Cultura Pop
O som de 1994: descubra agora!

Qual a música de 1994? A de 1991/1992 talvez fosse o grunge. A de 1994 era… tudo o que você puder imaginar, embora muita gente ainda reduza o começo da década ao estouro das bandas de Seattle. Tinha punk pop, reggae nacional, trilhas de novela obrigando todo mundo a ouvir Julio Iglesias, música desbocada em português e o retorno definitivo do rock britânico às paradas. Resumimos essa história de 30 anos atrás em alguns itens e possivelmente esquecemos de muita coisa. Mas tá aí.
GRANDES HITS DE 1994. Era a “era grunge”. Mas não era só rock, claro: tinha o grupo de hip hop TLC fazendo sucesso com Waterfalls, o Public Enemy continuando com Give it up, o argentino Fito Paez lançando o disco Circo beat, havia o comecinho da onda do funk melody (com clássicos como Mel da sua boca, do Copacabana Beat) e vai por aí. No Brasil, por causa do telesucesso A viagem, de Ivani Ribeiro, não houve ser humano vivo que escapasse de Crazy, cantada em inglês pelo espanhol Julio Iglesias, da versão de Art Garfunkel (o que fazia dupla com Paul Simon) de Why worry (Dire Straits) e de I’m your puppet, com Elton John e Paul Young. Por causa da mesma novela, os Pretenders conquistavam ouvintes por aqui com a romântica I’ll stand by you, e o sombrios Cramberries tinham fãs dos 8 aos 80 anos por causa de Linger.
FALANDO EM BRASIL… Fora daqui, discussões sobre o que era “rock alternativo” ou não, ganhavam terreno. No Brasil, por sua vez, quem ligasse o rádio a qualquer hora do dia, esbarrava com músicas dos discos novos do Skank (Calango), do Cidade Negra (Sobre todas as forças) ou com sucessos do pagode, como o Raça Negra, ou o grupo paulistano Cravo e Canela, que lançou em 1993 o disco Sabor de paz e ainda frequentava as rádios com o hit La vem o negão. O Raça Negra, por sinal, era uma das raras coisas a serem encontradas ainda em vinil nas cadeias de lojas de discos brasileiras, já que o formato foi abandonado em prol do CD. Em 1994, divulgavam o disco que trazia os hits Me leva junto com você e Te quero comigo, além da versão pagode de Pro dia nascer feliz, do Barão Vermelho.
Hits mais emepebísticos daquele ano, como Segue o seco, de Marisa Monte, Malandragem, de Cássia Eller, e Catedral, estreia de Zélia Duncan, foram tão importantes na época que tocaram loucamente no rádio, e alguns deles ressurgiram, premiados ou indicados, no primeiro Video Music Brasil, da MTV nacional, em 1995. Chico Science e Nação Zumbi também estreavam com Da lama ao caos, que angariou fãs, rendeu prestígio, shows, e pôs Chico no inconsciente coletivo do pop nacional. Já Zeca Pagodinho, incrivelmente, não era um grande hit nem um grande vendedor de discos naquele ano: só em 1995 ele teria uma retomada com Samba pras moças.
AXÉ. Em 1994 ninguém dançava ainda ao som do É O Tchan. Por um motivo básico: a banda de pagode baiano não apenas ainda não havia gravado seu primeiro disco (que sairia em 1995) como ainda se chamava Gera Samba. O nome foi abandonado após um cisão no grupo, que adotou o nome de seu primeiro hit, É o tchan. Após um período em que a música baiana foi chamada em alguns estados pelo nome genérico de “timbalada”, tirado do grupo criado por Carlinhos Brown (a filial carioca da Rádio Cidade chegou a ter um programa chamado Timbalada da cidade, por exemplo), o nome “axé music”, tirado do nome de um disco da Banda Beijo, passou a ser usado por jornalistas entre 1993 e 1994. Hits como Dia de festa, de Netinho, Música de rua, de Daniela Mercury, e Alô paixão, da Banda Eva, são dessa época.
E LÁ FORA? Kurt Cobain havia se tornado um ser humano misterioso, problemático, escondido das vistas dos fãs e da mídia – e evidentemente, todo mundo queria saber dos passos dele, ou se o Nirvana ainda continuaria. Não continuou, como ficou público e notório. O único lançamento da banda naquele ano, Unplugged in New York, saiu póstumo, em novembro. Por outro lado, foi um ano excelente para estilos como trip hop (saiu Dummy, do Portishead), techno (nomes como Banco de Gaia estrearam naquele ano), para o lado mais selvagem do eletrônico (Music for a jilted generation, do Prodigy, é deste ano).
E havia muito espaço para o punk renovado feito nos Estados Unidos. Após uma pequena briga entre selos, o Green Day foi para a Reprise e lançou Dookie. O Offspring, contratado da pequena Epitaph, pegou feito piolho em creche com o álbum Smash. O Bad Religion foi para a Atlantic e lançou Stranger than fiction. Seattle ainda comandava a (digamos) festa: era quase dever cívico para roqueiros de todos os estilos ouvir do começo ao fim Superunknown, disco do Soundgarden lançado em 8 de março.
TEVE MADONNA. Tentando escapar de qualquer estigma que o disco Erotica (1992) tenha lhe pregado, Madonna voltou fazendo pop romântico “adulto” e som mainstream no disco Bedtime stories, que saiu em 25 de outubro daquele ano. Músicas como Secret, Human nature e Take a bow tocaram muito no rádio e na MTV e redefiniram a imagem de Madonna, mais suavizada e madura. “O sexo é um assunto tão tabu, e é uma distração que eu prefiro nem oferecer”, chegou a dizer a cantora, reclamando que foi mal interpretada na época de Erotica e do livro Sex.
TEVE MARIAH CAREY. O sucesso do álbum Music box (1993), alternando canções de r&b com baladas açucaradas, ainda rendia – três dos cinco singles do disco saíram em 1994, inclusive o gospel Anytime you need a friend. Mas por acaso, Mariah decidiu encerrar 1994 lançando um disco de Natal, Merry Christmas, que virou presente imediato de fim de ano. All I want for Christimas is you, parceria da cantora com o produtor Walter Afanasieff, virou um dos maiores sucessos de todos os tempos – e voltou a fazer sucesso, resgatada pelo streaming e pelo tik tok.
E TEVE R.E.M.. Monster, álbum do R.E.M. lançado em 27 de setembro, largava o som quase folk dos discos anteriores e pesava a mão: guitarras altas, riffs e melodias intensas dominavam o álbum, que abria com uma guitarrada à moda de Ziggy Stardust, de David Bowie (no hit What’s the frequency, Kenneth?) e ainda homenageava Kurt Cobain e o ator River Phoenix, mortos naquele ano. Tão mainstream que parecia parte da paisagem musical dos anos 1990, o R.E.M. estava bem a fim de voltar aos palcos para divulgar o disco (não excursionavam desde 1989). Tanto que o grupo gravou muita coisa do álbum quase ao vivo. Mas o afastamento do grupo do dia a dia das turnês era tão grande que, basicamente, Michael Stipe e cia tiveram que reaprender a existir como banda.
E TEVE… WOODSTOCK? Teve: em 12 de agosto teve início o Woodstock 2 ou Woodstock 94, segunda edição da feira de música de 1969, com uma mescla de muitos artistas recentes (Green Day, Red Hot Chili Peppers, Nine Inch Nails, Cranberries, Metallica, Primus) e alguns antigos (Bob Dylan, que não havia se apresentado no festival original, e Joe Cocker, que havia feito bastante sucesso no evento em 1969). Como no evento de 1969, houve poucas mortes, muita gente querendo entrar e… prejuízo, já que os sem-ingresso não tiveram dificuldades para entrar na Fazenda Winston, a oeste de Saugerties, Nova York, onde rolou tudo. No Brasil, um compacto com os melhores momentos foi exibido pela Band, num programa curiosamente chamado Hollywood Rock in Concert (mas que nada tinha a ver com o festival de mesmo nome, quase privativo da Rede Globo).
DAVI CONTRA GOLIAS. A batalha bíblica foi citada como exemplo para definir a briga da banda norte-americana Pearl Jam contra a gigante dos ingressos Ticketmaster, que durou o ano de 1994. Eddie Vedder, cantor do grupo, reclamava do monopólio da empresa e das taxas que encareciam os ingressos. O grupo decidiu não fazer mais shows nos Estados Unidos, o Pearl Jam entrou com uma queixa antitruste contra a empresa e o Departamento de Justiça abordou a banda para que rolasse uma investigação federal na Ticketmaster.
A investigação não deu em muita coisa (“felizmente os fatos estavam do nosso lado e nós vencemos”, disse um porta-voz). O Pearl Jam lançou em novembro de 1994 um disco, Vitalogy, que fez sucesso a ponto de conseguir emplacar sua versão em vinil (formato ultrapassado na época) nas paradas. Mesmo assim, problemas aguardavam o grupo: boicotando e provocando a Ticketmaster, a banda iniciou em 1995 uma turnê auto-produzida, em que ingressos eram vendidos por empresas alternativas. O estresse foi imenso, e a banda praticamente ficou isolada, sem muitos apoios.
MAIS GRANA? Lançado em 1º de julho de 1994, o real, nova moeda do país, vinha de um plano de combate à inflação do governo Itamar Franco, que passou por várias fases, cortou zeros e afastou o fantasma da hiperinflação que rondou a vidas de todo mundo durante os anos 1980 e o começo dos anos 1990. O plano ajudou a catapultar a candidatura de Fernando Henrique Cardoso à presidência da república, deu uma organizada na bagunçadíssima economia do país na época e levou milhões de brasileiros aos shopping centers.
O sonho foi bom (digamos) enquanto durou. Para quem comprava discos, era o paraíso, pelo menos no início: grandes magazines vendiam CDs importados (boa parte deles eram de séries “best price” de gravadoras como Sony e Warner, o que era anunciado por um adesivo com ponto de exclamação na capa), álbuns novos eram mais encontrados em edições importadas do que em nacionais, lojas de discos que já tinham filiais viravam verdadeiras cadeias, espalhadas pelas cidades brasileiras. Com o tempo, claro, o acesso aos shoppings foi diminuindo, lojas foram fechando, a pirataria foi tomando conta e o sonho virou pesadelo pra uma turma bem grande.
OBRAS PARADAS. 1994 foi célebre por um detalhe que deixou uma turma enorme sem dormir, aqui no Brasil: pela primeira vez desde 1986 não houve um disco novo dos Engenheiros do Hawaii, banda que (tudo considerado) era a mais bem sucedida do rock brasileiro no começo dos anos 1990. O guitarrista Augusto Licks havia saído da banda após uma briga com o líder Humberto Gessinger e a banda ficou parada por uns tempos – o site Setlist.com indica que os shows ficaram suspensos de novembro de 1993 a outubro de 1994, com exceção de um aparição no Programa Livre, de Serginho Groisman, em janeiro.
O grupo anunciou um novo guitarrista para o lugar de Augusto, Ricardo Horn, mas o trio não funcionou. Em 1995 os Engenheiros seriam um quinteto e seriam ouvidos fazendo uma cafonérrima mescla de country e hard rock de arena no álbum Simples de coração.
ALIÁS E A PROPÓSITO os Paralamas do Sucesso davam uma lição de experimentalismo e “alternatividade” no rock nacional lançando em 1994 Severino, disco produzido pelo ex-Roxy Music Phil Manzanera. O álbum conseguiu estourar mais ou menos o rap-rock Cagaço, o balanço Dos margaritas e a balada esquisitaça O amor dorme – um prodígio, aliás. Os Titãs se recolheram e deram espaço a trabalhos individuais dos seus integrantes – Nando Reis estourou Onde você mora, feita com a então namorada Marisa Monte, no disco Sobre todas as forças, do Cidade Negra.
ROCK BOCA SUJA. Os pais se assustavam, os professores reclamavam, mas o fato é que naquele ano começava a fazer sucesso nas rádios o forró-core dos Raimundos, repleto de sacanagens politicamente incorretas e palavrões. Se hoje músicas como Puteiro em João Pessoa, Palhas do coqueiro (“debaixo de um teto de espelhos/é onde tu estás a me chifrar”) e Selim chocam hoje, na época a banda estreou com bênçãos de todos os benzedores possíveis, dos Titãs à MTV, e abriu a porteira para milhares de outros grupos que misturavam rock e ritmos brasileiros, além das novas bandas de Brasília (Little Quail and The Mad Birds, Maskavo Roots, etc).
Ouvindo o disco de estreia dos Raimundos com antecipação e anunciando o lançamento para maio de 1994, Fabio Massari (então VJ da MTV) comentava sobre a banda na Folha, já anunciando o esgotamento do termo “forró-core”: “Os Raimundos dão o que falar, e isso é bom. Mas o melhor é ouvir. E o ideal é não esperar por um disco-tratado sobre a nossa realidade que faça fusões com a tal da sonoridade nordestina”, escreveu.
ALIÁS E A PROPÓSITO, Raimundos, o primeiro disco epônimo da banda, marcava a estreia do Banguela, selo do produtor Carlos Eduardo Miranda com os Titãs. Outra invenção daquele ano, e um dos poucos selos indies nacionais ligados a grandes gravadoras (a Warner, no caso) a ocuparem lugar no mercado. Numa época de contenção de custos na gravadora, o selo chegou a ter um elenco maior do que o de sua nave-mãe.
ALTERNATIVAS A QUEM MESMO? Não havia como negar: considerado a cara musical do começo dos anos 1990, o termo “alternativo” ia se esgotando aos poucos. Usado para definir quase todo mundo que havia lançado disco entre 1991 e 1993 (e anteriormente, utilizado para falar de artistas que pertenciam a selos pequenos), acabou não conseguindo definir mais nada nem ninguém – era basicamente um nome cata-corno que bandeirava qualquer artista “jovem” que pusesse um pouco de sujeira a mais que o normal em seu som. Tanto que bandas que definitivamente não eram alternativas a nada, como o Live (do hit Pain lies on the riverside) eram ensanduichadas com grupos como Screaming Trees, Soundgarden, Alice In Chains e várias outras formações.
Todas essas bandas, claro, eram bastante desafiadoras (o Live, não!). Mas entregavam um som que era mais ou menos o que dava certo na época – variações em torno do heavy metal, do punk e da psiqué sombria do rock do começo dos anos 1990. Jornalistas reclamavam que aquele alternativo-nada-alternativo invadia até mesmo os festivais criados originalmente como canhões de comunicação para novas bandas. Como o Lollapalooza, que em 1994 receberia os bem sucedidíssimos Smashing Pumpkins, e quase recebeu o Nirvana, que recusou uma suposta oferta de US$ 10 milhões.
ALIÁS E A PROPÓSITO, o vocalista Kurt Cobain não foi sequer procurado para apitar nessa saída da banda. Principalmente porque nem sequer estava vivo para dizer sim ou não – o cadáver dele foi descoberto em 8 de abril, no dia seguinte ao anúncio da saída da banda do festival, e a perícia concluiu que ele já estava morto desde o dia 5.
E ENFIM, KURT SE FOI. “O dia em que a música morreu”, disse o periódico The Daily News no dia em que foi noticiado mundialmente o óbito de Kurt Cobain. O corpo foi encontrado por um eletricista, Gary Smith, contratado para fazer reparos na casa do músico em Seattle. Gary entrou na casa com relativa facilidade e, ao ver o corpo, inicialmente pensou que fosse um manequim jogado no chão. Toda a história a partir do momento em que encontram o corpo de Kurt é confusa e precisou passar por várias perícias e apurações. A começar pelo fato de que o músico tinha tanta heroína no sangue que dificilmente conseguiria pegar uma arma e atirar, o que deu início a uma enorme temporada de suspeitas de que ele havia sido assassinado.
Subitamente começaram a aparecer sinais de que Kurt, totalmente drogado e intratável, contou bastante com a falta de atenção das pessoas que o cercavam. A espingarda que foi encontrada perto de seu corpo (e que só seria periciada em maio) havia sido comprada para ele por um amigo, por exemplo. Poucos dias antes de rolar uma intervenção feita por seus amigos mais próximos, o baixista do Nirvana, Krist Novoselic, esteve com ele, e ficou impressionado com a falta de conexão do amigo com a realidade. Seja como for, a morte de Kurt foi uma nota muito triste, que não poderia encerrar de maneira mais deprimente a era grunge – e representou uma divisão de épocas no mercado musical.
NIRVANINHAS EM AÇÃO. Com o sucesso do Nirvana, várias bandas independentes foram contratadas por gravadoras grandes. Algumas dessas bandas ficariam mais algum tempo contratadas – o Mudhoney ficou na Reprise até 1998, o Helmet ficaria na Interscope até encerrar atividades, e em 2004 voltaria contratado do selo. Incrivelmente, a banda podre Melvins, clássico do sludge metal local, ficaria na Atlantic até 1997, com direito a uma discografia paralela e mais anticomercial ainda saindo por selos menores.
OASIS. Em 25 de setembro de 1994, o Rio Fanzine, seção alternativa do jornal carioca O Globo destacava uma “sensação do rock” chamada Oasis, cujo disco de estreia, Definitely maybe, tinha vendido 150 mil cópias em uma semana – e já era o disco de estreia mais vendido de todos os tempos na Inglaterra. Carlos Albuquerque, autor da matéria, destacava que o DJ John Peel havia falado para a banda que “John Lennon adoraria o som deles”. Nada de baixo astral: o guitarrista Noel Gallagher dizia que a música da banda era “sobre como a vida poderia ser melhor se você fosse uma estrela do rock ou se tivesse aquela garota inatingível”. Faixas como Live forever, Cigarettes and alcohol e Rock and roll star eram realmente impressionantes – aliás o disco todo era.
BRIT POP. O rock britânico, com raras exceções, estava escondido no começo dos anos 1990 – apesar de um hit do Suede ali, outro dos Soup Dragons acolá. Em 1994, o Blur lançava o redefinidor disco Parklife – um álbum mutante, influenciado tanto pela onda indie dance dos anos 1980 quanto pelo anglicismo storyteller de bandas como Kinks e Who (era o disco de Girls and boys, sem falar na faixa-título).
A disputa com o Oasis pela primazia do novo rock britânico viria a cavalo, claro. Mas, na briga, estavam o Suede com Dog man star, o Pulp com His’ n hers, o Ride, com Carnival of light. Isso tudo saiu em 1994. Ano por sinal, durante o qual o Elastica, grande sensação do rock britânico em 1995, já estava em estúdio gravando o álbum de estreia.
MAS AFINAL, EXISTIA ROCK ALTERNATIVO NESSA ÉPOCA? Sim, e muito. O termo podia ser usado para definir bandas que estavam até mesmo em grandes gravadoras, como Sonic Youth, Dinosaur Jr, Weezer (estreados naquele ano com o “blue album”), Posies e Teenage Fanclub (este, lançado na Inglaterra pela Creation e nos EUA pela DGC, selinho indie da grandalhona Geffen Records). No Brasil, valia para bandas como Pin-Ups, Second Come, Gangrena Gasosa, Pelv’s e Killing Chainsaw, ou até para O Rappa, banda de reggae rueiro que lançara seu primeiro álbum pela Warner, com péssima distribuição. Não valia nem um pouco para a fase “pesada” dos Titãs, já que os próprios, mesmo gravando versos como “não sei qual é o problema/qual é o problema, seu bosta?” faziam questão de lembrar que “a gente não é alternativo, a gente trabalha para a Warner”.
Valia igualmente para o Pavement, que em 1994 lançava o segundo disco, Crooked rain, crooked rain, para o Sugar, banda nova de Bob Mould (Hüsker Dü), para o Guided By Voices, para PJ Harvey, e para novos nomes do folk-rock como Grant Lee Buffalo e Uncle Tupelo (que daria origem ao Wilco naquele mesmo ano). Valia também para uma onda de indie rock lo-fi que se iniciava e que inspirou muitas bandas no Brasil: Sebadoh, Tall Dwarfs, Liz Phair (discos como Exile in guyville e Whip-smart fizeram cabeças). Aliás valia até para Beck, estourado em 1994 com o disco Mellow gold, mas que alternava álbuns independentes em meio a discos pela Geffen.
Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.
Cultura Pop
“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.
Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.
Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.
O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.
Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.
Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.
Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.
“Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.







































