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Ouvimos: Say She She – “Cut & rewind”

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Trio Say She She mistura soul, disco e pós-punk em Cut & rewind: som dançante, moderno e político, menos retrô e mais "discodélico".

RESENHA: Trio vocal Say She She mistura soul, disco e pós-punk em Cut & rewind: som dançante, moderno e político, menos retrô e mais “discodélico”.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Drink Sum WTR
Lançamento: 3 de outubro de 2025

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O Say She She vem do Brooklyn, em Nova York, é formado por três cantoras de formação clássica (Piya Malik, Sabrina Cunningham e Nya Brown) e é costumeiramente descrito como um grupo vocal de soul + funk, só que com um coeficiente de maldade sonora a mais. Essa maldade sonora indica que, no terceiro disco, Cut & rewind, o som delas vem bem menos retrô. Ou vem retrô de outro jeito, mais próximo de um encontro entre pós-punk, disco, new wave e uma coisa que já andaram definido como “discodélico”, dançante, mas prestes a alçar voo.

Essa onda já toma conta do disco desde o comecinho. A faixa-título, que abre o álbum, tem teclados que lembram o Japan, cadência fazendo lembrar Talking Heads, baixo que parece sampleado de Get down, make love, hit do Queen, e vocais operísticos – além de um clima entre o pós-punk e o soft rock. Under the sun é soul luminoso com bateria abafada, vibe de Motown e ambiência derretida, quase palpável.

  • Ouvimos: Stealing Sheep – GLO (Girl Life Online)

Faixas como Possibilities deixam entrever algo da visão art pop que David Bowie tinha de estilos como soul e disco, enquanto Take it all ataca na união de disco e afrobeat formal. A “discodelia” do álbum, por sua vez, fica cada vez mais forte em faixas como Chapters of love, ou na onda kraut disco de Shop boy, funk com vocais robóticos e teclados esparsos. E também no final, com a quebração rítmica e robótica de Make it known – canção que chega a soar meio sombria, até que o refrão explode.

Disco life responde pelo lado mais abertamente retrô de Cut & rewind: poderia até ser uma composição do Mister Sam ou do Carlos Imperial, com aquele mesmo clima cafajeste do encontro entre boogie e disco (ou da aurora da ítalo-disco). A letra fala do passado com um olhar de admiração: o verso “nunca tive uma vida disco”, repetido várias vezes, é a boa e velha “saudades do que não vivi”. Mas também soa como lembrança do próprio caráter comunitário da disco music, quando a pista de dança realmente parecia um momento de elevação espiritual – ainda que fosse ilusão passageira.

Não por acaso, Cut & rewind é também uma lembrança forte do caráter demolidor da disco – estilo musical que fazia a alegria de várias comunidades oprimidas ao redor do mundo (negros, latinos, mulheres, gays). A sacudida She who dares é um hino feminista. Under the sun fala sobre poderosos opressores. O gélido tema disco Bandit é dedo na cara: “Diga o que você quer dizer / tente me derrubar / ninguém vai se importar / quando você não estiver mais por perto” – cada um dos três primeiros versos cantado por uma delas, e o quarto verso explodindo no coral. Mobilização dançante, criativa e moderna.

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Ouvimos: Just Penelope – “Great lake” (EP)

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Resenha: Just Penelope – “Great lake” (EP)

RESENHA: No EP Great lake, o Just Penelope mistura emo, shoegaze, dream pop e pós-punk com mudanças bruscas entre silêncio, melodia e distorção, numa versão própria da fórmula loud-quiet-loud.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Angel Tapes / Fire Talk
Lançamento: 18 de setembro de 2026

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Na onda atual de artistas dedicados ao shoegaze, tem muita gente que vem se destacando por tentar colocar climas diferentes no estilo. Vindo de Blooomington, Indiana, o Just Penelope faz parte daquela mesma confluência entre emo e shoegaze que vem gerando filhotes até no Brasil, e acrescenta algo próximo de um loud-quiet-loud (a fórmula dos Pixies, copiada pelo Nirvana) que deixa as quatro musicas do EP Great lake bem mais misteriosas.

De modo geral, é como se Ella Curiel (guitarra e voz), Ethan Cantrell (percussão, sintetizador e voz), Theo Erz (guitarra) e Drew Goforth (baixo) não se contentassem com as guitarras emparedadas, e tentassem fotografar musicalmente as sessões para acrescentar efeitos. Sister, na abertura, ganha um segundo de silêncio após o loud e antes da volta do quiet. Copenhagen ganha uma onda quase pop, por causa das linhas vocais doces de Ella, até que a guitarra vem como um motor, enchendo tudo de barulho, peso e beleza.

Great lake abre com um dedilhado bonito e circular, e põe o baixo distorcido quase como um segundo vocal, lado a lado com Ella. É algo quase pós-punk, ganhando distorções e mais peso, além de climas psicodélicos graças às guitarras. After, no final, tem um som mais próximo do emo, mas sem deixar denominações como “shoegaze” e “dream pop” de lado – e vai ganhando distorções e ambiência aos poucos.

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Ouvimos: PERNAF – “Casa” (EP)

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Resenha: PERNAF – “Casa” (EP)

RESENHA: Projeto solo de Gabriel Perninha, baterista do The Baggios, PERNAF usa cômodos e objetos domésticos como percussão em Casa, EP que cruza eletrônica, jazz, música afro e experimental.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 3 de setembro de 2026

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Dizem por aí que todo baterista um dia foi uma criança batucando nas panelas da mãe, ou que usava as agulhas de tricô da avó como baquetas. PERNAF, o projeto solo de Gabriel Perninha – baterista da banda sergipana The Baggios – volta a essa época. No EP Casa, Gabriel toca bateria e faz uso também de vários objetos de sua (adivinha só) casa como percussão.

No EP, Gabriel assume que bateristas são também compositores e arranjadores, mesmo quando cuidam das batidas das canções. Ele produziu o disco, e deixou todos os outros instrumentos nas mãos de amigos, com quem dividiu as composições: André Lima (trompete e flugelhorn), João Mario (das bandas Renegades Of Punk e Cidade Dormitório, tocou baixo, guitarra e synth) e Rafael Ramos (também do The Baggios, tocou teclados).

Usando os cômodos de sua casa como estúdios, Gabriel faz de Nascimento uma música sombria, eletrônica e meio jazzy – mas com toques de Brian Eno. Cozinha usa objetos da cozinha, além da própria ambiência cheia de eco do local, embicando num rimo afro que vai aumentando. Passagem tem até algo que lembra Kraftwerk e Boards Of Canada, mas os sopros tocados por André Lima fazem a faixa ganhar um ar meio Tijuana Brass.

Chegada, no final, tem beat quase matemático e lembranças tanto da era Sonho 70, de Egberto Gismonti (1970), quanto do álbum do mesmo ano da Orquestra Briamonte – e das faixas do EP, é a que mais se parece com um tema de série ou de novela antiga.

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Ouvimos: Swami John Reis – “Navajo white”

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Resenha: Swami John Reis – “Navajo white”

RESENHA: Em Navajo white, Swami John Reis mistura garage punk, pós-punk, folk e rock dos anos 1960 em músicas sobre dúvidas, recomeços e as marcas que a vida deixa pelo caminho.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Swami Records
Lançamento: 21 de agosto de 2026

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Figura de proa do rock caiforniano, John Reis (ou Swami John Reis, codinome de suas aventuras solo) defende o punk de sua cidade, San Diego, desde 1990. Naquele ano, fundou as bandas Rocket From The Crypt e Drive Like Jehu – a primeira voltada para o punk garageiro (dir-se-ia pré-punk caso fosse uma banda de 1973), a segunda para o pós-hardcore. De lá para cá, John se envolveu em uma série de projetos e montou uma gravadora, a Swami Records, para essencialmente documentar material de artistas de sua região.

É por lá que sai seu novo álbum, Navajo white – um disco de garage punk nervoso e sentimental, cheio de dúvidas, questões e renascimentos. A começar pelo título, que faz referência a uma tinta de coloração bege, usada para pintar interiores, e que geralmente apaga manchas feitas nas paredes feitas pelos antigos moradores. Por acaso, Reis não ficou só tocando rock esse tempo todo: durante boa parte da adolescência e da vida adulta, ele pagou os boletos como pintor de paredes.

As manchas reais cobertas pela tal tinta navajo white acabaram inspirando a criação de um disco que fala sobre as manchas existenciais da vida, e sobre o que fazer com elas. Esse assunto domina Navajo white, aberto pelo punk ríspido e melódico de It’s not fair, pela união pós-punk + 60’s de On our way, e pelo hino pós-punk de Future moods (cuja melodia traz algo entre Joy Division, Smiths e Echo and The Bunnymen). Já From here on out é uma balada que tem clima quase folk, mas é surgida das entranhas do punk – e ainda tem certa pegada hispânica.

Como vocalista, John Reis soa como a mistura exata de Joey Ramone, Dee Dee Ramone e Lemmy Kilmister. Mas com uma elegância rocker bem mais próxima do primeiro, e uma certa alma rock hero, que na segunda metade de Navajo white surge bem forte, em Directions e no punk com alma folk It’s all for sale, além do quase britpop Lies don’t lie. No final, You made it gross vem novamente dando contornos punk ao rock dos anos 1960 – um música linda, misteriosa e meio gótica.

Dedicado por Swami aos pintores de parede de todo o mundo, Navajo white não acaba quando termina: antes do disco sair, ele lançou o single duplo Don’t believe in yourself, com a sarcástica Even the lobsters can sing e Bad lighting, música em clima quase punk-metálico, tanto nas batidas quanto nas palhetadas.

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