Cultura Pop
O som de 1994: descubra agora!

Qual a música de 1994? A de 1991/1992 talvez fosse o grunge. A de 1994 era… tudo o que você puder imaginar, embora muita gente ainda reduza o começo da década ao estouro das bandas de Seattle. Tinha punk pop, reggae nacional, trilhas de novela obrigando todo mundo a ouvir Julio Iglesias, música desbocada em português e o retorno definitivo do rock britânico às paradas. Resumimos essa história de 30 anos atrás em alguns itens e possivelmente esquecemos de muita coisa. Mas tá aí.
GRANDES HITS DE 1994. Era a “era grunge”. Mas não era só rock, claro: tinha o grupo de hip hop TLC fazendo sucesso com Waterfalls, o Public Enemy continuando com Give it up, o argentino Fito Paez lançando o disco Circo beat, havia o comecinho da onda do funk melody (com clássicos como Mel da sua boca, do Copacabana Beat) e vai por aí. No Brasil, por causa do telesucesso A viagem, de Ivani Ribeiro, não houve ser humano vivo que escapasse de Crazy, cantada em inglês pelo espanhol Julio Iglesias, da versão de Art Garfunkel (o que fazia dupla com Paul Simon) de Why worry (Dire Straits) e de I’m your puppet, com Elton John e Paul Young. Por causa da mesma novela, os Pretenders conquistavam ouvintes por aqui com a romântica I’ll stand by you, e o sombrios Cramberries tinham fãs dos 8 aos 80 anos por causa de Linger.
FALANDO EM BRASIL… Fora daqui, discussões sobre o que era “rock alternativo” ou não, ganhavam terreno. No Brasil, por sua vez, quem ligasse o rádio a qualquer hora do dia, esbarrava com músicas dos discos novos do Skank (Calango), do Cidade Negra (Sobre todas as forças) ou com sucessos do pagode, como o Raça Negra, ou o grupo paulistano Cravo e Canela, que lançou em 1993 o disco Sabor de paz e ainda frequentava as rádios com o hit La vem o negão. O Raça Negra, por sinal, era uma das raras coisas a serem encontradas ainda em vinil nas cadeias de lojas de discos brasileiras, já que o formato foi abandonado em prol do CD. Em 1994, divulgavam o disco que trazia os hits Me leva junto com você e Te quero comigo, além da versão pagode de Pro dia nascer feliz, do Barão Vermelho.
Hits mais emepebísticos daquele ano, como Segue o seco, de Marisa Monte, Malandragem, de Cássia Eller, e Catedral, estreia de Zélia Duncan, foram tão importantes na época que tocaram loucamente no rádio, e alguns deles ressurgiram, premiados ou indicados, no primeiro Video Music Brasil, da MTV nacional, em 1995. Chico Science e Nação Zumbi também estreavam com Da lama ao caos, que angariou fãs, rendeu prestígio, shows, e pôs Chico no inconsciente coletivo do pop nacional. Já Zeca Pagodinho, incrivelmente, não era um grande hit nem um grande vendedor de discos naquele ano: só em 1995 ele teria uma retomada com Samba pras moças.
AXÉ. Em 1994 ninguém dançava ainda ao som do É O Tchan. Por um motivo básico: a banda de pagode baiano não apenas ainda não havia gravado seu primeiro disco (que sairia em 1995) como ainda se chamava Gera Samba. O nome foi abandonado após um cisão no grupo, que adotou o nome de seu primeiro hit, É o tchan. Após um período em que a música baiana foi chamada em alguns estados pelo nome genérico de “timbalada”, tirado do grupo criado por Carlinhos Brown (a filial carioca da Rádio Cidade chegou a ter um programa chamado Timbalada da cidade, por exemplo), o nome “axé music”, tirado do nome de um disco da Banda Beijo, passou a ser usado por jornalistas entre 1993 e 1994. Hits como Dia de festa, de Netinho, Música de rua, de Daniela Mercury, e Alô paixão, da Banda Eva, são dessa época.
E LÁ FORA? Kurt Cobain havia se tornado um ser humano misterioso, problemático, escondido das vistas dos fãs e da mídia – e evidentemente, todo mundo queria saber dos passos dele, ou se o Nirvana ainda continuaria. Não continuou, como ficou público e notório. O único lançamento da banda naquele ano, Unplugged in New York, saiu póstumo, em novembro. Por outro lado, foi um ano excelente para estilos como trip hop (saiu Dummy, do Portishead), techno (nomes como Banco de Gaia estrearam naquele ano), para o lado mais selvagem do eletrônico (Music for a jilted generation, do Prodigy, é deste ano).
E havia muito espaço para o punk renovado feito nos Estados Unidos. Após uma pequena briga entre selos, o Green Day foi para a Reprise e lançou Dookie. O Offspring, contratado da pequena Epitaph, pegou feito piolho em creche com o álbum Smash. O Bad Religion foi para a Atlantic e lançou Stranger than fiction. Seattle ainda comandava a (digamos) festa: era quase dever cívico para roqueiros de todos os estilos ouvir do começo ao fim Superunknown, disco do Soundgarden lançado em 8 de março.
TEVE MADONNA. Tentando escapar de qualquer estigma que o disco Erotica (1992) tenha lhe pregado, Madonna voltou fazendo pop romântico “adulto” e som mainstream no disco Bedtime stories, que saiu em 25 de outubro daquele ano. Músicas como Secret, Human nature e Take a bow tocaram muito no rádio e na MTV e redefiniram a imagem de Madonna, mais suavizada e madura. “O sexo é um assunto tão tabu, e é uma distração que eu prefiro nem oferecer”, chegou a dizer a cantora, reclamando que foi mal interpretada na época de Erotica e do livro Sex.
TEVE MARIAH CAREY. O sucesso do álbum Music box (1993), alternando canções de r&b com baladas açucaradas, ainda rendia – três dos cinco singles do disco saíram em 1994, inclusive o gospel Anytime you need a friend. Mas por acaso, Mariah decidiu encerrar 1994 lançando um disco de Natal, Merry Christmas, que virou presente imediato de fim de ano. All I want for Christimas is you, parceria da cantora com o produtor Walter Afanasieff, virou um dos maiores sucessos de todos os tempos – e voltou a fazer sucesso, resgatada pelo streaming e pelo tik tok.
E TEVE R.E.M.. Monster, álbum do R.E.M. lançado em 27 de setembro, largava o som quase folk dos discos anteriores e pesava a mão: guitarras altas, riffs e melodias intensas dominavam o álbum, que abria com uma guitarrada à moda de Ziggy Stardust, de David Bowie (no hit What’s the frequency, Kenneth?) e ainda homenageava Kurt Cobain e o ator River Phoenix, mortos naquele ano. Tão mainstream que parecia parte da paisagem musical dos anos 1990, o R.E.M. estava bem a fim de voltar aos palcos para divulgar o disco (não excursionavam desde 1989). Tanto que o grupo gravou muita coisa do álbum quase ao vivo. Mas o afastamento do grupo do dia a dia das turnês era tão grande que, basicamente, Michael Stipe e cia tiveram que reaprender a existir como banda.
E TEVE… WOODSTOCK? Teve: em 12 de agosto teve início o Woodstock 2 ou Woodstock 94, segunda edição da feira de música de 1969, com uma mescla de muitos artistas recentes (Green Day, Red Hot Chili Peppers, Nine Inch Nails, Cranberries, Metallica, Primus) e alguns antigos (Bob Dylan, que não havia se apresentado no festival original, e Joe Cocker, que havia feito bastante sucesso no evento em 1969). Como no evento de 1969, houve poucas mortes, muita gente querendo entrar e… prejuízo, já que os sem-ingresso não tiveram dificuldades para entrar na Fazenda Winston, a oeste de Saugerties, Nova York, onde rolou tudo. No Brasil, um compacto com os melhores momentos foi exibido pela Band, num programa curiosamente chamado Hollywood Rock in Concert (mas que nada tinha a ver com o festival de mesmo nome, quase privativo da Rede Globo).
DAVI CONTRA GOLIAS. A batalha bíblica foi citada como exemplo para definir a briga da banda norte-americana Pearl Jam contra a gigante dos ingressos Ticketmaster, que durou o ano de 1994. Eddie Vedder, cantor do grupo, reclamava do monopólio da empresa e das taxas que encareciam os ingressos. O grupo decidiu não fazer mais shows nos Estados Unidos, o Pearl Jam entrou com uma queixa antitruste contra a empresa e o Departamento de Justiça abordou a banda para que rolasse uma investigação federal na Ticketmaster.
A investigação não deu em muita coisa (“felizmente os fatos estavam do nosso lado e nós vencemos”, disse um porta-voz). O Pearl Jam lançou em novembro de 1994 um disco, Vitalogy, que fez sucesso a ponto de conseguir emplacar sua versão em vinil (formato ultrapassado na época) nas paradas. Mesmo assim, problemas aguardavam o grupo: boicotando e provocando a Ticketmaster, a banda iniciou em 1995 uma turnê auto-produzida, em que ingressos eram vendidos por empresas alternativas. O estresse foi imenso, e a banda praticamente ficou isolada, sem muitos apoios.
MAIS GRANA? Lançado em 1º de julho de 1994, o real, nova moeda do país, vinha de um plano de combate à inflação do governo Itamar Franco, que passou por várias fases, cortou zeros e afastou o fantasma da hiperinflação que rondou a vidas de todo mundo durante os anos 1980 e o começo dos anos 1990. O plano ajudou a catapultar a candidatura de Fernando Henrique Cardoso à presidência da república, deu uma organizada na bagunçadíssima economia do país na época e levou milhões de brasileiros aos shopping centers.
O sonho foi bom (digamos) enquanto durou. Para quem comprava discos, era o paraíso, pelo menos no início: grandes magazines vendiam CDs importados (boa parte deles eram de séries “best price” de gravadoras como Sony e Warner, o que era anunciado por um adesivo com ponto de exclamação na capa), álbuns novos eram mais encontrados em edições importadas do que em nacionais, lojas de discos que já tinham filiais viravam verdadeiras cadeias, espalhadas pelas cidades brasileiras. Com o tempo, claro, o acesso aos shoppings foi diminuindo, lojas foram fechando, a pirataria foi tomando conta e o sonho virou pesadelo pra uma turma bem grande.
OBRAS PARADAS. 1994 foi célebre por um detalhe que deixou uma turma enorme sem dormir, aqui no Brasil: pela primeira vez desde 1986 não houve um disco novo dos Engenheiros do Hawaii, banda que (tudo considerado) era a mais bem sucedida do rock brasileiro no começo dos anos 1990. O guitarrista Augusto Licks havia saído da banda após uma briga com o líder Humberto Gessinger e a banda ficou parada por uns tempos – o site Setlist.com indica que os shows ficaram suspensos de novembro de 1993 a outubro de 1994, com exceção de um aparição no Programa Livre, de Serginho Groisman, em janeiro.
O grupo anunciou um novo guitarrista para o lugar de Augusto, Ricardo Horn, mas o trio não funcionou. Em 1995 os Engenheiros seriam um quinteto e seriam ouvidos fazendo uma cafonérrima mescla de country e hard rock de arena no álbum Simples de coração.
ALIÁS E A PROPÓSITO os Paralamas do Sucesso davam uma lição de experimentalismo e “alternatividade” no rock nacional lançando em 1994 Severino, disco produzido pelo ex-Roxy Music Phil Manzanera. O álbum conseguiu estourar mais ou menos o rap-rock Cagaço, o balanço Dos margaritas e a balada esquisitaça O amor dorme – um prodígio, aliás. Os Titãs se recolheram e deram espaço a trabalhos individuais dos seus integrantes – Nando Reis estourou Onde você mora, feita com a então namorada Marisa Monte, no disco Sobre todas as forças, do Cidade Negra.
ROCK BOCA SUJA. Os pais se assustavam, os professores reclamavam, mas o fato é que naquele ano começava a fazer sucesso nas rádios o forró-core dos Raimundos, repleto de sacanagens politicamente incorretas e palavrões. Se hoje músicas como Puteiro em João Pessoa, Palhas do coqueiro (“debaixo de um teto de espelhos/é onde tu estás a me chifrar”) e Selim chocam hoje, na época a banda estreou com bênçãos de todos os benzedores possíveis, dos Titãs à MTV, e abriu a porteira para milhares de outros grupos que misturavam rock e ritmos brasileiros, além das novas bandas de Brasília (Little Quail and The Mad Birds, Maskavo Roots, etc).
Ouvindo o disco de estreia dos Raimundos com antecipação e anunciando o lançamento para maio de 1994, Fabio Massari (então VJ da MTV) comentava sobre a banda na Folha, já anunciando o esgotamento do termo “forró-core”: “Os Raimundos dão o que falar, e isso é bom. Mas o melhor é ouvir. E o ideal é não esperar por um disco-tratado sobre a nossa realidade que faça fusões com a tal da sonoridade nordestina”, escreveu.
ALIÁS E A PROPÓSITO, Raimundos, o primeiro disco epônimo da banda, marcava a estreia do Banguela, selo do produtor Carlos Eduardo Miranda com os Titãs. Outra invenção daquele ano, e um dos poucos selos indies nacionais ligados a grandes gravadoras (a Warner, no caso) a ocuparem lugar no mercado. Numa época de contenção de custos na gravadora, o selo chegou a ter um elenco maior do que o de sua nave-mãe.
ALTERNATIVAS A QUEM MESMO? Não havia como negar: considerado a cara musical do começo dos anos 1990, o termo “alternativo” ia se esgotando aos poucos. Usado para definir quase todo mundo que havia lançado disco entre 1991 e 1993 (e anteriormente, utilizado para falar de artistas que pertenciam a selos pequenos), acabou não conseguindo definir mais nada nem ninguém – era basicamente um nome cata-corno que bandeirava qualquer artista “jovem” que pusesse um pouco de sujeira a mais que o normal em seu som. Tanto que bandas que definitivamente não eram alternativas a nada, como o Live (do hit Pain lies on the riverside) eram ensanduichadas com grupos como Screaming Trees, Soundgarden, Alice In Chains e várias outras formações.
Todas essas bandas, claro, eram bastante desafiadoras (o Live, não!). Mas entregavam um som que era mais ou menos o que dava certo na época – variações em torno do heavy metal, do punk e da psiqué sombria do rock do começo dos anos 1990. Jornalistas reclamavam que aquele alternativo-nada-alternativo invadia até mesmo os festivais criados originalmente como canhões de comunicação para novas bandas. Como o Lollapalooza, que em 1994 receberia os bem sucedidíssimos Smashing Pumpkins, e quase recebeu o Nirvana, que recusou uma suposta oferta de US$ 10 milhões.
ALIÁS E A PROPÓSITO, o vocalista Kurt Cobain não foi sequer procurado para apitar nessa saída da banda. Principalmente porque nem sequer estava vivo para dizer sim ou não – o cadáver dele foi descoberto em 8 de abril, no dia seguinte ao anúncio da saída da banda do festival, e a perícia concluiu que ele já estava morto desde o dia 5.
E ENFIM, KURT SE FOI. “O dia em que a música morreu”, disse o periódico The Daily News no dia em que foi noticiado mundialmente o óbito de Kurt Cobain. O corpo foi encontrado por um eletricista, Gary Smith, contratado para fazer reparos na casa do músico em Seattle. Gary entrou na casa com relativa facilidade e, ao ver o corpo, inicialmente pensou que fosse um manequim jogado no chão. Toda a história a partir do momento em que encontram o corpo de Kurt é confusa e precisou passar por várias perícias e apurações. A começar pelo fato de que o músico tinha tanta heroína no sangue que dificilmente conseguiria pegar uma arma e atirar, o que deu início a uma enorme temporada de suspeitas de que ele havia sido assassinado.
Subitamente começaram a aparecer sinais de que Kurt, totalmente drogado e intratável, contou bastante com a falta de atenção das pessoas que o cercavam. A espingarda que foi encontrada perto de seu corpo (e que só seria periciada em maio) havia sido comprada para ele por um amigo, por exemplo. Poucos dias antes de rolar uma intervenção feita por seus amigos mais próximos, o baixista do Nirvana, Krist Novoselic, esteve com ele, e ficou impressionado com a falta de conexão do amigo com a realidade. Seja como for, a morte de Kurt foi uma nota muito triste, que não poderia encerrar de maneira mais deprimente a era grunge – e representou uma divisão de épocas no mercado musical.
NIRVANINHAS EM AÇÃO. Com o sucesso do Nirvana, várias bandas independentes foram contratadas por gravadoras grandes. Algumas dessas bandas ficariam mais algum tempo contratadas – o Mudhoney ficou na Reprise até 1998, o Helmet ficaria na Interscope até encerrar atividades, e em 2004 voltaria contratado do selo. Incrivelmente, a banda podre Melvins, clássico do sludge metal local, ficaria na Atlantic até 1997, com direito a uma discografia paralela e mais anticomercial ainda saindo por selos menores.
OASIS. Em 25 de setembro de 1994, o Rio Fanzine, seção alternativa do jornal carioca O Globo destacava uma “sensação do rock” chamada Oasis, cujo disco de estreia, Definitely maybe, tinha vendido 150 mil cópias em uma semana – e já era o disco de estreia mais vendido de todos os tempos na Inglaterra. Carlos Albuquerque, autor da matéria, destacava que o DJ John Peel havia falado para a banda que “John Lennon adoraria o som deles”. Nada de baixo astral: o guitarrista Noel Gallagher dizia que a música da banda era “sobre como a vida poderia ser melhor se você fosse uma estrela do rock ou se tivesse aquela garota inatingível”. Faixas como Live forever, Cigarettes and alcohol e Rock and roll star eram realmente impressionantes – aliás o disco todo era.
BRIT POP. O rock britânico, com raras exceções, estava escondido no começo dos anos 1990 – apesar de um hit do Suede ali, outro dos Soup Dragons acolá. Em 1994, o Blur lançava o redefinidor disco Parklife – um álbum mutante, influenciado tanto pela onda indie dance dos anos 1980 quanto pelo anglicismo storyteller de bandas como Kinks e Who (era o disco de Girls and boys, sem falar na faixa-título).
A disputa com o Oasis pela primazia do novo rock britânico viria a cavalo, claro. Mas, na briga, estavam o Suede com Dog man star, o Pulp com His’ n hers, o Ride, com Carnival of light. Isso tudo saiu em 1994. Ano por sinal, durante o qual o Elastica, grande sensação do rock britânico em 1995, já estava em estúdio gravando o álbum de estreia.
MAS AFINAL, EXISTIA ROCK ALTERNATIVO NESSA ÉPOCA? Sim, e muito. O termo podia ser usado para definir bandas que estavam até mesmo em grandes gravadoras, como Sonic Youth, Dinosaur Jr, Weezer (estreados naquele ano com o “blue album”), Posies e Teenage Fanclub (este, lançado na Inglaterra pela Creation e nos EUA pela DGC, selinho indie da grandalhona Geffen Records). No Brasil, valia para bandas como Pin-Ups, Second Come, Gangrena Gasosa, Pelv’s e Killing Chainsaw, ou até para O Rappa, banda de reggae rueiro que lançara seu primeiro álbum pela Warner, com péssima distribuição. Não valia nem um pouco para a fase “pesada” dos Titãs, já que os próprios, mesmo gravando versos como “não sei qual é o problema/qual é o problema, seu bosta?” faziam questão de lembrar que “a gente não é alternativo, a gente trabalha para a Warner”.
Valia igualmente para o Pavement, que em 1994 lançava o segundo disco, Crooked rain, crooked rain, para o Sugar, banda nova de Bob Mould (Hüsker Dü), para o Guided By Voices, para PJ Harvey, e para novos nomes do folk-rock como Grant Lee Buffalo e Uncle Tupelo (que daria origem ao Wilco naquele mesmo ano). Valia também para uma onda de indie rock lo-fi que se iniciava e que inspirou muitas bandas no Brasil: Sebadoh, Tall Dwarfs, Liz Phair (discos como Exile in guyville e Whip-smart fizeram cabeças). Aliás valia até para Beck, estourado em 1994 com o disco Mellow gold, mas que alternava álbuns independentes em meio a discos pela Geffen.
Cultura Pop
Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.
O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.
Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.
Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.
A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.
Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?
Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração
O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.
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Cultura Pop
Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.
Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.
Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.
A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.
No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.
Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.
Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.
Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.
Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.
Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.
No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.
Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.
Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.
Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.
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Cultura Pop
Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.
Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.
O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.
Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.
Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.
Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.
De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.
Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.
Foto: Reprodução Internet






































