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Cultura Pop

O som de 1994: descubra agora!

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O som de 1994: descubra agora!

Qual a música de 1994? A de 1991/1992 talvez fosse o grunge. A de 1994 era… tudo o que você puder imaginar, embora muita gente ainda reduza o começo da década ao estouro das bandas de Seattle. Tinha punk pop, reggae nacional, trilhas de novela obrigando todo mundo a ouvir Julio Iglesias, música desbocada em português e o retorno definitivo do rock britânico às paradas. Resumimos essa história de 30 anos atrás em alguns itens e possivelmente esquecemos de muita coisa. Mas tá aí.

GRANDES HITS DE 1994. Era a “era grunge”. Mas não era só rock, claro: tinha o grupo de hip hop TLC fazendo sucesso com Waterfalls, o Public Enemy continuando com Give it up, o argentino Fito Paez lançando o disco Circo beat, havia o comecinho da onda do funk melody (com clássicos como Mel da sua boca, do Copacabana Beat) e vai por aí. No Brasil, por causa do telesucesso A viagem, de Ivani Ribeiro, não houve ser humano vivo que escapasse de Crazy, cantada em inglês pelo espanhol Julio Iglesias, da versão de Art Garfunkel (o que fazia dupla com Paul Simon) de Why worry (Dire Straits) e de I’m your puppet, com Elton John e Paul Young. Por causa da mesma novela, os Pretenders conquistavam ouvintes por aqui com a romântica I’ll stand by you, e o sombrios Cramberries tinham fãs dos 8 aos 80 anos por causa de Linger.

FALANDO EM BRASIL… Fora daqui, discussões sobre o que era “rock alternativo” ou não, ganhavam terreno. No Brasil, por sua vez, quem ligasse o rádio a qualquer hora do dia, esbarrava com músicas dos discos novos do Skank (Calango), do Cidade Negra (Sobre todas as forças) ou com sucessos do pagode, como o Raça Negra, ou o grupo paulistano Cravo e Canela, que lançou em 1993 o disco Sabor de paz e ainda frequentava as rádios com o hit La vem o negão. O Raça Negra, por sinal, era uma das raras coisas a serem encontradas ainda em vinil nas cadeias de lojas de discos brasileiras, já que o formato foi abandonado em prol do CD. Em 1994, divulgavam o disco que trazia os hits Me leva junto com você e Te quero comigo, além da versão pagode de Pro dia nascer feliz, do Barão Vermelho.

Hits mais emepebísticos daquele ano, como Segue o seco, de Marisa Monte, Malandragem, de Cássia Eller, e Catedral, estreia de Zélia Duncan, foram tão importantes na época que tocaram loucamente no rádio, e alguns deles ressurgiram, premiados ou indicados, no primeiro Video Music Brasil, da MTV nacional, em 1995. Chico Science e Nação Zumbi também estreavam com Da lama ao caos, que angariou fãs, rendeu prestígio, shows, e pôs Chico no inconsciente coletivo do pop nacional. Já Zeca Pagodinho, incrivelmente, não era um grande hit nem um grande vendedor de discos naquele ano: só em 1995 ele teria uma retomada com Samba pras moças.

AXÉ. Em 1994 ninguém dançava ainda ao som do É O Tchan. Por um motivo básico: a banda de pagode baiano não apenas ainda não havia gravado seu primeiro disco (que sairia em 1995) como ainda se chamava Gera Samba. O nome foi abandonado após um cisão no grupo, que adotou o nome de seu primeiro hit, É o tchan. Após um período em que a música baiana foi chamada em alguns estados pelo nome genérico de “timbalada”, tirado do grupo criado por Carlinhos Brown (a filial carioca da Rádio Cidade chegou a ter um programa chamado Timbalada da cidade, por exemplo), o nome “axé music”, tirado do nome de um disco da Banda Beijo, passou a ser usado por jornalistas entre 1993 e 1994. Hits como Dia de festa, de Netinho, Música de rua, de Daniela Mercury, e Alô paixão, da Banda Eva, são dessa época.

E LÁ FORA? Kurt Cobain havia se tornado um ser humano misterioso, problemático, escondido das vistas dos fãs e da mídia – e evidentemente, todo mundo queria saber dos passos dele, ou se o Nirvana ainda continuaria. Não continuou, como ficou público e notório. O único lançamento da banda naquele ano, Unplugged in New York, saiu póstumo, em novembro. Por outro lado, foi um ano excelente para estilos como trip hop (saiu Dummy, do Portishead), techno (nomes como Banco de Gaia estrearam naquele ano), para o lado mais selvagem do eletrônico (Music for a jilted generation, do Prodigy, é deste ano).

E havia muito espaço para o punk renovado feito nos Estados Unidos. Após uma pequena briga entre selos, o Green Day foi para a Reprise e lançou Dookie. O Offspring, contratado da pequena Epitaph, pegou feito piolho em creche com o álbum Smash. O Bad Religion foi para a Atlantic e lançou Stranger than fiction. Seattle ainda comandava a (digamos) festa: era quase dever cívico para roqueiros de todos os estilos ouvir do começo ao fim Superunknown, disco do Soundgarden lançado em 8 de março.

TEVE MADONNA. Tentando escapar de qualquer estigma que o disco Erotica (1992) tenha lhe pregado, Madonna voltou fazendo pop romântico “adulto” e som mainstream no disco Bedtime stories, que saiu em 25 de outubro daquele ano. Músicas como Secret, Human nature e Take a bow tocaram muito no rádio e na MTV e redefiniram a imagem de Madonna, mais suavizada e madura. “O sexo é um assunto tão tabu, e é uma distração que eu prefiro nem oferecer”, chegou a dizer a cantora, reclamando que foi mal interpretada na época de Erotica e do livro Sex.

TEVE MARIAH CAREY. O sucesso do álbum Music box (1993), alternando canções de r&b com baladas açucaradas, ainda rendia – três dos cinco singles do disco saíram em 1994, inclusive o gospel Anytime you need a friend. Mas por acaso, Mariah decidiu encerrar 1994 lançando um disco de Natal, Merry Christmas, que virou presente imediato de fim de ano. All I want for Christimas is you, parceria da cantora com o produtor Walter Afanasieff, virou um dos maiores sucessos de todos os tempos – e voltou a fazer sucesso, resgatada pelo streaming e pelo tik tok.

E TEVE R.E.M.. Monster, álbum do R.E.M. lançado em 27 de setembro, largava o som quase folk dos discos anteriores e pesava a mão: guitarras altas, riffs e melodias intensas dominavam o álbum, que abria com uma guitarrada à moda de Ziggy Stardust, de David Bowie (no hit What’s the frequency, Kenneth?) e ainda homenageava Kurt Cobain e o ator River Phoenix, mortos naquele ano. Tão mainstream que parecia parte da paisagem musical dos anos 1990, o R.E.M. estava bem a fim de voltar aos palcos para divulgar o disco (não excursionavam desde 1989). Tanto que o grupo gravou muita coisa do álbum quase ao vivo. Mas o afastamento do grupo do dia a dia das turnês era tão grande que, basicamente, Michael Stipe e cia tiveram que reaprender a existir como banda.

E TEVE… WOODSTOCK? Teve: em 12 de agosto teve início o Woodstock 2 ou Woodstock 94, segunda edição da feira de música de 1969, com uma mescla de muitos artistas recentes (Green Day, Red Hot Chili Peppers, Nine Inch Nails, Cranberries, Metallica, Primus) e alguns antigos (Bob Dylan, que não havia se apresentado no festival original, e Joe Cocker, que havia feito bastante sucesso no evento em 1969). Como no evento de 1969, houve poucas mortes, muita gente querendo entrar e… prejuízo, já que os sem-ingresso não tiveram dificuldades para entrar na Fazenda Winston, a oeste de Saugerties, Nova York, onde rolou tudo. No Brasil, um compacto com os melhores momentos foi exibido pela Band, num programa curiosamente chamado Hollywood Rock in Concert (mas que nada tinha a ver com o festival de mesmo nome, quase privativo da Rede Globo).

DAVI CONTRA GOLIAS. A batalha bíblica foi citada como exemplo para definir a briga da banda norte-americana Pearl Jam contra a gigante dos ingressos Ticketmaster, que durou o ano de 1994. Eddie Vedder, cantor do grupo, reclamava do monopólio da empresa e das taxas que encareciam os ingressos. O grupo decidiu não fazer mais shows nos Estados Unidos, o Pearl Jam entrou com uma queixa antitruste contra a empresa e o Departamento de Justiça abordou a banda para que rolasse uma investigação federal na Ticketmaster.

A investigação não deu em muita coisa (“felizmente os fatos estavam do nosso lado e nós vencemos”, disse um porta-voz). O Pearl Jam lançou em novembro de 1994 um disco, Vitalogy, que fez sucesso a ponto de conseguir emplacar sua versão em vinil (formato ultrapassado na época) nas paradas. Mesmo assim, problemas aguardavam o grupo: boicotando e provocando a Ticketmaster, a banda iniciou em 1995 uma turnê auto-produzida, em que ingressos eram vendidos por empresas alternativas. O estresse foi imenso, e a banda praticamente ficou isolada, sem muitos apoios.

MAIS GRANA? Lançado em 1º de julho de 1994, o real, nova moeda do país, vinha de um plano de combate à inflação do governo Itamar Franco, que passou por várias fases, cortou zeros e afastou o fantasma da hiperinflação que rondou a vidas de todo mundo durante os anos 1980 e o começo dos anos 1990. O plano ajudou a catapultar a candidatura de Fernando Henrique Cardoso à presidência da república, deu uma organizada na bagunçadíssima economia do país na época e levou milhões de brasileiros aos shopping centers.

O sonho foi bom (digamos) enquanto durou. Para quem comprava discos, era o paraíso, pelo menos no início: grandes magazines vendiam CDs importados (boa parte deles eram de séries “best price” de gravadoras como Sony e Warner, o que era anunciado por um adesivo com ponto de exclamação na capa), álbuns novos eram mais encontrados em edições importadas do que em nacionais, lojas de discos que já tinham filiais viravam verdadeiras cadeias, espalhadas pelas cidades brasileiras. Com o tempo, claro, o acesso aos shoppings foi diminuindo, lojas foram fechando, a pirataria foi tomando conta e o sonho virou pesadelo pra uma turma bem grande.

OBRAS PARADAS. 1994 foi célebre por um detalhe que deixou uma turma enorme sem dormir, aqui no Brasil: pela primeira vez desde 1986 não houve um disco novo dos Engenheiros do Hawaii, banda que (tudo considerado) era a mais bem sucedida do rock brasileiro no começo dos anos 1990. O guitarrista Augusto Licks havia saído da banda após uma briga com o líder Humberto Gessinger e a banda ficou parada por uns tempos  – o site Setlist.com indica que os shows ficaram suspensos de novembro de 1993 a outubro de 1994, com exceção de um aparição no Programa Livre, de Serginho Groisman, em janeiro.

O grupo anunciou um novo guitarrista para o lugar de Augusto, Ricardo Horn, mas o trio não funcionou. Em 1995 os Engenheiros seriam um quinteto e seriam ouvidos fazendo uma cafonérrima mescla de country e hard rock de arena no álbum Simples de coração.

ALIÁS E A PROPÓSITO os Paralamas do Sucesso davam uma lição de experimentalismo e “alternatividade” no rock nacional lançando em 1994 Severino, disco produzido pelo ex-Roxy Music Phil Manzanera. O álbum conseguiu estourar mais ou menos o rap-rock Cagaço, o balanço Dos margaritas e a balada esquisitaça O amor dorme – um prodígio, aliás. Os Titãs se recolheram e deram espaço a trabalhos individuais dos seus integrantes – Nando Reis estourou Onde você mora, feita com a então namorada Marisa Monte, no disco Sobre todas as forças, do Cidade Negra.

ROCK BOCA SUJA. Os pais se assustavam, os professores reclamavam, mas o fato é que naquele ano começava a fazer sucesso nas rádios o forró-core dos Raimundos, repleto de sacanagens politicamente incorretas e palavrões. Se hoje músicas como Puteiro em João Pessoa, Palhas do coqueiro (“debaixo de um teto de espelhos/é onde tu estás a me chifrar”) e Selim chocam hoje, na época a banda estreou com bênçãos de todos os benzedores possíveis, dos Titãs à MTV, e abriu a porteira para milhares de outros grupos que misturavam rock e ritmos brasileiros, além das novas bandas de Brasília (Little Quail and The Mad Birds, Maskavo Roots, etc).

Ouvindo o disco de estreia dos Raimundos com antecipação e anunciando o lançamento para maio de 1994, Fabio Massari (então VJ da MTV) comentava sobre a banda na Folha, já anunciando o esgotamento do termo “forró-core”: “Os Raimundos dão o que falar, e isso é bom. Mas o melhor é ouvir. E o ideal é não esperar por um disco-tratado sobre a nossa realidade que faça fusões com a tal da sonoridade nordestina”, escreveu.

ALIÁS E A PROPÓSITO, Raimundos, o primeiro disco epônimo da banda, marcava a estreia do Banguela, selo do produtor Carlos Eduardo Miranda com os Titãs. Outra invenção daquele ano, e um dos poucos selos indies nacionais ligados a grandes gravadoras (a Warner, no caso) a ocuparem lugar no mercado. Numa época de contenção de custos na gravadora, o selo chegou a ter um elenco maior do que o de sua nave-mãe.

ALTERNATIVAS A QUEM MESMO? Não havia como negar: considerado a cara musical do começo dos anos 1990, o termo “alternativo” ia se esgotando aos poucos. Usado para definir quase todo mundo que havia lançado disco entre 1991 e 1993 (e anteriormente, utilizado para falar de artistas que pertenciam a selos pequenos), acabou não conseguindo definir mais nada nem ninguém – era basicamente um nome cata-corno que bandeirava qualquer artista “jovem” que pusesse um pouco de sujeira a mais que o normal em seu som. Tanto que bandas que definitivamente não eram alternativas a nada, como o Live (do hit Pain lies on the riverside) eram ensanduichadas com grupos como Screaming Trees, Soundgarden, Alice In Chains e várias outras formações.

Todas essas bandas, claro, eram bastante desafiadoras (o Live, não!). Mas entregavam um som que era mais ou menos o que dava certo na época – variações em torno do heavy metal, do punk e da psiqué sombria do rock do começo dos anos 1990. Jornalistas reclamavam que aquele alternativo-nada-alternativo invadia até mesmo os festivais criados originalmente como canhões de comunicação para novas bandas. Como o Lollapalooza, que em 1994 receberia os bem sucedidíssimos Smashing Pumpkins, e quase recebeu o Nirvana, que recusou uma suposta oferta de US$ 10 milhões.

ALIÁS E A PROPÓSITO, o vocalista Kurt Cobain não foi sequer procurado para apitar nessa saída da banda. Principalmente porque nem sequer estava vivo para dizer sim ou não – o cadáver dele foi descoberto em 8 de abril, no dia seguinte ao anúncio da saída da banda do festival, e a perícia concluiu que ele já estava morto desde o dia 5.

E ENFIM, KURT SE FOI. “O dia em que a música morreu”, disse o periódico The Daily News no dia em que foi noticiado mundialmente o óbito de Kurt Cobain. O corpo foi encontrado por um eletricista, Gary Smith, contratado para fazer reparos na casa do músico em Seattle. Gary entrou na casa com relativa facilidade e, ao ver o corpo, inicialmente pensou que fosse um manequim jogado no chão. Toda a história a partir do momento em que encontram o corpo de Kurt é confusa e precisou passar por várias perícias e apurações. A começar pelo fato de que o músico tinha tanta heroína no sangue que dificilmente conseguiria pegar uma arma e atirar, o que deu início a uma enorme temporada de suspeitas de que ele havia sido assassinado.

Subitamente começaram a aparecer sinais de que Kurt, totalmente drogado e intratável, contou bastante com a falta de atenção das pessoas que o cercavam. A espingarda que foi encontrada perto de seu corpo (e que só seria periciada em maio) havia sido comprada para ele por um amigo, por exemplo. Poucos dias antes de rolar uma intervenção feita por seus amigos mais próximos, o baixista do Nirvana, Krist Novoselic, esteve com ele, e ficou impressionado com a falta de conexão do amigo com a realidade. Seja como for, a morte de Kurt foi uma nota muito triste, que não poderia encerrar de maneira mais deprimente a era grunge – e representou uma divisão de épocas no mercado musical.

NIRVANINHAS EM AÇÃO. Com o sucesso do Nirvana, várias bandas independentes foram contratadas por gravadoras grandes. Algumas dessas bandas ficariam mais algum tempo contratadas – o Mudhoney ficou na Reprise até 1998, o Helmet ficaria na Interscope até encerrar atividades, e em 2004 voltaria contratado do selo. Incrivelmente, a banda podre Melvins, clássico do sludge metal local, ficaria na Atlantic até 1997, com direito a uma discografia paralela e mais anticomercial ainda saindo por selos menores.

OASIS. Em 25 de setembro de 1994, o Rio Fanzine, seção alternativa do jornal carioca O Globo destacava uma “sensação do rock” chamada Oasis, cujo disco de estreia, Definitely maybe, tinha vendido 150 mil cópias em uma semana – e já era o disco de estreia mais vendido de todos os tempos na Inglaterra. Carlos Albuquerque, autor da matéria, destacava que o DJ John Peel havia falado para a banda que “John Lennon adoraria o som deles”. Nada de baixo astral: o guitarrista Noel Gallagher dizia que a música da banda era “sobre como a vida poderia ser melhor se você fosse uma estrela do rock ou se tivesse aquela garota inatingível”. Faixas como Live forever, Cigarettes and alcohol e Rock and roll star eram realmente impressionantes – aliás o disco todo era.

BRIT POP. O rock britânico, com raras exceções, estava escondido no começo dos anos 1990 – apesar de um hit do Suede ali, outro dos Soup Dragons acolá. Em 1994, o Blur lançava o redefinidor disco Parklife – um álbum mutante, influenciado tanto pela onda indie dance dos anos 1980 quanto pelo anglicismo storyteller de bandas como Kinks e Who (era o disco de Girls and boys, sem falar na faixa-título).

A disputa com o Oasis pela primazia do novo rock britânico viria a cavalo, claro. Mas, na briga, estavam o Suede com Dog man star, o Pulp com His’ n hers, o Ride, com Carnival of light. Isso tudo saiu em 1994. Ano por sinal, durante o qual o Elastica, grande sensação do rock britânico em 1995, já estava em estúdio gravando o álbum de estreia.

MAS AFINAL, EXISTIA ROCK ALTERNATIVO NESSA ÉPOCA? Sim, e muito. O termo podia ser usado para definir bandas que estavam até mesmo em grandes gravadoras, como Sonic Youth, Dinosaur Jr, Weezer (estreados naquele ano com o “blue album”), Posies e Teenage Fanclub (este, lançado na Inglaterra pela Creation e nos EUA pela DGC, selinho indie da grandalhona Geffen Records). No Brasil, valia para bandas como Pin-Ups, Second Come, Gangrena Gasosa, Pelv’s e Killing Chainsaw, ou até para O Rappa, banda de reggae rueiro que lançara seu primeiro álbum pela Warner, com péssima distribuição. Não valia nem um pouco para a fase “pesada” dos Titãs, já que os próprios, mesmo gravando versos como “não sei qual é o problema/qual é o problema, seu bosta?” faziam questão de lembrar que “a gente não é alternativo, a gente trabalha para a Warner”.

Valia igualmente para o Pavement, que em 1994 lançava o segundo disco, Crooked rain, crooked rain, para o Sugar, banda nova de Bob Mould (Hüsker Dü), para o Guided By Voices, para PJ Harvey, e para novos nomes do folk-rock como Grant Lee Buffalo e Uncle Tupelo (que daria origem ao Wilco naquele mesmo ano). Valia também para uma onda de indie rock lo-fi que se iniciava e que inspirou muitas bandas no Brasil: Sebadoh, Tall Dwarfs, Liz Phair (discos como Exile in guyville e Whip-smart fizeram cabeças). Aliás valia até para Beck, estourado em 1994 com o disco Mellow gold, mas que alternava álbuns independentes em meio a discos pela Geffen.

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No nosso podcast, os primeiros anos do Soft Cell

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No nosso podcast, os primeiros anos do Soft Cell

O Soft Cell tá vindo aí pela primeira vez. A dupla de Marc Almond e Dave Ball se apresenta no Brasil em maio, e vai trazer – claro – seu principal hit, Tainted love. Uma música que marcou os anos 1980 e vem marcando todas as décadas desde então, e que deu ao Soft Cell um conceito todo próprio – mesmo não sendo (você deve saber) uma canção autoral. Era um dos destaques de seu álbum de estreia, Non stop erotic cabaret (1981), um dos grandes discos da história do synth pop.

No nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, voltamos lá no comecinho do Soft Cell, mostramos a relação da dupla com uma das cidades mais fervilhantes da Inglaterra (Leeds) e damos uma olhada no que é que está impresso no DNA musical dos dois – uma receita que une David Bowie, T Rex, filmes de terror, Kenneth Anger, sadomasoquismo e vários outros elementos.

Século 21 no podcast: Red Cell e Noporn.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch. Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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Relembrando: Mick Ronson, “Play don’t worry”

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Guitarrista de David Bowie na fase Spiders From Mars, Mick Ronson foi uma promessa injustamente não cumprida como artista solo. Inicialmente teve cobertura da Mainman (mesma empresa que cuidava de Bowie nessa fase), contrato com a RCA, interesse da mesma imprensa que cobria o dia a dia dos popstars do glam rock, certa migração de fãs do cantor de Starman.

Até porque Ronson estreou com treze shows no Reino Unido em março de 1974, quando Bowie estava fora dos palcos. E o guitarrista volta e meia era chamado de “substituto” de seu patrão. Ironicamente o próprio Bowie ficaria com ciúmes de sua “cria”, começando a armar sua volta aos palcos a partir daí. Esbarraria no fato de que a turnê solo do guitarrista havia comido uma boa parte da grana que seria investida em sua própria carreira, mas isso é outra história.

No começo, Ronson era um músico desprotegido a ponto de, mesmo sendo mais velho que Bowie e sua mulher Angie, ser cuidado pelo casal como se fosse um irmão mais novo. Com Bowie, chamou a atenção das plateias e foi um quase parceiro. Merecia ter ganhado crédito de co-autor em faixas de discos como The man who sold the world, de 1970, cuja gravação havia sido marcada pelo desapego do maior interessado, que era o próprio Bowie. Como compensação, fica o fato de que é impossível lembrar de músicas como Life on Mars? e Starman sem lembrar das guitarras de Ronson.

Surgiu a chance de tornar-se artista solo, quando Bowie havia resolvido ficar longe dos palcos. O repertório da estreia de Ronson, Slaughter on 10h avenue (1974), unia as duas faces do músico, um cara que tocava guitarra como se o instrumento viesse do espaço sideral, e também regia orquestras, além de tocar piano.

Era o disco da hard roqueira Only after dark, do blues glam I’m the one (de Annette Peacock, musicista pioneira dos sons eletrônicos que também gravava pela RCA naquele período). E da grandiloquência da faixa título (uma canção dos anos 1930 revisitada), do romantismo de Love me tender (aquela mesma, imortalizada por Elvis Presley). Mick, por sua vez, era o guitarrista experiente que tinha talento dramático a ponto de fazer um anúncio-curta metragem para divulgar Slaughter – a foto da capa, que trazia o guitarrista chorando, era um trecho do tal filme.

Muita coisa contribuiria para afastar a Mainman de Ronson e entre elas, estava o fato da relação entre Bowie e o empresário Tony Defries estar saindo do controle e ter chegado a um ponto bem complicado em 1974.Por acaso, foi em janeiro de 1975 que saiu Play don’t worry, o segundo disco do guitarrista.

Era mais um disco realizado sob as barbas de Pin-ups, disco de covers de Bowie (1973). O primeiro de Ronson havia sido gravado com a mesma banda do cantor na época, assim que o serviço no disco do patrão terminara. Já em Play, Mick reaproveitava uma backing track realizada para Pin ups, e nunca lançada: a da versão de White light/white heat, do Velvet Underground, mais viva e pesada que a original, e uma das melhores faixas do disco de um compositor e guitarrista que, ao se tornar um intérprete e fazedor de covers, quase sempre acertava.

Play don’t worry tinha a mesma aparência ora melancólica, ora feliz do disco anterior. Era o disco da balada glam Angel nº9, releitura do grupo country-rock Pure Prairie League (de cuja gravação original Mick havia participado fazendo arranjos), e do agito de Girl can’t help it, clássico do repertório de Little Richard, relido em clima protopunk. Outro rock countryficado do Pure Prairie League, Woman, encerrava o álbum. Por outro lado, Empty bed, versão de Io me ne andrei, do pop-roqueiro italiano Claudio Baglioni, era um baladão romântico, pronto para entrar em trilha de novela no Brasil (infelizmente não entrou).

Ronson aparecia como autor apenas em duas faixas, talvez escolhidas a dedo para mostrar que nem tudo ali eram flores. Play don’t worry, feita ao lado do amigo produtor e compositor Bob Sargeant, falava sobre os altos e baixos da vida, e era a provável admissão de que a vida de potencial rockstar havia trazido mais problemas do que soluções. Hazy days, faixa-solo, trazia aquelas discussões sobre a obsolescência programada do pop, típicas da própria música de Bowie (“o que você vai fazer agora, quando você achar que estou no passado?”, diz a letra).

Parecia recado para alguém. Talvez para o próprio Ronson, que não se sentia nem um pouco confortável ou feliz como artista solo. “Sabia que as pessoas perceberiam meu desconforto na plateia e eu não queria isso”, chegou a afirmar o músico, que também considerava a vida de popstar solo algo parecido como ter dúvidas e ter que responder suas próprias dúvidas, sem contar com a parceria de ninguém.

Mick respondeu suas próprias dúvidas quando resolveu, ainda com Play don’t worry em curso, juntar-se ao Mott The Hoople, banda do amigo Ian Hunter. O Mott estava com os dias contados e restou a Mick voltar à vida de músico contratado. Gravou com muita gente, mas ficou conhecido pelas colaborações com Ian, com quem chegou a gravar um disco em dupla – Yui orta, de 1990. Infelizmente tornou-se menos reconhecido do que deveria, e a decepção com as expectativas do pop tornou-se um vazio nunca devidamente preenchido.

Mick morreu em 29 de abril de 1993, já resgatado para as novas gerações. Pouco antes, havia produzido Your arsenal, de Morrissey, e tinha se juntado a David Bowie, a Ian Hunter e aos remanescentes do Queen no concerto de tributo a Freddie Mercury. A notícia de sua partida ressoa até hoje como os últimos ruídos de guitarra de Play don’t worry, a canção. São sons que desaparecem aos poucos, como numa transmissão de TV cheia de interferências que vai sumindo. Nossa sorte é que o recado estava dado: “Não pense muito neles/comece a sonhar novamente com o amanhã”.

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Os discos do poeta John Sinclair

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Os discos do poeta John Sinclair

O nome de John Sinclair, morto nesta terça (2) aos 82 anos. não é tão estranho assim para o fã de rock clássico. Afinal, ele foi empresário do MC5 na época do disco Kick out the jams (1969), foi homenageado por John Lennon numa música justamente chamada John Sinclair (de 1972) e até mesmo aquele discurso que o ativista Abbie Hoffman tentou fazer durante o show do Who no Festival de Woodstock (1969) aconteceria para conscientizar as pessoas em relação à situação de John. Que estava encarcerado por tráfico após vender maconha a um policial disfarçado.

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John havia sido condenado a dez anos de prisão, uma arbitrariedade. Mas foi solto em 1971 quatro deias depois de Lennon organizar um comício por sua liberdade, ao lado de Bob Seger, Stevie Wonder, Bobby Seale (do Partido dos Panteras Negras) e outros. Assim que saiu da prisão, Sinclair mergulhou de cabeça no ativismo pró-maconha e na produção de livros e escritos de poesia. Só que como seu estilo de texto tem tudo a ver com a cadência do jazz, pela maneira como é escrito e declamado, normal que ele não tenha ficado restrito aos livros, jornais e revistas. Tanto que dos anos 1990 para cá, ele vinha acumulando uma discografia bem grande.

Em 1994, por exemplo, saiu Full moon night, primeiro disco no qual Sinclair aparecia acompanhado pela agremiação variável de músicos que ganhou o nome de The Blues Scholars. O disco trazia textos como Homage to John Coltrane, Spiritual e Like Sonny, e saiu direto em CD por um selo chamado Total Energy, responsável por lançamentos retrospectivos de pré-punk – álbuns escarafunchando os baús de grupos como The Deviants, The New Race e o próprio MC5 saíram por esta etiqueta. Em 1996 saiu Full circle, mais um CD de Sinclair e sua banda, com participação de ninguém menos que o ex-MC5 Wayke Kramer, morto recentemente.

Um outro álbum bastante significativo de Sinclair saiu em 2008, com o nome de sua banda modificado para His Motor City Blues Scholars. É o ao vivo Detroit life, trazendo 15 faixas entre o jazz e o blues, com John declamando (às vezes bem alto, com voz gutural) textos de inspiração beat como The screamers, April in Paris, Let’s call this e Walking on a tightrope. As músicas são grandes, e boa parte dos números é quase instrumental, cabendo intervenções de John lá pelos dois minutos de faixa, em alguns casos.

A discografia de Sinclair inclui também vários discos apenas com seu nome (o mais recente é Beatnik youth, de 2017) além de álbuns impressionante feitos com a banda de jazz experimental e ruidoso Hollow Bones – como Honoring the local gods, de 2011. Já o percussivo PeyoteMind, de 2002, foi gravado ao lado da banda de psicojazzfolk Monster Island, e traz recordações de uma viagem feita em 1963 sob o efeito do psicoativo peiote.

Esse material vem encontrando relativamente poucos ouvintes nas plataformas – no Spotify, John tem apenas 207 (207!) ouvintes mensais. Não são discos muito divulgados –  enfim, poesia e jazz não formam exatamente uma combinação de sucesso. E saíram por selos independentes de alcance restrito. Mas boa parte do que Sinclair gravou está lá, e está ao alcance de futuros fãs – mesmo com a barreira da língua, tem a declamação de John e a maneira como ele faz tudo parecer uma espécie de jazz maldito e tribal. Além do seu ativismo anti-capitalismo, pró-maconha e pró-liberdade de expressão, perceptível em vários versos.

E só pra complementar, um material multimídia recente e importantíssimo saiu justamente da última aparição ao vivo de Sinclair. Em Paris, no dia 16 de fevereiro, ele leu o longo poema 21 days in jail, gravado por uma pessoa da plateia. A letra já havia sido musicada e gravada por ele com os Blues Scholars, mas aqui aparece sendo lida pelo autor.

Foto: Wikipedia.

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