Crítica
Ouvimos: Ladytron – “Paradises”

RESENHA: Do cais de Liverpool ao electroclash, o Ladytron mistura hedonismo e reflexão em Paradises, disco longo, hipnótico e fiel à sua identidade.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Nettwerk Music Group
Lançamento: 20 de março de 2026
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Com uma vida que gira em torno do cais do porto, Liverpool é um dos lugares mais “e aí, cara, qual é a parada?” da Inglaterra. Se Londres era o ponto cool da Inglaterra, era nas cidades próximas do Rio Mersey que as coisas aconteciam, que problemas eram resolvidos na base da prática e que tudo era guiado pelo interesse em saber que oportunidades e aventuras haviam lá do outro lado do rio. O próprio documentário Paul McCartney: Homem em fuga (já viu?) fala disso.
E por acaso, foi de lá que veio o Ladytron, uma das maiores forças recentes da música eletrônica, e uma banda interessadíssima na cena de dance music não apenas como “música para dançar”, mas como afirmação pessoal. Quem leu a entrevista que o grupo deu recentemente ao periódico britânico The Guardian pegou um pouco dessa história: a cena electroclash – um combinado de estilos que gira em torno da união de dance music, new wave e punk – se desenvolveu não apenas com o surgimento de nomes como Miss Kittin e Peaches, mas com a descoberta, por parte do Ladytron, de que havia todo um cenário dançante, “hedonista, extravagante e não-binário” (nas palavras da cantora e musicista Mira Aroyo, fundadora do grupo) lá em Nova York, bem distante da terra natal da banda.
Foi desse misto de consciência, descoberta e diversão que surgiu o primeiro single de Daniel Hunt, Helen Marnie, Mira Aroyo e o ex-integrante Reuben Wu: o extremamente dançante Seventeen, que ao mesmo tempo falava sobre etarismo e abuso no mundo da música e da cultura. O Ladytron passou por fases mais explosivas e mais melancólicas ao longo dos anos, e hoje unem os diferentes lados em seu oitavo álbum, Paradises. Um disco cuja elaboração rendeu várias etapas e passou por vários lugares, de Liverpool a São Paulo – Hunt hoje mora em SP e até o clipe de Caught in the blink of an eye foi gravado na metrópole.
- Ouvimos: Say She She – Cut & rewind
Em tempo de álbuns curtos e concisos, o Ladytron volta falando sua própria linguagem. Paradises tem 16 faixas, 70 minutos de duração, e poderia até ter sido lançado em 1999, ano em que a banda começou. Não passaria despercebido e indicaria a chegada de um som dançante e distante, com vocais mágicos e clima psicodélico, meditativo. Uma vibe em que a repetição de trechos, de riffs e de climas é essencial para a fruição do som, em faixas venturosas como I believe in you, a kraftwerkiana In blood, a crescente I see red e o eletrorock Secret dreams of thieves. Ou o som retrô e quase psicodélico de Metaphysica.
Essa onda passa também pela sonhadora Sing – uma música cheia de “la la las”, em que a letra parece trazer lembranças da noite em que o Ladytron descobriu outras realidades em Nova York: “as noites eram longas / se transformaram em dias / um teste sem fim / um estado sem esperança (…) / cante, querida, cante / tudo está feito / deixe as fronteiras desaparecerem / eu sei, eu sei, você ficará bem”.
Passa também por outras músicas que apontam para a mudança sem margem de dúvidas, para a partida sem volta, como a mágica Free, free e o redemoinho de possibilidades de For a life in London, que lembra um Pet Shop Boys menos exuberante e mais chegado ao krautpop. Ou Ordinary love, uma viagem musical alegre e sofisticada em que, apesar de tudo, o futuro parece cantar com felicidade. E essa escolha pela felicidade apesar de tudo é a cara do Ladytron.
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Crítica
Ouvimos: Just Penelope – “Great lake” (EP)

RESENHA: No EP Great lake, o Just Penelope mistura emo, shoegaze, dream pop e pós-punk com mudanças bruscas entre silêncio, melodia e distorção, numa versão própria da fórmula loud-quiet-loud.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Angel Tapes / Fire Talk
Lançamento: 18 de setembro de 2026
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Na onda atual de artistas dedicados ao shoegaze, tem muita gente que vem se destacando por tentar colocar climas diferentes no estilo. Vindo de Blooomington, Indiana, o Just Penelope faz parte daquela mesma confluência entre emo e shoegaze que vem gerando filhotes até no Brasil, e acrescenta algo próximo de um loud-quiet-loud (a fórmula dos Pixies, copiada pelo Nirvana) que deixa as quatro musicas do EP Great lake bem mais misteriosas.
De modo geral, é como se Ella Curiel (guitarra e voz), Ethan Cantrell (percussão, sintetizador e voz), Theo Erz (guitarra) e Drew Goforth (baixo) não se contentassem com as guitarras emparedadas, e tentassem fotografar musicalmente as sessões para acrescentar efeitos. Sister, na abertura, ganha um segundo de silêncio após o loud e antes da volta do quiet. Copenhagen ganha uma onda quase pop, por causa das linhas vocais doces de Ella, até que a guitarra vem como um motor, enchendo tudo de barulho, peso e beleza.
Great lake abre com um dedilhado bonito e circular, e põe o baixo distorcido quase como um segundo vocal, lado a lado com Ella. É algo quase pós-punk, ganhando distorções e mais peso, além de climas psicodélicos graças às guitarras. After, no final, tem um som mais próximo do emo, mas sem deixar denominações como “shoegaze” e “dream pop” de lado – e vai ganhando distorções e ambiência aos poucos.
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Crítica
Ouvimos: PERNAF – “Casa” (EP)

RESENHA: Projeto solo de Gabriel Perninha, baterista do The Baggios, PERNAF usa cômodos e objetos domésticos como percussão em Casa, EP que cruza eletrônica, jazz, música afro e experimental.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 3 de setembro de 2026
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Dizem por aí que todo baterista um dia foi uma criança batucando nas panelas da mãe, ou que usava as agulhas de tricô da avó como baquetas. PERNAF, o projeto solo de Gabriel Perninha – baterista da banda sergipana The Baggios – volta a essa época. No EP Casa, Gabriel toca bateria e faz uso também de vários objetos de sua (adivinha só) casa como percussão.
No EP, Gabriel assume que bateristas são também compositores e arranjadores, mesmo quando cuidam das batidas das canções. Ele produziu o disco, e deixou todos os outros instrumentos nas mãos de amigos, com quem dividiu as composições: André Lima (trompete e flugelhorn), João Mario (das bandas Renegades Of Punk e Cidade Dormitório, tocou baixo, guitarra e synth) e Rafael Ramos (também do The Baggios, tocou teclados).
Usando os cômodos de sua casa como estúdios, Gabriel faz de Nascimento uma música sombria, eletrônica e meio jazzy – mas com toques de Brian Eno. Cozinha usa objetos da cozinha, além da própria ambiência cheia de eco do local, embicando num rimo afro que vai aumentando. Passagem tem até algo que lembra Kraftwerk e Boards Of Canada, mas os sopros tocados por André Lima fazem a faixa ganhar um ar meio Tijuana Brass.
Chegada, no final, tem beat quase matemático e lembranças tanto da era Sonho 70, de Egberto Gismonti (1970), quanto do álbum do mesmo ano da Orquestra Briamonte – e das faixas do EP, é a que mais se parece com um tema de série ou de novela antiga.
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Crítica
Ouvimos: Swami John Reis – “Navajo white”

RESENHA: Em Navajo white, Swami John Reis mistura garage punk, pós-punk, folk e rock dos anos 1960 em músicas sobre dúvidas, recomeços e as marcas que a vida deixa pelo caminho.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Swami Records
Lançamento: 21 de agosto de 2026
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Figura de proa do rock caiforniano, John Reis (ou Swami John Reis, codinome de suas aventuras solo) defende o punk de sua cidade, San Diego, desde 1990. Naquele ano, fundou as bandas Rocket From The Crypt e Drive Like Jehu – a primeira voltada para o punk garageiro (dir-se-ia pré-punk caso fosse uma banda de 1973), a segunda para o pós-hardcore. De lá para cá, John se envolveu em uma série de projetos e montou uma gravadora, a Swami Records, para essencialmente documentar material de artistas de sua região.
É por lá que sai seu novo álbum, Navajo white – um disco de garage punk nervoso e sentimental, cheio de dúvidas, questões e renascimentos. A começar pelo título, que faz referência a uma tinta de coloração bege, usada para pintar interiores, e que geralmente apaga manchas feitas nas paredes feitas pelos antigos moradores. Por acaso, Reis não ficou só tocando rock esse tempo todo: durante boa parte da adolescência e da vida adulta, ele pagou os boletos como pintor de paredes.
As manchas reais cobertas pela tal tinta navajo white acabaram inspirando a criação de um disco que fala sobre as manchas existenciais da vida, e sobre o que fazer com elas. Esse assunto domina Navajo white, aberto pelo punk ríspido e melódico de It’s not fair, pela união pós-punk + 60’s de On our way, e pelo hino pós-punk de Future moods (cuja melodia traz algo entre Joy Division, Smiths e Echo and The Bunnymen). Já From here on out é uma balada que tem clima quase folk, mas é surgida das entranhas do punk – e ainda tem certa pegada hispânica.
Como vocalista, John Reis soa como a mistura exata de Joey Ramone, Dee Dee Ramone e Lemmy Kilmister. Mas com uma elegância rocker bem mais próxima do primeiro, e uma certa alma rock hero, que na segunda metade de Navajo white surge bem forte, em Directions e no punk com alma folk It’s all for sale, além do quase britpop Lies don’t lie. No final, You made it gross vem novamente dando contornos punk ao rock dos anos 1960 – um música linda, misteriosa e meio gótica.
Dedicado por Swami aos pintores de parede de todo o mundo, Navajo white não acaba quando termina: antes do disco sair, ele lançou o single duplo Don’t believe in yourself, com a sarcástica Even the lobsters can sing e Bad lighting, música em clima quase punk-metálico, tanto nas batidas quanto nas palhetadas.
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