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Crítica

Ouvimos: Gwen Stefani, “Bouquet”

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Ouvimos: Gwen Stefani, “Bouquet”
  • Bouquet é o quinto disco de Gwen Stefani, ex-vocalista da banda de ska e música pop No Doubt (lembra-se de Don’t speak?). Ela chegou a afirmar que o disco marcaria sua volta às raízes reggae e ska – não foi o que aconteceu, já que o novo álbum tem até produção de um sujeito tarimbadíssimo no country, Scott Hendricks.
  • Mesmo com a cara country do disco, Gwen vê Bouquet como um disco de yacht rock, influenciado pelos sucessos do rádio pop dos anos 1970. Ela contou em entrevistas que o álbum inspirou-se em “todas as coisas que eu ouvia na van a caminho da igreja” quando criança, e que ele tem um “motivo floral”, já que há referências a flores por todos os lados. Por acaso, ela está recentemente divulgando um app religioso (e não custa lembrar que seu disco anterior era um álbum de Natal).

Com a felicidade não se discute. Certo? Bom, nem tanto, porque é naqueles momentos em que a gente se alegra e fica bobo que, muitas vezes, tudo se perde. No caso de Bouquet, disco novo de Gwen Stefani, a felicidade levou muita coisa embora.

Gwen, depois de um divórcio tumultuado (ela ficou casada por mais de uma década com Gavin Rossdale, cantor do Bush), encontrou o cantor de country Blake Shelton, com quem dividia a bancada do The Voice, e começou um relacionamento com ele – que evoluiu para um casamento e para uma temporada passada no rancho dele durante a pandemia. Com a vida pessoal plena, Gwen decidiu aderir ao country e a letras sobre o dia a dia feliz de casada em Bouquet. A faixa-título, um baladão country, tem versos como “I drive you crazy/you drive the truck” (nem vou traduzir porque o jogo de palavras com “drive” até que é bacana) e “eu até tenho seu sobrenome”.

Se alguém esperava que Gwen, cuja discografia tem discos solo bem legais, voltasse fazendo a dance music bacana de seu primeiro álbum (Love. Angel. Music. Baby., de 2004), ou um som mais próximo do ska-reggae-pop do No Doubt… bom, é pra dar com a cara na porta. Mas assusta bastante que o disco novo dela prime até mais pelo conservadorismo do que tão somente pelo romantismo em todos os aspectos: letras, composições, arranjos, produção.

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Não é tudo ruim em Bouquet. Vale dizer que Somebody else, a primeira faixa, engana: é um rock com cara new wave, bem formulaico, cuja letra parece dizer umas verdades a Rossdale, já que trata de empoderamento após o fim de um relacionamento tóxico (sente os versos: “você é o problema de outra pessoa/eu não sabia que algo tão falso/poderia realmente fazer doer tanto”, “cada dia com você foi o fundo do poço”). E também Purple irises, um country-rock com guitarra lembrando The Police na abertura, participação de Blake nos vocais, e versos como “não é 1999, mas esse rosto ainda é meu”. Ou Marigolds, soft rock com alma pós-punk, ainda que bem discreta.

Basicamente o novo da Gwen é um disco que vende um sonho de enamoramento romântico e de felicidade que só aparece quando alguém especial aparece – o anti-Brat, vá lá. Empty box é uma mistura de romantismo com louvor (“nossa oração termina em abril/eu fui à igreja, mas você foi o primeiro/a me mostrar o que significa ser fiel”), Pretty é uma balada de empoderamento “romântico” bem duvidosa (“não me sentia bonita até que você apareceu”). Nem dá para dizer que é mais do mesmo, porque dava para esperar bem mais de Gwen levando em conta seu passado.

Nota: 5
Gravadora: Interscope.

Crítica

Ouvimos: Scaler – “Endlessly”

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O Scaler mistura drum’n bass, trip hop e rock em Endlessly: som tenso e fragmentado, mais sensação de perigo que caos, entre post-rock e gótico eletrônico.

RESENHA: O Scaler mistura drum’n bass, trip hop e rock em Endlessly: som tenso e fragmentado, mais sensação de perigo que caos, entre post-rock e gótico eletrônico.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Black Acre
Lançamento: 26 de setembro de 2025

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O Scaler vem de Bristol, na Inglaterra – e dá uns passos além dos populares nomes eletrônicos e experimentais da cidade, como Massive Attack e Tricky. Endlessly, disco novo do grupo, soa mais como se eles fizessem parte da turma do Mandy, Indiana, cujo novo disco URGH foi comentado aqui neste site. Não basta fazer música, é preciso quebrá-la em micropedaços e colar tudo de novo. Aqui, eles fazem isso com o drum’n bass, o trip hop e até o stoner rock (em Salvation, um curioso stoner-rap-trap que desrobotiza totalmente o som do grupo e faz dele um Sleep robótico e viajante).

Endlessly mexe mais com a sensação de perigo do que com o caos verdadeiro, deixando o Scaler às vezes mais próximo do post-rock, pela maneira como insere ruídos e rangidos nas músicas – rola em Quiet when it opens e na onda desértica de Evolve, que parece uma mescla de Nine Inch Nails e (pode levar fé) Enigma. Cold storage, com seus vários segmentos, lembra um Kraftwerk sobrenatural e tenso, embarcando no clima frenético de Sinking in, que parece mostrar musicalmente a rapidez tóxica da vida urbana.

Existe algo até de metal gótico em algumas faixas de Endlessly, principalmente nos vocas de Salt (com participação de Akiko Haruna) e Mirage (com Art School Girlfriend, e uma onda sonora que faz lembrar Depeche Mode e Nine Inch Nails). Uma aclimatação roqueira chega perto de faixas como Broken entry e Ravine, duas músicas eletrônicas, tensas, sombrias e agênero – esta última abre com ligeiros afrobeats misturados e se transforma numa espécie de dub gótico e funéreo. Mesmo quando começa a parecer meio irregular, Endlessly dá um jeito de surpreender.

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Crítica

Ouvimos: Edu Aguiar, Alcides Sodré (Projeto 2) – “Todas as esquinas do mundo”

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Projeto 2, de Edu Aguiar e Alcides Sodré, estreia com Todas as esquinas do mundo: MPB setentista à la Clube da Esquina, vocais tramados, arranjos acústicos e muitas participações.

RESENHA: Projeto 2, de Edu Aguiar e Alcides Sodré, estreia com Todas as esquinas do mundo: MPB setentista à la Clube da Esquina, vocais tramados, arranjos acústicos e muitas participações.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Perro Andaluz
Lançamento: 25 de novembro de 2025

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O Projeto 2 é um trabalho coletivo, feito pelo compositor, violonista, cantor e produtor Edu Aguiar, ao lado do cantor Alcides Sodré, com participação do violonista Marcílio Figueiró e do percussionista Mingo Araújo. Além de cerca de trinta outras participações, entre letristas, instrumentistas e cantores, nas faixas de Todas as esquinas do mundo. O álbum é a estreia do Projeto, que parte de um lugar bem claro: a canção brasileira dos anos 1970, principalmente o entorno do Clube da Esquina (daí a referência no título). O resultado é de roda registrada em estúdio, de disco que prefere desenho vocal a potência, com faixas que correm como rios – como nos próprios álbuns dos criadores do clube.

  • Ouvimos: Flau Flau – Íntimo oriental

A faixa-título já abre com vocais bem tramados, em torno da melodia – uma valsa acústica e folk que poderia ter saído em 1979, virada de chave para a música brasileira jovem. Sol poesia luar, com letra do “clubista” Murilo Antunes (o cara que fez Nascente com Flavio Venturini, entre outras) traz um pop acústico de leve ar beatle, lembrando algo entre a música de Milton Nascimento e o sucesso Penny Lane, de John Lennon e Paul McCartney. Fica perto de mim mergulha no romantismo com cello e clima de seresta solar. Desta vez muda o rumo com um samba de vibração urbana que lembra a sonoridade ligada a Luiz Melodia, no som e na maneira de cantar – na verdade, chega a lembrar sons que poderiam ter influenciado a música de Melodia.

Acalanto é um ponto alto: começa percussiva, vira voz e violão, passa por bossa e ciranda e termina com sotaque nordestino, quase cantiga tradicional. Já Invenção do desejo, parceria de Edu e Geraldo Azevedo, puxa para uma MPB alguma coisa mais pop, com groove lembrando Trilhos urbanos, de Caetano Veloso, e guitarra na escola de Toninho Horta. Em contraste, Passa é mínima e sussurrada, e A dona da casa retoma o clima contemplativo mineiro, chegando a lembrar as incursões solo de compositores e músicos da região, como Frederyko e Tavinho Moura.

Dia não cria um ambiente estranho e bonito, com coral fantasmagórico e letra de memória e ruas fechadas, soando como um tema feito para uma casa enorme em que todos os moradores já morreram, ou partiram para seus projetos pessoais. Claro que é você é delicada, com herança musical tanto da MPB mineira quanto do samba, e vocais de Ná Ozzetti. E Paz e sossego, dedicada a Gilberto Gil, chega com percussões, entre o tom afro e a toada, acrescentando citações de nomes da música brasileira como em Paratodos, de Chico Buarque. Do começo ao fim, o Projeto 2 faz uma música brasileira eterna e clássica, mas com mistura própria de referências.

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Ouvimos: PVA – “No more like this”

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PVA mistura trip hop, pós-punk e ambient em No more like this: beats imprevisíveis, voz falada de Ella, letras queer: corpo, transição, desejo.

RESENHA: PVA mistura trip hop, pós-punk e ambient em No more like this: beats imprevisíveis, voz falada de Ella, letras queer: corpo, transição, desejo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: It’s All For Fun
Lançamento: 26 de janeiro de 2026

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O PVA vem do Sul de Londres é definido como “enigmático” por eles próprios em seu Bandcamp. De fato, não apenas a fusão de beats de Ella Harris, Josh Baxter e Louis Satchell é bastante imprevisível, como também há muito mistério no clima sexy dos vocais de Ella e das letras do grupo. A própria capa de No more like this, seu novo álbum, exibe um chamado à fisicalidade – pode ser uma referência tanto ao clima envolvente do som do PVA quanto a período de isolamento que o mundo viveu há seis anos.

  • Ouvimos: Sex Mex – Down in the dump trucks (EP) / Don’t mess with Sex Mex (EP)

O “não haverá mais nada assim” do PVA, por sua vez, aponta tanto para o experimentalismo quanto para um universo queer e sexualizado, marcado pela voz falada de Ella e pela vibe ambient de faixas como Rain e Enough. O som de No more like this vai chegando perto de uma noção bem particular de trip hop em faixas como Mate, Boyface e Anger song , embarca num beat mais raivoso em Send, e une vapores e rangidos em faixas como Peel e a longa Okay, de sete minutos.

Nomes como Portishead e Laurie Anderson são evocados em boa parte do disco, mas fãs de krautrock e pós-punk vão também ficar bastante felizes com No more like this. Já as letras usam afirmação pessoal e corporal como uma expressão que vai bem além da música. Em Mate, Ella prega: “eu quero cantar / você tem minha língua / na palma da mão”. Boyface fala sobre transição de gênero, amor e sexo queer, narrando cenas (“encontre o meio, toque a borda / corpo desprovido, eu acaricio / eu me importo”). A raiva de Anger song é dirigida a um amor problemático, narrado com frases curtas.

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