone é um curioso pop meio samba, meio bossa, com cara indie e solar. What’s the score é mais ruidosa, abre com clima sombrio fake, e depois chega a lembrar um blues rock eletrônico. Ballet é um pequeno apanhado do som deles, e uma demonstração de sonoridades que estão no arquivo deles.
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